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A “CARTA AO POVO BRASILEIRO” E O MENSALÃO

14/12/2012

Quando Lula publicou sua Carta ao Povo Brasileiro, em 2002, comprometendo-se a respeitar todos os contratos existentes entre o poder público e os diversos tipos de empresários, inclusive os banqueiros, abriu as portas para alianças político-eleitorais com setores da direita do país. Cria Lula ter-se tornado pessoa plenamente confiável junto aos grupos econômicos, podendo contar com o apoio de boa parte deles. Assim, poderia ser eleito e ter a governabilidade garantida.

Com o apoio popular que tinha e bem aceito por donos de empresas, que poderiam dormir tranquilos, porque o ex-líder sindical não só não lhes representava nenhuma ameaça, mas também lhes proporcionava toda a segurança necessária, em nada agindo contra seus privilégios, o candidato petista consegue eleger-se. Para isso, não faltou grande financiamento privado à sua campanha.

Entretanto, governar com a direita, sem que esta exija dinheiro, trocas espúrias, nunca foi nem será possível. Defender interesses privados, sem ter interesse privado, não é coisa de representantes da burguesia. Nisso, dão lição de coerência, procuram ser exemplares. Lula, com certeza, sabia disso, porém, deve ter contado com a força da tradição: Caixa 2 sempre existiu; dinheiro para beneficiar partidos, arrancado direta ou indiretamente dos cofres públicos, sempre existiu; financiamento (legal ou ilegal) de campanhas sempre existiu; em regra, sem corrupção não se governa na sociedade capitalista, em que, por princípio, alguém sempre compra ou vende alguém em função do enriquecimento pessoal… Assim sendo, seria pragmático, encararia a situação inevitável com a devida tranquilidade. Nada de mal aconteceria contra o seu governo e o PT. Sua Carta os tornaria invulneráveis, inatacáveis.

Esqueceram-se Lula e o PT de que a confiabilidade adquirida junto a defensores dos interesses das oligarquias, das forças de centro e de direita, tem o seu limite. Passaria, pela exigência tácita ou explícita deles, uma guinada do Partido e do governo para a direita, desvinculando-os, de uma vez por todas, de segmentos considerados de esquerda ou progressistas, integrantes da Administração Federal, na sua lógica insuportáveis, por defenderem uma política governamental com um mínimo de sensibilidade frente às massas trabalhadoras, além da defesa de uma política externa independente das imposições dos Estados Unidos.

Um dos setores da direita que integrava o governo Lula, que mais danos poderia provocar à administração petista, era o PTB, criatura das artimanhas do general Golbery do Couto e Silva, expoente da ditadura militar – especialista em ardis para dividir as forças políticas que atuavam para porem fim ao período ditatorial – que conseguiu que este partido não ficasse sob a influência de Brizola, uma das lideranças mais odiadas pelos cabeças do golpe de 64.

Surge a primeira bomba: escândalo nos Correios. Gente ligada a Roberto Jefferson, presidente do PTB, lidera o crime. Desta, o líder petebista não escaparia. Acuado, entra em ação: faz explodir a segunda bomba, batizando-a de Mensalão. O PT teria comprado votos de parlamentares para o apoio a projetos do governo. E, como José Dirceu, que também sonhava com uma boa convivência com os representantes do poder econômico, era o membro do governo que mais se aproximava dos governos de esquerda da América Latina, ainda que por pragmatismo, para fazer negócios de Estado, mas que também sempre foi bem relacionado com a esquerda do continente, inclusive com Cuba, passou a ser o alvo principal do ataque direitista. E as acusações de Jefferson ao Ministro da Casa Civil foram acolhidas pela grande mídia como se fossem provenientes de um cidadão acima de qualquer suspeita, expressão de pureza moral.

Num segundo plano, aparece também como alvo, Genoíno, apesar de somarem a seu favor as suas declarações de amor à burguesia já no tempo do governo FHC, quando chegou a defender na TV Gazeta uma possível unidade nacional entre os fernandistas e o restante da nação, incluindo o PT. Certamente, ficou atônito por estar na lista dos principais petistas acusados, mas que, talvez, mereceu ser acusado por ter no seu currículo um pecado imperdoável para a direita em geral: sua participação na luta contra a ditadura na Guerrilha do Araguaia. Outros petistas não escapariam das acusações.

