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URUGUAI – JOSÉ GERVASIO ARTIGAS (1764-1850)

06/05/2010

Nasceu em 19 de junho de 1764 em Montevidéu. Pertencia a uma família cujas origens se vinculavam aos fundadores da cidade. Quando jovem, trabalhou no campo. Ingressou no regimento de Blandengues de Fronteras, onde se tornou oficial. Participou da Reconquista de Buenos Aires contra as Invasões Inglesas, de 1806 e 1807.

Em 1811, deserta do lado espanhol, quando o novo vice-rei desconhece a junta revolucionária de maio de 1810. O governo revolucionário de Buenos Aires o nomeou Tenente-Coronel. Sua missão era provocar levantes na banda oriental contra os espanhóis; armou uma força militar baseado no grande prestígio que tinha no campo. Encabeçou o Grito de Asencio. Triunfou na batalha de Las Piedras. Participou no Sitio a Montevideo. Teve que lutar contra a oligarquia portenha, as forças espanholas e a invasão portuguesa. Tornou-se o Protector de los Pueblos Libres. Foi derrotado pelos portugueses em Tacuarembó. Foi traído por muitos de seus chefes. Derrotado, finalmente, por um deles em 1920, parte para o seu exílio de 30 anos no Paraguai, onde é recebido pelo Dr. José Gaspar Rodríguez de Francia. Morre em 23 de setembro de 1850.

Síntese de sua atuação:

Em 28 de fevereiro de 1811, inicia-se a revolução na Banda Oriental (o Grito de Asencio). Em 18 de maio, obtém a vitória de “Las Piedras”, o que abre a passagem ao cerco a Montevidéu (ocupado pelos espanhóis). Em julho desse mesmo ano, tropas portuguesas ingressam no território oriental. Buenos Aires abandona Artigas e pactua com o vice-rei Elío. Artigas se transfere ao acampamento de Ayuí, em um processo que é conhecido como o “Exodo Oriental”, onde o povo da planície o segue para proteger-se contra as represálias da Espanha. As relações conflitivas com Buenos Aires, em que predominam tendências centralistas, levam à desobediência de Artigas, que é qualificado como “traidor da pátria” pelo governo portenho. Convoca-se a Assembléia do Ano XIII, onde se estabeleceriam os princípios de governo das províncias de governo do Rio de la Plata. Artigas decide reconhecer a convocatória. Convoca o Congreso de Tres Cruces, em que se origina uma série de instruções para os deputados da Banda Oriental que vão tomar parte da Assembléia do Ano XIII. Os deputados artiguistas são rechaçados, sob pretextos formais. Na realidade, o rechaço se deve ao conteúdo das Instrucciones del Congreso: federalismo, igualitarismo, democracia, independência e unidade. Devia-se evitar que o partido artiguista entrasse em contato com o partido sanmartiniano, ambos opositores à burguesia comercial portenha. Aprofunda-se o conflito com Buenos Aires. Artigas é declarado novamente traidor e o Directorio põe sua cabeça a prêmio.

Sua liderança cresce, obtém o apoio de Misiones, Corrientes, Entre Rios, Santa Fé e Córdoba, além da Banda Oriental, que constituem a Liga de los Pueblos Libres. Artigas é nomeado Protector, desfraldando a luta contra o centralismo e a oligarquia portenha. Desenvolve seu programa revolucionário. É combatido por Buenos Aires e pelo império português, que invade a Banda Oriental, com a participação de representante argentino no Rio de Janeiro visando derrotar Artigas.

San Martí enviou correspondência a Artigas buscando unir sua luta contra o império espanhol, porém as cartas foram interceptadas e nunca chegaram às mãos do líder oriental. Dois lugar-tenentes de Artigas, Estanislau López e Francisco Ramírez, triunfam contra as forças diretoriais (tropas portenhas) na Batalla de Cepeda. Enquanto isso, Artigas cai derrotado frente aos portugueses em Tacuarembó. À sua derrota, segue a traição de seus principais chefes. López e Ramirez assinam um tratado com Buenos Aires às suas costas. Após numerosos enfrentamentos, Artigas é derrotado por Ramírez em Rincón de Abalos, em 24 de julho de 1820. Exila-se no Paraguai.

Síntese de seu pensamento:

Seu pensamento se viu expressado, principalmente no Reglamento de Tierras e nas Instrucciones a los Deputados de la Banda Oriental. Sua doutrina pode ser resumida em :

1-A confederação e a unidade americana.

2-A soberania popular.

3-Igualdade para os índios.

4-A divisão justa de terras.

5-A independência de toda opressão estrangeira.

6-A proteção das artes e indústrias nacionais frente aos produtos estrangeiros.

Citações importantes:

“Com liberdade não ofendo nem temo.”

“Os povos da América do Sul estão intimamente unidos por vínculos de natureza e interesses recíprocos.”

“Nada podemos esperar a não ser de nós próprios.”

“Não venderei o rico patrimônio dos Orientais ao vil preço da necessidade.”

“Que os índios e seus povos se governem por si mesmos.”

“Que os mais infelizes sejam os mais privilegiados.”

“Sejam os Orientais tão ilustrados como valentes.”

“Eu continuarei sempre em minhas duras lutas pela liberdade e grandeza deste povo. A energia nivelará seus passos posteriores até sua consolidação e em meio dos maiores apuros não me prostituirei jamais.”

“Para mim, é um dever proteger com minhas armas as livres determinações dos povos.”

“Minhas armas não têm tido outro objetivo que o de sustentar a liberdade geral dos povos, em cuja defesa tenho estado pronto a sacrificar minha existência.”

“O povo tem direito a alterar o governo e tomar as medidas necessárias à sua segurança, prosperidade e felicidade.”

Transcendência histórica:

A reforma agrária impulsionada por Artigas, segundo o princípio de que “os mais infelizes são os mais privilegiados” no momento da divisão da terra (Reglamento de Tierras de 1815). O conteúdo social e igualitário de sua atuação e sua subordinação à soberania popular são bases para a democracia participativa e a construção do Socialismo do Século XXI. Sua luta foi pela federação, unidade, igualdade e autodeterminação, como bandeiras inseparáveis. É um precursor indiscutível da causa da Nossa América.

AMÉRICA ÍNDIA E LATINA – SIMÓN BOLÍVAR (1783-1830)

06/05/2010

Nasceu na cidade de Caracas, em 24 de julho de 1783, filho de uma família procedente da região da Vascônia (território hispano-francês denominado como Províncias Vascongadas, na Espanha, e Baixos Pirineus, na França), abastada e de prestígio e que pertencia à aristocracia dos espanhóis colonialistas. Teve vários mestres, sendo Simón Rodríguez (pedagogo e escritor venezuelano, 1771-1854) sua referência e orientador, que o acompanhou até sua morte. Este mestre foi quem o influenciou, começando pelos princípios da Revolução Francesa, a qual serviu como guia a Simón Bolívar. Foi desse princípio que nasceu a idéia de pensar e trabalhar pela libertação, a independência e a construção de uma América unida e soberana. Em 1810, Bolívar retorna da Europa à Venezuela e faz discurso em favor da independência americana ante a Sociedade Patriótica.

Sua batalha definitória começa quando, com um pequeno exército, que o Congreso de Tunja (Colômbia) lhe confiara, entrou vitorioso na Venezuela em 1813. O Congreso de Angustura o titula como Libertador. Em 1814, os espanhóis se refazem e tentam retomar o controle. Bolívar os rechaça na Batalha de Carabobo. Os espanhóis continuam renovando suas forças e voltam a novas tentativas e se destacam com sucesso em La Puerta. Bolívar vai para Nova Granada e daí para as Antilhas (Jamaica), onde escapa de uma tentativa de assassinato. É proclamado chefe supremo e volta à Venezuela, onde vence os espanhóis e convoca o Congreso de Angustura. Depois, em nova batalha, derrota os espanhóis na Batalha de Boyacá e entra em Santa Fé de Bogotá, na Colômbia. Em 17 de dezembro de 1819, fica constituída a República da Colômbia.

Em 1821, derrota de novo os espanhóis e liberta Carabobo. Incorpora-se Quito à República da Colômbia. Em 1822, realiza-se a reunião entre Bolívar e San Martí (libertador de origem argentina), em Guayaquil (Equador), onde se afirmam os princípios e objetivos comuns para a unidade latino-americana. San Martí retorna a Lima, ao Peru libertado, e abdica do mando. Um ano depois, Bolívar entra em Lima e o Congreso Peruano o proclama chefe supremo. Tempo depois, anuncia seu plano de formar uma grande confederação hispano-americana. A convenção de Chuquisaca decreta a criação da Bolívia, nome em reconhecimento a Bolívar, que é convertido em seu protetor perpétuo. Uma comissão venezuelana defendeu sua coroação. O grande estadista Bolívar não a aceitou, condenando a proposta. Houve uma nova tentativa de assassinato.

Bolívar conseguiu fugir. Em 1830, foi novamente nomeado presidente da Colômbia. O Libertador Bolívar não o aceita. Enquanto lutava fora da Venezuela, Bolívar é vítima de rivalidades  entre caudilhos que começavam a governar esse país. Vai à Colômbia e se retira a uma chácara de um amigo, perto da cidade de Santa Marta, onde recebe a notícia do assassinato de Sucre (militar e estadista de origem venezuelana, 1795-1830). Esse fato agravou o estado de saúde de Bolívar e apressou o seu fim. Sua morte aconteceu em 17 de dezembro de 1830, aos 47 anos de idade. Nos seus últimos tempos, viveu desiludido, pobre, longe de amigos. Sua amargura e frustração, por não ter conseguido ver a união e o nascimento de uma nova pátria americana se faz sentir numa de suas declarações: “Colombianos, meus últimos votos são pela felicidade da pátria. Se minha morte contribui para que se acabem as divisões e se consolide a união, eu descerei tranqüilo ao sepulcro.”

Simón Bolívar foi um dos maiores libertadores desta nossa América ainda colonizada, pobre, inculta e injusta. Foi um grande patriota, inspirador, grande legislador e homem virtuoso por suas façanhas militares e políticas em prol da libertação, contrário à escravatura e à exploração do homem. Sua visão e concepção ideológica e política foi grandiosa e destacada entre os grandes heróis da libertação e pela justiça na América Índia e Latina. Simón Bolívar não foi só um libertador, foi quem tentou, acima de tudo, construir uma América Índia e Latina unida, justa, soberana e solidária.

CHILE – LUÍS EMILIO RECABARREN (1876-1916)

06/05/2010

Dirigente operário, fundador do Partido Comunista do Chile, Luís Emilio Recabarren Serrano, nasceu em 6 de julho de 1876, em Valparaíso. Sempre indignado com as injustiças sociais, em 1894 integrou o Partido Democrático do Chile, o qual, naquele momento, representava os setores mais avançados da sociedade, única organização política popular daquele tempo. Nesse partido, Recabarren representava o setor socialista. Tendo estado à frente do jornal O Trabalho, ao fazer artigo criticando a situação da classe operária no país, foi preso por oito meses. Eleito deputado, em 1905, não pôde tomar posse porque se negou a jurar seu cargo por Deus.

Após esse fato, ele fundou o Partido Democrático Doutrinário, que se declarou democrata e socialista. Ainda em 1905, os tribunais o condenaram à prisão, decidindo ele viver na Argentina, integrando as fileiras do Partido Socialista, tendo logo defendido a criação de um partido revolucionário, capaz de estar à frente das lutas da classe operária. Depois de alguns anos, retornou ao Chile, tendo sido levado para a prisão durante 18 meses. Após várias atividades em seu país, em 1918 retorna à Argentina, participando da fundação do Partido Comunista Argentino, fazendo parte de sua primeira direção. De volta ao Chile, Recabarren participa do Terceiro Congresso do Partido Operário-Socialista, contribuindo para a mudança de nome do POS para Partido Comunista do Chile. Após ter sido um líder exemplar das lutas operárias, Recabarren, aos 40 anos, suicida-se.

Um revolucionário inesquecível, tendo estado sempre na memória dos oprimidos e explorados do Chile. É o mais importante educador de massas da história desse país. Usou todos os meios possíveis em sua época para educar, unir e organizar a classe operária em seu partido revolucionário.

REP.DOMINICANA – FRANCISCO CAAMAÑO DEÑÓ (1932-1973)

06/05/2010

Francisco Alberto Caamaño Deñó

Nasceu a 11 de junho de 1932 em Santo Domingo. Filho do tenente-general Fausto Caamaño Medina, que chegou a ser Secretário de Guerra e Marinha durante a tirania de Trujillo, e de dona Enerolisa Deñó de Caamaño.

Francis Caamaño iniciou sua carreira militar na Marinha de Guerra e depois continuou no Exército Nacional e na Força Aérea. Foi também da Polícia Nacional, ascendendo até a patente de Coronel. Efetuou cursos de treinamento, nos Estados Unidos em 1954; no Panamá e em seu país, entre 1954 e 1960. Foi transferido à Polícia Nacional em 1960, na patente de major, sendo designado chefe de adestramento e comandante de efetivos contra motins em 1962. Nessa posição, comandou a ação de Palma Sola, onde foi ferido. Em 1964, como tenente-coronel, ocupou o comando da Rádio-Patrulha. Nesse mesmo ano, uniu-se ao grupo conspirativo dirigido pelo coronel Fernández Domínguez, que tinha como objetivo a derrocada do regime de fato de Reid Cabral e o retorno à ordem constitucional desaparecida em setembro de 1963, quando foi derrubado o governo de Juan Bosch.

