Archive for abril \25\UTC 2010

Conferência Mundial sobre Mudança Climática

25/04/2010

O presidente Evo Morales, da Bolívia, propôs medida judicial contra a ONU, se este organismo “não ouvir as demandas dos povos e não respeitar o Protocolo de Kyoto”, na próxima reunião sobre mudança climática, que se dará em Cancun, México. “Se, na Reunião de Cúpula que acontecerá no México em dezembro deste ano, não ouvirem as demandas dos povos e não respeitarem o Protocolo de Kyoto, esta nova organização, nascida neste evento, na condição de uma aliança intercontinental, tomará medidas junto à Corte Internacional de Justiça, para que esses países respeitem seu compromisso”, afirmou Morales.

O presidente boliviano fez essas declarações, durante o encerramento da Primeira Conferência Mundial dos Povos sobre a Mudança Climática e os Direitos da Mãe Terra, no Estádio de Cochabamba, Félix Capriles. As Nações Unidas e demais organizações internacionais “têm a obrigação de ouvir os povos”, ressaltou o líder boliviano. “As Nações Unidas, se não querem perder autoridade, devem aplicar as resoluções desta Conferência Mundial sobre os direitos da Mãe Terra”. Advertiu que, se não o fizerem, os povos saberão o que fazer, com a sua sabedoria. Antes, o governante afirmou que os encontros de chefes de Estado e governos, ”por influência dos países desenvolvidos”, limitam-se a debater os efeitos, deixando de lado as causas da destruição da Mãe Terra”. Disse que na Reunião de Cúpula de Copenhague, Dinamarca, ”foram discutidas apenas as consequências da aplicação da lógica do capitalismo e não as causas da crise climática”, enquanto na Bolívia se discutiam temas sobre as causas estruturais da mudança climática, além dos direitos da Mãe Terra.

Morales aproveitou o momento e saudou os mais de 30 mil participantes pela “sua maturidade e responsabilidade” sobre o tema, porque ”isso não vamos aprender nas universidades, nos institutos, nos Estados Unidos e na Europa, mas sim com os povos indígenas, que todos os dias vivem em harmonia com a Mãe Terra”. Ressaltou ser “responsabilidade dos presidentes a construção de políticas pela vida”, adotando um novo paradigma planetário para salvar a humanidade.

Além de demonstrar-se surpreso pelo número enorme de participantes, Morales afirmou que a Conferência sobre os direitos da Mãe Terra é “um “fato histórico e inédito”. Disse “não ser fácil convocar milhares de pessoas para debaterem sobre os direitos da Mãe Terra”.

Falou sobre o líder da Revolução Cubana, Fidel Castro, que em ”1992 dizia que, ao invés do pagamento de dívida externa, deveria ser paga a dívida climática”. “Fidel já defendeu esta luta pelos direitos da Mãe Terra; queremos dizer que sua luta não foi em vão: damos continuidade a ela”, ressaltou Morales. Exortou países como a Colômbia e o Peru a deixarem de lado interesses pessoais, setoriais e egoísmos de grupos, — se pensam em nossos povos, na Mãe Terra — e unam-se a todos nós “para derrotar o capitalismo”.

Por último, destacou que com as resoluções das mesas de trabalho “estamos assumindo uma responsabilidade para salvar a humanidade”, e fez uma chamada a todos os participantes e delegações para que sigam apoiando esse tipo de iniciativa. Convidou os participantes a participarem do reflorestamento “de nossa terra”, com a plantação de 10 mil árvores em Cochabamba.

Comitê Bolivariano de São Paulo

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Equador – Eloy Alfaro (1842-1912)

23/04/2010

Viva Alfaro, caralho!

«A hora mais escura é a mais próxima da aurora» (Eloy Alfaro)

O Equador gemia então sob o chicote do regime conservador herdado da Colônia, aperfeiçoado e piorado por Gabriel García Moreno, o Santo do Patíbulo. Se você não fosse católico, apostólico e romano, como a Constituição da República condicionava, você não era cidadão e necessitava, portanto, de todo direito. Se você pensasse, os guardiões do sistema pesquisavam seus pensamentos; se você falasse contra o sistema estabelecido, era espancado impiedosamente ou condenado ao confinamento na selva amazônica. Ou o fuzilavam em praça pública, obrigando os escolares a presenciarem a execução. Juan Montalvo descreveu essa época de horror ao dizer que os equatorianos tinham sido divididos em três grupos: um, destinado à prisão; outro, ao desterro; e o último, ao enterro.

As conseqüências mais duras do regime conservador eram sofridas pelos índios da Serra e pelos montubios dos latifúndios da Costa escravizados pelo sistema de concertaje (acordo forçado). Os índios eram massacrados, em cada ato de protesto que eles ousassem realizar contra o sistema do huasipungo (*); na defesa de suas terras comunais arrebatadas pelos proprietários de terras; ou no repúdio ao trabalho obrigatório nas vias públicas, que era o prolongamento das mitas coloniais.

Naquela época, teria de nascer o melhor equatoriano de todos os tempos: o General Eloy Alfaro. O histórico acontecimento se deu a 25 de Junho de 1842, um dia como hoje, no pequeno povoado manabita de Montecristi. Fruto do lar formado por um guerrilheiro republicano espanhol, Manuel Alfaro, e pela abnegada equatoriana, Natividad Delgado, tanto Eloy quanto seus irmãos se incorporaram cedo na luta pela regeneração do país e pela implantação da democracia. Juntos, percorreram o país em cem combates. Juntos, perambularam pelos caminhos da América, proclamando o ideal libertário. Juntos, foram perseguidos ou assassinados.

A primeira ação do jovem Eloy deu-se em 1864, quando estava com 22 anos. Anteriormente, ele tinha organizado um grupo guerrilheiro com 28 homens, a maioria camponeses, que foi o primeiro grupo alfarista da história. Pela força das armas, aprisionou o governador de Manabí, representante da tirania, mas acabou subjugado e encarcerado. Era também a primeira de cem derrotas, porém os muros do despotismo se fragmentaram e, dos campos humilhados e ofendidos, foi surgindo esse grito de guerra «VIVA ALFARO, CARALHO!», que não se apagou nunca, em século e meio de história nacional, e que não se apagará jamais, enquanto o povo equatoriano não for o dono real de sua pátria e de seu destino.

Isto é tão real que, estes dias, no concurso da TV, ‘quem é o melhor equatoriano’, brilha em primeiro lugar o nome de Eloy Alfaro, o que deve conclamar todos a uma reflexão profunda, pois o fato é mais significativo nos tempos atuais, em que a educação, em geral, e o estudo da história nacional, particularmente, andam no chão; e os que votam pelo melhor não são os índios nem os montubios, mas sim telespectadores das cidades. É entre aqueles que o grito de guerra permanece guardado para sempre.

Por que razão retorna Alfaro à memória coletiva?

Será que os ideais da Revolução Liberal, que ele preconizou e conduziu, não pereceram com seus ossos e sua carne na fogueira bárbara de El Ejido?

Tem algum sentido ressuscitar o histórico Caudilho numa época em que o povo está cansado de caudilhos e caciques?

Como explicar que Alfaro tenha algum significado em tempos de modernidade e modernizações das quais tanto se fala, se sua maior obra foi uma estrada-de-ferro que não existe mais?

Alfaro volta hoje à memória coletiva porque o povo equatoriano, em seu conjunto, repudia os políticos atuais, que assaltam o poder inescrupulosamente, graças ao poder econômico e ao domínio dos tribunais, ao passo que ele soube lutar de frente por seus ideais, entregando seu tempo, a paz de seu lar, toda sua fortuna e, por último, sua vida.

Alfaro volta, porque as mulheres e os homens do Equador atual estão fartos dos políticos e governantes que se enriquecem graças ao Fisco, ao negócio da dívida externa e à mancomunação com as empresas estrangeiras que saqueiam nosso petróleo, a geração de energia e até a água potável, que em Guayaquil, por exemplo, afoga os habitantes em planilhas abusivas e coliformes fecais.

Alfaro volta, porque a gente digna deste país repudia a demagogia barata dos que juram morrer tentando e fogem antes do primeiro disparo, ao passo que Alfaro soube morrer com valor e dignidade tentando construir uma Pátria independente, soberana e livre. Hoje, quando sua própria terra, Manabí, esta pisada pela bota norte-americana graças ao entreguismo de governos traidores e à vileza de uma corte parlamentar de anões mentais, o Velho Lutador retorna para nos fazer lembrar de sua mensagem dirigida à Assembléia Nacional em Agosto de 1901, quando os Estados Unidos pretendiam – como pretendem também agora – apoderar-se do Arquipélago de Galápagos:

Referindo-se à proposta norte-americana de que o Equador arrendasse as ilhas ao governo dos Estados Unidos por 99 anos, em troca de quinze milhões de dólares, o Presidente Alfaro sentenciou:

«Buscar uma solução no desmembramento de nosso território seria um crime atroz; NENHUMA POLEGADA DO SOLO DA PÁTRIA PODE SER CEDIDA A NINGUÉM SEM SE TORNAR RÉU DE PATRICÍDIO.

NADA DE VENDER O TERRITÓRIO, NADA DE DIMINUIR A SAGRADA HERANÇA QUE OS LIBERTADORES NOS LEGARAM.

O SOLO DA REPÚBLICA NÃO PERTENCE A NINGUÉM, A NÃO SER A ELA MESMA, E A REPÚBLICA NÃO PODE SER DESPOJADA DE SEUS DIREITOS SEM ABDICAR DE SUA SOBERANIA E SE AVILTAR.

