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NOAM CHOMSKY – O IMPERIALISMO SELVAGEM DOS ESTADOS UNIDOS

15/12/2011

É tentador voltar ao início. O início remonta a uma data muito distante, porém é importante refletir sobre alguns aspectos da história dos Estados Unidos, que incidem diretamente sobre a atual política norte-americana no Oriente Médio. Nos diversos sentidos, os EUA são um país bastante incomum. Talvez, seja o único país do mundo que foi fundado como império. Era um império-criança, como o chamou George Washington, que via grandes aspirações em seus fundadores. O mais liberal deles, Thomas Jefferson, pensava que esse império-menino devia expandir-se e tornar-se aquilo que ele chamou o “ninho”, de onde se colonizaria todo o continente. “Os vermelhos” – isto é – os índios, seriam varridos; seriam expulsos ou exterminados. Os negros seriam devolvidos à África, quando já não fossem necessários, e os latinos seriam eliminados por uma raça superior.

A CONQUISTA DO TERRITÓRIO NACIONAL

Ao longo de sua história, os Estados Unidos têm sido um país muito racista, não apenas em relação ao negro, ressalte-se. Essa era a visão de Jefferson, e os demais iam, mais ou menos, na mesma linha. Dessa forma, trata-se de uma sociedade colonialista de população imigrante. Esse colonialismo é, de longe, o pior tipo de imperialismo, o mais selvagem, porque exige a eliminação da população autóctone. Acho que isso traz certa relação com o apoio decidido que os Estados Unidos dão a Israel, que é também uma sociedade colonialista, fundada por povoadores. Suas políticas são como um eco do sentido da história estadunidense. É como voltar a vivê-la. E ainda mais, porquanto os primeiros colonos dos atuais Estados Unidos eram religiosos fundamentalistas, considerando-se filhos de Israel, e obedeciam ao mandamento divino de habitar a Terra Prometida e matar os amalecitas etc., etc. Foram os primeiros colonos de Massachusetts.

Tudo foi feito com o maior altruísmo. Assim que, por exemplo, Massachusetts (o Mayflower e todo esse assunto) recebeu seus estatutos de fundação das mãos do Rei da Inglaterra, em 1629. Esses estatutos atribuíam aos colonos a tarefa de salvarem a população autóctone do infortúnio do paganismo. De fato, o emblema da colônia da Baía de Massachusetts mostra um índio com uma flecha que aponta para baixo, um símbolo de paz. De sua boca sai uma frase que diz: “Vinde e nos ajudai”. Esse é um dos primeiros exemplos do que hoje se denomina intervenção humanitária. É típico de outros casos até o presente. Os índios suplicavam aos colonos que os ajudassem, e os colonos obedeciam altruisticamente ao mandamento de Deus de ajudá-los. O resultado é que os ajudaram, exterminando-os; o que foi considerado bastante transtornador. Aproximadamente aos anos vinte do século XIX, um juiz do Tribunal Supremo falou sobre esta questão. Dizia ser um tanto estranho que, apesar de todo o nosso altruísmo e amor pelos índios, estes se dispersaram como “as folhas de outono”. Como era possível? Ressaltava que a divina vontade da Providência “transcende a compreensão humana”. É a vontade de Deus. Não podemos querer entendê-la. Essa concepção, chamada providencialismo – que consiste em pensar que obedecemos invariavelmente à vontade de Deus – chegou aos dias de hoje. Façamos o que fizermos, obedeceremos à vontade de Deus.

