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A LENDA DE MANUELA SÁENZ (A LIBERTADORA DO LIBERTADOR)

29/09/2012

Dentro de uma perspectiva contemporânea, muitas latino-americanas, nos dias de hoje, se identificam com aquela célebre quitenha, Manuela Sáenz, lendariamente conhecida como a “Libertadora do Libertador”.

Uma vida intensa de 59 anos foi a daquela mulher, que nasceu em Quito, no Equador, no fim do século XVIII, tendo morrido na pobreza, em Lima, sob o esquecimento das autoridades. Sobre ela pesa a injustiça dos homens e também a manipulação historiográfica.

Durante os episódios de sua existência, vinculados em essência à obra revolucionária de Simón Bolívar, que não foi apenas o seu amor, mas também a possibilidade para que ela tivesse protagonismo histórico, num ambiente de lutas e no complexo processo de independência da América do Sul.

Manuela Sáenz foi a expressão de ousadia e a manifestação mais consciente do sentido de autoestima das mulheres, muitas em silêncio naqueles históricos dias, mas presentes no aspecto afetivo, no conjunto daquelas longas e duras batalhas políticas, sociais e militares.

Reconhecida pelo próprio Bolívar como companheira, tanto na relação íntima como na identificação de ideias, Manuela, filha de um espanhol conservador, legitimista, e de uma quitenha, também de espírito rebelde, assumiu na juventude como sua a ideologia independentista.

Tanto Manuela como a sua mãe adotaram esses ideais, em oposição à atitude paterna. Por assumir tais ideias, a jovem foi internada no Convento de Santa Catalina, onde aprendeu a ler, rezar e pensar.

Com apenas 20 anos se casou com o comerciante inglês, Jaime Thorne, muito mais velho que ela. Tendo conseguido, com tal união, certa margem de independência, mais que em seu lar, mudou-se para Lima. Nesta cidade, não reinavam os ideólogos da revolução, mas sim o peso do colonialismo, incrustado nesta urbe, que seria um dos bastiões das ideias mais atrasadas, até o final da contenda e a batalha de Ayacucho.

Durante a campanha peruana do general José de San Martín, na condição de membro ativo da conspiração contra o vice-rei, José de la Serna e Hinojosa, ao ser declarada a independência do Peru, Manuela Sáenz prestaria valiosos serviços à causa independentista. Isto lhe propiciaria, em 1822, a Ordem do Sol. Na inscrição em que ostenta a condecoração, resumem-se os valores daquela sul-americana: “Ao patriotismo das mais sensíveis”.

Posteriormente, já separada do esposo, em visita a Quito, sua terra natal, ocorre o seu encontro com Simón Bolívar, quando o Libertador emergiu no panorama como a máxima esperança dos revolucionários do continente, entrando naquela cidade equatoriana em 16 de junho de 1822.

Assim, ela se uniria aos exércitos bolivarianos e, inclusive, chegaria ao grau de “coronel”, segundo se afirma, tendo sido vista montada num cavalo, com um sabre na mão, em motim acontecido em Quito.

Quando o Libertador partiu para o Peru, Manuela se uniu a ele, fazendo-se presente em todo aquele complicadíssimo processo político-militar, tanto em Lima como em Trujillo.

A abundante troca de cartas expressa a fluidez da relação dos dois amantes, num contexto em que imperavam – apesar das batalhas revolucionárias em evidência – os códigos de ética de uma sociedade patriarcal, em que mulheres como Manuela Sáenz eram vistas como verdadeiras transgressoras.

No Palácio da Magdalena, próximo a Lima, coabitaria com Bolívar. Depois da saída do general venezuelano, em setembro de 1826, permaneceria num ambiente, o da sociedade limenha, que lhe seria muito hostil, onde, finalmente, sempre em defesa do ideário bolivariano, enfrentaria a reação, até ser presa e enviada posteriormente ao desterro, em 1827.

Inicialmente, a heroína se instalou em Quito, depois, Bogotá em 1828, encontrando-se mais tarde com Bolívar, ambos enfrentando as intrigas e o jogo da traição contra o Libertador; até que ocorresse o conhecido episódio dos conjurados.

Em 25 de setembro de 1828, tentaram assassiná-lo, fato que proporcionou, para sempre, protagonismo a Manuela Sáenz, ao providenciar a fuga de Bolívar através de uma janela do Palácio do Governo.

Depois, aconteceram dias difíceis para ela, ao conhecer, em Guadas, terras neogranadinas, em 1830, quando se dá a morte de Bolívar. E começa, frente à reação, a luta, por meio da palavra impressa, em defesa das ideias do grande caraquenho. O que causou a sua expulsão do território.

De Kingston, capital da Jamaica, onde moraria por um ano, escreveria ao general Juan José Flores, presidente do Equador, que lhe concedeu um salvo-conduto. Contudo, quando voltou à terra natal, não pôde entrar em Quito. Suas credenciais foram consideradas inválidas, já que o mandatário tinha perdido o poder.

Pobre, com seus bens confiscados na Colômbia, Manuela Sáenz foi morar em Paita, ao norte do Peru, onde se mantinha de um modesto comércio de fumo. Vencida sua saúde, sob depressão decorrente de tanta miséria e infâmias, contraiu difteria, doença que provocou a morte desta valorosa mulher, nossa contemporânea.

Mercedes Santos Moray

Escritora e jornalista cubana, doutora em Ciências Históricas

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