DESGRAÇADO DE QUEM ESCARNECER DELA DESSA MANEIRA: SEU NOME PASSARÁ À POSTERIDADE COM MARCA DE ETERNA INFÂMIA.»

Está claro, portanto, por que hoje a figura do Velho Lutador retorna, e por que aquele grito de guerra volta a brotar do peito da nação esgotada e traída:

Viva Alfaro, caralho!

Jaime Galarza

Nota da Tradução:  (*) Huasipungo = sistema em que uma área de terra é arrebatada do índio e parcialmente cedida a ele para plantar para seu próprio sustento.

Colômbia – Jorge Eliécer Gaitán (1898-1948)

23/04/2010

Capitão e Mártir das Multidões

Sua mãe, Manuela Ayala, foi seu guia. Visitou a Venezuela, em 1946. A Praça El Silencio, em Caracas, estremeceu-se com sua mensagem. Sua “Oração pela paz” ainda ressoa nos ouvidos dos bogotanos. Em 9 de Abril, sua morte completou 55 anos. Eis aqui sua história.

O Natal de 1928 teve um sabor amargo para a Colômbia. Houve luto após a matança da bananeira. Muitas crianças foram massacradas e ninguém no país se atrevia a falar. “Jorge Gaitán o fez”, recorda em Bogotá o professor universitário, Eduardo Umaña. “A voz de Gaitán se levantou e o baixinho Gaitán foi crescendo e pisando os terrenos da oligarquia”.

Seus primeiros anos como advogado tornaram-se difíceis, porém, sua capacidade profissional lhe permitiu demonstrar seu brilhantismo jurídico. O jornalista Elmer Niño escreveu: “A primeira batalha penal foi realizada por ele contra as companhias transnacionais, conhecidas como United Fruit Company. Soldados colombianos cumpriram a ordem de desalojar os empregados e operários que ocuparam as terras. Como promotor do Ministério Público, ele assumiu a defesa das vítimas. Para evitar seu trabalho, bloquearam a investigação e tiraram recursos do orçamento. Usou, então, dinheiro de seu próprio bolso para gastos com viagens. Os pobres o viam como o advogado dos humildes. Veio o julgamento. Deu nomes e sobrenomes. O Exército foi considerado culpado pelo massacre”.

O advogado tinha-se internado nas zonas bananeiras do Magdalena. Mostrou os cadáveres das crianças da matança. Chegou a dizer: “O Exército colombiano está de joelhos ante o ianque e orgulhoso de disparar contra os filhos da Colômbia”.

Umaña analisa e diz convencido: “Quando Gaitán faz sua defesa dos operários das bananeiras, o país estremeceu e veio sua sentença… Todo homem inteligente, que se apresenta ao povo para a mudança política, a luta contra o policlassismo e contra a plurietnia, está condenado à morte”.

A morte surpreendeu Jorge Eliécer Gaitán Ayala em 9 de Abril de 1948, contudo, sua vida já corria perigo durante os últimos 20 anos de sua existência.

Três tiros – um na cabeça e dois nas costas – puseram fim à sua vida. Seu relógio e a calma bogotana foram detidos à 1:05 da tarde daquele dia. O corpo do jurista jazia a poucos metros do edifício Agustín Nieto, onde funcionava seu escritório.

De origem humilde

O primogênito de Eliécer Gaitán e Manuela Ayala nasceu em 23 de Janeiro de 1898. A família vivia em Las Cruces, um humilde bairro de Bogotá.

Sobre seu nascimento, existe controvérsia. Há os que dizem que ocorreu às 13 horas do dia 23 de Janeiro de 1903, em Cucunubá (a 90 quilômetros de Bogotá), com batismo em Bogotá. O camponês Neptalí Medina o descreve de maneira simples: “Era baixinho e moreninho como os índios de Cucunubá”. O advogado venezuelano William Briceño, em seu livro “Gaitán, depois de meio século”, transcreve seu registro de nascimento, no qual o pároco da Catedral de Bogotá dá fé de ter batizado em 12 de Março de 1898 “o menino Jorge Eliécer, nascido em 23 de janeiro último…”

O triunfo de Gaitán se deve à sua mãe, que era professora. Sobre seu pai, sabe-se que vendia livros e pertencia ao Partido Liberal. Fundou os jornais El Pregonero e El Demócrata. “Meu pai ficou muito em dúvida sobre ser advogado ou escultor, quando foi para a Europa. Formou-se em direito e obteve o mais importante prêmio já conseguido por um estrangeiro na Itália. Graduou-se com honras”, afirma Gloria, filha única de Gaitán. Sua infância transcorreu em profunda pobreza. Aos 15 anos, depois de estudos sobre contabilidade, realizados por sugestão de seu pai, entrou no Colégio Simón Araújo. Ali, iniciou suas primeiras teses, influenciado pela filosofia francesa de princípios do século. Interessou-se, além disso, pela pintura e leu os clássicos da literatura.

A luta política

Briceño ratifica que, no curso de sua vida, torna-se clara a influência de sua progenitora. “Dela, herdou o caráter, a disciplina, o amor pelo estudo; por ela tornou-se advogado”. Espírito inquieto, fazia caminhadas e trotes pelas montanhas, a fim de fortalecer o tórax para a oratória. Em 1920, entrou na Universidade Nacional. Com a tese “As idéias Socialistas na Colômbia”, conseguiu o título de Doutor em Direito e Ciências Políticas, em 26 de Outubro de 1924.

A ascensão política de Gaitán lhe permitiu lançar sua candidatura à Assembléia de Cundinamarca. Foi eleito deputado para o biênio 1924-1925. Em 1926, ingressou na Real Universidade de Roma e obteve o título de Doutor em Jurisprudência, da Escola de Especialização Jurídico-criminal. Com sua tese, ganhou o Prêmio Enrico Ferri. Com o reconhecimento, vinha uma soma em liras. Não a aceitou e solicitou que se criasse o prêmio República da Colômbia.

O tribuno do povo

A partir de 1929 – afirma William Briceño – Gaitán responsabiliza o Governo pela miséria do país. Começam a chamá-lo de O tribuno do povo. Fundou a União Nacional Esquerdista Revolucionária (UNIR). Para o historiador e ex-presidente venezuelano, Ramón J. Velásquez, “Gaitán com o unirismo pretendeu romper o binômio secular liberais-conservadores. Procurou agitar, dentro de um estilo classista, os camponeses e operários”.

Logo, encabeçou a lista eleitoral do Partido Liberal, por Cundinamarca. Em 8 de Junho de 1936, ganhou a prefeitura de Bogotá. Criou o café-da-manhã escolar para as crianças pobres e construiu os primeiros bairros operários da cidade. Ficou apenas sete meses nesse cargo, do qual saiu por pressões políticas. “Gaitán foi o político de sua geração, que viajava pelo país distribuindo sabão e creme dental. Fornecia uniformes aos taxistas. Quis eliminar o uso de alpargatas e da Ruanda (um tipo de poncho), considerando esta última uma vestimenta imunda que ocultava uma sujeira ainda maior”, diz o politólogo, Herbert Braun.

Manuela e Glória

Aos 39 anos, em 23 de Fevereiro de 1937, recebeu um duro golpe: o falecimento de Manuela, sua mãe.

Já tinha passado mais de um ano casado com Amparo Jaramillo, quando a vida o premiou com a chegada ao mundo de sua única filha, Gloria, em 27 de Setembro de 1937.

“Com Amparo, apareceram pequenos desentendimentos. Ela desejava um filho e, antes que nascesse a menina, comprou roupa, móveis e pintura para as paredes – de cor azul. E, em uma viagem que a senhora fez a Medellín, ele mandou pintar tudo de cor-de-rosa”, conta Briceño.

Gloria disse: “Ele comprou um carrinho-de-bebê e, antes que eu nascesse, andava com ele pelo corredor. Depois que eu nasci, atribuiu-se a tarefa de fazer de mim a mulher mais importante do país. Levantava-se todos os dias às 6:30, com chuva, trovoada, ou o que quer que fosse. Enquanto fazia a barba, banhava-me. Penteava-me e me vestia.

Depois, saíamos para o Parque Nacional e me ensinava a respirar. Ao terminar, tinha de tomar um copo de leite. Tomava Fitina e comia fígado. Tinha uma máquina para fazer exercícios de vibração no cérebro”.

Junto com Gloria, visitava, aos domingos, a tumba de dona Manuela. “Sempre levava açucenas para ela”.

Do pesadelo à realidade

Chegou a ser ministro da Educação do governo de Eduardo Santos. Estabeleceu o programa do sapato escolar e organizou o salão anual de artistas colombianos.

Visitou a Venezuela, em 18 de Outubro de 1946. Em seu discurso, disse: “Eu, capitão das multidões da Colômbia, venho dizer nesta tribuna a toda a Venezuela que, de agora em diante, apenas haverá uma voz que mande sobre esta terra sagrada: a voz do povo, pelo povo e para o povo!”

John C. Wiley, embaixador dos Estados Unidos em Bogotá, conheceu Gaitán. Em um informe datado de 16 de Maio de 1946, disse sobre ele: “Vemos seus triunfos políticos com considerável apreensão. Quem o conhece, sabe que ele não se afina com os Estados Unidos”.