O batismo de Jefferson deu certo. Depois de séculos de mensalões, o Mensalão aparece e fica. Toda a mídia golpista, golpista de longa data, de participação na organização direta e indireta de golpes militares, tenta passar a imagem de um país à beira do caos, afogado na imoralidade que o governo de Lula e do PT inventou. O objetivo final mesmo era derrubar o presidente, caminhar para o seu impeachment; isso, não obstante o propósito de Lula de tudo fazer por uma vida em paz entre capital e trabalho, entre a burguesia e suas vítimas, entre os pobres, muito pobres e os ricos, principalmente os banqueiros, que continuariam ganhando dinheiro a rodo, provavelmente como nunca, em seu governo.

O problema é que Lula tinha o apoio de certa direita, não de toda a direita.

Chegava a hora de agir nas ruas, diziam os neogolpistas. Criam um movimento e o chamam de CANSEI, versão atualizada da nova ‘Marcha da Família com Deus pela Liberdade’*, movimento de terror ideológico que teve papel importante para o golpe militar de 64. Na realidade, o tal CANSEI não era composto por gente cansada de ganhar dinheiro ilimitadamente, de enriquecer-se, mas de indivíduos cansados de um povo que já começava a receber alguma coisa a mais para a sua sobrevivência; cansados de ver, na presidência da República, um presidente de origem operária – para eles, uma ameaça aos que existem para mandar eternamente. O compromisso de Lula de, através de suas políticas sociais compensatórias tranquilizar boa parte das massas de explorados, tentando reduzir sua insatisfação e possível rebeldia – forjando um tipo de pacto social passivo – em nada sensibilizou este setor de direita.

Apoiado por uma boa parte da burguesia, satisfeita com a política econômica do governo, que a tornava mais rica do que antes, e com o grande apoio popular de que dispunha, Lula pouco se preocupou com o CANSEI. O CANSEI se cansou logo. E Lula se reelegeu.

E o golpismo? Depois desta derrota, recuou? Nada disso! De uma forma ou de outra, procurou manter-se, diversificando suas táticas. Passou a misturar religião com Mensalão e, com isso, buscou evitar a eleição de Dilma. E, novamente, José Dirceu é trazido às telas de televisão e manchetes de jornais. Aparece retratado como o deus do mal, o Lúcifer do Brasil. E, se o Lúcifer é do partido da candidata à presidência, esta deveria ser reprovada pelo eleitorado. Em muitas propagandas do candidato Serra, aparecia a foto de Dilma acompanhada do diabo Dirceu.

Dirceu aparece como o grande comandante do Mensalão. E, como o objetivo da mídia da direita é passar a ideia de que nunca houve nenhum tipo de mensalão no Brasil, tenta-se passar a visão de que se trata de uma obra exclusivamente do PT, e que Dirceu é o criador da corrupção brasileira.

A população, por seu lado, desconfiou que por baixo de todo este angu tem caroço. Dilma foi eleita.

Em relação à esquerda, o quadro ficou bastante complicado. Que posição tomar? Não poderia fazer coro com a hipocrisia e o golpismo da direita; seria somar-se a uma ameaça de retrocesso; apoiar Dirceu e outros petistas acusados de promoverem o tal Mensalão seria estar ao lado de um grupo que se uniu a setores de direita para ganhar as eleições, viabilizar a tal governabilidade, trazendo como consequência escândalos e desilusões. A saída encontrada foi não ir às ruas em defesa dos acusados e do próprio governo, nem tampouco se somar à mídia oligárquica.

A esquerda ficou imóvel, às vezes, acusando o PT de ser o principal responsável por uma situação decorrente da sua própria política de alianças. O PT teria colhido o que plantou; seria salvo pelo lulismo, infinitamente muito mais forte que ele.

Todavia, as forças de direita não param. Criam outra opção golpista, de caráter institucional, nova modalidade de golpe, momentaneamente uma alternativa ao golpismo de quartéis. Aí, a grande mídia logo procura mobilizar seu grande aliado, o Poder Judiciário, principalmente seu estado-maior, o STF. O Mensalão é julgado em pleno período eleitoral. José Dirceu, o Lúcifer, é condenado a mais de 10 anos de prisão e, com pena menor, os diabos menores do PT: Delúbio, Genoíno e o deputado João Paulo Cunha. Com destaque para o Lúcifer, em toda a campanha dos candidatos da direita organizada, no DEM, PSDB e PPS, em praticamente todos os municípios do país, este quarteto do mal era objeto de ataques, de xingamentos. O objetivo era passar a ideia de que todo candidato petista, ou apoiado pelo PT, se eleito, implantaria o Mensalão em seu Município.

