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PRESIDENTE CHÁVEZ, UM HOMEM RENASCENTISTA DO SÉCULO XXI (JAMES PETRAS)

30/03/2013

O presidente Hugo Chávez foi um homem único em múltiplas áreas da vida política, social e econômica, tendo dado importantes contribuições para o avanço da humanidade. A profundidade, o alcance e a popularidade de seus sucessos distinguem-no como o “presidente renascentista do século XXI”.

Muitos autores assinalaram uma ou outra de suas contribuições históricas, destacando as leis para combater a pobreza, a capacidade de ganhar eleições populares com grande maioria, e sua defesa da educação e da saúde públicas, gratuitas e universais, para todos os venezuelanos.

Neste artigo, destacaremos as singulares contribuições históricas que o presidente Chávez deu, no âmbito da economia política, da ética e do direito internacional, e na redefinição das relações entre os líderes políticos e os cidadãos. Começaremos com sua contribuição perdurável, para o desenvolvimento da cultura cívica na Venezuela e em outros países.

Hugo Chávez, o grande mestre dos valores cívicos

Desde seus primeiros dias no cargo, Chávez empreendeu uma mudança constitucional que facilitasse, ante os cidadãos, a prestação de contas dos dirigentes e das instituições políticas. Através de seus discursos, informou ao eleitorado, clara e meticulosamente, sobre as medidas e as leis que serviriam para melhorar seu modo de vida, e o convidou a fazer comentários e críticas. Seu estilo era a criação de um diálogo constante, especialmente com os pobres, os desempregados e os trabalhadores. Teve tanto êxito – em seus ensinamentos ao eleitorado venezuelano, sobre as responsabilidades cívicas – que milhões de habitantes dos bairros pobres de Caracas se levantaram espontaneamente para se oporem à junta militar-empresarial, respaldada pelos Estados Unidos, que tinha sequestrado o presidente e fechado o parlamento. Em 72 horas – um recorde – os cidadãos com consciência cívica restauraram, na Venezuela, a ordem democrática e o governo da lei, rejeitando completamente a defesa dos golpistas e de seu efêmero regime autoritário, feita pelos meios de comunicação.

Chávez, como todos os grandes educadores, aprendeu, com esta intervenção democrática da massa cidadã, que os defensores mais efetivos da democracia estavam no meio da população trabalhadora, e que seus piores inimigos se achavam nas elites empresariais e nos oficiais do exército com contatos em Miami e Washington.

A pedagogia cívica de Chávez batia o pé na importância dos ensinamentos e nos exemplos históricos dos pais-fundadores da nação, como Simón Bolívar, na hora de criar uma identidade nacional e latino-americana. Seus discursos elevaram o nível cultural de milhões de venezuelanos que tinham crescido no meio da cultura servil e alienante, de Washington, e das obsessões consumistas que os grandes centros comerciais de Miami provocavam.

Chávez conseguiu infundir uma cultura de solidariedade e de apoio mútuo entre os explorados, destacando a importância dos vínculos “horizontais” frente à dependência clientelar vertical dos ricos e poderosos. Seu triunfo na criação de uma consciência coletiva afetou decisivamente o equilíbrio de poder, tirando-o dos governantes endinheirados, dos partidos políticos e dos sindicatos corruptos, e orientando-o na direção dos novos movimentos socialistas e sindicatos de classe. O que mais provocou a cólera histérica dos venezuelanos ricos e seu ódio imperecível ao presidente – que tinha criado um sentido de autonomia, dignidade e “empoderamento de classe” – foi a educação política que Chávez realizou, explicando, à maioria do povo, seu direito de desfrutar de uma saúde e uma educação superior gratuitas, de salários dignos e pleno emprego – o que conseguiu através de uma educação pública que acabou com séculos de privilégios e onipotência das elites.

É preciso destacar que os discursos de Chávez, com ensinamentos – tanto de Bolívar, como de Karl Marx – criaram um importante e generoso sentimento, patriótico e nacional, e uma profunda rejeição à elite prostrada aos pés de Washington, aos banqueiros de Wall Street, e aos executivos das companhias petroleiras. Os discursos antiimperialistas de Chávez tinham eco, porque – utilizando a linguagem das pessoas comuns – ampliavam sua consciência nacional até conseguirem sua identificação com a América Latina, especialmente com a luta cubana contra as intervenções e as guerras imperialistas.

As relações internacionais e a Doutrina Chávez

No início da década anterior, depois do 11 de setembro de 2001, Washington declarou a “Guerra ao Terror”. Foi uma declaração pública que abria a porta a intervenções militares unilaterais e guerras contra nações soberanas, movimentos e indivíduos considerados como adversários – em violação ao direito internacional.

Quase todos os países cederam ante essa flagrante violação dos Acordos de Genebra, mas não o presidente Chávez, que refutou Washington da forma mais profunda e simples: “Não se combate o terrorismo com terrorismo de Estado”. Na defesa da soberania das nações e da jurisprudência internacional, Chávez enfatizou a importância de encontrar as soluções políticas e econômicas para os problemas e conflitos sociais, repudiando as bombas, a tortura e o caos. A Doutrina Chávez batia o pé no comércio e nos investimentos Sul-Sul, e na solução diplomática e não-militar dos conflitos. Defendeu os Acordos de Genebra frente à agressão colonialista e imperialista, ao mesmo tempo em que rejeitava a doutrina imperial da “Guerra contra o Terror”, definindo o terrorismo de Estado ocidental como perigosamente similar ao da Al-Qaeda.

A grande síntese entre a teoria e prática política

Um dos aspectos mais profundos e influentes do legado de Chávez é sua síntese original, de três grandes correntes do pensamento político: o cristianismo popular; o nacionalismo e a integração regional bolivarianos; e o pensamento político, social e econômico do marxismo. O cristianismo de Chávez inculcou nele uma profunda crença na justiça e na igualdade das pessoas, assim como na generosidade e no perdão aos adversários, embora tivessem participado de um golpe de Estado violento, de uma greve patronal asfixiante, ou tivessem colaborado abertamente e recebido financiamento de organismos de inteligência inimigos. Enquanto, em qualquer outro lugar do mundo, quem dá um golpe de Estado enfrenta condenações à prisão ou, inclusive, a execuções, a maior parte dos golpistas contra Chávez evitou a ação judicial e, inclusive, voltou a tomar parte nas organizações subversivas. Chávez demonstrou uma firme crença na redenção e no perdão. Seu cristianismo faz parte da “opção pelos pobres”, da amplitude e da profundidade de seu compromisso com a erradicação da pobreza, e de sua solidariedade com os pobres frente aos ricos.