O discurso de 7 de Fevereiro de 1948 tornou-se imortal, sob o nome de Oração pela Paz. Dizia: “Senhor presidente, Ospina Pérez (…) pedimos-lhe que exerça seu mandato, o mesmo que o povo lhe deu para devolver ao país a tranqüilidade (…). Queremos a defesa da vida humana. Não pense que nossa serenidade é covardia. Somos capazes de sacrificar nossas vidas para salvar a paz e a liberdade da Colômbia”.

Dois meses depois, mataram-no. Na Colômbia, realizava-se, naqueles dias, a IX Conferência Panamericana.

Em 9 de Abril de 1948, disse Gloria, ele saiu de seu escritório, pouco antes da uma da tarde, “depois de uma chamada que minha mãe lhe fizera, dizendo que havia sonhado, na madrugada desse dia, que papai tinha sido assassinado, seguramente impressionada pelos gritos de uma menina, de nome Maria C. Samper, que tinha me provocado com estas palavras:” Tomara que assassinem teu pai”.

Mamãe lhe contou o sonho e disse: “Deixa a Constituição e toma o poder. Pacificamente, não vão te deixar chegar”. Ao sair do escritório, Juan Roa Sierra, conservador, disparou contra ele.

Os locutores de rádio deram a notícia: O governo assassinou Gaitán (…), o povo se levanta, grandioso e de maneira incontrolável, para vingar seu chefe. Povo em ação, às armas…”

O homicida foi linchado e seu corpo arrastado por várias ruas. A violência exacerbada colocou Bogotá sob fogo, saques, vingança e loucura… O bonde e a sede do jornal El Siglo foram queimados. O Bogotaço pôs fim a milhares de vida.

Tudo era confusão. A viúva conseguiu, com a cumplicidade de um médico, tirar o cadáver da clínica, burlando o cerco militar. Amparo se fechou em sua casa com o corpo embalsamado. Não houve enterro no cemitério. A última morada foi seu lar.

Gloria Gaitán, baseada em investigações, afirmou que no crime houve a intervenção da CIA.

O Bogotaço marcou a Colômbia. As pessoas responderam com violência à sua morte, porque, segundo opinião de Jorge Orduz, estavam identificadas com Gaitán. “Ele falou a linguagem do povo e essa foi sua caixa de ressonância”.

Citações

“Nós não afirmamos que o homem deve ser escravo da economia, dizemos que a economia deve estar a serviço do homem; porque aqui (na Venezuela) e no Peru, e em todas as nossas nações, acontece o que afirmo que ocorre na Colômbia: O povo é superior a seus dirigentes”. (Gaitán, Caracas, 18-10-1946).

“Nós, colombianos, não devemos ser manipulados, desrespeitados; nossa dignidade está acima dos partidos; onde não existe dignidade de homens, tudo o mais está perdido”.

“Nenhuma mão do povo se levantará contra mim; a oligarquia não me mata porque sabe que o país se abala e as águas demorarão 50 anos para voltarem a seu nível normal”.

“O homem vale por sua tenacidade; pela maneira categórica e pelo amor com que defende suas idéias (…). Eu diria que mais vale uma bandeira solitária sobre um pico limpo do que 100 bandeiras estendidas sobre o lodo”.

“Eu não creio no destino messiânico ou providencial dos homens”.

México – Emiliano Zapata Salazar (1879-1919)

23/04/2010

Nasceu em 1879, em Morelos, no seio de uma família camponesa, tendo trabalhado no campo em regime de parceria.

Em 1906, fez parte da Junta de Cuatla – violentamente reprimida pelo governo – em que se reivindicavam para seus trabalhadores as terras comunais dos camponeses indígenas de Morelos. Filho de granjeiro, de pele queimada e grande cavaleiro, dirigiu um movimento de ocupação de terras, formado por granjeiros vestidos com camisa e calças brancas que, ao grito de “terra e liberdade’, entravam nas fazendas defendidas por latifundiários. Após conseguirem sua rendição, eram expropriadas e divididas entre os camponeses que as trabalhavam. Ao destacar-se como líder, viu-se obrigado a refugiar-se na serra durante a repressão. Reaparece em 1909, quando foi proclamado presidente da Junta de Defesa das terras de Ayala, começando assim sua atividade revolucionária.

Em março de 1911, incorpora-se ao movimento guerrilheiro de Madero, apoiando o Plano de San Luís Potosí, contra o ditador Porfírio Diaz. Sua ascendente projeção política o torna responsável pela organização do movimento revolucionário, no sul do México, sendo nomeado primeiro chefe supremo do movimento revolucionário da região meridional e, depois, chefe maderista de Morelos. Com a chegada de Madero ao poder, chocou-se com este devido à lentidão e desatenção para com a reforma agrária, meta da revolução. Assim, em Novembro de 1911 criou o Plano Ayala, programa revolucionário que defendia a devolução das terras aos indígenas e lutava pela implementação de uma verdadeira reforma agrária. Sua defesa da revolução agrária o indispôs com Carranza. O ataque de Victoriano Huerta contra o governo de Madero, logo assassinado, empurra Zapata para se unir às tropas constitucionais, em 1913. Um ano mais tarde, junto com Pancho Villa e Orozco, celebra a Convención Aguascalientes, rechaçada por Carranza, na qual se decide ocupar a capital mexicana pelas forças convencionalistas (1914). As forças das tropas zapatistas são levadas a ocuparem a capital em mais duas ocasiões, controlando a metade do território mexicano. Contudo, o forte contra- ataque do presidente Carranza e a derrota que lhe inflige Álvaro Obregón o forçam a retirar-se para Morelos e instalar seu quartel-general em Tlaltizapan, conservando a implantação do movimento revolucionário no sul do México. Desde sua retirada, enfrentou sempre as ações de Carranza, defendendo a implantação de uma reforma agrária autêntica que eliminasse a desigual repartição da terra e considerasse os direitos indígenas, modelo de reforma implantado por ele próprio em Tlaltizapan. Também nesta cidade criou uma rede de escolas e serviços públicos.

A acusação de Zapata ao seu antigo companheiro revolucionário, Carranza, ele a fez em uma carta aberta de 1919, dirigida ao “ Cidadão Carranza”, em que o acusa de haver “aproveitado a luta em seu próprio benefício e dos amigos que o ajudaram. “Rapidamente, você dividiu o saque, riquezas, negócios, banquetes, festas suntuosas, bacanais, orgias”. E segue: “Nunca lhe ocorreu pensar que a Revolução foi feita para beneficiar as grandes massas, as legiões de oprimidos que você estimulou com palavreados.” Em resposta, Carranza montou um plano para assassinar Zapata: em 1919, Zapata foi convocado para uma entrevista política, em que um oficial federal, Jesús Guajardo, lhe oferecia tropas e apoio à sua campanha, encontrando-o em uma fazenda localizada em território dominado pelo próprio general revolucionário. Segunda narra uma das testemunhas, um dos soldados, ao chegar à entrada, “à queima-roupa, sem lhe darem tempo para sacar seus revólveres, os soldados que apresentavam armas dispararam duas salvas de tiros. Nosso inesquecível general caiu para não se levantar jamais.”

Com Zapata, aos 39 anos de idade, morre o mais firme defensor dos direitos dos índios mexicanos e da reforma agrária. Sua figura se projeta até a atualidade, em que está vigente um movimento reivindicatório dos direitos indígenas, encabeçado pelo conhecido Exército Zapatista de Libertação Nacional, no estado de Chiapas.

Citações importantes de Zapata:

Sobre a revolução social: “Muito ganharíamos, muito ganhariam a humanidade e justiça, se todos os povos da América e todas as nações da velha Europa compreendessem que a causa do México Revolucionário e a causa da Rússia são e representam a causa da humanidade, o interesse supremo de todos os povos oprimidos (…). Aqui, como lá, existem grandes senhores, desumanos, cobiçosos e cruéis que vêm explorando, até à tortura, as grandes massas camponesas. Aqui, como lá, os homens escravizados, os homens de consciência dormida, começam a despertar-se, sacudir-se, agitar-se, a castigar (…). Não é de estranhar que o proletariado mundial aplauda e admire a Revolução Russa, do mesmo modo que outorgará toda a sua adesão, sua simpatia e seu apoio a esta revolução Mexicana, ao dar-se conta de seus fins”.

Sobre a ignorância dos povos: “… a ignorância e o obscurantismo em todos os tempos não produziram mais que rebanhos de escravos para a tirania…”

Sobre a luta dos camponeses: “O camponês tinha fome, vivia na miséria, sofria a exploração e, se se levantou em armas, foi para obter o pão que a ganância do rico lhe negava… Lançou-se à revolta, não para conquistar ilusórios direitos políticos que não dão de comer, mas sim para procurar o pedaço de terra que há de lhe proporcionar alimento e liberdade, uma morada decente e um porvir de independência e em agradecimento.”

Transcendência histórica

O movimento agrário de Morelos não chegou ao fim, devido ao desaparecimento de seu dirigente. Manteve-se em rebeldia até 1920, quando estabeleceu aliança com a facção revolucionária obregonista, que triunfou na rebelião de Água Prieta. Com Zapata, aos 39 anos de idade, morre o mais firme defensor dos direitos dos índios mexicanos e da reforma agrária. Zapata é, hoje, o mártir do agrarismo, o símbolo da redenção social no México. Seus lemas foram: “Terra e Liberdade”, “A terra é de quem trabalha nela”.

Ernesto “Che” Guevara (1928-1967): incomparável herói das lutas da América Latina

23/04/2010

O pensamento social do chamado “guerrilheiro heróico” segue vigente e presente nas atuais transformações sociais que ocorrem na América Latina. Há quatro décadas de sua morte, florescem as sementes de seu exemplo de luta, em toda a América morena.

