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O CONSUMISMO: UMA DOENÇA?

30/07/2012

Consumir, consumir, hiper-consumir, consumir, mesmo não sendo necessário;  gastar dinheiro, fazer compras… tudo isso se tornou a palavra de ordem do mundo moderno.

No coração das selvas do Petén, onde atualmente está localizada a Guatemala, no topo do Templo IV, maravilha arquitetônica deixada pelos maias do Período Clássico, duas jovenzinhas turistas norte-americanas – com roupa Calvin Klein, tênis Nike, com óculos-de-sol Ray-ban, com celulares Nokia, máquinas fotográficas digitais Sony, filmadoras JVC e cartão de crédito Visa, hospedadas no Hotel Westing Caminho Real, tendo viajado com milhas de “viajante frequente”, através da American Airlines, hiper-consumidoras de Coca-Cola, McDonald’s, cosméticos Revlon – comentaram, ao ouvirem os gritos de macacos uivadores, em cima de árvores próximas: “Pobrezinhos. Gritam de tristeza, porque não têm um lugar para fazerem compras.”

Consumir, consumir, hiper-consumir, consumir, mesmo sem necessidade; gastar dinheiro, fazer compras… tudo isto passou a ser a última palavra do mundo moderno. Alguns – os habitantes dos países ricos do Norte e as camadas médias do Sul – conseguem sem problemas. Outros, os menos afortunados – a grande maioria do Planeta – não. Porém, da mesma forma, estão compelidos a seguir os mesmos passos, ditados pela tendência dominante: quem não consome é considerado um estranho no ninho, um imbecil, sobra, não é viável. Ainda que seja às custas de endividamento, todos têm de consumir. Como ousar contradizer as sacrossantas regras de mercado?

Poderíamos pensar que o exemplo das jovens, citado acima, é uma ficção literária – certamente, uma má ficção –, mas não é isso. É uma tragicômica verdade. O capitalismo industrial do século XX forjou, como decorrência, as chamadas sociedades de consumo, em que, já garantidas as necessidades primárias, o acesso a banalidades, coisas supérfluas, virou o núcleo central de toda a economia. Desde a década de 50 – inicialmente nos Estados Unidos, depois, na Europa e Japão – a prestação de serviços superou amplamente a produção de bens materiais. Em consequência, os bens de luxo, de consumo de massa, ou destinados não somente à asseguração da subsistência física (recreação, compras não unitárias, mas em quantidades, mercadorias desnecessárias, porém, impostas pela propaganda etc.) encabeçam de longe a produção geral. Por que esta febre consumista?

Todos nós sabemos que a pobreza implica carência, falta; se alguém tem muito, é porque outro tem muito pouco, ou nada tem. Numa sociedade mais justa, socialista, “ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão”, afirmou Eduardo Galeano. Não é necessário doutorado em economia política para se chegar a entender esta realidade. Contudo – contrariamente ao que se poderia considerar como uma tendência solidária, espontânea, entre os seres humanos – quem mais consome deseja, antes de tudo, continuar consumindo. O comportamento da sociedade segue a lógica do hiper-consumo, não em detê-lo, dividindo tudo que foi produzido com equidade, para favorecer os despossuídos e reter o saque impiedoso dos recursos naturais. Não, pelo contrário, o consumismo provoca mais consumismo. Um cachorro de um lar mediano do Norte come em média, anualmente, mais carne vermelha que um habitante do Terceiro Mundo.

Enquanto muita gente morre de fome e não tem acesso a serviços básicos no Sul (água potável, alfabetização mínima, vacinação primária), sem a menor preocupação e quase com frivolidade, gastam-se montantes enormes com cosméticos (8 bilhões de dólares anualmente nos EUA), ou com sorvetes (11 bilhões de dólares na Europa, por ano), ou com comida para mascotes (20 bilhões de dólares anuais em todo o Primeiro Mundo). Somos, então, os seres humanos, uns estúpidos e superficiais individualistas, esbanjadores irresponsáveis, vazios compradores compulsivos? Uma resposta afirmativa seria parcial, incompleta. Sem nenhum lugar para dúvidas, todos podemos ser afetados por esta louca febre consumista. A questão é ver por que ela é instigada, ou mais ainda, fazer alguma coisa para que se pare de instigá-la.

Destarte, a solução é reformular a ordem econômico-social global vigente. Esta loucura não pode continuar assim!