A aversão profunda de Chávez e sua oposição eficaz, ao imperialismo norte-americano e europeu e ao brutal colonialismo israelense, estavam profundamente arraigadas em sua interpretação dos escritos e da história de Simón Bolívar, o fundador da pátria venezuelana. As ideias bolivarianas sobre libertação nacional são bem anteriores a qualquer contato com escritos de Marx, Lênin ou de outros autores antiimperialistas mais contemporâneos. Sua forte e inquebrantável defesa da integração regional e do internacionalismo estava muito influenciada pelos “Estados Unidos Latino-americanos” propostos por Simón Bolívar e por sua atividade internacionalista em apoio aos movimentos anticolonialistas.

Chávez incorporou suas ideias marxistas a uma prévia visão mundial baseada em sua antiga filosofia internacionalista de talhe cristão e bolivariano. A opção pelos pobres se aprofundou com seu reconhecimento da importância da luta de classes e da reconstrução da nação bolivariana através da socialização das “reuniões de cúpula para o comando da economia”. O conceito socialista de fábricas autogeridas e do poder popular mediante conselhos comunitários adquiriu legitimidade moral, graças à fé cristã numa ordem moral igualitária de Chávez.

Enquanto o Presidente respeitava e escutava, com atenção, as opiniões dos acadêmicos esquerdistas que o visitavam e frequentemente elogiavam seus escritos, muitos destes não chegaram a se dar conta ou, pior ainda, ignoraram deliberadamente a própria síntese original – de história, religião e marxismo – de Chávez. Desgraçadamente, como costuma acontecer, alguns acadêmicos de esquerda acreditavam ser, a partir de sua postura autoindulgente, “professores” e assessores de Chávez sobre qualquer matéria de “teoria marxista”. Falamos desse colonialismo cultural de esquerda que criticou Chávez pejorativamente, por não ter seguido suas prescrições prontas para o consumo, publicadas nas revistas políticas de Londres, Nova York e Paris.

Felizmente, Chávez aproveitou, dos acadêmicos estrangeiros e dos estrategistas políticos financiados por ONGs, o que considerava útil, enquanto descartava aquelas ideias que não levavam em conta as especificidades histórico-culturais venezuelanas, de classe e de Estado rentista.

O método de pensamento que Chávez legou, aos intelectuais e ativistas do mundo, é global e específico; histórico e teórico; material e ético; e abrange análise de classe, democracia e importância espiritual, em ressonância com a grande massa da humanidade, numa linguagem que qualquer pessoa pode entender. A filosofia e a prática de Chávez (mais do que qualquer discurso elaborado em um fórum social por exaltados especialistas) demonstraram que a arte de formular ideias complexas numa linguagem simples pode levar milhões de pessoas a “fazerem história, e não somente a estudá-la…”

Busca de alternativas práticas ao neoliberalismo e ao imperialismo

Talvez a maior contribuição de Chávez seja a de ter demonstrado, através de iniciativas políticas e medidas práticas, que muitos dos maiores desafios políticos e econômicos contemporâneos podem ser resolvidos satisfatoriamente.

A reforma radical de um Estado rentista

Nada apresenta mais dificuldades do que mudar a estrutura social, as instituições e as atitudes de um Estado petroleiro rentista, com políticas clientelistas bem arraigadas, corrupção endêmica do aparato dos partidos e do Estado, e uma psicologia de massas baseada no consumismo. Não obstante, Chávez teve êxito onde outros regimes petroleiros fracassaram. A administração Chávez começou realizando mudanças constitucionais e institucionais, para criar um novo marco político. Depois, pôs em marcha programas sociais que aprofundaram os compromissos políticos de uma maioria ativa, que, por sua vez, defendeu valentemente o regime frente a um golpe de Estado violento, promovido pela elite empresarial e pelo exército, com respaldo dos Estados Unidos. As mobilizações de massa e o apoio popular radicalizaram, por sua vez, o governo de Chávez e prepararam o caminho para uma maior socialização da economia e para a colocação em marcha de uma reforma agrária radical. A indústria do petróleo foi socializada e se aumentaram os impostos e as taxas para conseguir financiar o enorme aumento do gasto social em benefício da maioria dos venezuelanos.

Chávez preparava, praticamente todo dia, palestras educativas, facilmente compreensíveis, sobre temas sociais, éticos e políticos relacionados com os programas redistributivos de seu regime, batendo o pé na solidariedade social frente ao consumismo individualista. As organizações e os movimentos comunitários e sindicais se multiplicaram, criando uma nova consciência social, disposta e desejosa de provocar a mudança social e enfrentar os ricos e poderosos. As vitórias de Chávez, contra o golpe de Estado apoiado pelos EE.UU. e contra as greves patronais, assim como sua afirmação da tradição bolivariana e da identidade soberana da Venezuela, criaram uma consciência nacionalista poderosa que minou a mentalidade rentista e reforçou a busca por uma “economia equilibrada” diversificada. Esta nova vontade política e consciência produtiva nacional implicaram num grande salto para frente, embora ainda persistam os principais traços de uma economia rentista dependente do petróleo. A transição extremamente difícil da Venezuela começou, e se trata de um processo em desenvolvimento. Os teóricos esquerdistas estrangeiros que criticam a “corrupção” e a “burocracia” da Venezuela ignoraram completamente as enormes dificuldades implicadas na passagem de um Estado rentista para uma economia socializada, e o tremendo progresso alcançado por Chávez.

Crise econômica sem austeridade capitalista

Em todo o mundo capitalista arruinado pela crise, os partidos governantes – trabalhistas ou socialdemocratas ou conservadores – impuseram “programas de austeridade” retrógrados que implicam em reduções brutais de benefícios sociais, de gastos em educação e saúde, e em demissões maciças de trabalhadores, enquanto utilizam nossos subsídios para socorrerem bancos e empresas capitalistas quebrados. Fazendo coro com o lema thatcheriano, “não há outra alternativa”, os economistas capitalistas justificam a imposição da carga que “a recuperação capitalista” representa sobre a classe trabalhadora, enquanto permitem ao capital recuperar seus benefícios para poder investir.

A política de Chávez foi exatamente o contrário: em meio à crise, manteve os programas sociais, rejeitou as demissões maciças e aumentou o gasto social. A economia venezuelana toureou a crise mundial e se recuperou com um saudável índice de crescimento, de 5,8% em 2012. Quer dizer, Chávez demonstrou que o empobrecimento maciço era produto da própria “fórmula” capitalista para a recuperação e mostrou outra alternativa para superar a crise econômica: aumento da tributação sobre os ricos, fomento do investimento público e manutenção do gasto social.