Ernesto Che Guevara, um ser, uma história que influenciou e segue influenciando todo o continente latino-americano, foi assassinado em 9 de Outubro de 1967, um dia depois de haver recebido uma bala na sua perna esquerda, na Quebrada de Yuro, na Bolívia. O Che, um médico, político e guerrilheiro revolucionário argentino-cubano, nasceu em 14 de Junho de 1928, em Rosário, região do sul da Argentina, com um destino de “imortal”, presente até hoje no pensamento e progresso latino-americanos, como guia e exemplo. Guevara, que viveu sua infância e parte de sua adolescência em Córdoba, recriou sua mente já revolucionária sem saber, com textos aventureiros como os do francês Júlio Verne. Logo, desenvolveu outros gostos, pela poesia e filosofia: a primeira, representada por Pablo Neruda, enquanto que a filosofia existencialista, que o apaixonava, estava baseada nas teorias psicológicas de Freud. Che, com um espírito sempre rebelde, fez o curso secundário num momento de processos de mudança na Argentina, no contexto histórico do nascimento do peronismo, corrente política que contaria com gigantesco apoio da classe operária argentina. Em contradição com as suas atitudes e com o futuro que se enunciava, a família de Ernesto era antiperonista declarada.

Durante esta etapa de sua formação, o futuro líder da Revolução Cubana manifestava que “não tive preocupações sociais em minha adolescência, nem participei das lutas políticas ou estudantis da Argentina”, lembrava Che.

Aventuras determinantes

Guevara, um férreo antiimperialista, logo, em 1952, realizou a primeira longa viagem pela América Latina, percorrendo quase sua totalidade com seu grande amigo Alberto Granado. A travessia internacional representou um intercâmbio com os setores socais mais relegados e explorados dessa região. Após essa experiência, Che começou a definir suas idéias e sentimentos em relação às enormes desigualdades sociais latino-americanas, assim como o papel que desempenham os Estados Unidos na região. Foi assim que passou a apresentar as possíveis soluções para esta realidade.

Depois, em companhia de Carlos ”Caliça” Ferrer, Ernesto implementou o que seria a sua segunda viagem por este belo continente. Avança, desta vez, em direção ao norte. Em sua passagem pelo México, onde permaneceu pouco mais de dois anos, “revolucionou” sua vida pessoal. Definiu suas idéias políticas, contraiu matrimônio, teve a sua primeira filha e ingressou no Movimento 26 de Julho (M-26-7), que era dirigido pelo comandante Fidel Castro, com a finalidade de criar um grupo guerrilheiro em Cuba que pudesse derrotar o ditador Batista e concretizar, em conseqüência, uma revolução social.

Em 25 de Novembro de 1956, um grupo de 82 guerrilheiros do (M-26-7) marchou rumo a Cuba, no barco Granma, onde se encontravam, entre outros, Raúl Castro e Ernesto Guevara, liderados por Fidel. Após sete dias de travessia, 72 horas após ter-se dirigido à nação caribenha, o grupo foi emboscado pelo exército, em Alegria de Pio. No combate, morreu grande parte dos guerrilheiros e os que sobraram foram detidos e executados. Os sobreviventes se reuniram de novo na Sierra Maestra, em 21 de Dezembro próximo. Na Sierra Maestra, Che atuou como médico e combatente.

Enquanto estava na guerrilha, Che participou da elaboração e definição de leis de suma importância, como a da reforma agrária e a da criação do Instituto Nacional de Reforma Agrária (INRA), agindo como um verdadeiro governo paralelo, supervisionado por Fidel Castro.

O Che sempre permanece

A visão integracionista e antiimperialista do revolucionário Ernesto Guevara, em sua época, pode ser comparada com as realidades vividas atualmente na América Latina. Exemplo disso é a proposta do presidente venezuelano, Hugo Chávez, da Alternativa Bolivariana para os Povos de Nossa América (ALBA), em contraposição à Área de Livre Comércio das Américas, que expande o Tratado de Livre Comércio (TLC) a todos os países da América Central, América do Sul e Caribe, exceto Cuba.

Na atualidade, apresenta-se como uma alternativa à construção do socialismo democrático do século XXI, proposto por diversos presidentes sul-americanos. Uma mudança, uma visão diferente em relação ao bem-estar e melhora da vida dos povos, relegados por tantos anos.

Em relação à atualidade, as idéias de Che se vêem refletidas no que ele mesmo manifestou na Conferência do Uruguai, que representa ainda o grande desafio que devemos enfrentar: “participamos desta Conferência para que os povos marchem em direção a um futuro feliz, de progresso harmônico, ou que se transformem em apêndices do imperialismo na preparação de uma nova terrível guerra ou, se não isso, que derramem sangue em lutas internas, quando povos cansados de esperar, cansados de serem enganados, recorram ao caminho que Cuba seguiu…”

Uma morte que não é o fim

Como parte de sua luta pela libertação dos povos do mundo, Guevara se dirigiu para a Bolívia, onde, depois de longos meses de infrutífero trabalho para construir uma frente guerrilheira, encontrou a morte. Durante uma batalha, na Bolívia, Ernesto Guevara foi ferido a bala em sua perna esquerda, foi feito prisioneiro junto com Simeón Cuba (Willy) e levado para La Higuera, onde foram encarcerados numa escola, em salas separadas. Neste mesmo lugar, colocaram os cadáveres de seus companheiros revolucionários já mortos.

Em nove de Outubro de 1967, pela manhã, o governo boliviano anunciou que Che havia morrido em combate no dia anterior. Pouco depois, o presidente Barrientos deu a ordem de executar Che Guevara. Entretanto, existem dúvidas e versões encontradas sobre o nível de apoio que a decisão teve por parte dos Estados Unidos, embora esteja registrado que a CIA estava presente no lugar.

A fusão de antiimperialismo, marxismo e comunismo, como elementos básicos, formam o pensamento de um revolucionário que segue vivo em muitas nações sul-americanas. Atualmente, apresenta um caminho a seguir, uma visão exemplar de reflexão, luta e revolução.

Imeria Nuñes

Brasil – Fórum dos Ex-Presos Políticos em ação

18/04/2010

O Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo, composto por gente que não se esquece de suas lutas de resistência à ditadura militar implantada no Brasil em 1964, reúne-se às terças-feiras no prédio da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo, no Pátio do Colégio, às 14:00 horas, não só para discutir seus problemas específicos, como também para tomar posições políticas sobre o que acontece em nosso país e no mundo, principalmente na América Latina.

Tem o Fórum a clareza de que, cada vez mais, deve-se unir a ex-presos políticos de outros países do nosso continente, contribuindo com o avanço das lutas latino-americanas por uma democracia mais profunda, que reflita conquistas sócio-econômicas e políticas das massas exploradas.

Os militantes do Fórum não se cansam de dizer que ainda estamos muito longe do mundo pelo qual têm lutado, afirmando constantemente que o peso de sua idade não os impede de continuar na luta pela conquista de um mundo com o qual sempre sonham.

Nesse propósito, o Fórum dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos vem-se colocando à disposição dos movimentos sociais, estudantis, sindicais, etc., a fim de, por meio de seus velhos militantes, falar sobre momentos da luta contra a ditadura e o significado dessa luta para o nosso povo. Por isso, uma das tarefas do Fórum é buscar sensibilizar as pessoas, para que tudo seja feito pela retirada de entulhos da ditadura que, infelizmente, ainda persistem no país, expressando-se em forma de tortura, agressão policial e outras ações criminosas contra pessoas de baixa condição sócio-econômica.

Nas suas reuniões das terças-feiras, o Fórum tem recebido pessoas interessadas em obterem informação sobre suas lutas e seus propósitos.

Comitê Bolivariano de São Paulo

Como reconhecer um governo de esquerda ?

18/04/2010

Não há sombra de dúvida de que existem vários elementos a considerar na resposta, por exemplo: suas posições políticas, seus mecanismos de decisão ou seu respeito aos direitos civis e políticos, mas, neste caso, ater-me-ei às políticas públicas que o governo desenvolve para melhorar as condições materiais de vida, promovendo a eqüidade social.

Um governo de direita falará de “igualdade só perante a lei” e reivindicará as “leis de mercado” como “mecanismo regulador da vida social”. Na verdade, a lei do mais forte e desapiedado. Para eles, o mecanismo fundamental para distribuir a riqueza é o do “mercado salarial”. Tanto é certo que o salário mínimo no México, de 1982 a 2008, caiu 75 por cento em termos reais.

Ao contrário, promover a eqüidade social significa não só reconhecer a desigualdade social promovida por ditas “leis do mercado”, como também assumir que o “tratamento igual” dado aos desiguais só aprofunda a desigualdade e, a partir desse reconhecimento, desenvolver ações e políticas públicas que tendam a diminuir as abismais diferenças. Nessa lógica, um governo de esquerda seria aquele que defende, cria e materializa direitos sociais, entendidos estes, em nossa delimitada referência, como o acesso a recursos ou serviços públicos que o próprio governo oferece, ou pode oferecer, e que signifiquem a criação de condições mais eqüitativas de vida para a população.

Agora, para que essas políticas públicas não sejam uma dádiva que reclame um intercâmbio (clientelismo e corporativismo), para as quais, portanto, convenha manter a condição de desigualdade, devem, em sua universalidade, garantir o acesso a elas, sem condição alguma. Ainda que os universos possam ser, por sua pertinência, delimitados a uma população específica, por exemplo, o apoio aos adultos maiores – para que seja um direito social, o acesso terá que ser garantido a todos os que cumpram dita condição.

