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O DIÁLOGO COM A DIREITA, TRAIÇÃO OU UM MAL NECESSÁRIO?

05/03/2014

A unidade dos revolucionários não pode dar-se o luxo de viver sob ameaças, frente a cada passo dado pelo nosso líder, Nicolás Maduro. Se cada medida do governo for vista como rompimento de tal unidade, estaremos caindo no imediatismo e na pressa curtoprazista, prática própria da direita fascista, cujo projeto individualista tem como característica fundamental a busca de resultado imediato.

Nosso projeto de transformação é histórico, surgiu do desenvolvimento da história, executa-se no presente, mas com um olhar de longo prazo, muito além de nossas breves existências, porque nosso amor ao próximo é muito superior a nossos interesses pessoais. Neste sentido, o projeto revolucionário está subordinado a um plano estratégico de longo prazo. Aspecto de suma importância, indispensável para que os revolucionários possamos evitar considerar medidas táticas como traição, sem uma discussão aberta sobre a conjuntura em que elas se dão.

Há dias o presidente Maduro assumiu o compromisso de governo de dialogar, em função da paz, com empresários, estudantes da direita e com opositores de todos os setores que estejam interessados em contribuir com a paz, em respeito à Constituição e as leis. Para alguns, trata-se de medidas necessárias para diminuir tensões geradas pela ultradireita, buscando evitar situações extremas de violência que possam desembocar numa guerra civil ou intervenção estrangeira; para outros, um passo atrás, uma debilidade ideológica e, até mesmo, uma traição ao pensamento revolucionário.

Antes de fixar uma posição sobre tentativas de diálogo do presidente, quero fazer quatro considerações: todos somos Chávez, porquanto em nossas consciências seus pensamentos e lutas deixaram raízes, transformando-nos nele, em suas lutas; porém, no individual, ninguém pode pretender tornar-se dono do pensamento do comandante supremo, achando-se porta-voz do que Chávez faria ou diria nestas ou naquelas circunstâncias. No individual, nem Maduro nem nenhum de nós é Chávez.

A situação atual é produto da luta de classes, dos capitalistas contra a classe trabalhadora, resistindo a perderem seus privilégios, e da luta das massas trabalhadoras contra a exploração. Do lado da classe trabalhadora, quem se opõe à luta dos explorados são trabalhadores alienados que preferem, conscientemente ou não, manter a ordem cultural e econômica estabelecida pelos capitalistas que querem continuar com a sua exploração de todos os trabalhadores.

Obviamente, os ricos só estão dispostos a “negociar” quando não veem ameaças a seus interesses, sabendo que, no nosso projeto, está claro que nossos objetivos e os deles são irreconciliáveis.

A burguesia “nacional” depende, para subsistir, de seu amo imperial e vice-versa, estabelecendo uma aliança “fatal”, sem trégua, até que se apodere completamente das nossas riquezas.

Claro, ninguém é dono da verdade. Podemos ter nossas opiniões individuais. Contudo, para serem aceitas como verdade, têm de ser acolhidas por um grande coletivo. É assim que aceitamos a maioria das palavras de Chávez como nossa verdade.

Os chamados ao diálogo que fez o presidente Maduro, aceitos sem objeção pelo empresário convertido em “cordeirinho”, Lorenzo Mendoza, só podem ser entendidos como medidas táticas, de acordo com a conjuntura, para se ter o controle da situação atual, sem que nessa conversa se negociem questões de princípio, não se dando, assim, em detrimento de nenhum dos objetivos fixados no Plano da Pátria. Este diálogo não poderia provocar uma série de perdões aos empresários, que roubaram e roubam o povo através da guerra econômica, ou aos fascistas que agridem a ordem pública, que assassinam e aterrorizam o povo, ou aos conspiradores, que agem para que ocorra uma guerra civil ou a intervenção estrangeira.

Embora a aceitação deste diálogo pareça uma contradição ideológica, já que a única negociação que a burguesia aceita é a que garante seus privilégios, afetando nossos princípios, julgar o presidente baseando-se nesta medida, sem que se faça uma análise de conjuntura, pode causar o enfraquecimento da unidade necessária de todas as forças revolucionárias.

Nesta etapa de transição ao socialismo, nota-se um instante de fissura, cuja superação exige mais revolução. Entretanto, vale a pergunta: até que ponto podemos avançar com o processo revolucionário sem que isso implique uma justificação para o início de uma guerra civil ou de intervenção estrangeira que significaria uma derrota do movimento revolucionário latino-americano?