Ao explodir a revolta de 25 de abril de 1965, Caamaño ocupou uma posição de importância e, três dias depois, era o líder indiscutível da Guerra de Abril. Em 3 de maio, foi designado Presidente da República pelo Congresso. O conflito político e militar culminou em 3 de setembro de 1965, com a assinatura da Ata de Reconciliação e, depois de vários atentados (entre outros, o brutal ataque que sofreu quando se encontrava em Santiago, no Hotel Matún, em 19 de dezembro desse ano, junto com vários companheiros), aceitou, em 1966, sair do país como agregado militar em Londres, Inglaterra.

Para entender a mudança operada neste militar de carreira, que se colocou ao lado do povo e terminou entregando sua vida nos altares da Pátria, faremos um breve relato histórico da República Dominicana sem Trujillo. A eleição do professor Juan Bosch à liderança do Partido Revolucionário Dominicano, sua derrubada sete meses depois, as lutas para devolver o país à ordem democrática e a luta armada contra os militares golpistas do Triunvirato. A invasão ianque e a guerra de abril. Caamaño como revolucionário: (comandante Román) sua idéia de formar uma Frente Patriótica.

Sua estadia em Cuba, onde iniciou treinamento guerrilheiro, com a idéia de ingressar em território dominicano para começar uma nova guerra de liberação nacional. Finalmente, o desembarque, em 1973, na Praia dos Caracóis à frente de 9 homens. Sua morte física dias depois, junto com Heberto G. La Iane e Alfredo Pérez Vargas, em Nizaíto, San José de Ocoa, após ser capturado com vida, em 16 de fevereiro de 1973, aos 41 anos de idade.

A era pós-trujillista é, sem dúvida, a da continuidade. As energias do povo dominicano são orientadas para uma campanha eleitoral que culmina em dezembro de 62. Os candidatos do Partido Revolucionário Dominicano (PRD) conquistam a presidência e a maioria das Câmaras legislativas. As medidas populares, deste governo encabeçado pelo professor Juan Bosch, provocaram a ira das elites trujillistas; sete meses depois, o governo é derrubado e substituído por um triunvirato de civis manipulados pelos militares golpistas. O Movimento 14 de Junho aglutina a ala mais avançada de dominicanos e dominicanas e assume o compromisso de enfrentar o inimigo. Guerrilha, greves de operários e estudantes são uma espécie de ensaio desse esforço popular pelo retorno à constitucionalidade, ou seja, o gesto heróico de 24 de abril de 1965.

O papel mais glorioso e decisivo naquela jornada revolucionária foi desempenhado por um dos grandes filhos da pátria dominicana: o coronel Francisco Caamaño. Ele passou por cima de seu passado e de seu extrato social para se colocar na liderança das forças populares até levá-las a escrever uma das páginas mais brilhantes da história nacional.

A esmagadora derrota do aparato militar tradicional foi o sinal esperado pelos governantes norte-americanos para ordenarem a terceira invasão militar contra o território dominicano no século passado. A jornada revolucionária de 65 é freada por esta invasão que impede a realização do retorno à constitucionalidade. Contudo, o que ela não pôde evitar foi que o povo tomasse consciência de quem eram seus verdadeiros inimigos e, assim, alcançasse uma maturidade política muito alta. Ficou evidente quem eram os aliados e os adversários da emancipação dominicana.

Caamaño, ao concluir esta jornada, compreendeu o papel histórico que lhe correspondia e inicia sua capacitação política. Viu um exemplo luminoso na Revolução Cubana e, estudando o materialismo dialético, empreende a tarefa de continuar o que o povo, em meio aos combates da ponte Duarte e enfrentando o estrangeiro invasor, havia já começado, ou seja, a segunda e definitiva libertação do povo dominicano.

Caamaño tenciona criar, a partir do exterior, uma Frente Patriótica que aglutinasse todos os setores e forças políticas presentes na Jornada de Abril. Vão empenho, pois lhe faltou experiência no terreno puramente político e, por sua extrema honestidade pessoal, compreendeu logo que nem todos os dirigentes políticos dominicanos tinham pelo povo o mesmo interesse que suas palavras refletiam.

Entre o assédio da CIA e o dos pseudodirigentes políticos que queriam protelar, de maneira indefinida, as ações por trás da liberação, posto que não queriam alterar suas respectivas cômodas e seguras posições, Caamaño persiste em criar a Frente Patriótica com o Partido Revolucionário Dominicano, o Movimento Revolucionário 14 de Junho, o Partido Comunista Dominicano e o Movimento Popular Dominicano. Contudo, o PRD e seu grupo dirigente – de posição liberal e anticomunista, democrática, mas burguesa – não está disposto a empreender uma revolução nacional libertadora porque, seguramente, esta levaria em seus costados o germe do socialismo.

Os outros partidos de esquerda debatem nesses momentos as estéreis posições, pró-China e pró-URSS, deixando em segundo plano a prioridade da libertação nacional.

Caamaño trata de organizar uma força militar, que libertasse a nação dominicana do governo do Dr. Joaquín Balaguer e dos grupos paramilitares que exerceram o terror contra a população dominicana: não havia outra alternativa a não ser a luta armada; deixar-se matar ou defender-se; vender-se ao inimigo ou lutar; humilhar-se ou ser digno.

Foi o setor mais avançado do Movimento Revolucionário 14 de Junho, liderado por Amaury Germán, que apoiou os planos de Caamaño de atacar a ditadura de Balaguer. Os rebeldes, para evitarem a repressão, saem do país para receberem treinamento no exterior. Isto provoca certo isolamento e a ruptura definitiva das comunicações. Em 1971, em 12 de janeiro, Amaury Germán morre em combate. Sua morte é um rude golpe em todo o movimento revolucionário dominicano e, assim, desarticula-se a organização, a deserção é massiva e as qualidades de Amaury, como organizador, fazem cruelmente falta.

Frente à investida dos ianques e à complacência do governo de Balaguer em fortalecer as posições ianques, ao mesmo tempo em que debilitava o movimento revolucionário, Caamaño visualiza que o momento é decisivo: em 1972, já estava vigente a doutrina Nixon. Ante a falta de um movimento articulado e capaz de enfrentar o inimigo, Caamaño decide criar um feito militar com a guerrilha para, assim, suscitar a luta popular generalizada dentro do país.

Assim se origina o que nosso povo passou a chamar de “Praia dos Caracóis”. Tentativa de guerrilha que fracassou em poucos dias e culminou com o assassinato da maioria de seus integrantes. Seus antecedentes estão nas greves açucareiras de 1946, nas manifestações do Partido Socialista Popular e da Juventude Democrática, passando por Cayo Confitea, Luperón e Constanza e renovando-se em Manaclas, Abril e o 12 de Janeiro. Nutrido pelo exemplo daqueles heróis e mártires que, apesar dos reveses momentâneos, sempre souberam convertê-los em vitórias do povo, pelas inquietudes que despertaram e as consciências que formaram.

Hamlet Hermann

http://www.27febrero.com/intervencion.htm

Síntese de seu pensamento:

─ Patriota, anti-imperialista e defensor da união da América Latina e do Caribe. Enquanto sua ação revolucionária avança, adota as bandeiras do socialismo.

─ Viu um exemplo na Revolução Cubana e estudou o materialismo dialético para aplicá-lo à necessidade de seu povo.

─ Acreditou na necessidade de integração entre exército e povo armado, para a defesa da nação.

─ Defendeu a necessidade de união entre os partidos de esquerda, numa frente comum e aglutinadora de forças. Lutou por uma Frente Patriótica.

Citações importantes:

Sobre a intervenção ianque na República Dominicana:

“Do México à Argentina, a democracia é o sonho de milhões de homens que a querem como realidade. Sonho de paz criadora, de paz e liberdade decorosa. Porém, esse belo sonho é turvado, até converter-se em pesadelo, devido à cobiça e à exploração por minorias alheias ao nobre ideal da convivência humana.”

“Vislumbrava-se já a vitória das armas democráticas e, quando estávamos a ponto de consegui-la plenamente, os Estados Unidos da América, se interpõem, invadindo-nos, para salvaguardarem os piores interesses e ambições. Foi, então, que tivemos que ceder em alguns dos nossos objetivos, porque não podíamos vencer com as armas. Contudo, apesar de toda a força e de toda a violência do poderio militar norte-americano, não cedemos por temor ou por medo de sermos vencidos. O mundo é testemunha da luta que empreendemos, da coragem e da valentia desse povo, no terreno da honra e no campo de batalha.”

Sobre o governo popular:

“Mas nossa vitória não será para o prazeroso desfrute de seus louros e de suas palmas, senão para reempreendermos outra luta mais forte e mais cheia de agonias: a luta pela reestruturação da República; de uma República de irmãos e de trabalhadores na qual imperem a justiça social e o espírito cristão.”

Sobre a consciência popular:

“… o que mais profundamente calou em minha vida, e deixou sua marca para sempre, é ter chegado a ser mais um filho de nossa Pátria e o enorme privilégio de importunar a classe à qual pertenci e que a explorava, para abraçar-me às massas e ser mais um homem de nosso povo.”

Sobre os inimigos do povo e a Revolução:

“Os inimigos do povo, aqueles que colocam seus próprios interesses acima dos interesses da Pátria, num vão empenho de se manterem no poder, faziam correr, o sangue generoso, como se fossem rios. Porém, sobre nossos mortos, levantamo-nos sempre com maior força. A Revolução avançava triunfante. A América inteira olhava com admiração para esta terra, esperando, ansiosa, nosso triunfo, porque nele ela via uma vitória da democracia sobre as minorias opressoras que assolam, como pragas, todo o Continente Americano.”

Transcendência histórica:

Caamaño ensinou que a luta conseqüente contra o imperialismo conduz necessariamente à adoção das idéias socialistas, sendo inevitável, para alcançar o objetivo, a unidade do povo e das Forças Armadas. Desgraçadamente, a desunião das forças populares dominicanas malogrou seu empenho. O exemplo de Caamaño, ao resistir à invasão norte-americana, ficou gravado na consciência dos povos como gesto heróico de patriotismo e entrega.

Equipe Emancipación, várias fontes

EL SALVADOR – AGUSTÍN FARABUNDO MARTÍ (1893-1932)

06/05/2010

Um revolucionário da Pátria Grande  (Fernando Ramón Bossi)

A distribuição balsameira de El Salvador compreende uma faixa de terreno chamada “Cordilheira do Bálsamo”, que se estende entre os portos de Acajutla e La Libertad na chamada Cadeia Costeira, internando-se até a cidade de Apaneca, aproximadamente uns 20 quilômetros da costa principalmente nos departamentos de La Libertad e Sonsonate. Os municípios conhecidos como principais produtores de bálsamo de primeira classe são San Julián, Santa Isabel Ishuatán, Cuisnahuat, Izalco, Chiltiupán e Teotepeque. Precisamente em Teotepeque, La Libertad, nasceu, a 5 de maio de 1893, Agustín Farabundo Martí.

Filho de Pedro Martí e de Socorro Rodríguez. Sexto filho de um total de 14, Agustín cresceu em meio à faina agrícola. Torna-se bacharel em 1913, aos 20 anos de idade, de um colégio salesiano e ingressa na Universidade Nacional, na carreira de Jurisprudência e Ciências Sociais.

Suas primeiras ações políticas levam-no a trabalhar contra o regime oligárquico das famílias Meléndez-Quiñónez, dinastia que governará El Salvador por cruentos 14 anos. Por organizar um ato em apoio à Associação de Estudantes Unionistas, grupo guatemalteco que exigia o fim da ditadura de Estrada Cabrera naquele país, é preso em Zacatecoluca. Em 1920, é deportado para a Guatemala e ali continua seus estudos na Universidade de San Carlos.

Na Guatemala, estuda e trabalha. Como simples operário, diarista ou peão, aprende a compartilhar do sofrimento dos explorados. Em um país, onde a maioria da população é indígena, Martí se compromete com suas lutas e incorpora conhecimentos da língua quíchua. Sendo perseguido pelos donos das plantações de café, Farabundo deve partir temporariamente para o México, onde se relaciona com o movimento operário e estuda a revolução agrarista de 1910.

Em 1925 é fundado na Guatemala o Partido Comunista Centro-americano. O surgimento do partido teve sua origem no interesse de intelectuais e operários guatemaltecos em darem continuidade ao primeiro movimento político de esquerda que se iniciou na década de 1920, o qual foi vital para a queda do ditador Manuel Estrada Cabrera. O governo ditatorial de Jorge Ubico se encarregou de esmagar a organização; não obstante, pode-se considerá-la a primeira manifestação da classe operária para conseguir sua organização política. Martí ocupou o cargo de secretário do exterior do Partido Comunista Centro-americano.

É deportado a El Salvador, e de El Salvador à Nicarágua, por ordem do presidente Alfonso Quiñónez. Em poucos dias, regressa clandestinamente a El Salvador, para seguir organizando os trabalhadores. De 1925 a 1928, Martí trabalha junto à Federação Regional de Trabalhadores de El Salvador.