Os Estados Unidos são um país muito religioso; um país em que as crenças religiosas desempenham um papel incomum. Uma grande porcentagem da população – não me lembro do número exato, mas é muito alta – crê literalmente no que diz a Bíblia; e parte dessa crença consiste em apoiar tudo que Israel faz, já que Deus prometeu a Israel a Terra Prometida. Temos de apoiá-lo. Essas mesmas pessoas – um núcleo substancial que dá sólido apoio a qualquer coisa que Israel faça – são, ao mesmo tempo, os antissemitas mais extremados do mundo. Fazem com que Hitler pareça bastante moderado. Acreditam no aniquilamento quase total dos judeus depois do Armagedão. Existe toda uma longa história sobre esse assunto, aceita inclusive por gente considerada muito importante; provavelmente por gente, como Reagan, George W. Bush e outros. Vincula-se à história colonialista do sionismo cristão, que precedeu amplamente o sionismo judeu, e é muito mais forte. Proporciona uma sólida base de decidido respaldo a qualquer coisa que Israel possa fazer.

A conquista do território nacional foi um acontecimento bastante feio. Isso foi reconhecido por alguns de seus protagonistas mais honestos, como John Quincy Adams, o grande estrategista do expansionismo, teórico do conhecido Destino Manifesto etc. Em seus últimos anos, bem depois de seus próprios crimes horrendos terem ficado no passado, lamentou o que chamou a sorte “dessa infeliz raça de nativos americanos que estamos exterminando com tanta falta de misericórdia e pérfida crueldade”. Disse que este era um dos pecados pelos quais nos castigaria o Senhor. Ainda estamos esperando.

Suas doutrinas têm sido levadas em conta ao longo do tempo e continuam no presente. Existe um importante e bem documentado livro de John Lewis Gaddis, grande historiador norte-americano, sobre as raízes da doutrina Bush. Gaddis descreve correta e convincentemente a doutrina Bush como descendente direta da grande estratégia de John Quincy Adams. Diz que é uma concepção que percorre toda a história dos Estados Unidos. Crê que é a concepção correta: que devemos proteger nossa segurança, que a expansão é a via para garantir a segurança, que é impossível ter segurança satisfatória enquanto não se controle tudo. Assim sendo, devemos nos expandir, não só no hemisfério, mas também em todo o Planeta. Essa era a doutrina Bush.

Durante a Segunda Guerra Mundial, embora os Estados unidos já fossem, com sobra, o país mais rico do mundo, desempenhavam um papel secundário nos assuntos mundiais. O ator principal naquele contexto mundial era a Inglaterra; inclusive a França tinha um alcance mais global que os Estados Unidos. A Segunda Guerra Mundial mudou por completo o panorama. Os encarregados de realizar planos nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, os incumbidos de fazer planos para Roosevelt, compreenderam muito bem, desde o início da guerra, que esta chegaria ao seu fim com os Estados Unidos numa condição de poder esmagador. À medida que avançava a contenda e os soviéticos derrotavam os alemães e quase ganham a guerra na Europa, entenderam que os Estados Unidos ficariam numa situação inclusive de predomínio. E elaboraram cuidadosamente planos para o pós-guerra. Os Estados Unidos exerceriam um controle total sobre uma região que incluía o Hemisfério Ocidental, o Extremo Oriente, o antigo império britânico e a porção maior possível da Eurásia, atingindo – isso era crucial – seu coração comercial e industrial: a Europa Ocidental. Essa era a meta mínima. A máxima atingiria todo o Planeta, necessária para a nossa segurança. Nessa região, os Estados Unidos teriam controle inquestionável da situação e limitariam todo o intento de outros de exercerem sua soberania.

Os Estados Unidos terminam a guerra em uma posição de predomínio e segurança sem paralelo na história. Dispunham da metade das riquezas mundiais, controlavam todo o hemisfério e as margens opostas dos oceanos. Não tinham tudo. Aí estavam os soviéticos, algumas coisas ainda não estavam sob seu controle; contudo, se expandiam de maneira muito clara.

Exatamente no meio de tudo isso, estava o Oriente Médio. Um dos assessores de Roosevelt, que trabalhou ao seu lado durante muito tempo, Adolf A. Berle, um liberal, afirmou que o petróleo do Oriente Médio proporcionaria um substancial controle sobre o Planeta; essa doutrina se mantém atualmente. Uma doutrina que continua neste instante, e que se mantém como um tema central da política.