Transformação social em uma “economia globalizada”

Muitos analistas – de esquerda, direita e centro – têm defendido que o advento de uma “economia globalizada” descartava as transformações sociais radicais. Não obstante, a Venezuela, que está profundamente globalizada e integrada no mercado mundial através do comércio e dos investimentos, realizou grandes avanços em reformas sociais. O realmente relevante em uma economia global é a natureza do regime político-econômico e dos seus programas, que determina como se distribuem os benefícios e os custos do comércio e o investimento internacional. Em resumo, o que é decisivo é o caráter de classe do regime que gerencia seu lugar na economia mundial. Chávez, sem dúvida, não “desconectou” a Venezuela da economia mundial e, sim, a “reconectou” de uma nova maneira. Direcionou o comércio e o investimento venezuelanos para a América Latina, Ásia e Oriente Próximo, especialmente para países que não intervêm ou impõem condições reacionárias sobre as transações econômicas.

Antiimperialismo em tempos de ofensiva imperialista

Numa época protagonizada por uma intensa ofensiva imperialista, da parte dos Estados Unidos e da União Europeia – que comporta invasões militares “preventivas”, intervenções com mercenários, torturas, assassinatos e ataques com drones no Iraque, Mali, Síria, Iêmen, Líbia e Afeganistão e brutais sanções econômicas contra o Irã; expulsões colonialistas israelenses de milhares de palestinos com o apoio dos EE.UU.; golpes de Estado com respaldo norte-americano em Honduras e Paraguai, e revoluções abortadas, por meio de títeres, no Egito e Túnis – o presidente Chávez, sozinho, manteve-se como o principal defensor da política antiimperialista. Seu profundo compromisso antiimperialista marca um contraste agudo com a capitulação, ao modo ocidental, de certos intelectuais “marxistas” que sustentaram justificativas rudimentares para explicarem seu apoio aos bombardeios da OTAN sobre a Iugoslávia e a Líbia; a invasão francesa de Mali e o financiamento saudi-francês (“monarco-socialista”) dos mercenários islamitas; e o equipamento militar contra a Síria. Os mesmos “intelectuais” de Londres, Paris e Nova York que, condescendentemente, tratavam Chávez de “populista” ou “nacionalista”, recriminando-o por não ter escutado seus conselhos ou lido seus livros, capitularam toscamente sob a pressão do Estado e dos meios de comunicação capitalistas, prestando seu apoio a “intervenções humanitárias” (quer dizer, bombardeios da OTAN)… e justificando seu oportunismo numa linguagem de obscuras seitas esquerdistas.

Chávez enfrentou as pressões e ameaças da OTAN, a subversão desestabilizadora de seus adversários internos, e articulou valorosamente os princípios mais profundos e significativos do marxismo dos séculos XX e XXI: o direito inalienável à autodeterminação das nações oprimidas e a oposição incondicional às guerras imperialistas. Enquanto Chávez falava e atuava na defesa dos princípios antiimperialistas, muitos europeus e norte-americanos de esquerda consentiam com as guerras imperiais: não havia protestos maciços; os movimentos contra a guerra tinham sido assimilados ou estavam moribundos; o partido “socialista” dos trabalhadores britânicos defendia os bombardeios maciços da Líbia; os “socialistas” franceses invadiam Mali – com o apoio do partido “anticapitalista”. Enquanto isso, o “populista” Chávez desenvolvia uma compreensão dos princípios e da prática marxistas, muito mais profunda em qualquer caso, do que a de seus autodesignados “tutores” marxistas estrangeiros.

Não houve nenhum outro dirigente político, nem intelectual de esquerda, que tenha desenvolvido, aprofundado e ampliado, na era da guerra imperialista global, os princípios fundamentais da política antiimperialista com maior agudeza do que Hugo Chávez.

Transição de um Estado neoliberal fracassado para um Estado do bem-estar dinâmico

A reorganização programática e global da Venezuela e sua transformação, de um regime neoliberal desastroso e falido para um Estado de bem-estar dinâmico, é um marco histórico na economia política dos séculos XX e XXI. A reconversão bem sucedida das políticas e instituições neoliberais, assim como a nova nacionalização das “reuniões de cúpula de comando da economia”, demoliram o dogma neoliberal reinante, derivado da era Thatcher-Reagan e resumido no lema “Não há alternativa” às brutais políticas neoliberais.

Chávez rejeitava as privatizações; de fato, voltou a nacionalizar as indústrias-chave relacionadas ao petróleo; socializou centenas de empresas capitalistas e desenvolveu um extenso programa de reforma agrária, incluindo distribuição de terras a 300.000 famílias. Fomentou as organizações sindicais e o controle operário das fábricas, em oposição, inclusive, a administradores públicos e a seu próprio gabinete de ministros. Na América Latina, Chávez mostrou o caminho para definir, com maior precisão e com mudanças sociais mais gerais, a era pós-neoliberal. Chávez visualizou a transição do neoliberalismo para um novo Estado do bem-estar socializado, como um processo internacional, e proporcionou fundos e apoio político às novas organizações regionais, como a ALBA, PetroCaribe e UNASUR. Rejeitava a ideia de construir o Estado do bem-estar num só país, motivo pelo qual formulou uma teoria das transições pós-neoliberais, baseada na solidariedade internacional. As ideias e as políticas originais de Chávez, em relação à transição para superar o neoliberalismo, passaram despercebidas para os marxistas de gabinete e para os especialistas viajantes das ONGs do Fórum Social, cujas “alternativas globais” sem importância serviram fundamentalmente para conseguir recursos de fundações ocidentais.

Chávez demonstrou, por meio da teoria e da prática, a possibilidade de superar o neoliberalismo, o que supõe um descobrimento político fundamental pra o Século XXI.

Mais além do liberalismo social: definição radical do pós-neoliberalismo

Os regimes neoliberais promovidos pelos EE.UU. e pela UE desmoronaram sob o peso da maior crise econômica desde a Grande Depressão. O desemprego maciço provocou revoltas populares, novas eleições e o surgimento, na maior parte da América Latina, de regimes de centro-esquerda que rejeitavam ou, pelo menos, diziam repudiar o “neoliberalismo”. A maior parte destes governos promulgou leis e decretos para financiar programas contra a pobreza, ativar controles financeiros e realizar investimentos produtivos, ao mesmo tempo em que aumentava o salário mínimo e estimulava o emprego. Não obstante, foram poucas as empresas lucrativas que foram nacionalizadas. Em sua agenda, não estava incluído tratar das desigualdades e da concentração de riqueza. Formularam uma estratégia que consiste em trabalhar com os investidores de Wall Street, os exportadores locais agromineradores e os sindicatos digeridos.