Em 1928, Martí viaja a Nova York, onde toma contato com a direção central da Liga Antiimperialista das Américas, que o encarregará de viajar à Nicarágua como seu representante ante Augusto César Sandino. Dos Estados Unidos, partirá até Las Segovias para lutar junto ao “General de Homens Livres”. Com ele, alcança a patente de coronel do Exército Defensor da Soberania Nacional. Em seus feitos, Farabundo Martí mostrou seu arrojo antiimperialista, tanto com o fuzil como com a pena. Foi membro do Estado-Maior Internacional de Sandino e Secretário Privado do herói nicaragüense. Na ocasião em que os invasores ianques bombardeavam persistentemente as posições sandinistas, Martí, em atitude de coragem e decisão, deixou a máquina de escrever para empunhar o fuzil, dizendo, indignado: “quando a história não se pode escrever com a pena, escreve-se com o rifle.” Na seqüência, se enfurnou na copa de uma árvore da selva para abrir fogo contra os aviões ianques.

Mais tarde, já no México, Martí passa a ser líder latino-americano da Cruz Vermelha Internacional. Esta organização tinha nascido nos anos vinte por impulso da III Internacional, para enfrentar o fascismo então incipiente. Entre seus dirigentes, tomavam parte mulheres antifascistas tão conhecidas, como a alemã Clara Zetkin, a italiana Tina Modotti e a russa Elena Stasova. O Socorro Vermelho Internacional entronca, então, diretamente com a história do movimento comunista e antifascista internacional, alcançando prontamente um grande desenvolvimento em todo o mundo, no apoio político, jurídico e econômico a todos os presos políticos e perseguidos, sem diferenças ideológicas partidárias.

Em 1930, Martí regressa a El Salvador e funda, com outros companheiros, o Partido Comunista Salvadorenho, partido que rapidamente se põe na liderança dos trabalhadores e camponeses, descontentes com os regimes oligárquicos de então. Sofrendo deportações e perseguições, Farabundo liderará a insurreição popular de 1932.

COLÔMBIA – CAMILO TORRES (EDGAR CAMILO RUEDA NAVARRO, 1929-1966)

06/05/2010

Jorge Camilo Torres Restrepo nasceu em Bogotá a 3 de fevereiro de 1929. Seus pais foram Calixto Torres Umaña, médico de prestígio, e Isabel Restrepo Gaviria. De família rica, burguesa e liberal. Viveu junto com sua família na Europa, entre 1931 e 1934. Em 1937, o matrimônio se dissolveu e Camilo passou a viver com sua mãe e seu irmão Fernando.

Formou-se bacharel no Liceu Cervantes em 1946. Depois de estudar um semestre de Direito na Universidade Nacional da Colômbia, ingressou no Seminário Conciliar de Bogotá, onde permaneceu por sete anos, tempo durante o qual Camilo começou a se interessar pela realidade social, criando um círculo de estudos sociais, junto com seu companheiro Gustavo Pérez. Como cristão, sentiu-se atraído pelo tema da pobreza e da justiça social.

Camilo ordenou-se sacerdote em 1954 e logo viajou à Bélgica para estudar sociologia na Universidade de Lovaina. Durante sua estada na Europa, fez contato com a Democracia Cristã, com o movimento sindical cristão e com os grupos da resistência argelina em Paris, fatores que o levaram a aproximar-se da causa dos oprimidos. Fundou, com um grupo de estudantes colombianos da universidade, a ECISE (Equipe Colombiana de Investigação Sócio-Econômica).

Em 1958, formou-se sociólogo com o trabalho “Uma aproximação estatística à realidade sócio-econômica de Bogotá” (publicado em 1987 como “A proletarização de Bogotá”), que foi um dos pioneiros em sociologia urbana do país. Em 1959, regressou a Bogotá e foi nomeado capelão da Universidade Nacional. Ali, junto com Orlando Fals Borda, fundou a Faculdade de Sociologia em 1960, à qual esteve vinculado como professor.

Suas investigações sociológicas iniciadas com sua tese de formatura o levaram a familiarizar-se com as estruturas sociais tanto urbanas quanto rurais. Fundou o Movimento Universitário de Promoção Comunal (MUNIPROC) e desenvolveu trabalhos de investigação e de ação social em bairros populares e operários de Bogotá, como o bairro Tunjuelito. Como capelão, introduziu na Colômbia muitas das reformas do Concílio Vaticano II, como dizer a missa de frente e não de costas, e celebrá-la em espanhol em vez de latim. Apregoou que o problema não era rezar mais senão amar mais.

Em 1961, começou a ter problemas com o Cardeal Concha Córdoba, que não via com bons olhos os trabalhos de Camilo. A situação foi-se tornando espinhosa, até que o prelado o destituiu de seu cargo de capelão, dos trabalhos acadêmicos e das funções administrativas que ele tinha na Universidade Nacional.

Colaborou com a investigação dirigida por Germán Guzmán, publicada como “A violência na Colômbia” (1962, segundo tomo 1964). Em 1963, apresentou o ensaio “A violência e as mudanças sócio-culturais nas áreas rurais colombianas”, no primeiro Congresso Nacional de Sociologia. Fez parte do Instituto Colombiano para a Reforma Agrária (INCORA) e da Escola Superior de Administração Pública (ESAP). Pressionado pelo alto clero, em 1965 renunciou ao sacerdócio.

Esse ano, apresentou uma plataforma para um movimento de unidade popular, gestando, assim, a força política “Frente Unida do Povo”. Desenvolveu numerosas manifestações e atos públicos e publicou o semanário “Frente Unida”. Igualmente, fez contato com o Exército de Libertação Nacional, formado em 1964, com o qual acertou a continuação da agitação política nas cidades e seu posterior ingresso na organização quando fosse considerado necessário.

No segundo semestre de 1965, Camilo trabalha no impulsionamento da Frente Unida e na publicação do semanário do movimento (“Frente Unida”). Camilo encheu as praças públicas e teve uma vertiginosa ascensão política. Ratificou o abstencionismo como posição revolucionária.

Depois da fustigação e da perseguição estatal, vinculou-se em novembro ao ELN e lançou o “Proclama aos colombianos”. Em seu primeiro combate, em 15 de fevereiro de 1966, morreu lutando em Patiocemento, Santander. Seus restos mortais foram sepultados em algum lugar clandestino, desconhecido até o momento.

Pensamento político

Camilo fez parte de uma igreja contestatória internacional que se desenvolve na década de 1960, convertendo-se em uma de suas figuras principais. O cristianismo bem entendido supunha, para Camilo, a criação de uma sociedade justa e igualitária. Isto, ele traduziu como a obrigação de fazer uma profunda revolução, que despojasse do poder os ricos e exploradores (a oligarquia), para dar lugar a uma sociedade socialista.

Os principais enfoques de Camilo Torres podem ser sintetizados nas seguintes idéias a respeito da situação nacional: para transformar o país e conseguir o bem-estar da classe popular é necessário libertar o país do imperialismo norte-americano e da oligarquia que serve a seus interesses; é necessária a fusão, a mobilização e a vinculação dos setores pobres da população à luta pela construção de um novo Estado. Por isso, deve ser gerada a unidade do movimento revolucionário e opositor, aglutinando as massas oprimidas do país; deve-se ter a convicção de levar a luta até o final enfrentando todas as conseqüências; e, por último, os cristãos não somente têm a possibilidade de participar da revolução, como também têm a obrigação de fazê-lo (“o dever de todo cristão é ser revolucionário e o dever de todo revolucionário é fazer a revolução.”).

Outro elemento fundamental no pensamento de Camilo foi constituído por seu esforço em conciliar o cristianismo com o marxismo, impulsionando um novo tipo de sociedade de caráter socialista e cristão, baseado na justa distribuição da riqueza. “Os marxistas lutam pela nova sociedade e nós, os cristãos, deveríamos estar lutando ao lado deles.”

Todo este processo deve ser desenvolvido, como enfoca Camilo, a partir da ação popular, combinando a atividade política com a militar e levando a cabo trabalhos políticos e organizativos a partir das bases, quer dizer, em estreita relação com o povo.

A formação do pensamento político de Camilo esteve marcada por várias etapas. Em primeiro lugar, teve uma formação cristã católica, mas sempre vinculado à realidade social e à situação de pobreza da população colombiana. Posteriormente, viajou à Europa, onde se formou sociólogo, mas onde também fez contato com o mundo socialista e com o movimento operário.

No seu regresso à Colômbia, Camilo planejou complementar seus esforços pelo bem-estar dos pobres com a atividade científica e investigativa, a partir de seus conhecimentos de sociologia. Neste sentido, desenvolveu projetos de ação social e comunitária nos quais pôs o conhecimento sociológico a serviço dos setores pobres.

Mas seus trabalhos foram truncados e entorpecidos pela burocracia governamental e pelo regime político, fator pelo qual Camilo passou a participar do campo político, opondo-se ao sistema da Frente Nacional (1958-1974) no qual os partidos tradicionais, o liberal e o conservador, repartiriam o poder milimetricamente entre si, excluindo os demais setores políticos. Com essa perspectiva, Camilo gestou e impulsionou a “Frente Unida do Povo”, na qual buscava aglutinar todas as forças políticas revolucionárias e de oposição, em torno da “Plataforma da Frente Unida”, que era constituída de dez pontos que faziam referência a: reforma agrária, reforma urbana, planejamento, política tributária, política monetária, nacionalizações, relações internacionais, saúde, família e forças armadas.

A incapacidade de conseguir mudanças autênticas e profundas por meios pacíficos e legais levou Camilo a pensar na necessidade da luta armada como meio para o estabelecimento de um novo estado e de uma nova sociedade, de caráter socialista. Por isso, vinculou-se ao ELN, onde esperava alcançar a realização da revolução na Colômbia, até que caiu morto em seu primeiro combate. *

Seu exemplo inspirou movimentos de setores cristãos como o grupo “Golconda”, ou o caso chileno de “Sacerdotes para o socialismo”, impulsor da ascensão de: Salvador Allende e personalidades como o padre Ernesto Cardenal, participante da rebelião sandinista na Nicarágua; e, em geral, as comunidades eclesiais de base, que formaram uma nova igreja latino-americana comprometida com a mudança revolucionária, dando origem à corrente conhecida como “teologia da libertação”.

Igualmente, o exemplo de Camilo foi retomado por sacerdotes comprometidos que se vincularam à luta armada, como o caso dos espanhóis, Domingo Laín e Manuel Pérez, que morreriam combatendo com o ELN. (Pérez chegou a ser comandante político da organização, até que morreu de uma doença em 1998.).

Hoje em dia, seu exemplo se mantém na luta revolucionária que o Exército de Libertação Nacional mantém há 38 anos e seu pensamento perdura em estudantes, operários e camponeses de toda a Colômbia e a América Latina.

Síntese de sua atuação:

Como sacerdote, sua ação se vinculou de imediato aos setores mais pobres da sociedade. Seus estudos de sociologia o ajudaram a entender e sistematizar a situação política da Colômbia e do resto da América Latina.

O choque de sua atividade com as posições da alta hierarquia eclesiástica fazem-no abandonar a batina, mas não sua fé cristã e a religião.

Sua atuação política foi breve, mas criou a Frente Unida e dirigiu seu jornal. A partir dali, pregou a necessidade de unidade das forças populares, desmascarando o bipartidarismo e assinalando ser imprescindível dirigir os esforços na luta contra o imperialismo ianque e a oligarquia corrupta.

Síntese de seu pensamento:

O amor ao próximo é a fonte de inspiração da obra de Camilo Torres. Para alcançar a justiça e a igualdade que prega o cristianismo, é necessário terminar com os males que afligem os pobres e o povo em seu conjunto. É, então, que Camilo entende que, para transformar o país e conseguir o bem-estar da classe popular, é necessário libertar o país do imperialismo norte-americano e da oligarquia que lhe serve. Para enfrentar um inimigo tão poderoso, é inevitável a unidade do campo popular, rompendo o bipartidarismo e não renegando nenhum método de luta, inclusive a violência.

Camilo Torres defende a tese que entre marxistas e cristãos há mais pontos de coincidência do que de divergência e que hoje eles estão unidos pelos mesmos princípios de luta pela igualdade, a justiça social e o amor ao próximo.

O exemplo de constância, conduta, disciplina e ética elevam-no ao plano do revolucionário cabal e conseqüente.

Citações importantes:

Sobre os cristãos:

“O dever de todo cristão é ser revolucionário e o dever de todo revolucionário é fazer a revolução.”

“Depois da Revolução, nós, os cristãos, teremos a consciência de que estabelecemos um sistema que está orientado pelo amor ao próximo.”

 “Que não nos ponhamos a discutir se a alma é mortal ou é imortal, mas pensemos que a fome, sim, é mortal e derrotemos a fome para ter a capacidade e a possibilidade, depois, de discutir a mortalidade ou a imortalidade da alma.”

Sobre os marxistas:

 “Os marxistas lutam pela nova sociedade e nós, os cristãos, deveríamos estar lutando ao lado deles.”

“com os comunistas . . . estou disposto a lutar com eles por objetivos comuns: contra a oligarquia e o domínio dos Estados Unidos, para a tomada do poder por parte da classe popular.”

Sobre a Revolução:

“A Revolução, portanto, é a forma de conseguir um governo que dê de comer ao faminto, que vista o que está nu, que ensine o que não sabe, que cumpra as obras de caridade, de amor ao próximo, não somente de forma ocasional e transitória, não somente para uns poucos, mas sim para a maioria de nossos próximos.”

