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MANDELA E FIDEL – Atilio Borón

10/12/2013

A morte de Nelson Mandela provocou um mundo de interpretações sobre a sua vida e obra, em que ele é apresentado como um apóstolo do pacifismo e uma espécie de Madre Teresa da África do Sul.

Trata-se de uma imagem essencial e premeditadamente equivocada, deixando de lado de lado a matança de Sharpeville, em 1960, o Congresso Nacional Africano (CNA) e seu líder Mandela, que recorreu à luta armada e à sabotagem de empresas e de projetos de importância econômica, sem atentar contra vidas humanas.

Mandela percorreu diversos países da África, à busca de ajuda econômica e militar para manter esta nova tática de luta. Foi preso em 1962, sendo logo condenado à prisão perpétua, que o manteria isolado numa prisão de segurança máxima, numa cela de 2 por 2 metros, durante 26 anos, com exceção dos últimos, quando, devido a pressões internacionais pela sua libertação, obteve a melhora das condições de sua detenção.

Por conseguinte, Mandela não foi “um adorador da legalidade burguesa”, porém um extraordinário líder político, cujas estratégicas e táticas de luta variavam segundo mudanças de condições sob as quais levava adiante as suas batalhas.

Fala-se que foi o homem que acabou com o odioso “apartheid” sul-africano, o que é mais ou menos a metade da verdade. A outra metade deve ser atribuída a Fidel e à Revolução Cubana que, com sua intervenção na guerra civil de Angola, puseram fim à escalada dos racistas na região, impondo derrota às tropas do Zaire (hoje, República Democrática do Congo), ao exército sul-africano e a dois exércitos mercenários angolanos armados e financiados pelos Estados Unidos, através da CIA. Graças à sua heroica colaboração, em que, uma vez mais, ficou demonstrado o elevado internacionalismo da Revolução Cubana, conseguiu-se a consolidação da independência de Angola e forjar as bases para a posterior emancipação da Namíbia, dando o tiro de misericórdia no “apartheid” sul-africano.

Por isso, informado do resultado da crucial batalha de Cuito Cuanavale, em 23 de março de 1988, Mandela afirmou, por escrito, na prisão, que o desenlace do que se chamou a Stalingrado sul-africana “foi o ponto de inflexão para libertação, do nosso continente e do meu povo, do flagelo do “apartheid””. A derrota dos princípios racistas e dos seus mentores estadunidenses foi um golpe mortal à ocupação sul-africana da Namíbia e precipitou o início das negociações com o CNA, que logo poria fim ao regime racista sul-africano, obra daqueles dois gigantes estadistas e revolucionários.

Anos depois, na Conferência de Solidariedade Cubano-Sul-Africana, em 1995, Mandela acabaria por dizer que “os cubanos vieram à nossa região, como doutores, mestres, soldados e especialistas em agricultura, mas nunca como colonizadores. Compartilharam das mesmas trincheiras na luta contra o colonialismo, o subdesenvolvimento e o “apartheid”… jamais esqueceremos este incomparável exemplo de internacionalismo”. É uma boa lembrança para aqueles que chegaram a falar ontem, e ainda falam hoje, de “invasão” de Cuba em Angola.

Cuba pagou um preço enorme por este grande ato de solidariedade internacional que, como disse Mandela, foi o ponto de inflexão da luta contra o racismo na África. Entre 1975 e 1991, cerca de quatrocentos e cinquenta mil homens e mulheres da Ilha estiveram em Angola, arriscando a própria vida. Mais de 2600 perderam a vida, lutando para derrotar o regime racista de Pretória e seus aliados. A morte deste extraordinário líder, que foi Mandela, é uma excelente ocasião para que se renda homenagem à sua luta e, também, ao heroísmo internacionalista de Fidel e da Revolução Cubana.