Os setores mais fascistas da direita, na verdade, queriam transformar o processo eleitoral em sua Santa Inquisição. Dirceu, chefe de todos os diabos petistas, e o PT, morada de todos estes seres malignos, teriam de ser queimados política e moralmente, para que o país voltasse a ser administrado, governado, somente por indivíduos puros, continuadores de 500 anos de dignidade, de governos de almas limpas, incapazes de qualquer tipo de roubo. O povo, rindo sem risos, ao ouvir, calado, brados dos salvadores da moral de séculos no país foi às ruas e fez o seu protesto. Mais uma derrota do que existe de mais retrógrado no Brasil. Mais um triunfo contra o obscurantismo.

Bom, se fizeram isso contra o PT, imaginem o que aconteceria com um partido de esquerda, revolucionário, socialista, caso ameaçasse assumir o governo. Digo isso, só para que se possa ter uma ideia do que os inimigos do povo são capazes, na defesa de seus interesses de classe. Não têm limite. Difícil é imaginar de que são capazes.

O certo é que vieram as condenações. O PT ficou perplexo, mais ainda José Dirceu e Genoíno; que jamais poderiam imaginar que isso ocorresse com eles; logo eles, que tanto acreditaram numa convivência feliz com os representantes da burguesia, independentemente do uso casuístico de leis, respeitando a própria lógica capitalista, sem fazerem a defesa da transformação sócio-econômica da sociedade; que já não usavam a palavra socialismo há tanto tempo, esquecendo-se da sua ideologia do tempo de militantes de esquerda; que agora são apenas “republicanos”, “democratas”,”pragmáticos”, apostando numa relação “civilizada” entre capital e trabalho; que têm boas relações com investidores privados de todos os tipos, “parceiros” de um Brasil “moderno”… E a Carta de Lula? Não os salvaria? Se a burguesia gostou dela, por que boa parte de seus agentes os condena? Agora, estão sós. A direita os ataca impiedosamente por todos os lados, e a esquerda não os defende. A direita os ataca, por causa do passado deles. A esquerda defende o seu passado, mas se nega a falar de seu presente; defende o Dirceu e o Genoino das lutas contra a ditadura; defende o PT sem a Carta ao Povo Brasileiro.

A Carta pariu o Mensalão.

Carlos de Oliveira

*Movimento realizado por setores da direita, em março de 1964, como parte da escalada golpista.

A IDEIA DE COMUNISMO (Juan Barreto)

04/12/2012

A crise econômica em evidência vai-se tornando uma crise política: greves em toda a Europa, acompanhadas de todos os tipos de resistência e desobediência civil, que se somam a pequenas explosões aqui e ali.

Antes, os meios de comunicação desdenhavam, minimizavam e ridicularizavam a mudança climática, considerando-a apocalíptica. Agora, em consequência da contundência dos acontecimentos, veem-se obrigados a considerá-la. Da mesma forma, a atual crise começa a impactar a consciência universal e reordena a visão de mundo, colocando as coisas no seu devido lugar. O debate atualiza a discussão sobre a construção de um novo socialismo. Faz apenas alguns anos, criticar as desregulamentações, as privatizações, como também as suas consequências, era considerado uma heresia, um disparate para o mundo acadêmico dominante e para a maioria dos grandes jornais e redes de televisão.

Faz tempo, após a tomada de algumas medidas nos Estados Unidos, para o controle do mercado financeiro, ‘Newsweek’ aparecia com a seguinte ironia: “Agora somos todos socialistas”, não sem por em dúvida a autoridade e autonomia do capital financeiro. O “prestigioso” meio de comunicação estadunidense aceitava a necessidade de que se adotassem controle e regularizações estatais “de linha keynesiana ou socialista”. Propriedade privada ou estatal, “claro, com limitação, evitando que se chegue à propriedade comum, pois isso seria comunismo”.

Não se trata apenas de cinismo, mas também da corrupção da língua, buscando ocultar o temor da grande mídia de que as coisas mudem. Não satisfeitos apenas com o desprezo que dão a conceitos, como “democracia”, “liberdade”, “cidadão”, converteram a ideia de comunismo em uma palavra sem sentido; espécie de monstro malfeitor, que precisa ser exorcizado, que as pessoas devem benzer-se ao falarem dele.

Já dizia Marx: ”viver como comunista é realizar uma vida em comum”; o que vai além das palavras. O socialismo é a prática cotidiana do comunismo como movimento real.

