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SERRA OU DILMA ?

08/10/2010

O momento exige patriotismo, um mínimo de compromisso com o nosso povo. E ser patriota e comprometido com a nossa gente, ao nosso ver, é votar contra o pior. E quem se propôs a ser o candidato do que há de pior no Brasil é Serra. Como explicar isso?

Serra é continuador da política de Fernando Henrique Cardoso, responsável por uma política econômica que levou boa parte da classe média assalariada ao desemprego e à falta de crédito para pequenos negócios; que deixou o país com uma inflação alta e um índice de 15% de desocupação no mercado de trabalho; que causou a morte de milhares de pequenas empresas; que, não só privatizou empresas estatais estratégicas, mas também as subavaliou, no momento de sua entrega a grupos econômicos, usando moedas podres para isso, sendo que no caso da Vale do Rio Doce, na realidade, o que fez foi uma verdadeira doação a empresas privadas, vendendo esta mineradora (na época, já a segunda maior do mundo) por uma ninharia de 3 bilhões de dólares; que fez de tudo para entregar à Shell e outras multinacionais do petróleo a Petrobrás, conquista heróica de nosso povo nos anos 40 e 50; que congelou salários, inclusive o salário mínimo, que não chegou a 100 dólares; que defendeu uma relação internacional do nosso país com outros povos subordinada aos interesses dos EUA e outras potências; que fez a taxa de juros chegar a 45%, impossibilitando o mínimo de crescimento econômico; que destruiu toda a nossa indústria naval, obrigando a Petrobrás a comprar equipamentos para sua atividade fora do país, provocando lucros e empregos no exterior e desemprego e perdas econômicas no Brasil; que congelou gastos com educação e saúde com intuito de apenas atender ao jogo do poder econômico; que tratou os movimentos sociais e sindicais em geral como casos de polícia.

Além de tudo isso, Serra é aliado do DEM (ex-PFL), um dos piores setores da chamada oligarquia brasileira, mais do que ninguém herdeiros da ditadura militar e de tudo que esta representava, partido que defende como nenhum outro a concentração da terra nas mãos de uns poucos, situação em que têm ocorrido casos de trabalho escravo; setor que acha que os recursos do Estado devem ser colocados a serviço de grupos econômicos nacionais e estrangeiros, obviamente com aversão a qualquer política de melhora da situação sócio-econômica da maioria absoluta do povo brasileiro. Dito isto, fica claro que Serra é retrocesso, passos atrás.

E Dilma? Claro, Dilma não é a candidata de nosso sonho, nem tampouco o governo que ele representa, mas ela significa algum avanço, ainda que modesto. É também responsável por um governo muito melhor que o governo de FHC em todos os aspectos:

O país passou a crescer economicamente; uma maior atenção a problemas sociais; uma diplomacia que não se submete a imposição de potências, melhorando nossas relações com todos os povos, em particular, com a América Latina; se não desprivatizou, em geral, também não deu continuidade a privatizações, salvando empresas como a Petrobrás e estatais financeiras como a Caixa Econômica Federal, Banco de Brasil e BNDS, sem as quais não haveria créditos para que o país tivesse condições de enfrentar a crise econômica que afetou os EUA e outras grandes economias; ainda que não tenha criado uma empresa pública na área da indústria naval, ao menos, fez retornar, com sucesso, este tipo de atividade ao país, criando empregos; melhorou significativamente a melhora do crédito para a agricultura familiar e outros pequenos investimentos e, tendo ocorrido crescimento, houve algum ganho real no conjunto dos salários; gastou mais com a Educação e Saúde; melhorou a situação econômica da classe média e não tem tratado os movimentos sociais como caso de polícia.

Votar em Dilma é combater o retrocesso, evitando que o mínimo conquistado pelo povo vá por água abaixo. Quem quer transformar a sociedade, na luta por um mundo com o máximo de igualdade, é sempre a favor de um passo adiante, por menor que ele seja.

Comitê Bolivariano de São Paulo

MARINA,… VOCÊ SE PINTOU? –– Maurício Abdalla [1]

07/10/2010

“Marina, morena Marina, você se pintou” – diz a canção de Caymmi. Mas é provável, Marina, que pintaram você. Era a candidata ideal: mulher, militante, ecológica e socialmente comprometida com o “grito da Terra e o grito dos pobres”, como diz Leonardo.

Dizem que escolheu o partido errado. Pode ser. Mas, por outro lado, o que é certo neste confuso tempo de partidos gelatinosos, de alianças surreais e de pragmatismo hiperbólico? Quem pode atirar a primeira pedra no que diz respeito a escolhas partidárias?

Mas ainda assim, Marina, sua candidatura estava fadada a não decolar. Não pela causa que defende, não pela grandeza de sua figura. Mas pelo fato de que as verdadeiras causas que afetam a população do Brasil não interessam aos financiadores de campanha, às elites e aos seus meios de comunicação. A batalha não era para ser sua. Era de Dilma contra Serra. Do governo Lula contra o governo do PSDB/DEM. Assim decidiram as “famiglias” que controlam a informação no país. E elas não só decidiram quem iria duelar, mas também quiseram definir o vencedor. O Estadão dixit: Serra deve ser eleito.

Mas a estratégia de reconduzir ao poder a velha aliança PSDB/DEM estava fazendo água. O povo insistia em confirmar não a sua preferência por Dilma, mas seu apreço pelo Lula. O que, é claro, se revertia em intenção de voto em sua candidata. Mas “os filhos das trevas são mais espertos do que os filhos da luz”. Sacaram da manga um ás escondido. Usar a Marina como trampolim para levar o tucano para o segundo turno e ganhar tempo para a guerra suja.

Marina, você, cujo coração é vermelho e verde, foi pintada de azul. “Azul tucano”. Deram-lhe o espaço que sua causa nunca teve, que sua luta junto aos seringueiros e contra as elites rurais jamais alcançaria nos grandes meios de comunicação. A Globo nunca esteve ao seu lado. A Veja, a FSP, o Estadão jamais se preocuparam com a ecologia profunda. Eles sempre foram, e ainda são, seus e nossos inimigos viscerais.

Mas a estratégia deu certo. Serra foi para o segundo turno, e a mídia não cansa de propagar a “vitória da Marina”. Não aceite esse presente de grego. Hão de descartá-la assim que você falar qual é exatamente a sua luta e contra quem ela se dirige.

“Marina, você faça tudo, mas faça o favor”: não deixe que a pintem de azul tucano. Sua história não permite isso. E não deixe que seus eleitores se iludam acreditando que você está mais perto de Serra do que de Dilma. Que não pensem que sua luta pode torná-la neutra ou que pensem que para você “tanto faz”. Que os percalços e dificuldades que você teve no Governo Lula não a façam esquecer os 8 anos de FHC e os 500 anos de domínio absoluto da Casagrande no país cuja maioria vive na senzala. Não deixe que pintem “esse rosto que o povo gosta, que gosta e é só dele”.

Dilma, admitamos, não é a candidata de nossos sonhos. Mas Serra o é de nossos mais terríveis pesadelos. Ajude-nos a enfrentá-lo. Você não precisa dos paparicos da elite brasileira e de seus meios de comunicação. “Marina, você já é bonita com o que Deus lhe deu”.

[1] Professor de filosofia da UFES, autor de ‘Iara e a Arca da Filosofia’ (Mercuryo Jovem), dentre outros. mauricio.abdalla@uol.com.br