Embora se constate que, nas prósperas sociedades de consumo do Norte, existem vozes clamando por uma ponderada responsabilidade social (consumos racionais, energias alternativas, reciclagem de desperdícios, ajuda ao Sul subdesenvolvido), não há que esquecer que essas tendências são esporádicas, ou, ao menos, não têm a capacidade de incidir realmente sobre o todo.

Recordemos, por exemplo, o movimento hippie dos anos 60 do século passado: ainda que representasse um honesto movimento anticonsumo e um questionamento dos desequilíbrios e injustiças sociais, o sistema finalmente conseguiu devorá-lo. Diga-se, de passagem, que as drogas ou rock’n roll e suas manifestações, na verdade, se tornaram outras tantas mercadorias de consumo massivo, geradoras de grandes lucros (claro, não para os hippies).

Uma vez fomentado o consumismo, tudo indica que é muito fácil – muito tentador, sem dúvida – tornar-se seduzido pelas suas redes. Por exemplo: os polímeros (as diferentes formas de plástico) são uma invenção recente na história. No Sul, mais ou menos na metade do século passado começavam a ser conhecidos, quando já eram de consumo obrigatório no Norte, todavia, hoje já nenhum habitante de seus empobrecidos países poderia viver sem eles; de fato, proporcionalmente, são consumidos mais aí que no mundo desenvolvido, onde começa a existir a busca do material reciclado. Por diversos motivos, (para seguir uma moda imposta?), é mais provável que um pobre do Terceiro Mundo prefira uma cesta de plástico a uma de mime. O consumismo, colocado em prática constante, impõe uma lógica própria, da qual é muito difícil se distanciar. É uma “adicção”, um vício doentio.

Da mesma forma, sempre nessa dinâmica, vejamos o que acontece com o automóvel. Atualmente, é mais que sabido que os motores de combustão interna – ou seja, os que rendem tributo à indústria de petróleo em definitivo – são os principais causadores do efeito estufa, sabendo-se, ainda, que provocam uma morte a cada dois minutos, no mundo, devido a acidentes de trânsito; situações que poderiam ser resolvidas, ou, ao menos, minimizadas, com o uso massivo do transporte público, mais seguros em termos de segurança individual e ecológica (um só motor pode transportar cem pessoas, por exemplo, porém, até que não acabe a última gota de petróleo, não haverá veículos funcionando através de energias limpas, como água e sol, além de outras.).

Um motor que queima combustíveis fósseis, a longo prazo se torna cada vez mais nocivo em relação ao meio-ambiente. Contudo, curiosamente, nos primeiros vinte e cinco anos do século em curso, as grandes corporações de fabricantes de automóveis estimam que venderão um bilhão de unidades nos países do Sul. Embora conhecedores de tal problema, da irracionalidade que significa se movimentar em cidades superlotadas de veículos, os habitantes desta região do globo se sentem prazerosos com o boom destas máquinas fascinantes.

Assim, nessa lógica, quem pode – mesmo endividando-se por anos – faz o impossível para conseguir o “zero quilômetro”. O que nos leva a duas conclusões: Por um lado, parece que todos os seres humanos somos extremamente manipulados, facilmente convencidos (os publicitários sabem como fazer isso muito bem); por outro, está a semiótica, ou a psicologia social de cunho norte-americano, centrada na manipulação mercadológica das massas. Não fosse assim, George Bush filho, um alcoólatra recuperado, muito pouco hábil nas lutas políticas, não poderia tornar-se presidente de seu país em duas ocasiões (graças a um vídeo sensacionalista em sua segunda campanha presidencial, por exemplo, que explorou os medos irracionais do eleitorado). O cabo do exército alemão, Adolf Hitler, não conseguiria convencer o “educado” povo alemão de que é uma raça superior e levá-lo a um holocausto de proporções dantescas.