O IMPERIO DO CONSUMO (Eduardo Galeano)

01/12/2012

A explosão do consumo no mundo atual faz mais barulho do que todas as guerras e provoca mais alvoroço do que todos os carnavais. Como diz um velho provérbio turco, quem bebe por conta, se embriaga em dobro.

A folia atordoa e turva o olhar; esta grande bebedeira universal parece não ter limites no tempo nem no espaço. Mas, a cultura de consumo soa alto, como o tambor, porque está vazia; e na hora da verdade, quando o estrondo cessa e a festa se acaba, o bêbado desperta, sozinho, acompanhado por sua sombra e pelos patos que tem de pagar.

A expansão da demanda se choca com as fronteiras que são impostas pelo mesmo sistema que a gera. O sistema necessita de mercados cada vez mais abertos e mais amplos, como os pulmões necessitam de ar e, ao mesmo tempo, necessita de que os preços das matérias-primas e da força humana de trabalho estejam a preço de banana, como estão. O sistema fala em nome de todos, dá a todos suas imperiosas ordens de consumo, difunde entre todos a febre compradora; mas o que se pode fazer? Para quase todos, esta aventura começa e termina na tela do televisor. A maioria, que se endivida para ter coisas, termina tendo nada mais do que dívidas para pagar dívidas que geram novas dívidas, e acaba consumindo fantasias que, às vezes, materializa, delinquindo.

O direito ao esbanjamento, privilégio de poucos, diz ser a liberdade de todos. Diz-me quanto consomes e te direi quanto vales. Esta civilização não deixa dormirem as flores, nem as galinhas, nem as pessoas. Nas estufas, as flores estão submetidas a luz contínua, para que cresçam mais rápído. Nas granjas de ovos, as galinhas também não têm direito à noite. E as pessoas estão condenadas à insônia, pela ansiedade de comprar e pela angústia de pagar. Este modo de vida não é muito bom para as pessoas, mas é muito bom para a indústria farmacêutica.

Os Estados Unidos consomem a metade dos sedativos, ansiolíticos e demais drogas químicas que se vendem legalmente no mundo, e mais da metade das drogas proibidas que se vendem ilegalmente, o que não é pouca coisa, se se levar em conta que os Estados Unidos representam apenas cinco por cento da população mundial.

«Gente infeliz, aquela que vive se comparando», lamenta uma mulher no bairro de Buceo, em Montevideu. A dor de já não ser, que o tango cantava outrora, deu passagem à vergonha de não ter. Um homem pobre é um pobre homem. «Quando não tens nada, pensas que não vales nada», diz um rapaz no bairro de Villa Fiorito, de Buenos Aires. E outro comprova, na cidade dominicana de San Francisco de Marorís: «Meus irmãos trabalham para as marcas. Vivem comprando etiquetas, e vivem suando a camisa para pagarem as cotas».

Violência invisível do mercado: a diversidade é inimiga da rentabilidade, e a uniformidade manda. A produção em série, em escala gigantesca, impõe em todas as partes suas pautas obrigatórias de consumo.

Esta ditadura da uniformização obrigatória é mais devastadora do que qualquer ditadura de partido único: impõe, no mundo inteiro, um modo de vida que reproduz os seres humanos como fotocópias do consumidor exemplar.

O consumidor exemplar é o homem tranquilo. Esta civilização, que confunde a quantidade com a qualidade, confunde a gordura com a boa alimentação. Segundo a revista científica, The Lancet, na última década a «obesidade severa» cresceu quase 30% entre a população jovem dos países mais desenvolvidos. Entre os meninos norte-americanos, a obesidade aumentou 40% nos últimos dezesseis anos, segundo a investigação recente do Centro de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado.

O país que inventou as comidas e bebidas light, as diet food e os alimentos fat free, tem a maior quantidade de gordos do mundo. O consumidor exemplar só sai do automóvel para trabalhar e para assistir à televisão. Sentado diante da telinha, passa quatro horas diárias devorando comida de plástico.

Triunfa o lixo disfarçado de comida: esta indústria está conquistando os paladares do mundo e está fazendo em pedacinhos as tradições da cozinha local. Os costumes do bem comer, que vêm de longe, têm, em alguns países, milhares de anos de refinamento e diversidade, e são um patrimônio coletivo que, de alguma maneira, está nos fogões de todos e não só na mesa dos ricos. Essas tradições, essas características de identidade cultural, essas festas da vida, estão sendo achatadas, de maneira fulminante, pela imposição do saber químico e único: a globalização do hambúrguer, a ditadura do fast food. A plastificação da comida em escala mundial, obra do McDonald’s, Burger King e de outras fábricas, viola com êxito o direito à autodeterminação da cozinha: sagrado direito, porque a alma tem, na boca, uma de suas portas.