Chávez propôs uma alternativa completamente diferente a esta forma de “pós-neoliberalismo”: nacionalizou as indústrias de matérias-primas, deixou fora os especuladores de Wall Street e limitou o papel das elites vinculadas à agroindústria e à mineração. Projetou um Estado do bem-estar socializado como alternativa à ortodoxia social-liberal imperante nos governos de centro-esquerda, embora trabalhasse com estes governos na integração latino-americana e na oposição aos golpes de Estado promovidos pelos EE.UU.

Chávez foi o líder que definiu uma alternativa mais socializada para a libertação social e para a consciência que preocupava seus aliados para avançar mais além.

Socialismo e democracia

Chávez inaugurou um novo, e extraordinariamente original e complexo, caminho ao socialismo, baseado em eleições livres; reeducação do estamento militar para defender os princípios democráticos e constitucionais; e desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e comunitários. Acabou com o monopólio capitalista dos meios de comunicação e reforçou a sociedade civil, como forma de resistir à intenção de paramilitares e quinta-colunistas apoiados pelos Estados Unidos para desestabilizarem o Estado democrático.

Nenhum outro presidente democrata-socialista resistiu com êxito às campanhas de desestabilização promovidas pelo império (nem Jagan na Guiana, nem Manley na Jamaica, nem Allende no Chile). Desde o princípio, Chávez compreendeu a importância de criar um sólido marco legal e político para facilitar sua liderança executiva, promover as organizações populares da sociedade civil e acabar com a influência norte-americana no aparato do Estado (polícia e exército). Ativou programas radicais de grande impacto social que lhe asseguraram a lealdade e fidelidade das maiorias populares e debilitaram os tentáculos econômicos do poder político exercido pela classe capitalista desde há muito tempo. Como resultado, os dirigentes políticos, os soldados e oficiais leais à constituição, e as massas populares esmagaram um sangrento golpe direitista, uma asfixiante greve petroleira, um referendo financiado pelos Estados Unidos, e se promoveram reformas socioeconômicas ainda maiores, em um processo continuado e crescente de socialização.

A originalidade de Chávez, em parte fruto de um processo de tentativa e erro, tinha as raízes em seu “método experimental”: Sua profunda compreensão das atitudes e comportamentos populares estava fortemente enraizada na história de injustiças raciais e de classe, e da rebeldia popular da Venezuela. Chávez viajou, conversou e ouviu as classes populares da Venezuela falarem das coisas cotidianas. Seu “método” era transportar o conhecimento, baseado no pequeno, para grandes programas de mudanças. Na prática, era a antítese desses intelectuais ‘sabe-tudo’, estrangeiros e locais, que literalmente se dirigem às pessoas, de cima para baixo, e que consideram a si mesmos os “mestres do mundo”… pelo menos, no micromundo acadêmico das esquerdas, conferências socialistas endogâmicas e monólogos ególatras. A morte de Hugo Chávez foi chorada por milhões de pessoas na Venezuela, e por centenas de milhões em todo o mundo, porque sua transição ao socialismo era o seu próprio caminho; porque ouviu suas demandas e, em consequência delas, atuou com eficácia.

A socialdemocracia e a segurança nacional

Durante mais de 13 anos, Chávez foi um presidente socialista que enfrentou uma oposição, violenta e prolongada em grande escala, e sabotagens financeiras de Washington, da elite econômica local e dos magnatas dos meios de comunicação. Foi o artesão da consciência política que deu motivação a milhões de trabalhadores e assegurou a lealdade constitucional do exército para vencer o golpe militar-empresarial apoiado pelos Estados Unidos em 2002. Chávez adaptava as mudanças sociais de acordo com uma avaliação realista do que podia encaixar dentro da ordem político-legal. E, sobretudo, Chávez se assegurou da lealdade dos militares, pondo fim aos “assessores” norte-americanos e à doutrinação imperial no estrangeiro, promovendo, em seu lugar, cursos intensivos sobre a história venezuelana, a responsabilidade cívica e o vínculo fundamental que deve unir as classes populares e os militares numa missão nacional comum.

As políticas de segurança nacional de Chávez se baseavam em princípios democráticos e no claro reconhecimento das graves ameaças que avançavam sobre a soberania do país. Conseguiu, ao mesmo tempo, salvaguardar a segurança nacional e os direitos democráticos e liberdades políticas de seus cidadãos, uma proeza que granjeou para a Venezuela a admiração e a inveja de advogados constitucionalistas e de cidadãos dos Estados Unidos e da UE.

Ao contrário, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, arrogou-se o poder de assassinar, com base em informações secretas e sem juízo prévio, dentro ou fora dos EE.UU. Sua administração assassinou cidadãos norte-americanos “selecionados” e seus filhos, encarcerou outros sem julgamento e mantém “arquivos” secretos sobre 40 milhões de estadunidenses. Chávez nunca se atribuiu esses poderes, nem assassinou ou torturou um só venezuelano. A dúzia de prisioneiros convictos de atos violentos de subversão, julgados publicamente nos tribunais da Venezuela, oferece um agudo contraste com as dezenas de milhares de imigrantes muçulmanos e latino-americanos encarcerados e, secretamente, considerados culpados nos Estados Unidos. Chávez se opôs ao terror de Estado, enquanto Obama conta com equipes especiais para realizarem assassinatos no solo de mais de 70 países. Obama respalda a invasão policial arbitrária de lares e locais de trabalho “suspeitos”, segundo “provas secretas”, enquanto Chávez chegou a tolerar as atividades de conhecidos partidos da oposição financiados pela CIA. Quer dizer, Obama utiliza a “segurança nacional” para destruir as liberdades democráticas, enquanto Chávez fez respeitar as liberdades democráticas e impôs limites constitucionais ao aparato de segurança nacional.

Chávez procurou uma resolução diplomática e pacífica para os conflitos com vizinhos hostis, como a Colômbia, que alberga sete bases militares norte-americanas, potenciais trampolins para uma intervenção norte-americana. Por outro lado, Obama está implicado em guerras abertas com, pelo menos, sete países, e realizou ações hostis disfarçadas contra muitos outros mais.