Por outro lado, como segunda conclusão – e isto é, sem dúvida, o nó górdio do assunto – as relações econômico-sociais que se desenvolveram com o capitalismo não oferecem saída a esta cilada da dinâmica humana. O grande capital não pode deixar de crescer. Porém, não voltado para o bem comum, cresce como um tumor maligno, em forma louca, desordenada, sem sentido. Para quê a grande empresa tem de continuar crescendo? Porque sua lógica interna a força a isso; não pode deter-se, apesar de isso não servir para nada em termos sociais. Por que os milionários donos de suas ações devem continuar milionários? Porque a dinâmica econômica do capital os força, mas não porque esse crescimento sirva à população. Esse crescimento, exatamente – como tecido canceroso – ocorre à custa do organismo completo, do todo social neste caso, fazendo consumir, consumir o desnecessário, depredando recursos naturais e nos tornando cada vez mais tontos, manipulando nossas emoções, através da técnica de mercado para que continuemos comprando. “Pobrezinhos, uivam de tristeza, porque não têm nas proximidades um shopping onde comprar”…

Ditando modas, determinando padrões de consumo, obrigando a trocar desnecessariamente os produtos com prazo de validade cada vez menor (obsolescência programada), levando a sentir-se como um “selvagem primitivo” quem não adota esses níveis de compra contínua, com refinadas e patéticas técnicas de comercialização (propaganda enganosa, manipulação midiática sem trégua, crédito obrigatório), o grande capital, cada vez mais dominador, totalizante, do cenário econômico-político e cultural do Planeta, impõe o consumo com mais ferocidade que as forças armadas que o defendem, que jogam bombas sobre territórios rebeldes que se recusam a seguir sua imposição.

Certamente, face a certas circunstâncias, o “consumismo” desenfreado poderia ser considerado como uma conduta patológica. De fato, na Classificação Internacional das Enfermidades (CIE) – da Organização Mundial da Saúde – como também no Manual de Transtornos Mentais da Associação de Psiquiatras dos Estados Unidos (DSM) – versão IV – aparece como uma possível forma de compulsão. Desta matriz médico-psiquiatrizante consegui descrever a compra compulsiva “como uma categoria diagnóstica determinada. Preocupação frequente pelas compras ou impulso de comprar, que se expressa como irresistível, intrusivo, sem sentido. Compras mais frequentes do que uma determinada pessoa pode permitir-se e de objetos desnecessários, ou sessões de compra durante mais tempo do que se pretendia”.

Sem negar que isso se dá com variável psicopatológica (“calcula-se que a compra compulsiva afeta entre 1,1 e 5,9 % da população geral, sendo mais comum entre as mulheres”), o consumismo voraz que nos impõe o sistema é mais que uma conduta compulsivo-adictiva individual (um tipo de dependência psicológica). De qualquer forma, nos fala de uma “enfermidade” intrínseca ao próprio sistema. Se as jovenzinhas do exemplo com o qual se inicia o presente texto são tão “estúpidas”, frívolas e superficiais, por outro lado, não se pode deixar de ver que, na realidade, expressam o sintoma de um transtorno que se desenvolve sem que consigam perceber. Transtorno que, com certeza, não pode ser solucionado através de nenhum produto farmacêutico, com um novo medicamento milagroso, como mais algum produto de consumo, por mais bem apresentado e propagado que seja. Efetivamente, só se encontra a solução na mudança do curso da história.

Marcelo Colussi

A ÉTICA E O CAPITALISMO

11/07/2012

Para Aristóteles, Platão, Sócrates e outros, era ético que os aristocratas gregos explorassem os que deveras trabalhavam, produziam riquezas: os escravos. Para eles, antiético seria exatamente o contrário: o fim da escravidão. Toda a sua argumentação filosófico-ideológica se dava nesta perspectiva.

Para o escravo consciente de sua situação, inconformado, a ética era outra.

Para São Tomás de Aquino e outros pensadores medievais, ética era a exploração dos servos, camponeses, pelos senhores feudais. O contrário seria inaceitável.

Para o servo que se insurgia contra isso, ética era outra coisa.

Para os pensadores burgueses, do capital, a ética fundamental é a exploração dos operários, dos assalariados do campo e da cidade, dos que produzem mercadorias.

Logo, por exemplo, não pagar ao operário o valor que ele produz a mais do que de fato recebe pelo valor de seu trabalho não é um roubo. É algo normal, ético.

E é considerado igualmente ético o que um banqueiro, um especulador, um sonegador de impostos leva, através de diversas formas, do valor criado pelo trabalho de milhões de pessoas.

Para o trabalhador consciente de sua condição de classe, a ética é de outro tipo, porque libertadora.

A ética do capitalista é, de fato, a ética da exploração e do roubo.