O campeonato mundial de futebol de 98 nos confirmou, entre outras coisas, que o cartão de crédito MasterCard tonifica os músculos, que a Coca-Cola oferece eterna juventude e que o menu do McDonald’s não pode faltar na barriga de um bom atleta. O imenso exército do McDonald’s dispara hambúrgueres às bocas das crianças e dos adultos no planeta inteiro. O duplo arco desse M serviu de estandarte, durante a recente conquista dos países do Leste da Europa. As filas diante do McDonald’s de Moscou, inaugurado em 1990 com grande alarde, simbolizaram a vitória do Ocidente com tanta eloquência como o desmoronamento do Muro de Berlim.

Um sinal dos tempos: esta empresa, que encarna as virtudes do mundo livre, nega a seus empregados a liberdade de se afiliarem a qualquer sindicato.

O McDonald’s viola, assim, um direito legalmente consagrado nos muitos países onde atua. Em 1997, alguns trabalhadores, membros disso que a empresa chama de Macfamília, tentaram sindicalizar-se em um restaurante de Montreal no Canadá: o restaurante fechou as portas. Mas, em 98, outros empregados do McDonald’s, em uma pequena cidade próxima a Vancouver, tiveram êxito nessa conquista, digna de constar do Guinness Book.

As massas consumidoras recebem ordens em um idioma universal: a publicidade teve sucesso naquilo que o esperanto quis e não conseguiu. Qualquer um entende, em qualquer lugar, as mensagens que o televisor transmite. No último quarto de século, os gastos de publicidade se duplicaram no mundo. Graças a eles, as crianças pobres tomam, cada vez mais, Coca-Cola e, cada vez menos, leite, e o tempo ocioso está se tornando tempo de consumo obrigatório. Tempo livre, tempo prisioneiro: as casas muito pobres não têm cama, mas têm televisor, e o televisor tem a palavra.

Comprado a prazo, esse animalzinho prova a vocação democrática do progresso: não escuta ninguém, mas fala para todos. Pobres e ricos conhecem, assim, as virtudes dos automóveis último modelo, e pobres e ricos se inteiram das vantajosas taxas de juros que tal ou qual banco oferece.

Os peritos sabem converter as mercadorias em mágicos conjuntos contra a solidão. As coisas têm atributos humanos: acariciam, acompanham, compreendem, ajudam; o perfume te beija e o automóvel é o amigo que nunca te deixa na mão. A cultura do consumo fez da solidão o mais lucrativo dos mercados. Os vazios no peito se enchem empanturrando-os de coisas, ou sonhando em fazê-lo. E as coisas não somente podem abraçar: elas também podem ser símbolos de ascenção social, salvocondutos para atravessar as fronteiras da sociedade de classes, chaves que abrem as portas proibidas. Quanto mais exclusivas, melhor: as coisas te elegem e te salvam do anonimato da multidão. A publicidade não informa sobre o produto que vende, ou raramente o faz. Isso é o de menos. Sua função primordial consiste em compensar frustrações e alimentar fantasias: Em quem você quer se transformar comprando esta loção de barbear ?

O criminologista, Anthony Platt, observou que os delitos de rua não são somente fruto da pobreza extrema. Também são fruto da ética individualista. A obsessão social pelo êxito, diz Platt, incide decididamente sobre a apropriação ilegal das coisas. Eu sempre escutei dizer que o dinheiro não traz a felicidade; mas qualquer telespectador pobre tem motivos de sobra para crer que o dinheiro traz algo tão parecido, que a diferença é assunto para especialistas.

Segundo o historiador, Eric Hobsbawn, o século XX pôs fim a sete mil anos de vida humana centrada na agricultura desde que apareceram os primeiros cultivos, em fins do paleolítico. A população mundial se urbaniza, os camponeses se tornam cidadãos. Na América Latina temos campos sem ninguém e enormes formigueiros urbanos: as maiores cidades do mundo, e as mais injustas. Expulsos pela agricultura moderna de exportação e pela erosão de suas terras, os camponeses invadem os subúrbios. Eles creem que Deus está em todas as partes, mas por experiência sabem que atende nas grandes urbes. As cidades prometem trabalho, prosperidade, um porvir para os filhos. Nos campos, os que esperam vêem a vida passar, e morrem bocejando; nas cidades, a vida acontece e chama. Empilhados em barracos, a primeira coisa que os recém-chegados descobrem é que falta trabalho e sobram braços, que nada é grátis, e que o ar e o silêncio são os artigos de luxo mais caros.