De políticas públicas recentes, que geram condições de eqüidade, podemos assinalar alguns exemplos significativos na cidade do México: aumentos salariais superiores à inflação para seus trabalhadores; pensão alimentícia, transporte público, atendimento médico e medicina gratuita para os adultos maiores; bolsas escolares para mães solteiras e seus filhos; bolsas para incapazes; livros de texto, materiais e uniformes escolares para todos os estudantes da educação básica pública; transporte escolar gratuito para atividades acadêmicas ou de recreação; centros públicos de computação e Internet; acesso gratuito a uma crescente oferta cultural; bolsas para estudantes de bacharelado, seguro-desemprego, etc.

A cada uma dessas políticas públicas, a direita tem-se oposto, argumentando que são medidas populistas que “distorcem o mercado” e, ainda que não substanciem o qualificativo, deixaram claro sua oposição a qualquer ação concreta que possibilite, ao menos, o exercício dos direitos sociais consagrados na Constituição (inclusive o salário remunerador) e, é claro, ficam horrorizados ante a possibilidade de construir novos direitos sociais. Ao contrário, tornar realidade e ampliar os direitos sociais é o dever de um governo de esquerda.

Carlos Imaz Gispert / La Jornada, México

Uribe, o macaquinho do Império na América do Sul

18/04/2010

Todos os amigos da paz de qualquer parte do mundo têm consciência de que o imperialismo ianque é, no momento, o principal inimigo dos povos, da humanidade. Sabem que – ao adotarem a maldita tese do ataque preventivo, colocando-se no direito de agredir militarmente qualquer país, se acharem que aí estão inimigos seus – os Estados Unidos explicitam sua lógica de estado terrorista e marginal, por se colocarem à margem das leis ou acima delas. Tratam com desdém, ou como se não existissem, a ONU e outros organismos internacionais, que têm como finalidade a garantia de um mínimo de respeito convivencial entre as nações. Como todo império, caracteriza-se por ser o mais marginal dos entes, rasgando a todo momento qualquer norma internacional estabelecida. Foi essa delinqüência de estado que determinou a invasão do Vietnã com armas de destruição em massa e a prática de genocídios que significou o fim da vida de quase três milhões de vietnamitas. Foi essa delinqüência de império que determinou a ocupação do Iraque, já tendo destruído mais de 600 mil vidas inocentes.

Contudo, o grande delinqüente não age sozinho: cria e financia seus seguidores, seus títeres, seus macaquinhos de imitação, em todas as partes do Planeta. Na América Latina, o principal escolhido é Uribe, ex-advogado do narcotraficante Pablo Escobar, acusado de envolvimento com os paramilitares, forças financiadas por cartéis de drogas e apoiadas pela CIA e membros do exército colombiano. Figura sinistra que, ao invés de pensar, xinga, faz terror verbal em concomitância com o terror de estado que usa como princípio fundamental, obedecendo, como um ser condicionado, a determinações de Washington. Trata-se de um obediente obsessivo, capaz de provocar, ao mesmo tempo, ódio e sorrisos em pessoas com um mínimo de sensatez. É a personificação da subserviência automática.

Comprador de almas, o Império não possui outra escolha a não ser a mobilização de gente como Uribe; vive do apoio de quem tem a indignidade como um estado perene de espírito. Amparar-se no lodo da sociedade é o destino de todos os colonialistas e neocolonialistas. É o caminho do imperialismo na sua constante tentativa de dominação dos povos, optando pela barbárie belicizada, em constante ameaça à paz. O que explica porque, mais uma vez, ataca um dos nossos, um país da nossa América Latina, ordenando a ação criminosa de seu macaquinho da América do Sul contra vidas humanas, assassinando várias pessoas em território soberano, inclusive, o líder guerrilheiro Raúl Reyes, que, em harmonia com os governos da Venezuela e do Equador, estava à frente de um acordo humanitário para a libertação de reféns que se encontram em poder das FARCs, abrindo caminho para uma solução de paz para o conflito da Colômbia, que já dura dezenas de anos.

Agredido o povo equatoriano, e por extensão a América Latina, Bush, vendo o cumprimento do que determinou ao macaquinho do Império, logo aplaudiu o ato. Sentiu-se vitorioso e, com ele, toda a mídia delinqüencial do continente. Não obstante, a América de Bolívar é sábia. Seus líderes, principalmente os que estão mais à frente, na luta pela integração latino-americana, como Chávez, Daniel Ortega e outros, na reunião dos países do Grupo do Rio, realizada na República Dominicana, partiram para o sacrifício pessoal a fim de desmascarar, de uma vez por todas, a jogada criminosa do Departamento de Estado dos EUA: ouviram Uribe tentar defender-se do indefensável, blasfemando, buscando palavras que não pusessem em dúvida sua condição de macaquinho da Casa Branca, doido para fugir do cerco da razão, da sensatez, sem noção do que falava, referindo-se sempre a supostos ataques das FARCs a partir do Equador, desde 2004, quando Correa ainda não era presidente, ressaltando que onde estiver um “terrorista” ele poderá agir, em clara pantomima bushista. Estava bastante nervoso o terrorista de estado. Percebia que o silêncio dos presentes era a indignação dos povos da América Latina. Ficava ainda mais irritado quando Correa o olhava cheio de perplexidade. Contudo, não parava: falava, falava… Não poderia sair derrotado do encontro, pois sabe que o Império costuma ser impiedoso com os seus macaquinhos que fracassam. Foi pacientemente ouvido por todos. Tudo por Nossa América. Mas, o olhar de algumas pessoas parecia dizer: como um ser humano se sujeita a tamanha subserviência, a serviço de interesses estranhos ao seu povo e a uma América Latina por cuja união o libertador de seu próprio país tanto lutou ?!

Acompanhei tudo pela televisão. O trágico e o cômico estavam estampados nas palavras e gestos de Uribe. Havia gente no plenário que parecia ter pena do pobre diabo do Império. É que, às vezes, o ser humano é tão contra o ser humano que consegue provocar ódio e pena ao mesmo tempo. Não saberia explicar esta reação; é algo a ser devidamente estudado.

Terminou, enfim, a triste pantomima do macaquinho de Bush. Nenhuma manifestação de apoio à sua infelicidade.

Depois de algum tempo, a Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, entra em cena e, de cara, evoca a legalidade, dizendo que a ilegalidade deve ser evitada em qualquer circunstância, e fez uma pergunta a Uribe, daquelas que levam o réu a não conseguir evitar sua nudez: por que, só agora, quando se negocia com as FARCs uma saída humanitária para os reféns que estão sob o controle delas, tendo os guerrilheiros já, unilateralmente, libertado vários desses prisioneiros, o governo da Colômbia decide violar o território equatoriano ?

Inegavelmente, a pergunta da chefa de Estado argentina encerrava em seu próprio conteúdo a resposta: o sucesso das iniciativas pela libertação dos reféns das forças guerrilheiras significa clara ameaça ao verdadeiro intento de Uribe – guerra, jamais a paz.

Cristina é bem informada. Sabe que o Plano Colômbia (Plano Amazônico, na realidade) é incompatível com qualquer estratégia de pacificação, não só dentro da Colômbia, como também em toda a América do Sul, principalmente agora, momento em que a região tem governos nitidamente antiimperialistas. O certo é que a pergunta da líder da Argentina desestabilizou o macaquinho do Império, que, de cabeça baixa, olhando de soslaio as pessoas, evitava encará-las. Mais tarde, Uribe voltou a falar, porém sem mais recorrer a pantomimas.

Chegou a vez de Hugo Chávez fazer suas considerações sobre os acontecimentos, usando, como de hábito, a tranqüilidade que lhe é peculiar, que a mídia dos grupos econômicos, em geral, faz questão de ocultar. Fez ele longo relato das acusações de que tem sido vítima, dando exemplos de iniciativas tomadas pelo seu governo para uma boa relação com o governo da Colômbia, apesar das diferenças ideológicas. Deu a entender que as ameaças que Uribe lhe tem feito, de processá-lo junto a um tribunal internacional, obedecem a uma determinação externa, ressaltando que o intuito é sua destruição. Como principal líder da luta pela paz na América Latina e Caribe, não parou de ressaltar que todas as suas ações, em relação ao governo colombiano, foram, comprovadamente, sempre no sentido de assegurar a boa convivência, a soberania e a harmonia entre os povos latino-americanos.

Disse, inclusive, que Uribe foi certificado por ele e o Presidente Correa de que o governo equatoriano participaria das negociações com as forças armadas da Colômbia, visando a uma solução humanitária para os reféns dessa organização, e que o presidente colombiano não fez nenhuma objeção a tal proposta. Chávez voltou a dizer que as diferenças político-ideológicas nunca o impediram de buscar relacionar-se com Uribe ou com qualquer outro governante, destacando que têm avançado as relações comerciais entre Colômbia e Venezuela.

Se, enquanto o macaquinho do Império falava, o silêncio foi a tônica de todos os presentes, o aplauso e, inclusive, o clima de descontração e alegria eram a constante durante todo o pronunciamento do presidente da Venezuela. Eram os primeiros sinais de que o eixo Uribe-Bush estava em pleno isolamento.