Depois da Segunda Guerra Mundial

Durante boa parte da guerra Fria, as políticas norte-americanas procuravam justificar-se a todo momento, alegando ameaça dos soviéticos. Tratava-se, no fundamental, de uma ameaça inventada. Os soviéticos dirigiam seu próprio império, menor, usando pretexto idêntico: a ameaça dos norte-americanos. Essas nuvens escuras se desfizeram após a queda da União Soviética. Para os que querem compreender a política exterior estadunidense, um tema claro a ser investigado é o acontecido depois do desaparecimento da União Soviética. Esse é o tema natural a ser investigado, que quase ninguém investiga. Analisa-se muito pouco na literatura especializada, ainda que seja obviamente o tema a ser estudado, para que se saiba o que foi a Guerra Fria. De fato, se ocorrer tal estudo, serão obtidas respostas muito claras.

O presidente nessa época era George Bush pai. Imediatamente depois da queda do Muro de Berlim, criou-se uma nova Estratégia de Segurança Nacional, com um Orçamento de Defesa etc. Constitui uma leitura muito interessante. Sua mensagem básica é a seguinte: nada vai mudar, exceto os pretextos. O que disseram é que necessitamos, ainda, de uma imensa força militar, não para nos defendermos de tropas soviéticas, porque já não existem, mas sim do que denominam “sofisticação tecnológica” das potências do “Terceiro Mundo”. Não seria de estranhar que uma pessoa bem educada, que tivesse estudado em Harvard e tudo mais, risse ao ouvir isso. Todavia, ninguém riu. Deveras, creio que ninguém escreveu sobre isso na imprensa. Com tal argumento, afirmam que temos de nos proteger das sofisticadas tecnologias das potências do Terceiro Mundo e que devemos manter o que se chama “base industrial de defesa”, um eufemismo para se referirem à indústria de alta tecnologia, provedora quase toda do setor estatal (computadores, Internet etc.), com o pretexto da segurança. Em relação ao Oriente Médio, dizem que devemos manter nossas forças de intervenção; cuja maioria está designada para esta região. Aí, aparece uma frase interessante: temos de manter as forças de intervenção destinadas ao Oriente Médio, onde as ameaças fundamentais a nossos interesses “não podiam ser atribuídas ao Kremlin”. Em outras palavras – desculpem-nos meninos – temos mentido a vocês durante cinquenta anos, mas, agora que já não há mais esse pretexto, lhes falaremos a verdade.

O problema no Oriente Médio foi e é chamado de nacionalismo radical. Radical, na verdade, que dizer independente. É um termo que significa “não obedece às ordens”. O nacionalismo radical pode ser de muitos tipos. O Irã é um bom exemplo.

A ameaça do nacionalismo radical

Em 1953, a ameaça iraniana era o nacionalismo secular. Depois de 1978, o nacionalismo religioso. E, em 1953, resolveu-se o problema, derrotando o regime parlamentar e instalando no poder um ditador muito elogiado. Não era um segredo. O New York Times, por exemplo, publicou um editorial em que era comemorada a derrota do governo, chamando-a de “lição” para os países pequenos que “perdem o juízo” com o nacionalismo radical e buscam assumir o controle de seus recursos naturais. Esta seria uma lição para eles: não tentem nenhuma loucura desse tipo, sobretudo numa zona que nos é necessária para controlarmos o Planeta. Isso se deu em 1953.