Enquanto nascia o Século XIV, frei Giordano da Rivalto fez em Florença um elogio às cidades. Disse que as cidades cresciam «porque as pessoas gostam de se juntarem». Juntar-se, encontrar-se. Agora, quem sem encontra com quem ? Encontra-se a esperança com a realidade ? O desejo se encontra com o mundo? E as pessoas se encontram com as pessoas?

Se as relações humanas foram reduzidas a relações entre coisas, quanta gente se encontra com as coisas ?

O mundo inteiro tende a ser converter numa grande tela de televisão, onde as coisas são vistas mas não tocadas. As mercadorias em oferta invadem e privatizam os espaços públicos. As estações de ônibus e de trens, que até há pouco tempo eram espaços de encontro entre pessoas, estão se convertendo agora em espaços de exibição comercial.

O shopping center ou shopping mall, vitral de todos os vitrais, impõe sua presença avassaladora. As multidões acodem, em peregrinação, a este templo maior das missas do consumo. A maioria dos devotos contempla, em êxtase, as coisas que seus bolsos não podem pagar, enquanto a minoria compradora se submete ao bombardeio da oferta incessante e extenuante. A multidão, que sobe e desce as escadas-rolantes, viaja pelo mundo: os manequins se vestem como em Milão ou Paris e as máquinas soam como em Chicago e, para ver e ouvir, não é preciso pagar passagem. Os turistas vindos de povoados do interior, ou das cidades que ainda não mereceram estas bençãos da felicidade moderna, posam para a foto, ao pé das marcas internacionais mais famosas, como antes posavam ao pé da estátua do prócer na praça.

Beatriz Solano observou que os habitantes dos bairros suburbanos acodem ao center, ao shopping center, como antes acudiam ao centro. O tradicional passeio do fim de semana ao centro da cidade tende a ser substituído pela excursão a estes centros urbanos. Lavados, passados e penteados, vestidos com suas melhores roupas, os visitantes vêm a uma festa para a qual não são convidados, mas podem ficar só olhando. Famílias inteiras empreendem a viagem na cápsula espacial que percorre o universo do consumo, onde a estética do mercado desenhou uma paisagem alucinante de modelos, marcas e etiquetas.

A cultura do consumo, cultura do efêmero, condena tudo ao desuso midiático. Tudo muda ao ritmo vertiginoso da moda, posta a serviço da necessidade de vender. As coisas envelhecem num piscar de olhos, para serem substituídas por outras coisas de vida fugaz. Hoje, quando a única coisa que permanece é a insegurança, as mercadorias, fabricadas para não durarem, são tão voláteis como o capital que as financia e o trabalho que as gera. O dinheiro voa à velocidade da luz: onde estava lá, hoje está aqui, amanhã quem sabe, e todo trabalhador é um desempregado em potencial.

Paradoxalmente, os shopping centers, reinos da fugacidade, oferecem a mais bem sucedida ilusão de segurança. Eles resistem fora do tempo. sem idade e sem raiz, sem noite e sem dia e sem memória, e existem fora do espaço, além das turbulências da perigosa realidade do mundo.

Os donos do mundo usam o mundo como se fosse descartável: uma mercadoria de vida efêmera, que se esgota como se esgotam, logo após nascerem, as imagens que a metralhadora da televisão dispara e as modas e os ídolos que a publicidade lança, sem trégua, ao mercado. Mas, para que outro mundo vamos nos mudar ? Estamos todos obrigados a acreditar no conto de que Deus vendeu o planeta a umas quantas empresas, porque estando de mau humor decidiu privatizar o universo ? A sociedade de consumo é uma armadilha pega-trouxas. Os que têm a maçaneta simulam ignorá-lo, mas qualquer um que tenha olhos na cara pode ver que a grande maioria das pessoas consome pouco, pouquinho e nada necessariamente, para garantir a existência da pouca natureza que nos resta. A injustiça social não é um erro a ser corrigido, nem um defeito a ser superado: é uma necessidade essencial.

Não há natureza capaz de alimentar um shopping center do tamanho do planeta.

Fonte :   http://www.nodo50.org/ciencia_popular/