 “Necessitamos de algumas condições indispensáveis para fazer a união. A revolução é um ideal que se deve fixar de uma maneira determinada e precisa. Não nos podemos unir baseados em vagas ilusões . . .  uma das primeiras condições é conseguir que a classe popular tenha uma consciência comum . . .”

Sobre o imperialismo:

“Eu considero os Estados Unidos como inimigos do povo colombiano, não o povo dos Estados Unidos, mas sim seu sistema de grandes capitalistas norte-americanos. E por isso, como aconteceu por ocasião da independência da Colômbia, quando os latino-americanos tiveram que se unir para lutar contra a Espanha, da mesma forma, na época atual, nós temos que nos unir contra os Estados Unidos para lutarmos por nossa libertação.”

Transcendência histórica:

Camilo foi um dos primeiros que geraram a fusão do cristianismo, patriotismo e socialismo em um só bloco de pensamento e ação libertadora.

Inspirou setores como o grupo “Sacerdotes para o socialismo”, impulsionador da ascensão de Salvador Allende no Chile, os “padres villeros” da Argentina e personalidades como o padre Ernesto Cardenal, participante da rebelião sandinista na Nicarágua e, em geral, as comunidades eclesiásticas de base, que formaram uma nova igreja latino-americana comprometida com a mudança revolucionária, dando origem à corrente conhecida como “teologia da libertação”. Sua heróica morte o eleva como mártir e bandeira na luta pela libertação nacional e pelo socialismo. Como disse sua mãe: “Camilo nasceu quando o mataram.”

A obra e o exemplo de Camilo Torres são base para a discussão dos valores éticos na luta revolucionária e na formação dos homens e mulheres da nova sociedade.

PERU – TÚPAC AMARU (1743-1781)

06/05/2010

 “Erva de liberdade”. Túpac Amaru

A sublevação do mestiço José Gabriel Condorcanqui, que protestava contra as injustiças dos corregedores e reclamava para si o título de Inca, herdado de uma filha de Felipe Túpac Amaru, deu origem a um dos episódios mais horrendos – talvez o mais horrendo – entre todos os crimes perpetrados na América. Os espíritos tolerantes do século XVIII se estremeceram ante o derrame de sangue e crueldade no qual «ilustrados» funcionários espanhóis se comportaram pior que o mais sanguinário dos selvagens.

Já no século XVI, o vice-rei Toledo havia pretendido, sem êxito, apagar a lembrança e a imagem do Inca, alegando que ela “virá criar erva de liberdade”. Isto era tão certo que, dois séculos depois, o cientista e perspicaz viajante que foi Alexander von Humboldt observava que “onde quer que a língua peruana penetrou, a esperança da restauração dos incas deixou marcas na memória dos indígenas que guardam lembrança de sua história nacional”. Esta evidência também preocupava os funcionários. Depois de uma conspiração que houve em Lima em 1750, o vice-rei, conde de Superunda, opinava que não devia ser permitido aos índios fazer, nas festas, suas mascaradas e bailes como era costume, porque as reduziam “a uma representação de seus antigos reis, a seus trajes, estilo e comitiva, cuja memória os entristece e alguns não depõem sem lágrimas as vestimentas e insígnias de seus primeiros monarcas”. Este sentimento, renovado nas obras de teatro que representavam com freqüência, unido à exploração de que eram objeto por parte dos corregedores do século XVIII, explica a rapidez com que povoados inteiros se alistaram atrás da figura do carismático mestiço depois de séculos de opressão e passividade.

José Gabriel Túpac Amaru, como escolheu chamar-se este “porta-voz dos índios perante os brancos”, era quinto neto do último Inca e, como tal, reclamou para si, aos 22 anos, o título de cacique dos povoados de Surimana, Pampamarca e Tangasuca. Tinha feito seus estudos no colégio jesuíta para filhos de caciques do Cuzco, onde aprendeu, entre outras coisas, a história sagrada, como o provam suas freqüentes alusões à Bíblia. Não é aventurado pensar que a história de Moisés salvando seu povo israelita da escravidão na qual os egípcios o tinham, tenha-o animado a realizar idêntica missão entre os seus, apoiando-se também, talvez, nas teorias do jesuíta Francisco Suárez sobre a soberania do povo. Três ou quatro vezes, nas suas declarações, identifica a tirania dos corregedores com a do faraó egípcio, mas é em sua resposta ao sádico juiz Mata Linares onde melhor se percebe esta possível identificação: «sendo descendente dos incas, como tal, vendo que seus compatriotas estavam aflitos, maltratados, perseguidos, ele se criou na obrigação de defendê-los, para ver se os tirava da opressão em que estavam». Palavras estas que recordam quase textualmente os pensamentos de Moisés quando decide salvar seu povo do despotismo egípcio e também quando recorda que :

“Um humilde jovem, com o pau e a atiradeira, e um pastor rústico libertaram o infeliz povo de Israel do Poder de Golias e do faraó : foi a razão porque as lágrimas destes pobres cativos deram tais vozes de compaixão, pedindo justiça ao céu, que em poucos anos saíram de seu martírio e tormento para a terra da promissão. Mas, no final, conseguiram seu desejo, embora com tanto pranto e lágrimas.

Mas nós, infelizes índios, com mais suspiros e lágrimas que eles, não pudemos em tantos séculos conseguir nenhum alívio; e embora a grandeza real e soberania de nosso monarca tenha-se dignado a nos libertar com seu despacho real, este alívio e fadiga nos trouxeram de volta o maior desassossego, ruína temporal e espiritual. Será a razão porque o faraó que nos persegue, maltrata e hostiliza não é um só, senão muitos, tão iníquos e de coração tão depravado como são todos os corregedores, seus tenentes, cobradores de demais colchetes : homens por certo tão diabólicos e perversos […] que dar princípio a seus atos infernais seria santificar… os Nerones e Átilas a cujas iniqüidades a história se refere …

Nestes, há desculpas porque, no final, foram infiéis; mas os corregedores, sendo batizados, desdizem o cristianismo com suas obras e mais parecem ateus, calvinistas, luteranos, porque são inimigos de Deus e dos homens, idólatras do ouro e da prata. Não acho mais razão para tão iníquo proceder que o fato de a maior parte deles serem pobres e de berços muito baixos”.

Em 1760, havia-se casado com Micaela Bastidas, valente e decidida mulher que, além de lhe dar três filhos, animou-o e o ajudou numa empresa que desde o primeiro momento considerou também como sua. Não foi a única : várias mulheres, indígenas e mestiças, participaram nesta luta contra a opressão de um sistema tirânico e humilhante.

Boleslao Lewin, em sua já clássica obra sobre Túpac Amaru, afirma que seu programa social foi claro e explícito a partir de um princípio. Não o político, que foi variando à medida que se desenvolviam os acontecimentos. Quando se aproxima pela primeira vez das autoridades espanholas, em 1777, fá-lo com um programa coerente de reivindicações; em primeiro lugar : conseguir a eliminação da MITA, sobretudo a mineira, que sempre havia sido dura, com a diminuição dos indígenas era impossível de sobrelevar.

“Então, os índios morriam e desertavam – afirma no memorial de dezembro de 1777 – mas os povoados eram numerosos e isso se fazia menos sensível; hoje, na extrema decadência em que se acham, chega a ser impossível o cumprimento da MITA porque não há índios que sirvam para ela e devem voltar os mesmos que já a fizeram …”.

Denuncia os esforços desumanos aos quais estão obrigados, os longos e perigosos caminhos por onde devem andar para chegar até ali “mais de duzentas jornadas de ida e outras tantas de volta” e propõe que, no lugar dos índios, trabalhem nas minas “o copioso número de trabalhadores estabelecidos na dita colina de Potisí”. Pedia também a extinção das tecelagens, verdadeiros cárceres onde se obrigavam os adultos, velhos e até crianças a tecerem e a fazerem, sem descanso, outras tarefas desumanas.

As maiores acusações, não obstante, estavam dirigidas aos corregedores que, para poderem conservar suas vidas luxuosas e incrementar ainda mais os dividendos, obrigavam os índios a comprarem toda classe de objetos inúteis, ficando eles com parte do lucro obtido.

A sábia legislação indiana havia proibido os corregedores de índios de comerciarem com eles, mas, desde meados do século XVIII, esta proibição passou a ser letra morta.

Assim é que, como dizia Túpac Amaru, “nos botam alfinetes, agulhas de Cambray, pós-de-arroz azuis, baralhos, óculos, santinhos e outras coisas ridículas como estas. Naqueles que são algo acomodados, botam veludos, meias de seda, rendas, fivelas, poncho e cambraias, como se nós, índios, usássemos estas modas espanholas.

E a preços exorbitantes que, quando levamos para vender, não voltamos a juntar nem a vigésima parte do que temos que pagar…”. Quer dizer, seguiam recorrendo aos chocalhos e contas coloridas do começo da Conquista.

Alguns funcionários reais viam e denunciavam este estado de coisas, mas não se tomava nenhuma medida séria, talvez porque, de outro modo, a Coroa não pudesse pagar aos corregedores que deviam cobrar seu soldo do que sacavam dos índios.

Vendo que suas petições não tinham eco, Túpac Amaru começou a preparar a insurreição, estocando armas de fogo, vedadas aos indígenas. Ao mesmo tempo, tratava de atrair, com resultado desigual, descendentes de espanhóis e mestiços para a sua causa.

A ocasião se apresentou quando o bispo descendente de espanhóis, Moscoso, excomungou o corregedor de Tinta, Arriaga, indivíduo particularmente odiado pelos índios. Em 04/nov/1780, Túpac Amaru, com sua autoridade de cacique de três povos, mandou deter Antonio de Arriaga e o obrigou a assinar uma carta onde pedia às autoridades dinheiro e armas e conclamava todos os povos da província a se juntarem em Tungasuca, onde estava prisioneiro. Foram-lhe enviados 22.000 pesos, algumas barras de ouro, 75 mosquetes, mulas, etc.

Em 10 de novembro, executado Arriaga na forca, segundo Túpac Amaru “em nome do rei”, começa a maior sublevação da América, cujos ecos chegaram até os vice-reinados de Nova Granada e Rio da Prata, provocando novas insurreições nas quais mais de 100.000 pessoas perderam a vida.

“Desde o dia dez – diz um documento da época, citado por Pedro de Ángelis – começou a escrever cartas a diferentes caciques, mandando-lhes que prendessem seus corregedores, tenentes e demais dependentes, e dando ordens para que se embargassem seus bens”.

Estas cartas iam acompanhadas dos editais que ditos caciques tinham de publicar em suas respectivas províncias, promulgando que se extinguissem os impostos, aduanas e MITAS de Potosí, com o extermínio dos corregedores.

Seguido por um entusiasta exército de índios, começou a percorrer povoados e cidades, destruindo na sua passagem as tecelagens, símbolo de opressão, e emitindo proclamas que modificavam seu discurso, segundo fossem dirigidas aos índios e aos escravos, aos sacerdotes ou aos descendentes de espanhóis.

Aos primeiros, prometia que “ficarão livres da servidão e escravidão em que estavam”, insistindo em que sua missão consistia em abolir os abusos e acabar com os corregedores, que ele era o libertador do reino e o restaurador dos privilégios outorgados a seus antepassados pelos Reis Católicos.

Aos clérigos, assegurava que “só pretendo livrar o reino de tiranias e que se observe a santa e católica lei, vivendo em paz e quietude”, ressaltando em uma carta ao bispo Moscoso “V.Reverendíssima não se incomode com esta novidade nem perturbe seu fervor cristão.

Nem a paz dos monastérios, cujas sagradas virgens e imunidades não se profanarão de nenhum modo, nem seus sacerdotes serão invadidos com a menor ofensa dos que me seguirem…”

Em 23/dez/1780, dirige-se especialmente aos descendentes de espanhóis num proclama onde informa que “vendo o jugo forte que nos oprime com tantos impostos e a tirania dos que assumem este cargo, sem ter consideração por nossas desgraças e, exasperado delas e de sua impiedade, determinei sacudir o jugo insuportável e conter o mal governo que experimentamos dos chefes que compõem estes corpos, por cujo motivo morreu em cadafalso público o corregedor de Tinta, em cuja defesa vieram da cidade do Cuzco uma porção de espanhóis recém-chegados, arrastando meus amados descendentes de espanhóis, que pagaram sua audácia com suas vidas.

Só sinto pelos compatriotas descendentes de espanhóis, aos quais sempre procurei não prejudicar, para que vivêssemos como irmãos e congregados num corpo, destruindo os europeus”.

As respostas a estes proclamas foram imediatas e distintas. Nas ruas de Arequipa e do Cuzco, apareceram pasquins a favor e contra o rebelde.

Como a Espanha estava em guerra com a Grã-Bretanha, dizia-se, para desprestigiar o famoso mestiço, que ele havia feito contato com os ingleses. Entre a crítica e a admiração, um diário de Arequipa descrevia assim, em janeiro de 1781, a figura do insurreto e seus seguidores. A testemunha destaca os elementos incas de sua vestimenta e insinua a presença de dois ingleses entre seus homens.

“O exército era muito considerável e, fora da infantaria, levava mais de mil homens de cavalaria, espanhóis e mestiços, com fuzis, e do lado esquerdo e direito de Túpac Amaru iam dois homens loiros e de bom aspecto, que pareciam ingleses.