Desde 1979, data em que foi derrotado o tirano imposto pelos Estados Unidos, o Irã vem sofrendo constante perseguição norte-americana, sem trégua. Primeiro, Carter buscou reverter, de maneira imediata, a derrota do Xá, instigando um golpe de estado militar. Não funcionou. Os israelenses – na realidade, seu embaixador, porque durante o governo do Xá, Israel e Irã mantiveram relações estreitas, embora teoricamente não formais – disseram que, se conseguíssemos encontrar alguns oficiais dispostos a atirar contra dez mil pessoas nas ruas, poderíamos devolver o poder ao Xá. Zbigniew Brzezinski, o assessor de segurança de Carter, era da mesma opinião. Não conseguiu o objetivo. Logo, os Estados Unidos se aproximaram de Saddam Hussein, a fim de apoiá-lo na sua invasão ao Irã, que não foi coisa pequena. Milhares de iranianos foram mortos. Os atuais dirigentes do país são veteranos daquela guerra e, em sua consciência, está gravada a idéia de que todos estão contra eles: os soviéticos, os norte-americanos, todos apoiaram Saddam Hussein em sua tentativa de derrotar o novo estado islâmico. Não foi pouca coisa. O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein foi enorme. Os crimes de Saddam, como o genocídio de Anfal – o massacre dos curdos – foram simplesmente negados. O governo de Reagan os negou ou os atribuiu ao Irã. Foi concedido ao Iraque privilégio muito singular. Único país do mundo, com exceção de Israel, ao qual foi dado o privilégio de atacar um navio norte-americano e gozar, depois, de completa impunidade. No caso de Israel, foi o Liberty, em 1967. No do Iraque, o USS Stark, em 1987. Era um navio que fazia parte da frota norte-americana destinada a proteger os embarques procedentes do Irã durante a guerra. O Iraque atacou o navio com mísseis franceses, matou algumas dezenas de marinheiros e recebeu uma tímida repreensão, nada mais que isso. O apoio dos Estados Unidos era tão grande que, na prática, ganhou a guerra em nome do Iraque. Terminada a contenda, o apoio dos Estados Unidos continuou. Em 1989, George Bush pai convidou vários engenheiros iraquianos para uma viagem aos Estados Unidos, para adquirirem conhecimentos avançados sobre o desenvolvimento de armas nucleares. É uma dessas pequenas coisas que são escondidas debaixo do tapete, já que, após alguns meses, Saddam se converteu em um mau rapaz. Desobedeceu às ordens. Depois, vieram as duras sanções e tantas coisas mais, até os dias de hoje.

A ameaça iraniana

Voltando à atualidade, nos textos da política exterior, e aos comentários gerais, a afirmação que mais constantemente se encontra é que o problema político fundamental dos Estados Unidos tem sido e continua sendo a ameaça iraniana. Em que consiste exatamente a ameaça do Irã? Na realidade, contamos com uma resposta autorizada a esta pergunta. Apareceu, faz meses, em informes enviados ao Congresso pelo Departamento de Defesa e órgãos de inteligência estadunidenses. Essas instâncias, todos os anos, informam ao Congresso a situação da segurança global. As últimas informações, enviadas em abril, contêm uma seção sobre o Irã, que aparece como a ameaça maior. Vale a pena lê-las. O que afirmam é que, seja qual for a ameaça iraniana, ela não tem caráter militar. Ressaltam que o gasto militar do Irã é muito pequeno, mesmo para os padrões regionais e que, comparado com o dos Estados Unidos, é invisível. Provavelmente, não chegue a 2% do gasto estadunidense na área militar. Ademais, destacam que a doutrina militar do Irã se orienta no sentido da defesa do território nacional, projetada para impedir uma invasão, apenas suficiente para que a diplomacia possa começar a funcionar. Essa é sua doutrina militar. Dizem que é possível que o Irã esteja pensando em armas nucleares. Não vão além disso, mas afirmam que se chegassem a desenvolver armas nucleares, seria como parte da estratégia de contenção iraniana, num esforço para prevenir um ataque, que não é uma possibilidade remota. A maior potência militar da história – nosso país – que lhe tem sido extremamente hostil, ocupa dois países fronteiriços e ameaça abertamente atacá-lo, como faz seu cliente, Israel. Essa é a dimensão militar da ameaça iraniana, tal como aparece descrita no Militar Balance. Não obstante, afirmam que o Irã significa uma grande ameaça porque tenta aumentar a sua influência sobre países vizinhos. A este objetivo chamam de desestabilização. O Irã estaria realizando uma operação de desestabilização em países vizinhos, ao buscar ampliar sua influência, e isso significa um problema para os Estados Unidos, que buscam promover a estabilidade.