É por isso que instrumentos capitalistas importantes, como os grandes jornais e redes de televisão – também grandes empresas privadas – quando falam da corrupção e do roubo, se limitam apenas a falar de efeitos. Escondem a verdadeira causa, a matriz geradora de tais imoralidades: o sistema sócio-econômico, o capitalismo. Criam a ilusão de que o roubo não é inerente à sociedade capitalista, de que  existe enriquecimento individual sem exploração e roubo. Na prática, denunciam o roubo ilegal, de conjuntura, de maior ou menor intensidade, de acordo com os momentos, usando esse expediente para esconder os saques legais, feitos legalmente, a começar pela parte do trabalho não pago no instante de exploração da força de trabalho.

Principalmente, a classe média se deixa levar por semelhante farsa, acreditando ser possível moralizar um sistema imoral pela sua própria natureza, que só pode continuar, enquanto os que necessitam de uma sociedade fundamentada em relações de igualdade não optarem por uma ética que negue a exploração do homem pelo homem.

É correto que qualquer roubo ou corrupção devem ser atacados, sejam eles legais ou não. Isso significa um mínimo de indignação, de alguma ética. Contudo, quando isso se dá separado da luta contra um mundo que só é o que é porque explora e corrompe, trata-se de pura ilusão, puro moralismo. É falsa ética em relação aos interesses dos oprimidos e explorados. Quem não é contra uma sociedade fundamentada na exploração, opressão e roubo, na verdade, não quer mudar. É contra a ética de mudança. Se oprimido e explorado, é contra si mesmo; se opressor, explorador, é coerente.

Alberto Souza

PERU – ESTADO DE EXCEÇÃO NA CAJAMACA, DEVIDO A PROTESTO CONTRA O PROJETO CONGA DE EXPLORAÇÃO MINERAL

11/07/2012

O governo do Peru decretou estado de exceção em três províncias da região de Cajamaca, devido a fortes protestos decorrentes da oposição à exploração de cobre e ouro de “Conga”. Na terça-feira passada (3/7), ao menos três pessoas morreram e 20 ficaram feridas em choques entre policiais e manifestantes na localidade de Calendín, ao noroeste do país. Existem 15 pessoas detidas; se desconhecem ainda as acusações existentes contra elas.

Os distúrbios começaram com o ataque ao Conselho Municipal e à sede do Ministério Público, por parte de uns 40 membros da Confederação Nacional dos Trabalhadores do Peru (CNTP), com a queimação de documentos e móveis. A polícia desalojou os locais com tiros para o ar e gás lacrimogêneo, a que os manifestantes respondiam com o lançamento de fogos de artifício.

Segundo explicação do líder de Terra e Liberdade, Marco Arana, os moradores decidiram tomar o município, porque o prefeito de Calendín. Mario Arteaga, se declarou a favor do projeto de Conga, avaliado em 4 bilhões e 800 milhões de dólares.

O governo decretou estado de emergência, por trinta dias, nas províncias de Calendín, Hualgayoc e Cajamaca, restringindo a liberdade de reunião e individual.

O governador da província de Cajamaca, Gregório Santos, que encabeça os protestos contra o projeto mineiro, acusou o governo central de agir com irresponsabilidade junto ao incidente, já que as manifestações se deram de forma pacífica.

Por sua parte, o ministro da Justiça culpou os “maus dirigentes”, em clara alusão a Santos.

O projeto “Conga”, da mineradora Yanacocha, que tem como principal sócia a mineradora norte-americana, Newmont, significa a construção da maior mina de cobre e ouro da história do Peru.

As diversas comunidades do país se queixam de que, apesar do auge econômico vivido pelo Peru durante os últimos anos, a pobreza continua sendo um mal que cresce nas regiões de exploração de minérios.

Os opositores ao projeto conseguiram parar, praticamente por completo, os trabalhos da Newmont desde novembro de 2011. Os argumentos para isso são: o projeto causa poluição, diminui as reservas de água da região, de maneira irreversível, e não trará benefícios suficientes para a população local.

Dados oficiais expressam que ao menos 12 pessoas já morreram em protestos da região mineira durante o mandato de Humala – no poder desde 28 de julho de 2011. Nos anos de governo de Alan García, o número foi de 174.

O governo peruano manifestou estar de acordo com que a empresa Yanacocha execute o projeto mineiro, depois de ela ter anunciado, em 23 de junho, que aceita as novas condições que o presidente Ollanta Humala apresentou, como a criação de um fundo social e quadriplicar reservas de águas.