Túpac Amaru ia num cavalo branco, com adereço bordado de realce, seu par de trabucos alaranjados, pistolas e espada, vestido de azul de veludo, galoneado de ouro; seu cabriolé na mesma forma, avermelhado, e um galão de ouro apertado na frente.

Seu chapéu de três lados e, por cima do vestido, sua camiseta, semelhante a um roquete [casula] de bispo, sem mangas, ricamente bordado, e no pescoço uma corrente de ouro e, nela pendente, um sol do mesmo metal, insígnias dos príncipes, seus antepassados”.

A revolta teve repercussão em toda a América espanhola : desde o Rio da Prata até a Colômbia, Venezuela e ainda Panamá e México, mas nem todos os movimentos tiveram as mesmas características.

Embora, depois de sua morte, os descendentes de espanhóis utilizaram a figura de Túpac Amaru como símbolo, seu movimento foi essencialmente indígena : uniram-se a ele até os chiriguanos e os mocovíes nômades do Chaco saltense.

Em fevereiro de 1781, levantaram-se Chuquisaca e Oruro; em março, Tupiza, Puno, La Paz e Jujuy, onde diziam “Já temos rei Inca.”. Uns 5.000 índios, em uma extensão de 1.500 quilômetros, de Salta ao Cuzco, dispuseram-se a seguir o rebelde. Em Oruro, onde houve muita participação de mestiços, fixou-se em abril de 81 este pasquim :

Já no Cuzco com empenho querem sacudir, e é lei, o jugo de rei alheio e coroar o que é dono. ¡ Americanos, levantem-se ! Tomem armas nas mãos e, com ousado furor, matem, matem sem temor os ministros tiranos.

E em março de 1781, fixaram na porta da Audiência de Charcas :

Viva o general inca, consideremo-lo já o nosso rei, porque isso é muito justo e legal; é tudo o que ele merece.

Todo indígena se prepare para defender seu direito, porque Carlos o aniquila e destrói e o rouba a torto e a direito.

Como facilmente se vê nestes versos, mestiços e descendentes de espanhóis protestavam sobretudo pela política de impostos de Carlos III.

Na cidade de Mendoza, quiseram queimar seu retrato “tencionando dar a um vizinho duzentos pesos … para queimá-lo a favor do rebelde Túpac Amaru inca, e os dependentes deste rebelde, dando por bem feitas as atrocidades que fizeram.”

Também o movimento dos comunheiros de Nova Granada, essencialmente antiimpostos, tomou elementos dos tupamaristas, mas com predomínio de descendentes de espanhóis.

“Em 16/mar/1781, dia de feira, apresentaram-se na praça do Socorro uns quantos homens … vociferando que não pagariam os impostos”; ante a intervenção do prefeito, que tratava de dissuadi-los, “uma mulher chamada Manuela Beltrán se aproximou da porta da casa onde estava fixado em uma tábua o edito do Visitador e, ao grito de ‘Viva o rei e morra o mal governo !’, arrancou o edito e lançou pedaços do quadro entre os vivas e aplausos da multidão.”

Sucessos semelhantes ocorreram em distintas cidades de Nova Granada, com a diferença de que, em alguns povoados, acrescentava-se ao repúdio pelos impostos algo muito mais grave : o reconhecimento de Túpac Amaru como novo rei.

“¡ Que viva o rei inca e morra o rei de Espanha e todo seu mal governo e quem sair em sua defesa ¡”, gritavam em Silos, enquanto nos rasos de Casanare e povoados limítrofes, um descendente de espanhóis, don Javier de Mendoza, punha-se à frente dos índios sublevados em maio do mesmo ano e fazia jurar Túpac Amaru como rei da América.

É possível, contudo, que os comunheiros de Nova Granada, em sua maioria descendentes de espanhóis, tivessem tomado o nome do Inca para atrair para sua causa os índios do lugar.

Se Túpac Amaru tivesse podido tomar a cidade do Cuzco, os acontecimentos teriam seguido outro rumo. Talvez tivesse podido negociar uma paz digna e obter um indulto.

Porém, o ilustre peruano não queria que corresse tanto sangue e o tempo que empregou em cartas ao bispo e ao cabido da cidade para que se rendessem foi aproveitado por seus inimigos para enviar reforços consideráveis que tornaram impossível uma vitória dos insurretos.

Com a chegada a Cuzco do visitador geral, José Antonio de Areche, e do inspetor-geral, José del Valle, encabeçando um exército composto de 17.116 homens armados, a situação se desequilibrou em prejuízo dos rebeldes.

O mais importante, contudo, foram as medidas políticas adotadas pelos chefes realistas : proibir-se-ia o reparto (comércio obrigatório) dos corregedores e se indultariam, com um perdão geral, todos os comprometidos na insurreição, excetuando os cabeças.

Estas medidas conseguiram que muitos desertassem ou passassem às filas reais. Túpac Amaru pretendeu ainda dar um golpe de mão, atacando primeiro, mas o exército real foi avisado por um prisioneiro fugido e o golpe fracassou.

Na noite de 5 a 6 de abril, travou-se a desigual batalha entre os dois exércitos. Segundo um parecer militar “foram passados a faca mais de mil e o resto, derrotado inteiramente.”

Ao se ver perdido, Túpac Amaru quis fugir : “vendo tudo perdido – segue contando o parecer militar de 8 de abril – enviou ordem à sua mulher e filhos para que fugissem como pudessem e ousou atravessar a nado um rio caudaloso, o que conseguiu.

Mas, na outra margem, o coronel de Langui, que o era por ordem dele neste povoado, para ver se indultava sua vida, fê-lo prisioneiro e o entregou aos nossos … o mesmo que a sua mulher, filhos e demais aliados …

Às seis da manhã deste mesmo dia, foi levado prisioneiro Francisco Túpac Amaru, tio de José Gabriel, e outro cacique chamado Torres, famosos capitães do rebelde.

O primeiro trajava vestimentas reais, do tipo usado pelos Incas, com as armas de Túpac Amaru bordadas de seda e ouro nos cantos.”

Túpac Amaru e os seus ficariam expostos às feras, que cobrariam com juros os momentos de humilhação e medo que passaram por sua causa.

“Na quarta-feira, 18/mai/1781, depois de haver cercado a praça com as milícias desta cidade do Cuzco … e cercado a forca com o corpo de mulatos e huamanguinos, todos com fuzis e baionetas caladas, saíram da Companhia nove sujeitos : José Verdejo, Andrés Castelo, um zambo, Antonio Oblitas (o carrasco que enforcou o general Arriaga), Antonio Bastidas, Francisco Túpac Amaru; Tomasa Condemaita, cacique de Arcos; Hipólito Túpac Amaru, filho do traidor; Micaela Bastidas, sua mulher, e o insurgente, José Gabriel.

Todos saíram ao mesmo tempo, um após o outro. Vinham com grilhões e algemas, metidos nuns surrões, destes em que se traz a erva do Paraguai, e arrastados na fila de um cavalo aparelhado.

Acompanhados dos sacerdotes que os auxiliavam, e custodiados pela guarda correspondente, chegaram ao pé da forca, e – por meio de dois carrascos – foram-lhes dadas as seguintes mortes :

“Verdejo, Castelo, o zambo e Bastidas foram enforcados simplesmente.  Francisco Túpac Amaru, tio do insurgente, e seu filho Hipólito tiveram a língua cortada antes de serem conduzidos à escada da forca.

A índia Condemaita foi garroteada com um torno de ferro num tabladinho … tendo o índio e sua mulher visto com seus olhos estes suplícios serem executados, até em seu filho Hipólito, que foi o último a subir á forca.

Depois, subiu a índia Micaela ao tablado onde, também na presença do marido, teve a língua cortada e foi garroteada, padecendo infinitamente, porque, tendo o pescoço muito fino, o torno não conseguia estrangulá-la, e foi necessário que os carrascos, colocando laços em seu pescoço, tirando de uma parte para a outra, e dando-lhe pontapés no estômago e no peito, acabassem de matá-la.

“A função encerrou-se com o rebelde José Gabriel, que foi levado ao meio da praça : ali o carrasco lhe cortou a língua, e despojado dos grilhões e algemas, foi posto no chão.

Ataram-lhe as mãos e os pés com quatro laços, e prenderam estes às cilhas de quatro cavalos; quatro carrascos os instigavam rumo a quatro distintas partes : espetáculo que jamais se viu nesta cidade.

Não sei se, pelo fato de os cavalos não serem muito fortes, ou porque o índio na realidade fosse de ferro, não conseguiram absolutamente dividi-lo depois de o estarem puxando para lá e para cá, por um longo momento, de modo que o mantinham no ar, num estado que parecia uma aranha.

Tanto, que o Visitador, para que aquele infeliz não padecesse mais, despachou uma ordem da Companhia, mandando que o carrasco lhe cortasse a cabeça – o que foi feito.

Depois, o corpo foi conduzido para debaixo da forca, onde se lhe tiraram os braços e pés. Isto também foi feito com as mulheres e, com os demais, tiraram as cabeças para enviá-las a diversos povoados.

Os corpos do índio e de sua mulher foram levados a Picchu, onde havia uma fogueira, na qual foram jogados e reduzidos a cinzas que foram lançadas ao ar e ao riacho que por corre ali.

Deste modo, acabaram com José Gabriel Túpac Amaru e Micaela Bastidas, os quais, com muito orgulho, chegaram a se considerar reis do Peru, Quito, Tucumã e outras partes . . .

“Neste dia, afluiu um grande número de pessoas, porém ninguém gritou nem levantou a voz. Muitos observaram – eu entre eles – que entre tantos presentes não se viam índios, ao menos com seus trajes típicos e, se algum havia, estaria disfarçado com capas e ponchos. […]

Tendo feito um tempo muito seco e dias muito serenos, aquele dia amanheceu nublado, não se vendo a cara do Sol, ameaçando chover por toda parte.

Já lá pelo meio-dia, quando os cavalos estavam estirando o índio, levantou-se uma forte rajada de vento e depois dela, um aguaceiro que fez com que todas as pessoas, inclusive os guardas, se retirassem apressadamente.

Isto foi a causa de os índios terem começado a dizer que o céu e os elementos sentiram a morte do Inca que os desumanos e ímpios espanhóis estavam matando com tanta crueldade.”

Esse dia, a natureza mostrou ser mais piedosa do que os homens.

Lucia Gálvez

CUBA – HAYDÉE SANTAMARÍA (1922-1980)

06/05/2010

HAYDÉE SANTAMARÍA, UMA MULHER REVOLUCIONÁRIA : CARTAS A CHÊ GUEVARA E AOS PAIS DELA (Rebelión)

Haydée Santamaría Cuadrado [1922-1980] é uma das mulheres que participaram em 26/jul/1953 do assalto ao quartel Moncada liderado por Fidel Castro.

Depois desse assalto, muitos combatentes foram capturados pelo Exército do ditador Batista. Como já é um triste “costume” … – hoje empregado pelos militares norte-americanos no Iraque e em Guantânamo, como ontem no Vietnam e em inumeráveis lugares do mundo; pelo Exército francês na Argélia; pelos militares argentinos, chilenos, israelenses e sul-africanos; e por todos os aparatos de repressão que defendem o capitalismo – esses combatentes foram torturados.

Abel Santamaría Cuadrado [1927-1953], irmão de Haydée, foi um dos torturados. Assassinaram-no ali mesmo. Os sobreviventes foram encarcerados. Haydée escreve, então, esta carta a seus pais – que agora reproduzimos – após o assassinato de Abel na tortura. Nela, faz referência aos sonhos rebeldes de seu irmão e ao significado de Fidel Castro para o movimento revolucionário.

Haydée foi uma das encarregadas de tirar clandestinamente do cárcere e de recompor, por vias distintas, o célebre arrazoado de Fidel Castro no julgamento ante seus captores, conhecido popularmente como ‘A história me absolverá’.

Mais tarde, tendo sido uma das co-fundadoras do Movimento 26 de julho, Haydée participa como combatente guerrilheira na luta que provocará a queda de Batista e o triunfo da Revolução Cubana. Não é a única mulher que participa desta luta, mas é uma das mais destacadas, junto com Celia Sánchez [1920-1980], Melba Hernández e muitas outras. Por exemplo, em 04/set/1958, forma-se na Sierra Maestra o pelotão “Mariana Grajales” do Exército Rebelde, constituído exclusivamente por mulheres combatentes.

Com o triunfo da Revolução Cubana, Haydée – cujo apelido era Yeyé – funda em 1959 uma instituição cultural que será emblema entre os intelectuais críticos de todo o orbe: a Casa das Américas. Ali receberá os intelectuais mais importantes do mundo, que visitaram Cuba e descobriram o papel fundamental que a Revolução ofereceu à cultura. Muitos deles recordam-se de Haydée, entre outros, nosso querido Julio Cortázar.

Mais tarde, será uma das co-fundadoras e membro do comitê central do novo Partido Comunista Cubano (fundado em 1965, a partir da unidade de várias organizações lideradas pelo Movimento 26 de Julho) e integrará a presidência da Organização Latino-americana de Solidariedade (OLAS), reunida em Havana em 1967 para coordenar a luta de insurreição em todo o continente.

Nesse ano, ocorre o assassinato de Chê Guevara na Bolívia (outra vez, como sempre, realizado a sangue frio e por ordens da CIA e dos rangers norte-americanos que assessoravam o Exército boliviano). Depois que se soube em Cuba de seu assassinato, Haydée escreve a Chê a carta que agora reproduzimos.