Conclusão

O legado de Chávez possui múltiplas facetas. Suas contribuições são originais, teóricas e práticas, e de relevância universal. Demonstrou, na prática, como um pequeno país pode defender-se contra o imperialismo, manter os princípios democráticos e, ao mesmo tempo, ativar programas sociais avançados. Sua busca da integração regional e sua promoção dos valores éticos no governo da nação são exemplos relevantes, num mundo capitalista inundado de políticos corruptos que baixam o nível de vida de suas populações, enquanto enriquecem os plutocratas.

A rejeição de Chávez à doutrina Bush-Obama (que justifica o “terrorismo de Estado para combater o terror”), sua afirmação de que as raízes da violência são a injustiça social, o assalto econômico e a opressão política, e sua crença em que o caminho para a paz passa pela resolução destes temas fundamentais supõem um guia ético-político para a sobrevivência da humanidade.

Enfrentando um mundo violento de contrarrevolução imperial e decidido a estar do lado dos oprimidos do mundo, Hugo Chávez passa a tomar parte da história mundial como um dirigente político completo, com a estatura do líder mais humano e multifacetado de nossa época: Uma figura do renascimento para o Século XXI.

Traduzido para o ‘Rebelión’ por Paco Muñoz de Bustillo

Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor, por meio de uma licença da Creative Commons, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.

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HÁ, SIM, UMA REVOLUÇÃO EM CURSO NA VENEZUELA, SENHOR FERREIRA GULLAR.

23/03/2013

Existe uma expressão comum no mundo político da Venezuela – “saltar la talanquera” – que poderia ser traduzido por ‘pular sobre a barricada’ e que significa passar para o outro lado. Muita gente que, na sua juventude e por largos anos, abraçou os ideais do socialismo, resolveu “saltar la talanquera”, renegando, sob os mais variados pretextos, tudo o que pensava e defendia, e muda de lado, de mala e cuia. Como necessitam ser bem recebidos pelos novos correligionários, mostram-se crescentemente mais realistas que o rei. Ou seja, homens com uma história de esquerda passam a defender algumas das teses mais caras à direita. Mudar de lado não é um ato gratuito. Há que se pagar pedágio sempre – e ele é caro e exigente –, demonstrando por atos e palavras que são leais à nova trincheira e aos seus valores. É o caso de Arnaldo Jabor, Roberto Freire, Marcelo Madureira, Alberto Goldman e tantos outros. E do poeta e cronista, Ferreira Gullar.

Gullar publicou na Folha de domingo, 17 de março, artigo sob o título “A revolução que não houve”. Não vou refutar suas posições ideológicas ou políticas. Eles têm as deles, nós, as nossas, e assim vamos travando a batalha de ideias. O que quero rebater são suas inverdades e distorções – e até um grave vilipêndio – acerca de fatos concretos. O poeta Gullar não pode alegar desconhecimento, pois é jornalista, nem ignorância, posto que é intelectual.

O articulista afirma que Hugo Chávez “não só fechou emissoras de televisão como criou as Milícias Bolivarianas, que, a exemplo da conhecida juventude nazista, inviabilizava, pela força, as manifestações políticas dos adversários do governo.” O sinal eletroeletrônico, lá como aqui, é de propriedade do Estado. A concessão de transmissão por sinal aberto da RCTV – e este foi um caso único – deixou de ser renovada, entre muitas outras razões, pelo fato de a emissora ter tramado e liderado o Golpe de Estado, de abril de 2002, contra o presidente Chávez, fato cabalmente demonstrado no documentário “A Revolução Não Será Televisionada”. Nos Estados Unidos, por exemplo, esta ocorrência levaria os donos da estação a uma condenação severíssima. O sinal fechado da RCTV continua funcionando normalmente. À parte a odiosa e absurda comparação com as milícias hitleristas, a Lei Orgânica da Força Armada Bolivariana da Venezuela (FABV) estabelece que a Milícia Bolivariana, subordinada ao Comando Estratégico Operacional da Força Armada Bolivariana da Venezuela, tem como missão treinar, preparar e organizar o povo para a defesa integral, com o fim de complementar o nível de prontidão operacional da FANB, contribuir para a manutenção da ordem interna, segurança, defesa e desenvolvimento integral da Nação, com o propósito de coadjuvar a independência, soberania e integridade do espaço geográfico da Nação. Repto o Sr. Gullar, ou qualquer outro, a mencionar um só caso em que a Milícia Bolivariana tenha sido utilizada para inviabilizar, pela força ou não, qualquer manifestação política, ou de outra ordem, da oposição.

Diz mais o cronista: “O azar dele foi o câncer que o acometeu e que ele tentou encobrir. Quando não pôde mais, lançou mão da teoria conspiratória, segundo a qual seu câncer foi obra dos norte-americanos.” Agora mesmo, estamos assistindo à autorização da família do ex-presidente João Goulart, para a sua exumação, 37 anos após o falecimento, porque há forte suspeita de que ele tenha sido envenenado, para induzir o ataque cardíaco, pela Operação Condor, sabidamente apoiada e orientada pela CIA. Foi possível com Jango, por que não poderá ser com Chávez? A ciência, provavelmente, irá dirimir a dúvida em ambos os casos.

“De qualquer modo, tinha que se curar e foi tratar-se em Cuba, claro, para que ninguém soubesse da gravidade da doença…” Não é nada claro, Sr. Gullar. Vindo do Equador e do Brasil, desce Chávez em Havana, caminhando com dificuldade e apoiado numa muleta. Foi estar com Fidel e com ele se queixou das dores. Fidel lhe fez uma enxurrada de perguntas e o convenceu a passar imediatamente por uma bateria de exames no melhor hospital de Havana. Foi nesse momento que se descobriu que carregava na região pélvica um tumor “do tamanho de uma bola de beisebol.” E, lá mesmo, passou pela primeira das quatro operações cirúrgicas. A Venezuela e o mundo todo souberam imediatamente da gravidade da doença e com algum detalhe. Razões de Estado sempre cercam enfermidades de chefes-de-Estado e de governo. Não obstante, no caso de Chávez, foram 27 comunicados públicos ao longo dos quase dois anos, feitos por ele mesmo ou por ministros do governo. François Mitterrand passou dois setenatos carregando um câncer de próstata que o acabou matando, sem que a opinião pública soubesse de algo. Antes dele, o presidente Georges Pompidou morreu no exercício do cargo, inesperadamente, de Macroglobulinemia de Waldenström e ninguém soube de nada, salvo alguns jornalistas que suspeitaram de seu súbito inchaço.

