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“EL PORTEÑAZO”, UMA AÇÃO GOLPISTA?!

29/06/2012

O professor Wladimir Abreu, historiador, tem opinião diferente dos que vêem no Porteñazo uma ação golpista. Vê neste movimento uma iniciativa revolucionária cívico-militar. Segue aqueles que entendem que um ato revolucionário não pode ser caracterizado como golpismo, já que seu objetivo não é derrotar a democracia, implementar o retrocesso. Sua meta é conquistar a democracia verdadeira, plena, popular, na luta antiimperialista e socialista. Assim, para Wladimir, o Porteñazo deve ser sempre lembrado como um momento de glória e de orgulho de um povo na luta pela liberdade.

Segue abaixo seu artigo sobre esse movimento, dando detalhes sobre batalhas heroicas de patriotas e revolucionários da Venezuela, em 1962.

A GRANDE SUBLEVAÇÃO REVOLUCIONÁRIA CÍVICO-MILITAR DE PUERTO CABELLO

50 ANOS DE “EL PORTEÑAZO”

Wladimir Abreu

A traição do governo Betancourt ao esforço popular de 23 de janeiro de 1958 (quando o povo derrotou o ditador Jiménez) foi combatida pelo Partido Comunista, com a participação de trabalhadores e militares patriotas, que não vacilaram em enfrentar, com todos os meios disponíveis, o Pontofixismo (Puntofijismo).

Junho anunciava uma das maiores ações revolucionárias da história venezuelana, em que o sangue de valentes combatentes era derramado em terras da Venezuela.

Era sábado, 2 de junho de 1962. Às 5 horas, começa a ação, os oficiais se insurgiram no batalhão de infantaria da Marinha, “Rafael Urdaneta” Número 2. Detêm os oficiais ligados ao governo assassino de Rómulo Betancourt. Às 7, tomam o aeroporto e grande parte da cidade; libertam 50 guerrilheiros no Castillo Libertador, incorporando-os à rebelião.

Essa ação, desde seu início, contou com o apoio da população de Puerto Cabello. Vale destacar que jovens e estudantes se juntaram valentemente à ação revolucionária.

De repente, o Destacamento 55 da Guarda Nacional, que estava comprometido com a rebelião, “se arrepende”, perdendo, assim, as forças revolucionárias uma importante posição estratégica na defesa da cidade.

Às 11 horas da manhã, as forças de Betancour começam a ofensiva contra a Puerto Cabello revolucionária. Os batalhões Carabobo n.º 41, Piar, Simón Bolívar, a Companhia de Tanques de Bravos de Apure com 16 carros AMX-13 e o grupo de artilharia Salón são enviados para o cerco à revolta. A patrulheira leal ao governo ARV Mejilón ataca os revolucionários até ter de render-se, devido ao contra-ataque da artilharia rebelde. Nesse momento, as tropas de Betancourt tentam tomar por terra a cidade, sendo rechaçadas pelas forças revolucionárias. Por sua vez, os navios leais ao governo esmagam as posições rebeldes com os seus canhões.

Da rádio de Puerto Cabello, os revolucionários convocam as massas populares, conclamando-as para o combate. Horas depois, a aviação destruiria as antenas de rádio, silenciando a voz da rebelião. Ressalte-se que, ao ser instaurada a censura, muitas emissoras de rádio do país colocam, de maneira repetida, a canção “Puerto Cabello”, ludibriando a censura, em solidariedade com os revoltosos.

Assim que começou a sublevação, as forças do governo enviam bombardeiros Camberra (os mesmos usados em Cantaura), B-25, aviões Sabres F-86 e os DH Vampiros, com os quais atacam indiscriminadamente a cidade e as posições das forças revolucionárias.

Já durante a tarde, o Batalhão Carabobo penetra em Puerto Cabello até a estação de bombeiros. No Bairro de San Millán, se combate até a noite. No Liceu Miguel Peña, os jovens da Juventude Comunista, em conjunto com os infantes da Marinha, se entrincheiram na instituição e rechaçam os blindados das forças governamentais. No Forte Soberano, os paraquedistas se chocam no solo ante a firme defesa das forças rebeldes.

3 de junho

No domingo de 3 de junho, o destróier Zulia se junta ao movimento revolucionário, sendo o primeiro barco da pequena marinha revolucionária venezuelana cujos canhões obrigam os navios leais ao governo a suspenderem momentaneamente o bombardeio a posições rebeldes.