Nesse mesmo ano, em 13/jul/1967, Haydée faz uma conferência aos estudantes da Escola de Ciências Políticas da Universidade de Havana, sobre o assalto ao Quartel Moncada. Nela, relata grande parte de sua experiência como mulher revolucionária e combatente guerrilheira.

Em uma das passagens, Haydée diz a um estudante : “Para mim, ser comunista não é militar num partido; para mim, ser comunista é ter uma atitude diante da vida.” Noutro trecho, resumindo o que sentem muitas mulheres revolucionárias do mundo que caíram sob a repressão, afirma:  “Ia presa, algemada, manietada e me sentia mais forte e mais livre do que aqueles que, com a toga da justiça, iam-me julgar.” Mais adiante, confessa a uma jovem estudante: “E assim, companheira, posso lhe dizer que até ver cair, até ver morrer um inimigo, impressionou-me. Impressionou-me tremendamente ver cair aquele que vínhamos combater […] Já sou inimiga não só de matar por gosto, sou inimiga até de ser violenta por gosto. Creio que é preciso um grande esforço para ser violenta, para ir à guerra, mas é necessário ser violenta e ir à guerra se for preciso.”

Essa extensa conversa foi editada posteriormente no livro ‘Haydée fala do Moncada’ [Havana, Casa das Américas, 1985]. No ano seguinte, em 1968, Haydée viaja ao Vietnam como parte de uma delegação da Revolução Cubana solidária com o indomável povo de Ho Chi Minh.

Hoje em dia, ela se converteu num símbolo da mulher revolucionária, além das fronteiras da Revolução Cubana. Por exemplo, na Austrália, Betsy Maclean acaba de publicar uma antologia – em inglês – que inclui, além da introdução, escritos e cartas de Haydée e sobre Haydée [Leiam: Haydée Santamaría, editado por Betsy Maclean. Austrália, Ocean Press, 2003. Coleção: “Rebel lives” (Vidas rebeldes)].

Como mulher revolucionária, como militante, como intelectual e como combatente pelo socialismo, Haydée Santamaría – junto com suas companheiras cubanas – faz parte de uma extensíssima e gloriosa tradição mundial que também integra as militantes francesas, Flora Célestine Thérèse Tristan  [1803-1844], Louise Michel, Madame Fautin y Hortense David; a inglesa, Elisabeth Dmitrieff; as russas, Vera Ivánovna Zasúlich [1851-1919] e Alexandra Kollontai [1872-1952]; a alemã, Clara Eissner Zetkin [1857-1933]; a judia polonesa, Rosa Luxemburgo [1871-1919]; a ucraniana-norte-americana, Raya Dunayevskaya [1910-1987]; a espanhola, Dolores Ibárruri Gómez [1895-1989]; a vietnamita, Nguyen Thi Binh; a argelina, Djamila Boupacha; a nicaragüense, Luisa Amanda Espinoza [1948-1970]; a alemã, Ulrike Marie Meinhof [1934-1976]; a argentina-alemã, Haydée Tamara Bunke Bider [1937- 1967]; a italiana, Margherita Cagol [?-1975]; e as argentinas, Alicia Eguren [1924- 1977] e Ana María Villareal de Santucho [1936-1972] – entre muitíssimas e muitíssimas outras. Uma tradição heróica de pensamento e ação – integrada por vertentes distintas e experiências diversas – onde a luta das mulheres jamais se separa da luta pela revolução e do combate pela causa mundial do socialismo.

A Cátedra de Formação Política, Ernesto Chê Guevara, reproduz estas cartas de Haydée por três razões: em primeiro lugar, porque constituem documentos históricos muito importantes sobre a Revolução Cubana. Em segundo lugar, porque ajudam a conhecer a personalidade de Haydée Santamaría e a compreender o papel central desempenhado por ela e por outras mulheres na luta revolucionária latino-americana. Em terceiro lugar, como uma pequeníssima homenagem a todas as mulheres do mundo que, no Iraque, na Palestina, na Colômbia, no país basco, no Brasil, em Chiapas, e em todos os rincões do mundo participam da luta revolucionária, resistindo à repressão, às torturas, às violações e a toda a barbárie com que o imperialismo pretende domesticar a rebelião dos nossos povos.

(Agradecemos à companheira Celia Hart, filha de Haydée Santamaría e Armando Hart, que nos permitiu reproduzir ambas as cartas.)

[Fim da nota introdutória de Néstor Kohan.]

Até a vitória sempre, Chê querido

[Carta de Haydée Santamaría a Chê Guevara, escrita depois do assassinato de Chê na Bolívia]

Chê : aonde te posso escrever? Dir-me-ás que a qualquer parte, a um mineiro boliviano, a uma mãe peruana, ao guerrilheiro que está ou não está, mas estará.

Tudo isto eu sei, Chê, tu mesmo mo ensinaste e, além disso, esta carta não seria para ti. Como dizer-te que nunca havia chorado tanto desde a noite em que mataram Frank e, desta vez, isso em que eu não acreditava.

Todos estavam seguros e eu dizia: não é possível, uma bala não pode terminar com o infinito. Fidel e você têm que viver. Se vocês não viverem, como viver.

Faz quatorze anos que vejo morrerem seres tão imensamente queridos, que hoje me sinto cansada de viver. Creio que já vivi demais, não vejo o sol tão belo, a palmeira, não sinto prazer em vê-la; às vezes, como agora, apesar de gostar tanto da vida e por essas duas coisas valer a pena abrir os olhos cada manhã, sinto desejo de tê-los fechados como esses seres, como tu.

Como pode ser certo? Este continente não merece isso; com teus olhos abertos, a América Latina tinha pronto seu caminho. Chê, a única coisa que pôde consolar-me é ter ido, mas não fui, estou junto a Fidel, fiz sempre o que ele deseja que eu faça. Lembras-te? Prometeste-me na Serra, disseste-me: não sentirás falta de café, teremos mate.

Não tinhas fronteiras, mas me prometeste que me chamarias quando tu fosses à tua Argentina, e como o esperava, sabia bem que o cumpririas. Já não pode ser, não pudeste, não pude. Fidel o disse, tem que ser verdade, que tristeza.

Não podia dizer “Chê”, tomava forças e dizia “Ernesto Guevara”, assim comunicava isso ao povo, ao teu povo. Que tristeza tão profunda, chorava pelo povo, por Fidel, por ti, porque já não posso. Depois, na celebração, este grande povo não sabia que graus Fidel colocaria em ti.

Coloquei-os em ti: artista. Eu pensava que todos os graus eram poucos, pequenos, e Fidel, como sempre, encontrou os verdadeiros : tudo o que criaste foi perfeito, mas fizeste uma criação única, fizeste-te a ti mesmo, demonstraste como é possível esse homem novo, todos veríamos assim que esse homem novo é a realidade, porque existe, és tu.

Que mais posso dizer-te, Chê? Se soubesse, como tu, dizer as coisas. De todas as maneiras, uma vez me escreveste: “Vejo que te converteste em uma literata com domínio da síntese, mas te confesso que gosto mais de ti é num dia de ano novo, com todos os fuzis disparados e dando tiros de canhão em volta. Essa imagem e a da Sierra (até nossas pelejas daqueles dias me são gratas na lembrança) são as que levarei de ti para uso próprio.” Por isso, não poderei escrever nunca nada de ti e terás sempre essa recordação.

Até a vitória sempre, Chê querido.

Haydée

Carta enviada da prisão por Haydée Santamaría a seus pais

[escrita em 1953, depois do assalto ao quartel Moncada, ao chegar ao cárcere de mulheres de Guanajay]

Já estou em Guanajay. Desde que cheguei, ia-lhes escrever, porém sei que sabiam de minha permanência aqui por Elena e Manoel e que sabiam que estava muito bem.

Creio que faz uns 15 dias que estou aqui e pensei que fosse melhor esperar uns dias para lhes escrever e lhes contar algo disto e como são as coisas para vir [visitar-me], e se podiam fazê-lo e se deixavam crianças entrarem, para que me trouxessem Carín [Sobrinha de Haydée, então um bebê]. Podem dizer-lhes que podem trazê-los, e as visitas são aos domingos das 2 da tarde às 6.

Quero que saibam que estou muito bem, [portanto] vocês não se preocupem em vir. Todos os domingos, muitas pessoas vêm e nos trazem de tudo, além disso, a comida é boa, assim que não devem ter preocupações.

Creio que no domingo em que vierem, que não deve ser mais de uma vez ao mês, comuniquem-mo antes, para que nesse domingo não venham mais visitas, para eu assim poder estar com vocês e não ter que atender a mais pessoas que vêm todos os domingos por serem daqui mesmo. Por isso, devem-me avisar antes de vir. Repito-lhes, estou no melhor de mim. Não fosse pela preocupação de vocês por mim, e por eu saber da dor que têm ao pensar que não terão mais Abel [Abel Santamaría, irmão de Haydée, assaltante do quartel Moncada junto com Fidel, capturado, torturado e assassinado pelos torturadores de Batista] com vocês, eu poderia dizer-lhes que sou quase feliz. Se vocês pensassem em Abel da forma com que eu penso, poderiam ser também, se não felizes, ao menos não tão machucados como sei que estão.

Mamá, Nino [apelido carinhoso empregado por Haydée em relação ao pai, Benigno Santamaría], sei bem que nada que lhes disser lhes tirará esta terrível aflição. Talvez, quando os anos se passarem, me entenderão.  Quando tiverem de verdade a segurança de que vocês são pais privilegiados, que terão sempre esse filho, e o terão tal como era – bom, jovem, bonito – jamais esse filho será como os outros, os outros ficarão velhos, feios, ácidos.

Abel foi, é e será esse filho que não envelhece, continuará sempre com seu rosto tão lindo, continuará sempre para vocês, para todos nós, com sua força, com sua infinita ternura. Será o que nos faz ser bons de verdade, será sempre o guia, e para vocês, será o filho mais próximo. Pensem bem que já vocês sofreram mudanças, mudanças tão grandes e belas, e mesmo que fosse só por isso, me conformo, sou quase feliz. Abel os tornou cubanos, Abel conseguiu fazer com que vocês amem esta terra, amem a bonita terra onde nasceu, e creio que é a única coisa que ele amava mais do que a vocês.

Como vocês podem pensar, não terão mais Abel, porém ele, de Santa Ifigênia, lhes disse: amem Cuba, amem Fidel, e vocês, embora ele tenha pedido isso antes, hoje entenderam essa verdade e eu, se não os visse mais, sentiria a felicidade de sempre ter pais, porque souberam ser pais de Abel.

Mamá, Nino, e tu, sobretudo, Mamá, me disseste tantas vezes que eu nada mais queria para Abel, que era o único que me importava na família, e hoje vivo, não estou machucada. Por que tu não vais viver, não ficar machucada ?

Vão viver mais do que nunca para ele, vais amar o que tanto amou; podes dedicar-te a defender o que era a razão de sua vida: os trabalhadores de Constância [Central Açucareira Constância. A Revolução Cubana o batizou, após o triunfo, de Abel Santamaría Quadrado], não os Luzarragas [sobrenome dos latifundiários exploradores da zona onde vivia a família Santamaría Cuadrado].

Mamá, aí tens Abel, não te dás conta, Mamá? Abel não nos faltará jamais. Mamá, pensa que Cuba existe e Fidel está vivo para construir a Cuba que Abel queria. Mamá, pensa que Fidel também te ama e que, para Abel, Cuba e Fidel eram a mesma coisa, e Fidel necessita muito de ti. Não permitas a nenhuma mãe que te fale mal de Fidel, pensa que isso, sim, Abel não te perdoaria.

Haydée

Cuba – José Martí (1883-1895) (Cintio Vitier)

06/05/2010

De onde cresce a palma

Primogênito de modestos imigrantes, José Martí, sem nunca renegar sua raiz hispânica, sentiu-se fruto de Cuba, a terra que o viu nascer. Sendo ainda um menino, os espetáculos sanguinolentos da escravidão fizeram-no pronunciar um juramento: “lavar com sua vida o crime”. Ao despontar sua adolescência, já era um lutador contra o colonialismo, que o condenou a trabalho forçado, com corrente e grilhão no pé, num presídio político cujos horrores ele denunciaria e no qual, paradoxalmente, forjou sua liberdade espiritual, sua ética militante, com a qual chegou a pregar uma guerra de libertação “necessária”, mas “sem ódio”.

Seu desterro em Madri e Zaragoza, onde estudou, confirmou, por um lado, seu vínculo com o espírito rebelde do povo da Espanha e por outro, que Cuba não podia esperar nada de seus governos, monárquicos ou republicanos. Sua peregrinação pelo México, Guatemala e Venezuela fê-lo experimentar os problemas das novas repúblicas ainda lastradas por vícios coloniais. Sua permanência de cerca de 15 anos nos Estados Unidos permitiu-lhe conhecer a fundo os grandes criadores da cultura, os méritos e perigos de seu sistema social, as características de seu povo e a crescente tendência imperialista de seu governo.

Este périplo vital foi expresso numa obra literária e jornalística de primeira magnitude, que adquiriu seu impulso definitivo a partir da viagem de Martí à Venezuela em 1881. O orador do discurso no Clube de Comércio de Caracas, o editorialista da Revista Venezuelana, o poeta de Ismaelillo, o autor do Prólogo ao Poema de Niágara de Juan Antonio Pérez Bonalde, já é o iniciador de uma nova literatura hispano-americana que vai ter um Rubén Darío – que chamou Martí de “Mestre” quando este caiu em Dois Rios – sua cabeça mais visível.