Gullar omite e distorce quando diz que “Para culminar, (Chávez) fez mudarem a Constituição para tornar possível sua reeleição sem limites. Aliás, é uma característica dos regimes ditos revolucionários não admitir a alternância no poder”. Na verdade, Chávez fez questão de que a emenda constitucional, permitindo a postulação indefinida, passasse por referendo popular e não, simplesmente aprovada pela Assembleia Nacional onde detinha praticamente a totalidade das cadeiras. (A oposição se recusara a concorrer às eleições legislativas.) Houve ampla e livre campanha e o SI ganhou por boa margem. O povo assim decidiu. A propósito, nos Estados Unidos havia uma tradição de apenas dois mandatos de quatro anos, mas nada na Constituição impedia a postulação indefinida. Roosevelt foi eleito em 1932, reeleito em 1936, novamente eleito em 1940 e, outra vez, eleito em 1944. Faleceu em abril de 1945, com apenas 63 anos. Seria facilmente reeleito pela 5ª, 6ª e 7ª vez, pois saíra vitorioso da Segunda Guerra Mundial e os Estados Unidos confirmavam a condição de superpotência. Alguém tisnou de antidemocrática a contínua reeleição de Roosevelt? Essa possibilidade foi revogada posteriormente por uma eventual maioria republicana.

O articulista envereda, sibilina e maliciosamente, pelo terreno jurídico. “Contra a Constituição, Nicolás Maduro … assume o governo, embora já não gozasse, de fato, da condição de vice-presidente, já que o mandato do próprio Chávez terminara”. E mais adiante: “Mas, na Venezuela de hoje, a lei e a lógica não valem. Por isso mesmo, o próprio Tribunal Supremo de Justiça – de maioria chavista, claro – legitimou a fraude, e a farsa prosseguiu até a morte de Chávez; morte essa que ninguém sabe quando, de fato, ocorreu”. O Sr. Gullar nunca se referiu ao nosso STF como de maioria tucana, claro, em especial durante o julgamento midiático da AP 470. Os membros da Suprema Corte na Venezuela, que devem ser cidadãos de reconhecida honorabilidade e juristas de notória competência, gozar de boa reputação e ter exercido a advocacia ou o magistério em ciências sociais por, pelo menos, 15 anos, e possuir reconhecido prestígio no desempenho de suas funções, são eleitos por um período único de 12 anos. Postulam-se ou são postulados ante o Comitê de Postulações Judiciais. O comitê, ouvida a comunidade jurídica, envia uma pré-seleção ao Poder Cidadão, que, por sua vez, faz uma nova pré-seleção e a envia à Assembleia Nacional que fará a seleção definitiva. (arts. 263 e 264 da Constituição Bolivariana). Cabe, por outro lado, à Sala Constitucional do Tribunal Supremo da Venezuela (art. 266) exercer a jurisdição constitucional, como única intérprete da Constituição. E ela considerou, em decisão articulada e bem fundamentada, que: a) pelo fato de estar ainda em curso a licença concedida pela Assembleia Nacional ao presidente Chávez; b) que havia uma continuidade administrativa, pois Chávez havia sido reeleito; a posse poderia se dar em outro momento e ante o TSJ, fato também previsto na Constituição e que Nicolás Maduro poderia continuar exercendo a vice-presidência executiva. (Na Venezuela, o vice-presidente é indicado pelo presidente e não, eleito conjuntamente.) Com a morte de Chávez, aplicou-se o art. 233, passando Maduro a exercer o cargo de Presidente Encarregado, obrigando-se a convocar eleições em 30 dias, o que foi feito.

E onde reside o vilipêndio, a ignomínia de Ferreira Gullar? Repetindo maquinalmente o que a extrema-direita golpista e corrupta da Venezuela alardeou, afirma que a farsa prosseguiu até a morte de Chávez, que ninguém sabe quando, de fato, ocorreu. Isto é uma grave ofensa, antes de mais nada, à dignidade dos pais, irmãos e filhos de Hugo Chávez, porquanto afirmar que ninguém sabe quando ocorreu a morte é imputar à família do presidente participação numa farsa. As filhas de Chávez, em discursos emocionados, num e noutro momento, repeliram a rancorosa e covarde acusação, reafirmando que Chávez faleceu, quase diante de seus olhos, no dia 5 de março, no hospital militar de Caracas, exatamente às 16h25.

E por que afirmo no título que há uma revolução socialista bolivariana em marcha? Evidentes êxitos dos programas sociais do governo Chávez não a caracterizariam. Esta proeza pode ser alcançada por países em regime capitalista. Há, porém, um dado da realidade na Venezuela: a massa pobre e de trabalhadores alcançou um bom nível de consciência política e ideológica e está organizada. Vale-se do Partido Socialista Unido da Venezuela para a sua mobilização. E dispõe-se a respaldar o governo, a fim de levar adiante o “Plano Socialista da Nação – 2013-2019”, programa histórico de cinco objetivos fundamentais, que tem por lema ‘desenvolvimento, progresso, independência, socialismo’.

Sempre com fundamento na Constituição, que estabelece que a soberania reside intransferivelmente no povo, que a exerce diretamente na forma prevista na Carta Magna e nas leis e, indiretamente, mediante o sufrágio direto e secreto, Chávez liderou a expansão da democracia participativa, diminuiu o peso do empresariado, dos meios comerciais de comunicação e das casamatas mais retrógradas do aparelho estatal, especialmente no sistema judiciário. Criou, com isso, a base social que permite, agora, avançar na transformação socialista em curso, trazendo a Força Armada para dela lealmente participar.

Uma das mais relevantes medidas de transferência de poder ao povo é a criação e o desenvolvimento do poder comunal. Trata-se de pequenas áreas geográficas, distritos ou bairros, que funcionam como instituições políticas e que, também, podem organizar seus próprios serviços públicos, constituir empresas para diferentes atividades e receber financiamento direto do governo nacional. Busca-se, assim, esvaziar os estamentos burocráticos ainda controlados ou corrompidos pelos antigos senhores.

Ao contrário de outras experiências de identidade socialista, a ampliação da democracia direta não foi acompanhada pela redução de liberdades, mesmo daqueles setores que participaram do golpe de Estado em 2002 ou que insistem na oposição golpista. Não se tolheu a liberdade de expressão, nem a liberdade de imprensa. Partidos de cariz neoliberal, de direita, sociais-democratas ou ultra-esquerdistas continuam a funcionar normalmente, com ampla liberdade de organização e manifestação pacífica.