Logo cedo, pela manhã, a Força Aérea ataca as posições dos sublevados, enquanto os tanques do governo do Batalhão Blindado ‘Bravos de Apure’ atacam pelo leste a cidade. É quando as forças revolucionárias impõem o maior golpe às forças governamentais, pois tanques que avançam pela cidade são emboscados pelos revolucionários, na célebre esquina da La Ancantarilla, derrotando a infantaria que os acompanha.

As forças do governo aumentam a ofensiva e com seus tanques tomam, a sangue e fogo, o Liceu Miguel Peña, que era heroicamente defendido pela Juventude Comunista e os jovens do MIR, junto com os infantes da Marinha.

Pouco a pouco, se aperta o cerco, é bombardeado e destruído o Hospital de Puerto Cabello, por expressa ordem do Ministro do Interior, Carlos Andrés Pérez, ferindo e assassinando civis inocentes.

Nas últimas horas do domingo, 3 de junho, são detidos o capitão-de-fragata Pedro Medina Silva, o capitão-de-navio Manuel Ponte Rodríguez(que, de forma vil, deixaram morrer na prisão) e o capitão-de-corveta Víctor Hugo Morales, os quais dirigiam a rebelião.

4 de junho

Na segunda feira, 4 de junho, os últimos disparos da Puerto Cabello revolucionária ressoavam para a história. Puerto Cabello jamais se rendeu em três dias de combates ferozes. Isolados, sem possibilidade de receber reforços e sem que nenhuma outra guarnição se somasse à rebelião, os defensores da cidade iam ficando sem armas e sem munições, para o rechaço a forças seis vezes maiores. Como relata o capitão Pedro Medina Silva: “ Lembro-me de que, em 1966, quando convidado a fazer uma palestra em Cuba, o público me perguntou por que Puerto Cabello se rendeu. Respondi: “Puerto Cabello não se rendeu. Apenas não se tinham mais armas”. Os aplausos foram apoteóticos. Esta é e será a verdade. Não havia mais armamentos para a continuação do combate.

Exemplo e estímulo

Estima-se entre 300 e 700, aproximadamente, os mortos na luta revolucionária, sendo uma das batalhas mais sangrentas da história venezuelana.

É uma dívida à memória histórica o resgate de centenas de venezuelanos que foram enterrados em valas comuns, sem nenhum tipo de identificação, deixando claras as arbitrariedades do governo de Betancourt ao sufocar a rebelião. Um estudo que esclareça, definitivamente, o número de vítimas de El Porteñazo e as circunstâncias de suas mortes, ressaltando que muitos sobreviventes relatam os fuzilamentos massivos realizados pelas forças governamentais.

A atitude heroica desses militares revolucionários, que se opuseram, desde o princípio, aos crimes da falsa democracia de pacto do Ponto Fixo, é um fato que a história deve reivindicar.

O apoio do povo de Puerto Cabello à rebelião, o sacrifício dos jovens e adultos comunistas que, com armas nas mãos, combateram ombro a ombro com os militares revolucionários em Puerto Cabello, é parte de nosso glorioso passado, como também exemplo e estímulo para redobrar o trabalho pela revolução socialista na Venezuela.

HÁ 50 ANOS DO PORTEÑAZO, A RESISTÊNCIA CONTINUA

29/06/2012

Neste 2 de junho se comemoram os 50 anos da tentativa de golpe cívico-militar conhecida como o Porteñazo. Alguns a chamaram de batalha; outros, de massacre. Com este levante, fecha-se o ciclo golpista que tem sua primeira manifestação com o O Guairazo, em janeiro de 1962, e foram tentativas de militares e militantes do PCV e do MIR de “dar ao povo o poder”. Já naquele momento, um setor do PCV mantinha um posicionamento teórico, segundo o qual “a insurreição se pode fazer com o sim do exército, mas nunca contra ele.”

No estamento militar havia grupos descontentes pelos deslocamentos e pelas recomposições. Sentiam que não tinham sido transferidos para os lugares que lhes correspondiam, pois a nascente administração, para neutralizar alguns e ganhar confiança de outros, ia fazendo uma seleção de cunho partidário para aumentar seus níveis de segurança, daí que muitos se sentiram substituídos dentro da nova ordem.