Entretanto, Martí não se dedicou – e essa é outra lição da parábola de sua vida – a lavrar para si uma reputação literária, mas sim pôs seu gênio verbal, como orador e como jornalista, a serviço da causa de Cuba e da que chamara, em páginas memoráveis, de “Nossa América”, à conscientização da qual dedicou o testemunho de seus Cenários Norte-americanos.

Vida toda ela dominada pela ética, pelo sentido do dever e do sacrifício, quando José Martí proclama o Partido Revolucionário Cubano, a 10 de abril de 1892 em Nova York, os humildes emigrados na Flórida já começavam a chamá-lo por um apelido – o Apóstolo – que significativamente ultrapassava os marcos políticos habituais.

A partir daquela proclamação precedida por um discurso fundador do novo projeto República – “Com todos, e para o bem de todos”, pronunciado no Liceu de Tampa a 26 de novembro de 1891 – a  atividade revolucionária de Martí alcança uma intensidade surpreendente, refletida em seus discursos, em seus artigos no jornal Pátria, em seu epistolário e em suas viagens incessantes, incluindo as que teve de fazer para garantir a incorporação dos dois generais mais prestigiosos da Guerra dos Dez Anos : Máximo Gómez, eleito General-em-chefe do Exército Libertador, e Antonio Maceo.

No citado discurso, Martí tinha dito: “Ou a República tem por base o caráter inteiro de cada um de seus filhos – o hábito de trabalhar com suas mãos e pensar por si próprio, o exercício íntegro de si e o respeito, como de honra de família, ao exercício íntegro dos demais: a paixão, enfim, pelo decoro do homem – ou a República não vale uma lágrima de nossas mulheres nem uma só gota de sangue de nossos bravos.”

Princípios desta fecundidade aparecem nos documentos que inspiraram, no fim da guerra, a república martiana, tais como o artigo Nossas idéias, Manifesto de Montecristi e as últimas cartas a Federico Henríquez y Carvajal e a Manuel Mercado. Segundo estes e muitos outros textos, a República seria uma democracia integral, sem privilégios de raça nem de classe, fundada no desfrute eqüitativo da riqueza e da cultura, e em reivindicação das massas produtoras.

Por outra parte, na citada carta a seu confidente mexicano, poucas horas antes de cair em combate, escreveu: “…já estou todos os dias em perigo de dar minha vida por meu país e por meu dever – posto que o entendo e tenho vontade de realizá-lo.” Para Martí, esse dever consistia em impedir a tempo, ao ficar Cuba independente da Espanha, que um novo imperialismo se estendesse pelas Antilhas e caísse ainda com maior força sobre as terras da América.

Para isso, pois, e não só para libertar Cuba do jugo espanhol, organizou José Martí a nova guerra, na qual caiu, em 19 de maio de 1895.

No fundo do povo, a parábola martiana continuou minando lições e apelos, pois como ele disse também a Mercado: “Vou desaparecer, mas meu pensamento não desaparecerá.”

Sua maior glória está em ter sabido falar aos pobres e às crianças, em ter sabido viver e morrer por eles. Continuará, por conseguinte, iluminando-os com seu exemplo, já que sua obra na terra que o viu nascer, na terra toda, não tem fim.

CRONOLOGIA DE JOSÉ MARTÍ

1853 janeiro, 28. Nasce em Havana, à Calle de Paula N.° 41, José Martí; filho de Mariano Martí, de Valencia, e de Leonor Pérez, de Santa Cruz de Tenerife.

1857 Martí viaja com seus pais à Espanha.

1859 Regresso de Martí a Cuba.

1866 Início dos estudos de Segundo Grau, depois de ter estudado com o poeta Rafael María de Mendive.

1869 Martí publica seus primeiros escritos independentistas no jornal El Diablo Cojuelo, de seu amigo, Fermín Valdés. Faz o primeiro e único número de seu jornal La Patria Livre, onde aparece seu drama Abdala. Em 21 de outubro, Martí é detido e encarcerado.

1870 Martí é condenado a seis anos de presídio político e logo transferido por indulto à Ilha de Pinos.

1871 Deportação para a Espanha. Publicação do ensaio El presidio político en Cuba. Matricula-se na Universidade Central de Madri como estudante de direito.

1872 Transferência a Zaragoza por motivos de saúde, em conseqüência de uma doença contraída durante sua condenação nas pedreiras de Havana. Começa a escrever seu drama Adúltera.

1873 Estudos de direito e filosofia na Universidade de Zaragoza. Publicação do trabalho: A República Espanhola ante a Revolução Cubana.

1874 Faz o exame de bacharel e obtém as licenciaturas em Direito Civil e Canônico e em Filosofia e Letras. Em dezembro, abandona a Espanha e visita várias cidades da França. Embarca para o México em Le Havre.

1875 Chega a Veracruz, México. Começa seu trabalho na redação da Revista Universal, onde publica um boletim sob o pseudônimo de “Orestes” e traduz partes de Mes Fils de Víctor Hugo.

1876 Delegado ao Primeiro Congresso Operário Mexicano. Em dezembro, embarca para Cuba.

1877 Regressa ao México e se instala na Guatemala onde é nomeado catedrático de filosofia na Escola Normal Central da Guatemala. Em dezembro, viaja ao México para contrair matrimônio com Carmen Zayas.

1878 Publica o folheto Guatemala. Regressa à sua cátedra na Guatemala; mas renuncia após poucos meses e viaja para Cuba. É negada sua solicitação de exercer a advocacia. Nasce seu filho, José Francisco, em Havana.

1879 Discursos políticos em Cuba. Nova deportação para a Espanha. Em dezembro, viaja para a França.

1880 Chega a Nova York. Inicia sua colaboração com os periódicos The Hour e The Sun.

1881 Viaja para a Venezuela. Funda a Revista Venezuelana. Regressa a Nova York. Inicia sua colaboração com A Opinião Nacional, de Caracas.

1882 Publica seu primeiro livro de Versos: Ismaelillo. Escreve seus Versos livres. É nomeado correspondente do La Nación, de Buenos Aires.

1883 Direção da revista La América em Nova York. Publica várias traduções, entre outras a de Noções Lógicas, de Stanley Jevons; e sua famosa “Carta” sobre a morte de Marx.

1884 Entrevista com Máximo Gómez e Antonio Maceo em Nova York. Analista dos movimentos sociais nos Estados Unidos.

1885 Publicação de numerosas crônicas e estudos sobre a vida social, política, científica e cultural nos Estados Unidos.

1886 Correspondente do La Nación, de Buenos Aires; do El Partido Liberal, do México; do La República, de Honduras; e do La Opinión Pública, de Montevidéu.

1887 Morte do pai em Havana. Novamente é nomeado Cônsul do Uruguai. Prossegue sua intensa atividade jornalística.

1888 Representante da Associação de Imprensa de Buenos Aires no Canadá e Estados Unidos. É nomeado sócio-correspondente da Academia de Ciências e Belas Artes de São Salvador.

1889 Publica o folheto Cuba e os Estados Unidos, e edita o primeiro número de sua revista dedicada às crianças da América: A Idade de Ouro.

1890 É nomeado Cônsul da Argentina e do Paraguai em Nova York; e representante do Uruguai na Comissão Monetária Internacional Americana em Washington.

1891 Renuncia a seus cargos diplomáticos para dedicar-se à causa da independência de Cuba com toda a liberdade. Publica seus Versos Simples e o ensaio Nuestra América. Pronuncia seus famosos discursos: Com todos e para o bem de todos e Os pinos nuevos.

1892 Funda o Partido Revolucionário Cubano e edita o primeiro número de seu jornal Pátria. Viagens e discursos pelos Estados Unidos, Haiti, Jamaica e Santo Domingo.

1893 Continua suas viagens e sua atividade em favor da independência de Cuba.

1894 Entrevista com Máximo Gómez em Nova York e Filadélfia. Viagens pela América Central e pelo Caribe, organizando a guerra de independência. Entrevista com Porfirio Díaz no México. Regressa aos Estados Unidos.

1895 Viagem a Montecristo, onde redige o Manifesto de Montecristo e sua carta-testamento política a Federico Henríquez y Carvajal; sua carta-testamento literária a Gonzalo de Quesada y Aróstegui; e sua carta não-concluída a Manuel Mercado. A 15 de abril, o Generalíssimo Máximo Gómez o nomeia Major-General. A 19 de maio, cai mortalmente ferido numa ação de guerra em Dois Rios. Seu cadáver é transferido para Santiago de Cuba. É enterrado em 27 de maio.

Síntese de seu pensamento:

— Antiimperialista e verdadeiro paladino da unificação da América Latina e do Caribe. Na sua condição de delegado do Partido Revolucionário Cubano, pôs em prática sua concepção de política exterior que, baseada no latino-americanismo e no antiimperialismo, não limitava seu desempenho ao estabelecimento de nexos com os governos e a estendia aos povos. Em dezembro de 1889, Martí pronunciou um discurso conhecido como “Mãe América”, que constitui todo um projeto de política exterior, onde fixa os princípios que deviam reger as relações interamericanas e a unidade de nossos povos, como força imprescindível para frear e enfrentar a conquista da América Latina pelos Estados Unidos.

─ Identifica a revolução com as profundas mudanças ansiadas por essa massa não resgatada que reflete em sua mísera situação todos os horrores da grande exploração colonial. Dirá “Com os pobres da terra quero minha sorte lançar.”

─ Entende que a verdadeira revolução há de nascer da massa indígena, porque é nela onde a dignidade americana tem sido vilmente ultrajada e onde estão contidas, portanto, as exigências mais radicais para a reivindicação de uma nova vida.

─ Pensa que a independência sozinha não é a solução para as novas repúblicas. Para ele, a independência, se não vai acompanhada de um profundo projeto libertário orientado a erradicar todas as deformações criadas pela dominação estrangeira – tanto econômicas como políticas e culturais – não será mais do que uma simples troca de formas. Por isso, advertiu: “O problema da independência não era a troca de formas, mas sim a troca de espírito.”

Citações importantes:

Sobre Nossa América:

“Na América, há dois povos e não mais que dois, de alma muito distinta pelas origens, antecedentes e costumes e só semelhantes na identidade fundamental humana. De um lado, está nossa América e todos seus povos que são de uma natureza e de berço parecido ou igual e igual mistura imperante; da outra parte, está a América que não é nossa . . .”

Sobre a unidade:

“É a hora do reencontro e da marcha unida e temos de andar em quadro apertado, como a prata nas raízes dos Andes . . .

Sobre a cultura nacional:

“A universidade européia há de ceder à universidade americana. A história da América, dos incas até aqui, há de ser ensinada de cor, ainda que não ensine a das arcas da Grécia. Nossa Grécia é preferível à Grécia que não é nossa. É, para nós, mais necessária. Os políticos nacionais hão de substituir os políticos exóticos. Enxerte-se o mundo em nossas repúblicas, mas o tronco tem de ser o de nossas repúblicas. E cale-se o pedante vencido, pois não há pátria em que o homem possa ter mais orgulho do que nas nossas dolorosas repúblicas americanas.”

Sobre os jovens na América:

“Os jovens da América  arregaçam a camisa, metem as mãos na massa e a fazem crescer com a levedura de seu suor. Entendem que se imita demasiadamente e que a salvação está em criar. Criar é a senha desta geração. “O vinho, de banana; e se ficar azedo, é nosso vinho !”

Sobre a luta ideológica:

“Trincheira de idéias valem mais do que trincheiras de pedra… Uma idéia enérgica, flamada a tempo ante o mundo, detém, como a bandeira mística do juízo final, um esquadrão de encouraçados.”

Sobre a autocrítica:

“Estratégia é política. Os povos hão de viver criticando-se, porque a crítica é a saúde; mas, com um só peito e uma só mente. Abaixar-se até os infelizes e erguê-los nos braços. Com o fogo do coração descongelar  a América coagulada!”

O legado filosófico de José Martí

Não tememos as palavras e podemos concordar com aqueles que afirmam que entramos em uma era pós-moderna e, a esta altura da história, só há duas formas de conceber um tempo posterior à idade moderna: uma seria o caos presente na dramática realidade de hoje que ameaça destruir a civilização que chamaram de ocidental e inclusive toda a humanidade. Outra consiste em coroar a idade da razão com princípios éticos e iniciar a verdadeira história do homem. Tudo o que foi anteriormente criado ficará sendo pré-história. É a única forma racional de assumir uma época que suceda à modernidade e ao capitalismo.

Não há mais alternativa do que enfocar problemas de caráter filosófico, deixando para trás terminologias de origem européia que estabelecem uma cerca com as massas e ir diretamente ao pensamento dos maiores filósofos do velho continente nos dois últimos séculos.

Na história da humanidade, não houve nenhuma mudança importante que não estivesse precedida por uma elaboração intelectual. Não há império romano sem direito romano e a cultura que se acumulou no Mediterrâneo; não teria existido ascensão do capitalismo no trânsito entre a idade média e a moderna, sem o Renascimento; tampouco, teriam existido revoluções burguesas e ascensão do capitalismo europeu, nos finais dos séculos XVIII e XIX, sem a ilustração e os enciclopedistas; não haveria, tampouco, movimento emancipador da nossa América, sem a enorme cultura representada por Bolívar, Martí e os próceres e pensadores de nossas pátrias. Os exemplos podem ser muitos outros.