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OPINIÃO

Governos – como o de Ollanto Humala, tido como de esquerda, progressista – apenas demonstram que existe, em nossa América Latina, uma esquerda da direita – das oligarquias – que, para ganhar eleição, faz discursos de mudanças, de compromisso com o povo, mas que, uma vez no palácio governamental, fica do lado dos capitalistas, dos grupos econômicos, com quem realmente está comprometida.

Em relação ao conjunto dos explorados, apenas realiza alguma política pública de compensação.

Com esse tipo de governo, a concentração de riquezas não para de crescer. E a consequência natural é a frustração das massas populares, que, num primeiro momento, ficam perplexas por terem sido enganadas, porém, com tendência a agirem na defesa de seus direitos e por mudanças estruturais de fato.

Comitê Bolivariano de São Paulo

JAMES PETRAS: “AS ELEIÇÕES NA VENEZUELA CAUSAM IMPACTO EM TODOS OS PAÍSES EM REBELDIA NO MUNDO”

11/07/2012

Como Chávez representa realmente a consciência social das grandes maiorias da América Latina, fator decisivo para a definição de independência frente ao imperialismo norte-americano, existe muita coisa em jogo em relação às eleições na Venezuela”, afirmou o sociólogo estadunidense, James Petras, na segunda-feira passada (2/7), em CX36, Rádio Centenário. Petras salientou que, embora tudo indique que Chávez será reeleito em 7 de outubro, a direita age com o apoio dos Estados Unidos, procurando penetrar nos bairros populares.

 

UMA ELEIÇÃO ESTRATÉGICA PARA A AMÉRICA LATINA E OUTRAS REGIÕES

Para o sociólogo estadunidense, as eleições de 7 de outubro causarão grande impacto no continente, ”me parece muito importante, neste momento, porque as eleições na Venezuela causarão grande impacto na América Latina”.

Petras ressaltou: “Como Chávez realmente representa a consciência social das grandes maiorias da América Latina, como um dado decisivo para a independência frente aos Estados Unidos, há muitos elementos em jogo nas eleições na Venezuela, que vão além do que vai acontecer internamente no país”.

Afirmou que “Chávez criou um fundo de financiamento de projetos sociais na América Latina, que tem sido usado através de investimentos em Saúde, Educação, nos países do Caribe e também nos andinos. Além disso, suas críticas ao imperialismo norte-americano procuram neutralizar o avanço do imperialismo no Uruguai, Brasil e em outras partes. É um contrapeso”.

“Por isso, é uma eleição estratégica para a América Latina e outras regiões do mundo”, ressaltou.

 

GOVERNO BOLIVARIANO, EXEMPLO PARA OS POVOS DE TODO O MUNDO

Para James Petras, o Governo Bolivariano, encabeçado pelo presidente Chávez, é um exemplo para os povos de todo o mundo, que vêem nele uma saída face à crise do capitalismo que o Planeta vive.” Por exemplo, na Grécia, o candidato a Primeiro Ministro, que terminou em segundo lugar, disse que seu modelo de governo para a Grécia é o de Chávez. Acrescentou: “Conversamos com árabes e muçulmanos do Oriente Médio. Eles também fazem alusão ao exemplo de Chávez, que combina independência, democracia e programas socializantes. É um modelo para eles”, afirmou.

“Portanto reitero: as eleições na Venezuela, não só provocam impacto para o povo venezuelano, mas também a todos os povos latino-americanos e a todos os povos em rebeldia, da Grécia até o Oriente Médio”.

 

DIREITA VENEZUELANA RECEBE APOIO DOS ESTADOS UNIDOS

Petras chamou a atenção para o fato de que é necessário levar em conta a ajuda milionária que o candidato da direita vem recebendo, com o objetivo de diminuir as diferenças que as pesquisas apresentam, em que o presidente Chávez leva ampla vantagem.

“Nesse aspecto, devemos ver esta eleição como a mais importante nos próximos anos. Felizmente, até este momento, as pesquisas e estimativas demonstram que Chávez tem uma margem substancial de dois dígitos sobre Capriles, o candidato da direita, apoiado pelos Estados Unidos”, comentou.