Esta influencia nos militares descontentes dava, na esquerda conspirativa, segurança de triunfo. É possível que isto tenha influído para que a oposição se radicalizasse, reduzindo a defesa da Constituição que antes apregoava, e começasse a vigorar a tendência golpista. O PCV que considerava as Forças Armadas como um corpo anticomunista experimenta uma aproximação com os setores democráticos e patrióticos no seio do exército.

Diz-se que, já no ano de 1957, Douglas Bravo e Eloy Torres se reuniram na casa do oficial, Rafael Arráez Morles, em El Paraíso, e determinaram que as Forças Armadas eram permeáveis às ideias revolucionárias. Isto motivou um trabalho de captação de oficiais que, em poucos anos, conseguiria a incorporação de 170 fardados ao PCV. No III Congresso desse partido pode-se ler: “… é ilusão pensar que podemos vencer e estabilizar um governo democrático, patriótico e soberano, sem Forças Armadas imbuídas de: resistência patriótica ao explorador estrangeiro; não-vacilação e conciliação ante suas pressões, chantagens e adulações; bem como imbuídas de uma atitude democrática resoluta contra os setores reacionários internos que servem de agentes e aliados dos grandes monopólios norte-americanos.” Com este documento, começa a se fortalecer uma tendência golpista da esquerda, que buscará suplantar a luta popular para “dar de presente ao povo” um novo governo.

A derrota destes levantes militares debilita fortemente o chamado “Movimiento Revolucionário”. Em posteriores apreciações históricas, caracteriza-se a inexistência, na Venezuela, de um Partido Revolucionário; elas se sustentam, em parte, com a observação de ver como as vanguardas do momento foram detalhando todo o seu poderio e influências. Nos balanços desses momentos, acusam-se desvios aventureiros, foquistas, imediatistas, vanguardistas, e contradições entre o dizer e o fazer. Ao não existirem vínculos entre a teoria e a prática, nenhuma das duas era revolucionária. Sem teoria revolucionária (concepção estratégica) tudo se converte em taticismo oportunista de bater a esmo.

Na reavaliação do Porteñazo, ficou claro que muitas das forças militares e políticas comprometidas não chegaram a decolar. Outros afirmam que Betancourt, com a chamada “tática do pente”, promoveu o descontrole dentro da esquerda até a insurreição. O mandatário contra-atacou, concentrando um enorme potencial bélico contra os sublevados que erroneamente puseram em prática a guerra de posições.

Com a criminosa arremetida contra a insurgência, cercou-se e se metralhou a cidade sob o conceito de “terra arrasada”. Foi uma matança por mar, terra e ar. Calcula-se, conservadoramente, em 700 os mortos do bestial ataque, sendo, em sua maioria, civis os metralhados indiscriminadamente. O nascente regime democrático, com este massacre, dava uma lição de advertência do que viria. O contingente militar foi dizimado.

Assim, com esta quinta tentativa, as direções tradicionais foram deixando pelo caminho todo o seu potencial, ficando sem linha de organização e de massas, e menos ainda com uma coordenação de planos estratégicos; oscilavam entre o reformismo e o aventureirismo. Ao caírem no ar e não encontrarem o que fazer, inventaram a Frente de Libertação Nacional (FLN) e depois, para arranjarem ocupação para alguns militares atrasados, criaram as Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN) onde boa parte da direção da luta armada ficou com os militares presos.

Mais adiante, se intensificarão as lutas urbanas e rurais. Inaugurar-se-á o tempo das ações espetaculares, de dar demonstrações ao povo para “acender a faísca que incendiaria a pradaria”. É o foquismo em sua máxima expressão, onde as ações das Unidades Táticas de Combate (UTC) das FALN iniciaram uma série de ações exemplares que pretendiam substituir as massas. Ações que, tampouco, chegaram a propagar a faísca. Produz-se o encapsulamento da esquerda, com seu posterior fracionamento em ilhas dispersas, aflorando contradições e “tendências” de acordo com identificações internacionais.