O aprofundamento da Revolução sempre trará riscos, por isso, deve-se avaliar o contexto internacional e as possibilidades de apoio à nossa soberania, como também o nível de consciência e organização do nosso povo para enfrentar o cerco econômico e político a que estará sendo submetido, ao lado da capacidade organizativa do poder popular, para assumir o controle da produção e distribuição dos produtos necessários para o bem viver. A resposta a esta questão deve ser discutida por um coletivo mais amplo que o comando político da Revolução; que o Conselho de Ministros; que os governadores; que os prefeitos e deputados eleitos pelo povo, mas nomeados por cúpulas partidárias; que os membros da cúpula de partido. Devem incluir os diversos coletivos e movimentos sociais revolucionários.

Este deve ser o mais imediato diálogo que deve ser promovido pelo presidente Maduro, iniciativa que ainda aguardamos.

Face a este “descuido” do presidente Maduro, acabou acontecendo uma série de posições individuais dentro do chavismo que, acertadas ou não, fazem um grande favor à direita.

Minha opinião (não necessariamente a verdade revolucionária) é que o poder popular ainda não está preparado, política e organizativamente, para assumir o controle social de grande escala de produção e distribuição de bens e serviços, sem que isso resulte em uma enorme crise de abastecimento que exija um nível de organização popular e consciência social, suficientemente avançado, para resistir e continuar ganhando eleições. A situação internacional, por seu lado, tampouco apresenta um ambiente favorável para a defesa da revolução venezuelana, num cenário de uma grande agitação popular; basta que vejamos as declarações de três dos nossos principais “sócios comerciais”. Por exemplo, Dilma chamou à paz “as partes em conflito”. Santos e Obama fazem a defesa da direita, como era de se esperar. Só o MERCOSUL e a ALBA saíram em defesa da Revolução. Ainda que se possa afirmar que a Rússia e a China se oporiam a uma resolução do Conselho de Segurança da ONU contra a Venezuela, em outra situação, demonstraram serem incapazes de ”frear”os ataques, diretos ou disfarçados, do imperialismo, tanto no Iraque como na Líbia e na Ucrânia.

Destarte, por enquanto, é melhor seguir com mudanças graduais que permitam manter e aumentar o débil apoio internacional, até que preparemos o povo para dar o último passo. A questão não é vencer ou morrer: necessário é vencer.

As duras críticas advindas de reconhecidos revolucionários a esta medida de diálogo estão mais ligadas à “falta de diálogo” imposta pelo poder constituído (governo), que ao interesse de destruir o processo revolucionário, porém, é inaceitável, a meu ver, que revolucionários respeitáveis, como Tobí Valderrama, acusem o presidente de vira-casaca, de estar praticando traição, já que estes tipos de acusação são decisivos para a dissolução da unidade, mais ainda, um claro rompimento com o presidente Maduro.

Este camarada que tem dado grande contribuição à Revolução não pode arvorar-se dono da verdade. Nos seus últimos artigos, tem criticado mais as medidas tomadas por Maduro e a “direita endógena” do que as assumidas pelo nosso inimigo de classe, nestes dias de ataques maciços à Revolução, quando o correto é unir forças para fazer a sua defesa.

Há um ano, após passar da condição de ser um homem para tornar-se consciência coletiva, muitos pretendem pensar como tu, comandante Chávez, dando as costas ao teu legado e à tua última advertência: “Os adversários, os inimigos do país, não se cansam de fazer intrigas, de tratar de dividir e, acima de tudo, aproveitando circunstâncias como estas. Então, qual deve ser nossa proposta? Unidade e mais unidade! Essa deve ser nossa máxima! Nossa preocupação maior… Em qualquer circunstância. Nós devemos assegurar a marcha vitoriosa da Revolução Bolivariana, construindo a nova democracia, construindo a via venezuelana para o socialismo, com ampla participação e plena liberdade.”

Presidente Maduro, o primeiro grande diálogo deve ser com os movimentos sociais, ”construindo a via venezuelana para o socialismo, com ampla participação e plena liberdade”. Esperamos de você este chamado, decisivo para se garantir a unidade revolucionária.

Camaradas revolucionários, se desejam afastar-se do presidente Maduro, abrindo mão de sua liderança proposta pelo comandante supremo, façam-no de uma vez, mas se, como esperamos, querem manter-se no caminho da unidade, abandonem atitudes prepotentes e promotoras da divisão.

Há um ano de tua partida, comandante supremo, espero chorar tua partida física, não a traição ao teu chamado à unidade.

Noel Peralta

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