Segundo o sociólogo, a oposição a Chávez mudou de estratégia eleitoral, buscando conquistar os setores populares, com o apoio milionário provindo dos EUA. ”Por exemplo, a AID, uma organização tida como de ajuda, canaliza milhões de dólares para a oposição; faz campanha porta a porta. A direita mudou de estratégia, buscando avançar nos bairros populares, através de um exército pago para fazer campanha contra Chávez; com pouco resultado até agora. Porém, é um fato que deve ser levado em consideração.

OS INTERESSES CONVERGENTES QUE DERRUBARAM O PRESIDENTE DO PARAGUAI

09/07/2012

Três interesses convergiram para a derrota de Fernando Lugo: os interesses das transnacionais do agronegócio; os da oligarquia latifundiária, aliada do capital internacional, e os dos partidos políticos de direita. Todos apoiados pelos Estados Unidos.

Os objetivos estratégicos são: a reinstalação de uma democradura exclusivamente gerenciada com o apoio dos Estados Unidos e de alguns países europeus, como nos tempos da Guerra Fria; o cerco e a criminalização da esquerda e dos movimentos sociais; o avanço da produção exclusivamente extrativista agro-exportadora, com a postergação indefinida da industrialização do país e a consolidação violenta do processo de destruição da economia pequeno-camponesa, inviabilizando a reforma agrária.

No campo geoestratégico, o Paraguai se torna rapidamente um problema cada vez mais grave para o Brasil e para as possibilidades da União das Nações Sul-Americanas (UNASUL) e tende a consolidar-se como base importante de operação dos EUA, no processo de disputa pelo controle do Sul.

A União de Grêmio de Produção (UGP), que integra os produtores mecanizados do país, mas que, na prática, serve de refúgio dos latifundiários, especuladores e rentistas da terra, foi o pivô de toda essa trama contra Fernando Lugo. Quando a transnacional, Monsanto, teve dificuldades em impor sua semente transgênica de algodão e de milho, por não cumprir as normas legais, começou a crescer a pressão da UGP.

A Monsanto faturou, sem pagar impostos, em forma de lucros sobre renda, 30 milhões de dólares, só em 2011, com a sua soja transgênica; sem contar a fatura pela venda de sementes. Parte desse montante é distribuída entre os tecnocratas da UGP.

Essa entidade pressionou, primeiro pela destituição de Miguel Lovera, um técnico que dirigia a instituição de controle e uso das sementes e agroquímicos no país. Depois, ameaçou realizar um protesto nacional, denominado “tratoraço”, que consistiria no fechamento de estradas com maquinaria agrícola. Por último, agiu para a efetivação do julgamento político de Lugo.

A UGP é dirigida por Hector Cristaldo, empresário ligado diretamente ao grupo empresarial Zuccolillo, outra multinacional do agronegócio. Esse grupo é sócio da CARGILL, outra transnacional.

O grupo Zuccolillo também tem o controle do diário ABC, dirigido pelo seu proprietário, Aldo Zuccolillo. A linha editorial desse jornal está cheia de incitações e provocações às Forças Armadas e aos partidos políticos, visando à derrubada do presidente Lugo, desde o início de seu governo.

Em janeiro passado, Aldo Zuccolillo se reuniu com o político do Partido Colorado, o também agro-empresário, Horácio Cartes. O senador colorado, Juan Carlos, disse que Cartes saiu deslumbrado da entrevista com Zuccolillo.

No ano passado, de acordo com informe da Wikileaks, publicado pelo próprio Zuccolillo, Cartes foi acusado pela DEA, a agência antidroga dos Estados Unidos, de envolvimento com o narcotráfico e lavagem de dinheiro. O Departamento de Estado desconsiderou o fato.

De maneira ostensiva, no último momento do governo Lugo, Cartes foi o principal articulador, dentro de seu partido, para a condenação política do presidente, apoiado pelo jornal ABC, de propriedade de Zuccolillo. Por fim, Cartes arrastou o seu partido – que tinha sido derrotado por Lugo em 2008, depois de 60 anos no poder – para efetivar a destituição do presidente paraguaio.

Isso se deu após os sangrentos acontecimentos de Curuguaty, em 5 de julho deste ano, em que morreram 6 policiais e 11 camponeses, durante a desocupação de um latifúndio de propriedade do ex-presidente do Partido Colorado, Blas Riquelme. Essas mortes serviram de pretexto para a aceleração da derrubada de Lugo.