Mas, como reagiria Uribe após a pergunta desconcertante da Presidenta Cristina, os argumentos de Daniel Ortega sobre o êxito das negociações de paz em sua região, América Central – apesar do esforço constante do imperialismo ianque de que tudo desse errado – e o incontestável discurso de Chávez ? Ora, quando até mesmo o Presidente Calderón, do México, se negou a apoiar a ação criminosa do governo colombiano contra o Equador, Uribe, em total isolamento, apenas apoiado por um estranho, que a humanidade cada vez mais condena, não teve outro recurso senão o de aceitar uma resolução em que se compromete a respeitar a legislação internacional, no que se refere à soberania dos povos. Teve de ceder à América Latina. Todavia, disse que, com os “terríveis terroristas” das FARCs, jamais haverá acordo, desejando, com isso, mostrar a Bush que o Plano Colômbia (Plano Amazônico) está salvo, nem tudo está perdido.

Isolado seu macaquinho, o Império foi derrotado pela América Latina. Venceu a paz. Preparemo-nos, agora, para o próximo ardil de Washington. Só a unidade latino-americana será capaz de neutralizar tal ameaça.

Alberto Souza

Assalto a um Santuário

18/04/2010

Século XVI. Chegavam os espanhóis ao mundo inca. Logo, procuravam apoderar-se da região. Buscavam ouro e prata. Queriam enriquecer-se ou ficar mais ricos. Mas, isso não se faz apenas com armas. Além da morte física imposta aos indígenas que resistiam à ofensiva dos invasores, era usada também a ideologia como instrumento de dominação, praticando-se o genocídio cultural. Os espanhóis impunham, sem trégua, a religião cristã, a fé e os cânones de seu papa protetor e aliado, e passaram a declarar como demoníacos os deuses e mitos da sociedade indígena, como Inti, Tumi, Puma, Pacha Mama e outros, destruindo, assim, seus símbolos, seus templos e santuários, entendendo que, com isso, seu domínio sobre o mundo andino seria irreversível. Todas as huacas, todos os locais de rituais dos nativos, que já viviam em grande parte de um continente que passou a ser chamado América, efetivamente, foram excomungados por tais “civilizadores”, descobridores do que já tinha sido descoberto há milhares de anos por tribos que se adentraram nesta região através do Estreito de Bering.

O genocídio ideológico obedecia a uma lógica: desprovido de seus mitos, de suas crenças, de seus cultos, o habitante andino perderia sua capacidade de resistência ao dominador; acabaria por aceitar o que Deus teria determinado como dádiva a uma “gente superior”, cheia de razão divina; acabaria por se converter ao cristianismo, saindo de seu “diabolismo”, salvo por uma “divindade superior” às suas; acabaria por ser obediente a uma “civilização superior” à sua. E a consequência dessa guerra pela morte de almas não poderia ser outra: de um lado, o índio ou grupo de índios que se cristianizava e tendia a aceitar pacificamente a imposição dos enviados da Coroa da Espanha, dos espanhóis que, de uma forma ou de outra, o exploravam até à exaustão; de outro, o índio ou grupo de índios que resistia culturalmente, não abrindo mão de seus deuses, seus ritos, em geral, e lutava contra os que o escravizavam.

Passaram-se os anos e com eles o aumento da tristeza de incas e de todas as nações que integravam o espaço em que uma magistral arquitetura e o trabalho de milhões de seres humanos tornaram realidade templos e santuários que despertariam posteriormente o interesse de muita gente – principalmente de pesquisadores – em conhecer a capacidade criadora de uma civilização que o invasor europeu sequer considerava como parte da humanidade. Uma gente triste, porque se via, não somente sob a ameaça da morte corporal, mas também da morte espiritual. Era a tristeza de quem sentia na própria pele a lógica de quem domina e explora, que parte do princípio de que ver no dominado e explorado um igual, de sangue e almas idênticos aos seus, é um atentado ao próprio sentido da subordinação.

Vão-se os tempos. O colonizador é derrotado. Surge uma oligarquia nativa, crioula. Como seus ancestrais – do indígena, dos descendentes de Manco Cápac, Manco Inka, Atahualpa, dos collas, dos aimarás e outros – só lhe interessa o sangue, sangue vertido em moeda, em capital. Com o passar dos tempos, os novos exploradores mudariam de idéia em relação aos explorados? Reconheceriam que o povo, que heroicamente lutou pela independência de seu país, deseja ser livre, vivendo num mundo mais justo e humano? Não, muito pelo contrário, continuaram mantendo sua coerência de classe de sempre, discriminando o explorado, negro ou indígena, camponês ou operário, mulher e criança, vilipendiando-os física e culturalmente, considerando-se os novos “superiores”, achando-se herdeiros dos “civilizadores”. E o sangue que era derramado ontem contra o dominador espanhol, hoje é derramado em lutas contra seus herdeiros.

Os tempos mudam. Cresce o interesse pelo conhecimento do “maldito” de ontem. Agora, com a ajuda da ciência, com bons propósitos ou não, muitos pesquisadores avançam com seus estudos arqueológicos em várias partes do mundo. No caso do nosso continente, mormente do mundo andino, há tempo, não se cansam de sair à busca de criações de santuários e templos, antes “demonizados” pela chamada “civilização cristã’, regida pelo capitalismo mercantil da Europa espanhola. E as maravilhas da considerada “gente inferior” vem à tona. E agora, o que fazer com esses verdadeiros tesouros, produtos das possibilidades humanas de uma civilização (e civilizações) vista pelos enriquecidos de ontem apenas como imitação de humanos, sem alma de gente? Ora, existe nos Dez Mandamentos uma recomendação de Moisés considerada santa, a mais cristã das recomendações: “Não roubarás!”

Assim sendo, apoderar-se dos colossos da era inca, do produto da criação e trabalho de comunidades indígenas não seria um desrespeito ao “não roubarás!”?

Não tenhamos dúvidas: apropriar-se do que foi produzido por outrem é roubo. Contudo, uma saída para evitar esse grande pecado foi apresentada: O que perdura da criação inca e de outros indígenas fica com o Estado. Persistiu um problema, todavia: sequer se pediu uma simples opinião aos autores de tais maravilhas, como se eles não existissem, não fossem gente, cujos milhões de antepassados construíram Ollantaytambo, Tihuanaco, Macchu Picchu e outras coisas extraordinárias, que têm merecido a admiração de pessoas de todo o Planeta. E o princípio da herança, que juristas, sacerdotes da propriedade privada capitalista, têm defendido com unhas e dentes nos dias de hoje? Não deveriam, portanto, as nacionalidades indígenas andinas herdar as obras de seus ancestrais, dando destino ao que historicamente lhes pertence? Entretanto, as coisas, na verdade, não ficaram dessa maneira, é claro. Pioram com o passar do tempo: se, nas primeiras décadas das descobertas arqueológicas, a própria visita de qualquer pessoa a tais templos ou santuários ocorria sem qualquer gasto, ao longo dos anos tudo mudou. O empresário explorador de turismo entrou em cena; não mais como os mercantis espanhóis, que misturavam Cristo com metais (ouro e prata), excomungando os deuses das comunidades originais. Sua conduta é outra, de acordo com o momento: enche o mundo de papéis para dizer que o seu deus, o capital, vê com bons olhos as maravilhas incas; claro, sempre ocultando os crimes que seus antepassados do dinheiro cometeram contra criadores e criações, em nome de uma superioridade eleita por Deus. É que a preocupação do capitalista, consciente ou não, é dar um caráter fantasioso, livre de conteúdo sócio-histórico, ao que as comunidades que persistem etnicamente construíram no passado; numa tentativa de evitar que as nacionalidades indígenas lutem pela apropriação do que deveria ser seu, exigindo, no mínimo, que todo o dinheiro arrecadado através de visitas às suas maravilhas fique sob seu controle, para melhorar sua vida.

Sem o domínio do que produziu ontem e do que produz hoje, o indígena vê crescer sua pobreza. Vem lutando, à sua maneira; reage, enfrentando forças impiedosas; defende a todo custo sua cultura, mas não consegue evitar o enriquecimento, cada vez maior, dos donos do capital, que vira neoliberalismo, política de impérios. Junto a outros setores explorados, enfrenta governos que, a serviço de oligarquias, tratam o mercado como algo sacrossanto, com o apoio da mídia capitalista, que o considera como lógica única. Enfrenta uma exacerbada política de privatização e expropriação sem limites, em nome do deus Mercado, da qual não escapariam as suas seculares criações. E o que parecia livre dessa sanha universal cai sob seu domínio. É isso que explica de que forma coisas como Saúde, Educação e, inclusive, obras culturais viram alvo do grande capital, sob o argumento de que ser moderno e optar pelo progresso é acatar os cânones do FMI e do Banco Mundial. Onde há um governo neoliberal, esta lógica se impõe, sob disfarce ou não.

Eu sabia que o Peru é governado por um presidente obediente ao neoliberalismo e às determinações de Washington, mas não imaginava a que nível tinham chegado suas ações de lesa-povo, de lesa-pátria. Pensava que, ao menos, uma maravilha como Macchu Picchu não seria tornada fonte de maior enriquecimento de algum capitalista. Pensando assim, em janeiro, decidi ir a Cuzco a fim de visitar lugares sagrados incas, principalmente Macchu Picchu. Estando eu na capital de todo o mundo inca, peço informações sobre o horário do trem que leva turistas a Macchu Picchu. Logo, a recepcionista do hotel em que me hospedei me deixou pasmado. Disse que a ida a Macchu Picchu estava custando 180 dólares, claro, incluindo um pequeno trecho feito através de ônibus e a entrada ao santuário. Indignei-me frente a esse dado. Lembrei-me de que, em 1984, paguei cerca de 5 dólares para fazer essa mesma visita, e, por conseguinte, o aumento ocorrido daquele momento até hoje está em torno de 40 mil por cento.