Quando os Estados Unidos invadem um país é para promover a estabilidade, termo técnico da literatura de relações internacionais que quer dizer obedecer às ordens norte-americanas. Desta maneira, quando invadimos o Iraque e o Afeganistão, é para propiciar a estabilidade. Se os iranianos buscam ampliar sua influência, pelo menos em países vizinhos, estamos frente a uma tentativa de desestabilização. Esta idéia faz parte integral da doutrina acadêmica e de outras. Inclusive, torna possível dizer, sem medo de cair no ridículo, como fez o comentarista liberal e antigo editor do Foreign Affairs, James Chase, que os Estados Unidos tiveram de desestabilizar o Chile, no governo de Allende, para que houvesse estabilidade, ou seja, que se obedecesse às ordens norte-americanas.

O que é o terrorismo?

A segunda ameaça que o Irã apresenta é seu apoio ao terrorismo. O que é o terrorismo? Aparecem dois tipos de apoio do Irã ao terrorismo. Um é seu apoio ao Hezbolá, no Líbano; o outro é seu apoio ao Hamas, na Palestina.  Pense o que se pense do Hezbolá e do Hamas – que achemos que são os piores do mundo – o que se considera aquilo em que consiste seu terrorismo? Bem, o “terrorismo” do Hezbolá é celebrado no Líbano em todo 25 de maio de cada ano, dia da festa nacional que comemora a expulsão dos invasores israelenses do território libanês no ano de 2000. A resistência e a guerra de guerrilha do Hezbolá forçaram Israel a retirar-se do sul do Líbano, após os israelenses ocupá-lo durante vinte anos, violando as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, quando generosamente praticou a violência, o terror e a tortura. Após a retirada de Israel, a data foi declarada Dia da Libertação do Líbano.

Isso é o que se considera o núcleo do terrorismo do Hezbolá. É assim que é descrito. Na verdade, em Israel se chega a descrever tal dia como uma agressão. Nestes dias se encontram na imprensa israelense as declarações de personagens muito importantes, dizendo que foi um grande erro a saída de Israel do Líbano, porquanto isso permite ao Irá manter a sua “agressão” a Israel, praticada pelos iranianos até o ano 2000, apoiando a resistência à ocupação israelense. Consideram que isso é uma agressão a Israel. Seguem princípios norte-americanos, já que nós afirmamos o mesmo. Quanto ao Hezbolá. existem outras ações suas que poderiam ser criticadas, porém, esse é o núcleo do terrorismo do Hezbolá. Outro crime do Hezbolá é que a coalizão que liderava ganhou, de forma ampla, as últimas eleições parlamentares, embora, devido ao sistema de designação de cadeiras segundo a filiação religiosa, não tenha conseguido a maioria. Isso levou Thomas Friedman a derramar lágrimas de alegria pelas maravilhas de eleições livres, em que o presidente Obama tinha derrotado o presidente iraniano Ahmadinejad, no Líbano. Houve outros que participaram dessa celebração. Até onde sei, a quantidade real de votos nunca foi informada.