A necessidade de uma reflexão filosófica e cultural profunda nos está imposta pelos tempos de mudança em que vivemos. Em que consistiria? Como enfrentar, na prática, os problemas teóricos fundamentais de nossa época para abrir caminho à ação eficaz?

Para encontrar o caminho de um novo pensamento filosófico latino-americano, devemos partir de seus antecedentes e identificar quais são os problemas concretos de hoje.

Em 1887, nosso Herói Nacional, ao analisar com visão premonitória os perigos que se gestavam a partir dos Estados Unidos, assinalou : Vão-se levantando no espaço, como imensos e lentos fantasmas, os problemas vitais da América: – os tempos pedem algo mais do que fábricas da imaginação e urdimento de beleza. Podem-se ver – em todos os rostos e em todos os países, como símbolos da época – a vacilação e a angústia. O Mundo inteiro é hoje uma imensa pergunta.  

Passaram-se mais de cem anos destas palavras e elas mantêm uma vigência renovada. Como responder a esta pergunta no século XXI quando o desafio se apresenta de uma maneira mais dramática e universal? Os cubanos contam com o arsenal de idéias filosóficas presentes no pensamento de José Martí. Assinalemos as seguintes :

– As concepções acerca do que ele chamou de “a ciência do espírito”.

– As idéias expressas com beleza poética nos versos do poema Yugo y estrella.

– Os enfoques de grande valor no campo da pedagogia, em relação aos vínculos entre a maldade e a estupidez e entre a bondade e a inteligência.

– O conceito de que todo homem leva dentro dele uma fera adormecida, porém, ao mesmo tempo, somos seres admiráveis capazes de colocar rédeas na fera.

– A aspiração a uma filosofia com a essência do conceito de universo, quer dizer, uno no diverso.

– A idéia acerca de uma filosofia das relações.

– Os critérios acerca da importância da educação e da cultura na libertação humana.

– As idéias éticas e estéticas e a relação entre elas: Verso: ou nos condenam juntos / ou nos salvamos os dois.

– O princípio que estabelece: Enxerte-se o mundo em nossas repúblicas; porém, o tronco tem de ser o de nossas repúblicas.

– As concepções sobre o equilíbrio do mundo, analisadas tanto no individual como no social, assim como em sua dimensão universal.

Estas idéias martianas e muitas outras, mais vistas em sua relação com o melhor do pensamento filosófico universal de todas as épocas, desde a mais remota antiguidade até a atualidade, manifestam uma carga de ciência e utopia, de realidade e sonho por um mundo melhor.

Em Martí, fazem síntese: o imenso saber da modernidade européia; a mais pura tradição ética de raízes cristãs, que em Cuba nunca se situou em antagonismo com as ciências; a influência despreconceituosa das idéias da maçonaria, em seu sentido mais universal e de solidariedade humana; a tradição bolivariana e latino-americana, que Martí enriqueceu com sua vida no México, América Central e Venezuela; e as idéias e sentimentos antiimperialistas surgidos a partir das próprias entranhas do império ianque, onde ele viveu durante mais de quinze anos, mais que um terço de sua vida, e completou ali seu pensamento político, social e filosófico, a partir da óptica dos interesses latino-americanos. Foi, sem dúvida, o analista mais profundo sobre a realidade norte-americana da última metade do século XIX.

Antônio Gramsci afirmou que toda grande filosofia começava por verdades do senso comum. Vejamos a primeira: todo homem precisa comer, vestir-se, ter um teto, antes de fazer filosofia, religião e cultura. Derivemos dela a segunda: não há homem, no sentido universal que nós todos conhecemos, sem a cultura.

Que ensinamento extraem os cubanos hoje, destas idéias e de suas conseqüências ulteriores? A primeira e mais importante lição está em que o déficit principal do que se chamou esquerda nos últimos cem anos foi ter divorciado as lutas sociais e de classes da melhor tradição cultural latino-americana. Isto não sucedeu dessa forma em Cuba. Aqui, durante o século XX, articulou-se o legado patriótico e antiimperialista do século XIX com as idéias socialistas.

José Martí representa o símbolo supremo de dois séculos de história cubana e americana. Uma cultura que, desde sua gestação e nascimento, está dedicada à ação e, portanto, vinculada aos problemas imediatos de nossa atualidade.

Amar e pensar, eis aí a mensagem martiana que devemos assumir frente aos desafios que a humanidade tem diante de si.

Armando Hart Dávalos

Guatemala – Jácobo Arbenz Guzmán (1913-1971) (Equipe Emancipación)

06/05/2010

Jacobo Arbenz Guzmán nasceu a 14 de setembro de 1913, na cidade de Quezaltenango. Era filho do suíço, Jacobo Arbenz, e de Octavia Guzmán, guatemalteca. Realizou seus estudos primários em sua cidade natal.

Em 1932, aos 19 anos de idade, ingressou na Escola Politécnica da capital, como cadete bolsista. Foi aluno distinguido e depois se dedicou ao estudo dos problemas sociais, políticos e econômicos da Guatemala. Contraiu matrimônio com a senhora Villanova de Arbenz.

Estudou e foi instrutor na Academia Militar. Foi um dos principais membros da Revolução de Outubro de 1944, levante cívico-militar que convocou as primeiras eleições livres realizadas na Guatemala em meio século. Integrou o gabinete do presidente Juan José Arévalo, como ministro da defesa, e em 1950, com forte apoio popular, triunfou nas eleições presidenciais.

Em fevereiro de 1954, expropria as terras da United Fruit ao longo da linha da ferrovia e instaura um modesto imposto sobre as exportações de banana para financiar programas sociais. Afetada a United Fruit pela reforma agrária arbencista, os EUA criaram um inimigo na Guatemala: o comunismo internacional e a desculpa para derrubá-lo.

Foi deposto por um golpe de estado orquestrado pela CIA. Em 27 de junho de 1957, viu-se forçado a renunciar, para que a agressão armada – iniciada 10 dias antes a partir do território hondurenho, por um grupo de paramilitares apoiados pelos Estados Unidos – fosse detida. Seu governo foi substituído por uma brutal ditadura militar dirigida por Carlos Castillo Armas.

 “É preferível minha renúncia a vinte anos de tirania fascista e sangrenta, sob o poder dos bandos que Castillo Armas trouxe”, disse.

Morreu em 27 de janeiro de 1971, durante seu exílio no México.

Sua luta

Arbenz, em toda a sua atuação, defendeu a soberania da Guatemala ante as ameaças imperialistas norte-americanas. Trabalhou pela sua independência econômica, enfatizando a necessidade de controlar o capital estrangeiro, para que fosse admitido só na medida em que o mesmo se ajustasse às condições locais, permanecesse sempre subordinado às leis guatemaltecas, cooperasse com o desenvolvimento do país e se abstivesse de intervir em sua vida social e política.

Defendeu que fossem abolidas as formas de servidão, as prestações gratuitas e os repartimentos de indígenas e, assim, iniciou o processo de recuperação dos direitos dos povos pré-colombianos. Também, pôs em marcha uma ambiciosa reforma agrária, inspirada na mexicana, com a qual pretendia dotar de terras os camponeses pobres.

Até sua renúncia, Arbenz assinou expropriações de meio milhão de hectares ociosos, o que significou que 500 mil camponeses foram beneficiados, outorgando-se a eles (para fomento do mercado interno) créditos de 18 milhões de dólares. O produto bruto, o consumo pessoal e a importação de maquinários (três itens em ascensão) demonstravam a eficácia do plano.

“Os camponeses nos apóiam porque não são um apêndice, porque o Governo não é um instrumento de repressão a serviço dos inimigos da Guatemala… pelo programa de reforma agrária e porque temos posto os pingos nos ii da companhia fruteira, que trata de nos apertar o pescoço porque a reforma agrária é o primeiro passo para nossa independência política e econômica”, declarou.

Além de quebrar o monopólio das multinacionais, United Fruit Company e Bond and Share, ele levou adiante um programa de construção de estradas e ferrovias que rompia com a hegemonia da companhia norte-americana IRCA neste setor. Impulsionou grandes obras de infra-estrutura que modernizaram o país: a construção da Estrada ao Atlântico e a Hidroelétrica Jurúm-Marinalá.

 “A Guatemala é da Guatemala e não de interesses estrangeiros. A pátria é nossa, e vocês e nós a defenderemos polegada por polegada.”

Dados biográficos:

Militar de idéias revolucionárias. Nasceu a 14 de setembro de 1913. Em 1932, ingressou na Escola Politécnica da capital, sendo cadete bolsista. Foi aluno distinguido; dedicou-se ao estudo dos problemas sociais, políticos e econômicos.

Foi um dos principais membros da Revolução de Outubro de 1944, na patente de tenente-coronel. Ministro da Defesa de Juan José Arévalo (1944-1951). Presidente da Guatemala de 1951 a 1954. Foi derrubado por um golpe de estado orquestrado pela CIA, que o substituiu por uma brutal ditadura militar dirigida por Carlos Castillo Armas. Renuncia em 27 de junho de 1954, com a intenção de deter a agressão armada, iniciada 10 dias antes a partir do território hondurenho, por um grupo de paramilitares apoiados pelos Estados Unidos.

Aduziu que os argumentos do inimigo não o encurralaram, mas sim os meios materiais de que eles dispõem. “É preferível minha renúncia, a vinte anos de tirania fascista e sangrenta sob o poder dos bandos que Castillo Armas trouxe”, disse.

Morreu em 27 de janeiro de 1971, durante seu exílio no México.

Síntese de sua atuação:

Fez parte do grupo de jovens oficiais que, em 1944, forçou a renúncia de Federico Ponce, sucessor do presidente Jorge Ubico (1931-1944). Pôs em marcha uma ambiciosa reforma agrária, (1952) inspirada na mexicana, com a qual pretendia dotar de terras os camponeses pobres. Com este propósito, expropriou as terras baldias, para serem repartidas entre os camponeses. Seu empenho com a Reforma Agrária era liqüidar a propriedade feudal e as relações de produção que a originam; desenvolver os métodos capitalistas de produção na agricultura e; assentar as bases da industrialização.

Levou adiante um programa de construção de estradas e ferrovias que rompia o monopólio que companhias filiais da norte-americana tinham neste setor. Construiu a Estrada ao Atlântico. Projetou a Hidroelétrica Jurúm-Marinalá para se soltar do monopólio elétrico em mãos dos gringos. Iniciou um processo de recuperação dos direitos dos povos pré-colombianos.

Fevereiro de 1954: Expropria as terras da United Fruit ao longo da linha da ferrovia e instaurou um modesto imposto sobre as exportações de banana, para financiar programas sociais.

Afetada a United Fruit pela reforma agrária arbencista, a CIA criou um inimigo na Guatemala: o comunismo internacional e a desculpa para derrubar o governo de Arbenz.

Até sua renúncia (junho de 1954), Arbenz assinou expropriações de meio milhão de hectares ociosos, o que significou que 500 mil camponeses foram beneficiados, outorgando-se a eles (para fomento do mercado interno) créditos de 18 milhões de dólares. O produto bruto, o consumo pessoal e a importação de maquinários (três itens em ascensão) demonstravam a eficácia do plano.

É derrubado por um Golpe de Estado financiado pela CIA em julho de 1954.

Durante o levantamento contra-revolucionário, Chê Guevara militou em apoio a Arbenz. Uma vez derrubado o patriota, Chê foi expulso da Guatemala acusado de ser “perigoso comunista argentino”.

Síntese de seu pensamento:

– Antiimperialista e nacionalista de esquerda.

– Buscou a independência econômica. Enfatizou que necessitaria do capital estrangeiro só na medida em que o mesmo se ajustasse às condições locais, permanecesse sempre subordinado às leis guatemaltecas, cooperasse com o desenvolvimento do país e se abstivesse de intervir em sua vida social e política.

– Defensor dos povos pré-colombianos que na época constituíam 70% da população guatemalteca e que estavam completamente excluídos da sociedade. Defendeu que fossem abolidas as formas de servidão, as prestações gratuitas e os repartimentos de indígenas.

– Sintetizou seu governo em três postulados: independência econômica da nação (diversificação da agricultura); transformação do país em uma nação capitalista autônoma (embora tenha sido catalogado de comunista pela CIA) e; elevação do nível de vida do povo.

Citações importantes:

Sobre a reforma agrária:

 “Os camponeses nos apóiam porque não são um apêndice, porque o Governo não é um instrumento de repressão a serviço dos inimigos da Guatemala… pelo programa de reforma agrária e porque pusemos os pingos nos ii da companhia fruteira, que trata de nos apertar o pescoço porque a reforma agrária é o primeiro passo para nossa independência política e econômica.”

Sobre a Pátria:

 “A Guatemala é da Guatemala e não de interesses estrangeiros. A pátria é nossa, e vocês e nós a defenderemos polegada por polegada.”

Transcendência histórica:

Exemplo de militar patriota unido às lutas de seu povo. De sua administração, podemos tomar como experiência futura, que é necessário romper com as estruturas econômicas vigentes que mantêm o poder das forças tradicionais e das companhias estrangeiras. Embora durante seu mandato estas forças tenham sido afetadas, não o foi a fonte de seu poder, e elas puderam organizar a contra-revolução.