Inconformado com essa realidade, mas disposto a rever uma das novas sete maravilhas do mundo, perguntei a moradores de Cuzco o que teria acontecido de estranho para que a visita a Macchu Picchu se tornasse, talvez, a mais cara do mundo, em comparação com outros pontos turísticos, santuários ou não, que também atraem enorme quantidade de visitantes. As pessoas, umas mais, outras menos, davam diferentes respostas: “Os preços de tudo sobem…”, “É o governo…” A explicação mais convincente veio no dia seguinte: o centro de Cuzco era ocupado por uma grande passeata de professores e alunos universitários, trazendo faixas e cartazes claros e esclarecedores: “Abaixo a privatização da cultura!”, “Salvemos nossa cultura!”, “Abaixo Alan Garcia!” (presidente), “Abaixo o neoliberalismo!”. Dirijo-me a um dos líderes do movimento, que me dá detalhes. O governo neoliberal de Alan Garcia estava privatizando a cultura peruana; que Macchu Picchu é explorada desde o governo de Fujimori por uma empresa privada que ganha rios de dinheiro com a exploração desse patrimônio, orgulho do povo peruano; que, dessa forma, Garcia mantém o crime de lesa-pátria realizado anteriormente, aumentando mais ainda as regalias da referida empresa. Disse que a luta do povo poderá evitar a continuidade da privatização do patrimônio cultural do país, feita direta ou indiretamente.

Fiz-lhe uma pergunta: se um peruano quiser visitar Macchu Picchu, também tem de pagar? “Claro!”, disse ele, “Em dólar!”. Outras perguntas: Na sua opinião, a quem deveria pertencer Macchu Picchu? Deveria ou não pertencer a seus criadores, às comunidades indígenas? Para quem deveria ir o dinheiro arrecadado com a exploração turística de Macchu Picchu? Se não vai para seus verdadeiros criadores, não estariam eles sendo roubados?

Percebi que minhas perguntas de indignado de fato eram feitas a pessoa de grande sentimento patriótico, orgulhosa de seu país, de seu povo, de sua história. Não só apoiava minha indignação, mas também passou a me dar autêntica aula sobre as lutas históricas de sua gente, antes e depois do domínio espanhol. Por fim, embora não conhecesse com maior profundidade a realidade peruana, propus a ele uma palavra-de-ordem: MACCHU PICCHU PARA OS SEUS CRIADORES!

Alberto Souza

As lutas pelo Socialismo Bolivariano

18/04/2010

01 – Está a Revolução Bolivariana proporcionando uma alternativa ao capitalismo?

Na realidade, essa é sua meta. E propôs um caminho único: um socialismo profundamente democrático como a única via para alcançar o total desenvolvimento humano que a Constituição Bolivariana da Venezuela enfatiza. Sem lugar para dúvidas, Hugo Chávez conseguiu recuperar o “socialismo como tese, projeto e caminho, porém, trata-se de um novo tipo de socialismo, humanista, que põe os seres humanos, não as máquinas ou o Estado, acima de tudo.” Contudo, o caminho para levar adiante tal projeto terá de realizar muitas lutas ainda.

02 – No coração desse novo socialismo do Século XXI, que apareceu na Venezuela, está o conselho comunitário, tanto na área urbana quanto na rural. São os conselhos, criados em 2006, que diagnosticam democraticamente as necessidades e prioridades das comunidades. E com a passagem de recursos essenciais do município para a comunidade, eles vêm sendo considerados como a base, não só da transformação das pessoas no curso de mudanças das circunstâncias, como também da atividade produtiva baseada nas necessidades e propósitos comunitários.

03 – Depois da reeleição de Chávez, em dezembro de 2006, após uma campanha em que foi colocado, de maneira explícita, o tema da construção de um novo socialismo, os conselhos comunitários foram identificados como a célula fundamental do socialismo bolivariano e a base para um novo estado. Todo poder aos conselhos comunitários!, declarou Chávez; e uma “explosão do poder comunitário” foi designada como o quinto dos cinco motores que conduzem ao socialismo. A lógica é de uma profunda descentralização na tomada de decisões e o poder. Tanto aqui como no terceiro motor “Moral e Luzes” (uma campanha educacional ideológica), o tema que aparece constantemente é a ênfase a uma prática revolucionária para construir o socialismo. Citando Marx e Che Guevara, Chávez tem insistido em que é só através da prática que se produzirão os novos seres humanos socialistas.

04 – E o tipo de prática requerida não é a que se baseia em interesses egoístas (a “infecção” ou vírus herdado do capitalismo) e na produção voltada para o mercado, mas sim, pelo contrário, aquela voltada diretamente para as necessidades da sociedade, que constrói a solidariedade. A esse respeito, o terceiro motor, afeito à luta ideológica, e as práticas democráticas transformadoras, encarnadas na explosão do poder comunitário do quinto motor, são duas faces da mesma moeda, uma necessitando da outra. Se não se considera a luta ideológica, a ênfase nas necessidades se transforma em uma luta para satisfazer velhas necessidades voltadas para valores gerados dentro de uma sociedade capitalista; e, sem práticas democráticas transformadoras, os recursos ideológicos não vão além de uma combinação de dominação e desencanto.

05 – Entretanto, não se concebe que a prática socialista ocorra apenas dentro das comunidades. Desde sua reeleição, Chávez vem insistindo no que ele chama de “triângulo elementar” do socialismo: as unidades de propriedade social, a produção social e a satisfação das necessidades das comunidades. Proporcionará o capitalismo calçados às crianças pobres? O capitalismo – observa Chávez – responde que o mercado decide isso; mas, no socialismo, nós podemos planificar que se produzam calçados diretamente para as crianças que precisam. Chávez, após as eleições, deu um passo à frente: enquanto continua destacando a importância da participação dos operários, argumenta que isso não é suficiente; é necessário, por exemplo, orientar as cooperativas para que, progressivamente, transformem-se em unidades de propriedade social e produzam diretamente para satisfazer as necessidades das comunidades. Por conseguinte, a nova ênfase não se dá apenas sobre a produção social, mas também sobre a propriedade social; a garantia da propriedade social (isto é, a propriedade da sociedade) deve ser o estado: “O estado social, não o estado burguês, nem o estado capitalista.” (“Alô, Presidente”, N.º 262, de 28 de Janeiro de 2007).

06 – Cabem poucas dúvidas de que a batalha de idéias contra o capitalismo e a favor da criação de um novo socialismo, com novos valores, está bem encaminhada. Não só existe uma crescente articulação das características do socialismo do Século XXI, como também o desenvolvimento de uma consciência de massas, difundida através de discursos televisionados de Chávez e a nova campanha ideológica.

07 – Não obstante, apenas a idéia desse socialismo não pode pôr fim ao capitalismo real. É necessário poder, para fomentar as novas relações de produção, ao mesmo tempo em que se cerceia a reprodução das relações de produção capitalistas. Ganhar a “batalha da democracia” e usar “a supremacia política para tirar, gradualmente, todo o capital da burguesia” mantêm-se como temas fundamentais neste momento, como foram quando Marx e Engels escreveram o Manifesto Comunista.

08 – Na Venezuela, está acontecendo algo mais do que uma batalha de idéias. Além da expansão dos setores estatais do petróleo e das indústrias básicas, a “nova era”, que está começando neste ano de 2007, já foi marcada pela nacionalização de setores estratégicos, como as comunicações, a energia elétrica e a recuperação da posição dominante do Estado nos campos petroleiros, onde tinham prevalecido, há muito tempo, as multinacionais. Ademais, a ofensiva contra o latifúndio foi retomada, ao se realizarem vários confiscos de terra, além da criação de novas companhias estatais (incluindo as empresas mistas com empresas estatais de países como o Irã), para produzir meios de produção, como tratores.

09 – Contudo, é necessário fazer muito mais: se a economia venezuelana se libertar de sua dependência do petróleo, devem ser desenvolvidos novos setores produtivos (na agricultura e na indústria), e uma nova infraestrutura que possa abrir vastas regiões do interior do país. Os recursos estão aí, assim como trabalhadores sem emprego ou que trabalham no setor informal (quer dizer, que são parte do exército de reserva). Se a Revolução Bolivariana é séria na continuação desse processo extensivo que tem defendido, existe o perigo de que se gere uma tendência a planificar e administrar esse processo através do Estado, de cima para baixo.

10 – Todavia, onde se encaixam a autogestão, a co-gestão, a gestão dos operários, ‘formas de associação guiadas pelos valores da cooperação mútua e da solidariedade”, enfatizadas na Constituição Bolivariana? De fato, a experiência do setor estatal não tem sido alentadora. Com exceção da empresa de alumínio (ALCASA) e a da distribuição elétrica dos Andes (CADELA), a gestão operária no setor estatal tem sido obstruída e tem retrocedido nas chamadas indústrias estatais (especialmente, na própria PDVSA). No lugar de um processo em que os operários se transformam, na produção através da autogestão, ocorre a sua dominação, de cima para baixo, por meio de padrões hierárquicos característicos do estado capitalista e das empresas estatais. E estes retrocessos vêm desmoralizando os operários militantes. Todas as tendências para o individualismo da velha sociedade (e isso na Venezuela significa a luta para captar lucros) reforçam-se, levando os trabalhadores à posição de adversários que acabam jogando a favor do capitalismo.