E o Hamas? Hamas se tornou uma séria ameaça – uma perigosa organização terrorista – em janeiro de 2006, quando os palestinos cometeram um crime realmente grave. Essa foi a data das primeiras eleições livres realizadas num país do mundo árabe, e os palestinos votaram como não deveriam votar. Fato inaceitável para os Estados Unidos. Imediatamente, num abrir e fechar de olhos, os Estados Unidos e Israel se pronunciaram a favor de um castigo aos palestinos, por causa desse crime. Está em uma edição do New York Times, publicada logo depois, em duas colunas paralelas: numa delas se fala de nosso amor pela democracia e, na contígua, de nossos planos para castigar os palestinos, devido à maneira como votaram nas eleições de janeiro. Nenhuma ideia de que houvesse uma contradição. Antes das eleições, os palestinos já tinham recebido fortes castigos, que depois se intensificaram: Israel chegou ao ponto de controlar a distribuição de água na árida Faixa de Gaza. Em junho, Israel disparou cerca de 7700 foguetes contra Gaza. Tudo em nome da defesa contra o terrorismo. Mais tarde, os Estados Unidos e Israel, com a cooperação da Autoridade Nacional Palestina, tentaram efetuar um golpe de estado para derrotar o governo eleito. Foram derrotados, vitória do Hamas.

Depois disso, o Hamas se tornou uma das principais forças terroristas do mundo. Podem ser feitas muitas críticas ao Hamas, por exemplo, à maneira com que trata a sua população, porém o terrorismo do Hamas é um tanto difícil de ser caracterizado. A denúncia atual é que seu terrorismo consiste em disparar foguetes a partir de Gaza sobre as cidades fronteiriças de Israel; o que foi usado como justificativa para que se realizasse a Operação Chumbo Fundido (a invasão norte-americano-israelense de dezembro de 2008) e também para o ataque que Israel lançou contra uma pequena frota em junho, em águas internacionais, em que nove pessoas foram mortas. Apenas em país profundamente doutrinado se pode escutar este tipo de coisas sem rir. Deixando de lado a comparação, entre os foguetes Qassam e o terrorismo praticado constantemente pelos Estados Unidos e Israel, esse argumento padece de total credibilidade, pela simples razão: Israel e os Estados Unidos sabem muito bem como deter os foguetes… por meios pacíficos. Em junho de 2008, Israel aceitou concordar com um cessar-fogo com o Hamas. Israel não o cumpriu de fato – supunha-se que devia abrir as fronteiros, porém não o fez. O Hamas, sim, respeitou o acertado. Pode-se consultar o website oficial de Israel ou ouvir Mark Regev, seu porta-voz oficial. Ambos concordam com que, durante o cessar-fogo, o Hamas não disparou nenhum foguete. Israel desrespeitou o cessar-fogo em novembro de 2008, quando invadiu Gaza e assassinou 6 ativistas do Hamas. Depois, ocorreram alguns tiros de canhões por parte de Israel. Morreram algumas pessoas, todas palestinas. O Hamas propôs a retomada do cessar-fogo. O gabinete israelense não aceitou tal proposta, preferiu o caminho da violência. Dois dias depois, aconteceu o ataque norte-americano-israelense a Gaza. Nos Estados Unidos, e no Ocidente em geral, se dá como fato consumado, inclusive em grupos de direitos humanos e no informe Goldstone, que Israel tem o direito de usar a força e exercer sua autodefesa. Acontecem críticas sobre a desproporcionalidade do ataque, mas são uma questão secundária, porque o principal é que Israel não tinha nenhum direito de usar a força. Não existe justificação para o uso da força, a não ser que se tenham esgotado todos os meios pacíficos. Neste caso, os Estados Unidos e Israel não só não os tinham esgotado, mas também se negaram, inclusive, a tentar empregá-los, ainda que tivessem qualquer tipo de razão para acharem que teriam sucesso.

A concessão de que Israel tem direito a realizar seus ataques significa uma dádiva surpreendente. Segundo o Departamento de Defesa e a inteligência norte-americana, o desejo do Irã de aumentar sua influência, assim como apoiar o Hezbolá e o Hamas, são a essência da ameaça iraniana aos Estados Unidos.

(1) Livre tradução do original inglês, por Cláudio de Lima

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