Iniciam-se confusas linhas políticas que, no fundo, pregavam a pacificação sob o disfarce de luta armada. Chame-se recuo tático, ou dispersão ordenada, retirada atacando ou trégua unilateral — todas finalmente, convergiam no sentido de “dar a Leoni uma chance para que demonstrasse suas intenções de pacificação”. Oportunidade que foi aproveitada pelo aparente “Presidente bobo” para dar carta branca aos militares treinados na Weins Point, que inauguraram a figura do desaparecimento e do massacre de milhares de patriotas em campos e cidades; genocídio acrescentado nos cinco campos de concentração da época. Foram quadros médios, em sua maioria, à margem das direções do PCV e do MIR, que começaram a reorganizar a chamada luta armada com visões de guerra prolongada que, combinada com distintas formas de luta e resistência, manteve a esperança por mais de 30 anos, até que amadureceram de novo as condições que iniciaram a etapa do processo que vivemos atualmente.

Rafael Pompilio Santeliz

EL PORTEÑAZO

29/06/2012

O levante cívico-militar de 2 de junho de 1962, ocorrido na Base Naval de Puerto Cabello, conhecido como El Porteñazo, foi uma resposta à falsa democracia do presidente Rómulo Betancourt que, ao assumir a Presidência da República, em 1959, procurou orientar sua política contra os movimentos populares, que haviam derrotado o ditador Marcos Pérez Jiménez (1953-1958). Essa rebelião militar, que acaba de completar 50 anos, foi liderada pelo capitão-de-navio Manuel Ponte Rodríguez, o capitão-de-fragata Pedro Medina Silva e o capitão-de-corveta Víctor Hugo Morales, somando-se a levantes desse mesmo ano, conhecidos como El Curupanazo e El Guairazo, como também o Barcelonazo em 1960, além de outros movimentos das décadas de 1960 e 70; pela construção de um país soberano e independente, em oposição à subordinação da Venezuela ao imperialismo norte-americano.

“Foi toda uma geração militar inspirada no exemplo do coronel Hugo Trejo, valente militar que se insurgiu, em primeiro de janeiro de 1958, contra a tirania, demonstrando ao país que as Forças Armadas, na realidade, não estavam ao lado do tirano Pérez Jiménez”, explica o historiador Leonel Muñoz, em entrevista à Agência Venezuelana de Notícias.

Muñoz enfatiza que, para entender El Porteñazo, deve-se levar em consideração o 23 de Janeiro de 1958, quando ocorreu uma grande celebração, em todo o país, da derrota da ditadura e pelo exercício pleno das liberdades públicas.

Contudo, “esse acontecimento que envolveu toda a Venezuela foi abandonado, em consequência da orientação anticomunista de Betancourt, já em seu discurso de posse, colocada em prática através de diversas ações de seu governo”. O que trouxe, em decorrência, como reação, a opção pela luta armada, assumida pela esquerda na época, com repercussão nos quartéis.

A resposta do governo da Ação Democrática foi o bombardeio ao Fortim Solano, assim como o ataque por mar e terra, provocando um combate frontal que deixou um número aproximado de 400 mortos e 700 feridos, conforme dados do Ministério das Relações Interiores do período, sob a direção de Carlos Andrés Pérez, que, anos depois, reprimiria a população venezuelana durante a explosão social de 1989.

O que pretendia El Porteñazo “era substituir o governo de Betancourt, objetivo de todas as revoltas militares da época, procurando conquistar um governo que se colocasse a serviço dos interesses nacionais, que propiciasse aos venezuelanos e venezuelanas melhores condições de vida, que defendesse a soberania nacional em todos os seus aspectos”, destacou o historiador.

“O Governo de Betancourt se caracterizou pela violência, invadindo universidades, sindicatos, prendendo dissidentes políticos, destruindo e esmagando politicamente a dissidência existente na Venezuela”, recorda.

União cívico-militar

Em função do citado objetivo é que o povo venezuelano se manifesta, através da unidade cívico-militar em Puerto Cabello; união que “muitos anos depois se cristalizou graças à condução política do presidente Chávez”, ressalta Muñoz.

Afirmou ainda o historiador que, atualmente, se constrói uma proposta política “em que a unidade cívico-militar é de suma importância”, dizendo que “convém rememorar aquela data e aqueles homens e mulheres que combateram corajosamente na rebelião de Puerto Cabello, orientados por ideias progressistas e inclusivas, como eram e continuam sendo as lutas pelas reivindicações fundamentais do nosso povo”.

Fonte: Ministério do Poder Popular