Dois fortes sinais indicam que a revolução socialista bolivariana está atingindo um ponto de não-retorno. O primeiro foi o extraordinário comportamento do povo venezuelano diante da morte de seu comandante-presidente. Milhões saíram às ruas para homenageá-lo. Embora comovido, mostrou-se sereno, pacífico, responsável e democrático. Isto permitiu que o governo funcionasse e, principalmente, a estabilidade institucional fosse garantida. Não caiu nas provocações alimentadas por setores raivosos da direita. Reagiu com senso civilizado extraordinário, com dignidade. No entanto, como se pôde assistir, disposto a qualquer coisa para defender o legado de Hugo Chávez, o progresso e as conquistas sociais, o desenvolvimento da economia, a soberania e a independência da pátria, a consolidação da integração regional latino-americana.

O segundo sinal está por vir e será a confirmação desta vontade popular. No dia 14 de abril serão realizadas eleições livres, justas e transparentes, como garante o Conselho Nacional Eleitoral, para presidente da Venezuela. A vitória de Nicolás Maduro constituirá um marco histórico e dará início a uma nova etapa da revolução socialista bolivariana.

Max Altman

20 de março de 2013

ESTAMOS SEM HUGO CHÁVEZ, A AMÉRICA LATINA ESTÁ DE LUTO

06/03/2013

Os povos latino-americanos estamos em momento de grande tristeza: Chávez já não está fisicamente conosco. Deu sua vida pela vida da América Latina. É ele dos que vão e ficam, como Simón Bolivar, Gervasio Artigas, Carlos Mariátegui, Tupac Amaru, Luís Carlos Prestes, Che Guevara, José Martí, Julio Mella, Tupac Katari, Carlos Marighella, Gaitán, Sandino, Salvador Allende, Zapata e tantos outros próceres da Nossa América. É um exemplo a ser seguido por todos os humanistas e revolucionários do nosso continente e do mundo. Quem é contra a exploração e opressão do homem pelo homem, que sonha e luta por uma nova humanidade, fundamentada na igualdade, sempre se sentirá acompanhado por ele.

Revolucionário, Chávez entendia que o ponto culminante da unidade de nossos povos é o socialismo, que, a seu ver, é a sociedade do amor e da felicidade.

Morre Chávez, mas não morre seu ideário de esperança, incrustado na alma do povo venezuelano e no sonho dos que lutam por uma América Latina definitivamente livre e igualitária.

Chávez é criatura de um momento histórico em que a América Latina decidiu não ser mais a mesma, amparando-se cada vez mais no brado e ideias dos que colocaram a sua vida a serviço de sua libertação.

Prestamos nossa solidariedade ao povo da Venezuela, neste momento de dor e tristeza, que também é nosso. Tristes, porém comprometidos com o sonho de seu líder máximo, que por ser seu, também é nosso.

Comitê Bolivariano de São Paulo

CHÁVEZ: EVITAR A GUERRA PREPARANDO-SE PARA ELA

06/03/2013

Unicamente instrumentando “a guerra de todo o povo” (…) é possível dissuadir o inimigo imperialista de lançar uma agressão direta.

Álvaro Uribe entregou a Colômbia em bandeja de prata, como praça de armas, à inteira e incondicional disposição dos Estados Unidos e a seus planos de subversão e intervenção militar de “espectro completo” na América Latina. Muda totalmente a equação geopolítica e geoestratégica ao sul do Rio Bravo, pois o convênio faz da Colômbia passagem-chave da América Central e Caribe para a América do Sul, único país com costas no Atlântico e no Pacífico, um gigantesco encrave militar ianque, em escala sem precedente em nosso continente, dirigido contra “os governos anti-estadunidenses”, como afirma a Força Aérea dos EUA, em documento enviado ao Congresso de Washington, claro, com o propósito de reprimir os movimentos populares da região. A história mostra a carnificina e a destruição apocalípticas que um dispositivo militar semelhante de Washington provocou nos anos oitenta contra os povos da Nicarágua, El Salvador, Guatemala e Honduras, durante a guerra suja contra a Revolução Sandinista e os movimentos guerrilheiros e populares da área. O atual golpe de estado em Honduras seria inexplicável sem a atividade do Grupo de Tarea Bravo, do Comando Sul, estacionado, desde então, na base de Palmerola/Soto Cano, de onde exerce a chefatura real do exército desse país.

Às da Colômbia se somam outras bases já existentes no sul do Rio Bravo e as que, ao que parece, serão instaladas no Panamá, além da IV Frota, em ação em ambos os oceanos em torno do continente e ilhas da América Latina e Caribe. Por tudo isso, é muito grave a ameaça que paira sobre os governos revolucionários da região, que se verão forçados, a curto prazo, a redobrar seu esforço em segurança e defesa nacional e, por conseguinte, a desviar para essas tarefas enormes recursos humanos e financeiros que poderiam ter designado para o desenvolvimento econômico-social e a integração.

A revelação do governo venezuelano de parte do conteúdo de um documento do DAS (polícia política colombiana) indica que a instalação das bases ianques chega junto com o recrudescimento da subversão contra a Venezuela, com a participação da CIA, a que se deve somar a desenfreada guerra dos conglomerados midiáticos corporativos contra os governos e movimentos populares do continente. Fiéis à sua história, os meios de comunicação da Sociedade Interamericana de Imprensa agem como unidades militares de guerra psicológica das forças armadas dos Estados Unidos e têm missões muito importantes, atribuídas nos novos planos de desestabilização e agressão contra as forças populares, progressistas e revolucionárias da América Latina. Nessa condição de mercenários do Império é que armaram e fizeram uma grande pantomima sobre as supostas declarações belicistas do presidente Hugo Chávez ”contra a Colômbia”, desviando, assim, a atenção sobre as bases ianques nessa nação e a grave ameaça que implicam para a América Latina e, em primeiro lugar, para a Venezuela. Chávez agiu como chefe de Estado, previsor e responsável, que vê seriamente ameaçadas a soberania e a independência de seu país pela superpotência militar do norte, ao chamar as forças armadas e o povo venezuelano para se prepararem para a guerra, como a melhor maneira de evitá-la, a constituição de corpos de milícias de trabalhadores, mulheres e estudantes, organizados pelos militares bolivarianos; porque, unicamente instrumentando “a guerra de todo o povo”, como fez Cuba, com o máximo de rigor, espírito de sacrifício e seriedade, é possível dissuadir o inimigo imperialista de lançar uma agressão direta.