Num giro de 180 graus, o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA) deixou o governo de que fazia parte e se juntou ao Partido Colorado, ao jornal ABC e à AGP, participando do julgamento político do presidente. Hoje, ao PLRA – no poder, após 70 anos fora do comando do país, com Federico Franco como presidente do Paraguai – restam pouco mais de 13 meses para governar e, deveras, realizar um trabalho sujo de reprimir os seus ex-aliados no governo, agindo contra a esquerda e os movimentos sociais, que darão início a uma sistemática resistência ao governo liberal, destruindo qualquer possibilidade de ganhar as eleições no próximo ano.

Horacio Cortes, pré-candidato do Partido Colorado, sorri e vê melhorar suas chances de apoio do ABC Color, da embaixada norte-americana e da UGP.

Finalmente, nestes dias, Lugo e seus assessores deverão reconhecer que cometeram um grande erro. Pensaram que poderiam co-governar com o imperialismo, com a oligarquia feudal e com os partidos de direita, tributários de governos antidemocráticos e traidores da pátria. Como disse Atílio Borón: é um erro crer que um governo timidamente progressista, como foi o governo de Lugo, pudesse prosperar, transigindo com os interesses oligárquicos e imperialistas, sem a articulação dos movimentos sociais e os partidos de esquerda.

Idílio Méndez Grimaldi

PRESIDENTE LUGO: DEPOSTO PELO ALIADO

01/07/2012

Parte da esquerda latino-americana, sob a luz do pragmatismo, desejando ganhar eleições a qualquer custo, vem fazendo alianças com setores das chamadas oligarquias. Tem ilusão de que tais forças são levadas por algum sentimento patriótico, inclusive, capazes de alguma sensibilidade social, que desejam o avanço da democracia.

Elege seu candidato, forma o governo. Contudo, governa em condições de respeitar os compromissos assumidos com o povo, com os movimentos sociais? Não! Não, porque o aliado oligárquico, muito preciso na defesa de seus interesses, tendo maioria no parlamento, de cara, exige de forma intransigente que o governo não bote em prática o atendimento a qualquer reivindicação de certa importância da população, como reforma agrária, por exemplo, e uma política econômica que fira a lógica neoliberal. E a consequência disso é o desgaste do governante junto ao povo, que vê suas esperanças frustradas.

Sem apoio popular, mais ou menos desmoralizado, o governo passa a ser alvo de ataque, não só da direita com quem se aliou, mas também do conjunto de forças reacionárias como um todo, que usam o momento como a grande chance para recuperar terreno político perdido anteriormente. Usam uma população perplexa, que já não acredita mais na esquerda, para se colocarem como os salvadores da pátria, promotores do restabelecimento da ordem em geral, mormente a ordem econômica. E, contando com essa conjuntura, de crise de consciência política por parte de grande parte do povo, implementam, sem vacilar, o golpe parlamentar, coadjuvado pela grande mídia.

Foi o que aconteceu no Paraguai. Lugo se tornou presidente com esse tipo de aliança e, se afastando dos interesses populares, para não se chocar com os interesses do aliado oligárquico, ficou sem apoio do povo. Desgastado, a direita aliada se somou à não aliada e o derrubou.

Talvez, não fosse esse tipo de aliança, as forças de direita se manteriam em desgaste constante, sem pretexto e discursos que lhe propiciassem algum ganho político junto ao povo; ao passo que as esquerdas tenderiam ao crescimento de sua credibilidade. Ironicamente, a direita paraguaia só foi vitoriosa porque se aliou à esquerda. Numa conjuntura que não favorece a golpes militares, parte da direita se alia à esquerda, num processo eleitoral, exatamente para derrotá-la, buscando desmoralizá-la junto a uma população que via nela um mundo de esperanças.

O mais grave de tudo isso é que, com a derrubada de Lugo, a direita se sente vitoriosa com a sua nova maneira de efetuar golpes de estado: o golpe parlamentar. Num momento em que não há condições para o golpismo militar, ela opta pelo golpe legalizado. Um crime dentro da lei.

O que se espera, agora, é que esse tipo de esquerda, de lógica pragmática, aprenda que só há um caminho para a vitória da mudança: a mobilização e conscientização das massas populares, em quaisquer circunstâncias ou conjuntura. Quem quer mudar só deve aliar-se a quem deseja mudanças.

Carlos Silva