11 – A promessa, no momento, é a de que esse padrão será alterado, que o motor Moral e Luzes envolverá tanto a educação ideológica quanto a preparação para a gestão dos trabalhadores em todas as empresas (através de uma transformação da jornada de trabalho para incluir a educação), e que será aprovada uma lei que criará conselhos de trabalhadores em todas as empresas, não só em função de entregar-lhes mais e mais funções administrativas, como também para que se orientem, cada vez mais, para as necessidades das comunidades. Obviamente, esses temas são impacientes. Trata-se de movimentos claros a fim da produção democrática, participativa e protagônica, que é essencial para que as pessoas não continuem sendo os seres humanos fragmentados e mutilados que o capitalismo produz. Contudo, a brecha entre as promessas que vêm de cima e a realização delas na prática, é, freqüentemente, muito significativa na Venezuela; nesse caso particular, a experiência indica que há uma considerável resistência dos gerentes e dos ministros à perda do controle de posições das quais se consideram donos.

12 – Infelizmente, não existe um sujeito coletivo unificado exigindo que os operários tenham o controle, a partir de baixo, para combater esse problema e determinar que as promessas se tornem realidade. Não somente é pequena a classe operária que está fora do setor estatal (devido ao padrão de desenvolvimento econômico e o neoliberalismo durante a última metade do século passado), como também, além disso, as lutas de facções dentro do movimento operário chavista (UNT) têm impedido que, de fato, a classe operária organizada seja, neste momento, um ator importante.

13 – Quem, então, são os sujeitos desse processo revolucionário? Se pensarmos que os conselhos comunitários são lugares onde as pessoas não apenas produzem soluções para as suas necessidades, mas também se produzem a si mesmas como trabalhadores e trabalhadoras coletivos, é possível ver um nexo definido entre os dois motores (a “Exposição do Poder Comunitário” e “Moral e Luzes”) e a outra grande campanha deste momento: a criação do novo partido socialista unido.

14 – “A Explosão do Poder Comunitário” e o processo de criação desse novo partido têm muito em comum. Ambos estão mobilizando grande quantidade de pessoas e possuem um mesmo inimigo: o clientelismo e a corrupção, que continuam infectando a Quinta República; ambos são, potencialmente, um desafio para aqueles que, no partido e no estado, sentem que o desenvolvimento das capacidades e habilidades nas massas não é tão urgente quanto o desejo da acumulação de poder e acomodação para as suas famílias; e ambos refletem o vínculo entre Chávez e as massas, uma dialética na qual Chávez, abertamente, chama as pessoas a tomarem o poder (“a multidão, a multidão!”) e, por sua vez, é impelido pelas necessidades e as exigências desse mesmo povo.

15 – Porém, o que acontece com as relações de produção socialistas? À medida que os dois motores e a construção do Partido Socialista Unido da Venezuela (provisoriamente chamado de PSUV) conseguirem desenvolver as capacidades e habilidades das massas, e fortalecerem uma relação social de produtores coletivos, essa relação invadirá inevitavelmente a esfera da produção. As mesmas pessoas se tornarão “objeto e sujeito do poder” nas suas comunidades e não estarão dispostas a aceitarem menos, em seus lugares de trabalho, do que na sociedade. De fato, o processo já está começando quando se vinculam os conselhos comunitários tanto às cooperativas locais quanto às empresas estatais, para que a produção direta satisfaça as necessidades locais. À medida que os conselhos comunitários e os conselhos de trabalhadores começarem a coordenar suas atividades, os produtores coletivos estarão bem encaminhados para se apoderarem da produção.

16 – Entretanto, o sucesso desse processo não é de todo inevitável. Há, como sempre tem havido na Revolução Bolivariana, poderosas tendências que marcham na direção oposta. Não apenas existe o afã, dos ministros do governo e dos gerentes em importantes setores do estado, de planificar e dirigir tudo, de cima para baixo (padrão que tem paralisado com êxito alguns movimentos de trabalhadores independentes), e que mantém uma cultura de corrupção e clientelismo que podem ser a base para o surgimento de uma nova oligarquia. Existe, também, uma clara tendência a favorecer o desenvolvimento de uma classe capitalista nacional, como uma das pernas com a qual a Revolução bolivariana deve caminhar rumo ao futuro imediato.

17 – Hoje, nenhum chavista – é claro – argumenta abertamente que o socialismo do Século XXI deveria depender do capital. Todos insistem em que, neste momento, o processo requer que a Revolução Bolivariana dome o capital privado, através da “condicionalidade socialista”, estabelecendo, por exemplo, regras gerais novas, como condições sob as quais o capital privado possa servir à Revolução. Em suas melhores versões, isso pode ser visto como um processo de transição, esse processo de fazer “incursões despóticas” e tirar, aos poucos, todo o capital da burguesia. Certamente, medidas, como abrir os livros, atribuir poder aos trabalhadores, exigir prestação de contas aos conselhos comunitários e transformar a jornada de trabalho, através da introdução da educação para a gestão trabalhadora, introduzem uma lógica estranha ao capitalismo: a lógica das novas relações de produção socialistas dentro das empresas capitalistas.

18 – Todavia, os sinais indicados, até o momento, têm sido confusos, tanto por falta de clareza quanto pela própria natureza dessas regras gerais. A mensagem “realista” de que provavelmente a Venezuela tenha uma “economia mista” por um longo tempo, de que existe um espaço para o capital privado na Revolução Bolivariana, e de que um compromisso por parte do capital de servir aos interesses das comunidades seja uma condição suficiente para acesso a negócios com o Estado e a créditos estatais, trouxe consigo a formação de organizações como a Conseven, a “Confederação das Indústrias Socialistas” e outras organizações capitalistas privadas, que andam definindo o capital privado como propriedade socialista. No que se refere a reuniões de capitalistas chavistas em vários lugares do país, aí se tem falado de “socialismo produtivo”, afirmando-se que este necessita de capitalistas privados como parte do modelo socialista.

19 – Nesse caso, no lugar do “triângulo elementar” do socialismo (unidades de propriedade social organizadas pelos trabalhadores através da produção social, em função da satisfação das necessidades comunitárias), o que se fortalece é o “triângulo capitalista” (propriedade privada dos meios de produção, exploração de trabalhadores assalariados, em função da busca de lucros). Por mais enfatizada que seja a linguagem da responsabilidade social, a busca de lucros domina e o compromisso com a unidade se converte, de fato, em um simples “imposto”, e a participação dos trabalhadores se transforma em ações da companhia para eles, com o objetivo de induzi-los a se comprometerem com a produção de lucros. Como se pôde ver com a decepcionante experiência das Empresas de Produção Social que seguiram essa lógica, o capital aceita como condições essas limitações, para garantir seu direito a explorar e gerar lucros, até que seja suficientemente forte para impor a condicionalidade capitalista.

20 – A Revolução Bolivariana, como todos os processos revolucionários, produz seus próprios coveiros. Se for fomentada a infecção da lógica do capital, a Revolução Bolivariana não avançará com duas pernas: em lugar disso, retrocederá com uma. Se reconhecermos que essa tendência está florescendo dentro do processo – e a isso acrescentarmos que continuam: o padrão do clientelismo e da corrupção; os demais enclaves do poder capitalista (na rede bancária, no processo de importações, na posse da terra e dos meios de comunicação); e a constante presença e ameaça do imperialismo ianque – é óbvio que a luta pelo socialismo na Venezuela deverá enfrentar grandes barreiras.

21 – Todavia, o processo avança. A Revolução Bolivariana está superando as barreiras que lhe foram postas e vem-se desenvolvendo qualitativamente no processo, precisamente pela dialética que existe entre a liderança e o movimento das massas. Por essa razão, o desenvolvimento do trabalhador coletivo, para si, através da explosão do poder comunitário; a campanha ideológica do Moral e Luzes; e a mobilização em direção a um novo partido, a partir das bases, são essenciais para os próximos passos. O apoio das massas, e a decisão da liderança bolivariana de seguir adiante em lugar de ceder, quando o capital decide ir à greve (como ele inevitavelmente faz), empurram a Revolução para frente.

22 – Em um tempo relativamente curto, a Revolução Bolivariana percorreu um longo caminho. Porém, enfrenta muitos problemas, e seu sucesso só será obtido como resultado da luta. Não apenas a luta contra o imperialismo dos EUA, o campeão da barbárie em todo o mundo, que se sente ameaçado por qualquer iniciativa que possa significar alternativa ao seu domínio; nem só contra a oligarquia doméstica com seus enclaves capitalistas nos meios de comunicação, os bandos, os setores de processamento de alimentos e o latifúndio. A luta verdadeiramente difícil, como argumentei em meu livro “Construamos agora o Socialismo para o Século XXI”, está dentro da própria Revolução Bolivariana: entre uma possível nova oligarquia bolivariana e as massas excluídas e exploradas.

23 – A lição da Venezuela precisa ser entendida e amplamente difundida: sua ênfase no desenvolvimento humano e a prática revolucionária, sua missão social na educação e saúde e a criação dos conselhos comunitários, como a base para um estado democrático revolucionário, podem ajudar a inspirar as massas de outras partes do mundo e a criar as condições para que surja uma liderança revolucionária. Porém, a verdadeira lição da Revolução Bolivariana é a de mostrar o que pode ocorrer se se dá uma dialética, entre as massas que entendem que existe uma alternativa, e uma liderança revolucionária preparada para lutar em lugar de ceder.

Michael Lebowitz, Venezuela