Chávez não está só na sua apreciação sobre a gravidade da situação. O presidente da Bolívia, Evo Morales, qualificou o acordo sobre as bases como “uma aberta provocação contra a América Latina e, em particular, contra a Venezuela, Nicarágua, Equador e Bolívia”, e defendeu a convocação de uma reunião urgente da ALBA para discutir o tema. Em termos parecidos, expressaram-se todos os líderes dos países que compõem essa aliança. Fidel Castro analisou, em pormenores, o acordo em uma de suas Reflexões e pontuou o papel que se quer atribuir aos soldados colombianos: “O que o Império pretende agora é enviá-los para que lutem contra seus irmãos venezuelanos, equatorianos e outros povos bolivarianos e da ALBA, a fim de destruir a Revolução Venezuelana.

Angel Guerra Cabrera

O MISTÉRIO DA MORTE DE PABLO NERUDA

06/03/2013

Após quase dois anos de investigação, o juiz chileno Mario Carroza determinou a exumação dos restos mortais do poeta Pablo Neruda, para dissipar as dúvidas sobre a sua morte, segundo confirmação de Fernando Sáez, diretor da Fundação Neruda. A iniciativa tem sua origem numa ação judicial – apresentada em maio de 2011 pelo Partido Comunista do Chile, do qual o poeta foi senador e candidato a presidente – fundamentada em revelação de seu último motorista particular, Manuel Araya, afirmando que Neruda foi assassinado por agentes do ditador Augusto Pinochet.

O poeta faleceu em uma clínica privada de Santiago do Chile, em 23 de setembro de 1973, doze dias depois do golpe de estado. Seu funeral se tornou, espontaneamente, a primeira manifestação popular contra a Junta Militar. A dor e a solidariedade tiveram mais força que o medo. Sua viúva, Matilde Urrutia, afirmou que seu marido ficou bastante afetado pela brutal repressão desencadeada após a morte de seu amigo Salvador Allende e que não foi o câncer de próstata que o atingia que o matou, como diz o atestado de óbito, mas sim uma parada cardíaca. O depoimento do motorista, levantando suspeita de uma injeção letal, e uma grande quantidade de contradições entre os diferentes testemunhos influenciaram a decisão final do juiz Carroza, que decidiu também, em 2011, determinar a exumação do cadáver de Allende para confirmar ou não seu suicídio em La Moneda.

O então correspondente de La Vanguarda, no Chile, Alberto Míguez, em sua crônica de 25 de setembro de 1973, ainda que tenha revelado que o poeta tinha um câncer de próstata generalizado, também fez menção à injeção de que se levantam suspeitas: “A causa da morte do escritor foi uma parada cardíaca, consequência da injeção de um calmante que lhe foi aplicado.” Entre as dificuldades que tem enfrentado o juiz Carroza em sua investigação, está o fato de que nenhum dos três centros médicos chilenos, onde Neruda foi atendido, em 1973, conserva seu histórico, apesar de seu arquivamento, por pelo menos 40 anos, ser obrigatório por lei.

O melhor trabalho sobre esta questão é o livro ‘Sombras sobre Ilha Negra. A misteriosa morte de Pablo Neruda’ (Edições B-Chile, 2012), de Mario Amorós. Trata-se de uma exaustiva reportagem de investigação jornalística, política e histórica, em que o autor ouviu todas as testemunhas existentes, confrontando com um importante trabalho de hemeroteca e arquivo (a correspondência de Neruda e Matilde Urrutia, por exemplo) e o estudo minucioso das mais de 500 páginas do sumário judicial. Amorós é especialista na história contemporânea do Chile. Entre suas obras, destacam-se também ‘Antonio Llidó, um Sacerdote Revolucionário’ (PUV, 2007); ‘Companheiro Presidente. Salvador Allende, uma Vida pela Democracia e o Socialismo’ (PUV, 2008). Nestas páginas, publicamos uma reportagem sua sobre as últimas horas de Pablo Neruda, ampliando a informação essencial, presente em seu livro, com documentação inédita a que teve acesso nas últimas semanas.

‘Sombras sobre Ilha Negra’ é um trabalho que explora os claro-escuros da fase final do poeta, sem ainda poder oferecer conclusões e rememora sua postura pública no ano decisivo e trágico de 1973, último da Unidade Popular. Ele temia que ocorresse com o seu povo uma tragédia como a da Guerra Civil Espanhola, que o marcou profundamente, refletindo em sua poesia uma Espanha no coração. Neruda intuía a tragédia e foram várias suas firmes declarações públicas neste sentido. Amorós recolhe as mais significativas. Em março de 1973, por exemplo, num discurso numa rádio local, afirmou: “ Eles querem devolver às empresas ianques o que Allende nacionalizou e entregar as terras e as empresas à exploração de uns poucos. Por isso, para restabelecer interesses, querem nos levar a uma guerra civil e mentem de forma escancarada, deformando os fatos e desprestigiando o Parlamento.” Em agosto de 1973, quando seria sua última entrevista, declarou à revista argentina Crisis: “Estamos em uma situação bastante grave. Considerei que acontece no Chile um Vietnã silencioso, em que não existem bombardeios nem artilharia. Fora isso, fora o napalm, estão usando todas as armas, do exterior e do interior, contra o Chile… A direita tenta provocar uma insurreição criminosa.” Tampouco economizou críticas ao papel dos Estados Unidos, da ITT e da CIA e, para denunciar suas manobras, em fevereiro de 1973, publicou um autêntico panfleto poético: Incitação ao nixonicídio e elogio da revolução chilena.

Há outras razões que poderiam alimentar a hipótese de assassinato. Neruda estava prestes a exilar-se no México, onde se tornaria um opositor incômodo. É importante lembrar que, na Operação Condor, o regime determinou o assassinato de destacados opositores no estrangeiro, como o do general Carlos Prats e sua esposa, em Buenos Aires, em 1974, e o de Orlando Letelier, em Washington, em 1976. Ademais, Neruda faleceu na Clínica Santa Maria, onde, segundo pôde provar a justiça chilena, em 1982 foi assassinado, através de envenenamento, o ex-presidente Eduardo Frei, após expressar sua oposição à ditadura militar.

Neruda foi mais uma vítima de Pinochet. É o que acham Amorós, muitas das testemunhas de seus últimos dias e, de certo modo, também a sua viúva, Matilde Urrutia. A precipitação de sua morte deve ter sido devido ao efeito que lhe causaram o golpe de estado e as notícias da selvagem repressão. A análise de seus restos mortais colocará às claras todas as incógnitas sobre sua morte. Pablo Neruda, finalmente, descansará em paz. Quarenta anos depois.

Xavier Montanyá