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ÀS ESQUERDAS DA EUROPA E DO MUNDO – DISCURSO DE ÁLVARO GARCIA LINERA

14/01/2014

Discurso do vice-presidente do Estado Plurinacional da Bolívia, Álvaro Garcia Linera, durante o IV Congresso do Partido da Esquerda Europeia (PIE), entre os dias 13 e 15 de dezembro de 2013, em Madri, Espanha:

Permitam-me celebrar este encontro da Esquerda Europeia e – em nome de nosso presidente, Evo; em nome do meu país e do nosso povo – agradecer o convite que nos fizeram, para compartilhar um conjunto de ideias, reflexões neste tão importante congresso da Esquerda Europeia.

Permitam-me ser direto, franco, mas, também, propositivo.

O que vemos desde fora da Europa? Vemos uma Europa que enfraquece, uma Europa abatida, uma Europa ensimesmada e satisfeita de si mesma, até certo ponto apática e cansada. Sei que são palavras muito feias e muito duras, mas, é assim que vemos. Ficou para trás a Europa das luzes, das revoltas, das revoluções. Ficou para trás, muito atrás, a Europa dos grandes universalismos que moveram e enriqueceram o mundo, que empurraram povos de muitas partes do mundo a adquirirem uma esperança e mobilizar-se em torno dessa esperança.

Ficaram para trás os grandes desafios intelectuais. Essa interpretação, que faziam e que fazem os pós-modernos, de que acabaram os grandes relatos, à luz dos últimos acontecimentos, parece que só encobre os grandes negócios das corporações e do sistema financeiro.

Não é o povo europeu que perdeu a virtude ou a esperança, porque a Europa a que me refiro, cansada, a Europa esgotada, a Europa ensimesmada, não é a Europa dos povos, mas, sim, esta Europa silenciada, encerrada, asfixiada. A única Europa que vemos no mundo, hoje, é a Europa dos grandes consórcios empresariais, a Europa neoliberal, a Europa dos grandes negócios financeiros, a Europa dos mercados e não a Europa do trabalho.

Carentes de grandes dilemas, horizontes e esperança, só se ouve – parafraseando Montesquieu – o lamentável ruído das pequenas ambições e dos grandes apetites.

Democracias sem esperança e sem fé são democracias derrotadas, são democracias fossilizadas. Em um sentido estrito, não são democracias. Não há democracia válida, que seja simplesmente um apego aborrecido a instituições fósseis com as quais se cumprem rituais, a cada três, quatro ou cinco anos para eleger os que virão decidir (mal) sobre nossos destinos.

Todos sabemos, e na esquerda mais ou menos compartilhamos um pensamento comum, de como chegámos à semelhante situação. Os estudiosos, os acadêmicos, os debates políticos oferecem um conjunto de linhas interpretativas sobre a situação em que estamos e como chegamos a ela. Um primeiro critério compartilhado, de como chegamos a isso, é que entendemos que o capitalismo adquiriu – não resta dúvida – uma medida geopolítica planetária absoluta. Ele cobre o mundo inteiro. O mundo inteiro tornou-se uma grande oficina mundial. Um rádio, uma televisão, um telefone, já não têm uma origem de criação. O mundo inteiro se converteu nessa origem. Um chip é feito no México; o desenho vem da Alemanha; a matéria-prima é latinoamericana; os trabalhadores são asiáticos; a embalagem é norteamericana; e a venda é planetária.

Esta é uma característica do moderno capitalista, não resta dúvida, e é a partir dessa realidade que devemos agir.

Uma segunda característica dos últimos vinte anos é uma espécie de retorno a uma acumulação primitiva perpétua. Os textos de Karl Marx, que retratam a origem do capitalismo, nos séculos XVI e XVII, repetem-se, hoje, como textos do século XXI. Temos uma permanente acumulação originária que reproduz mecanismos de escravidão, mecanismos de subordinação, de precariedade, de fragmentação – retratados excepcionalmente por Marx. O capitalismo moderno reatualiza a acumulação originária. Ele a expande, a irradia a outros territórios, para extrair mais recursos e mais dinheiro. Mas, há algo que vem junto com esta acumulação primitiva perpétua – que vai definir as características das classes sociais contemporâneas, tanto em nossos países como no mundo, porque reorganiza a divisão do trabalho local, territorialmente, e a divisão do trabalho planetário.

Junto com isso, temos uma espécie de neoacumulação por expropriação. Temos um capitalismo depredador que acumula, em muitos casos, produzindo nas áreas estratégicas: conhecimento, telecomunicações, biotecnologia, indústria automobilística, mas, em muitos de nossos países, acumula por expropriação. Ou seja, acumula ocupando os espaços comuns: biodiversidade, água, conhecimentos ancestrais, bosques, recursos naturais. Esta é uma acumulação por expropriação – não por geração de riqueza –, por expropriação de riquezas comuns que se tornam riqueza privada. Essa é a lógica neoliberal. Se criticamos tanto o neoliberalismo, é por sua lógica depredadora e parasitária. Mais que um gerador de riquezas ou um desenvolvedor de forças produtivas, o neoliberalismo é um expropriador de forças produtivas capitalistas e não-capitalistas, coletivas, locais, de sociedades inteiras.

Mas, a terceira característica da economia moderna não é somente a acumulação primitiva perpétua, acumulação por expropriação, mas, também, por subordinação – Marx diria subsunção real do conhecimento e da ciência à acumulação capitalista. O que alguns sociólogos chamam de sociedade do conhecimento. Não resta dúvida: essas são as áreas mais potentes e de maior desdobramento das capacidades produtivas da sociedade moderna.

A quarta característica, e cada vez mais conflitiva e arriscada, é o processo de subsunção real do sistema integral da vida do planeta, ou seja, dos processos metabólicos entre os seres humanos e a natureza.

Estas quatro características do capitalismo moderno redefinem a geopolítica do capital em escala planetária; redefinem a composição de classes na sociedade e das classes sociais no planeta.

Não estamos falando só da externalização – para as extremidades do corpo capitalista, da classe operária tradicional, que vimos surgir no século XIX e início do século XX, e que agora se transfere para as zonas periféricas: Brasil, México, China, Índia, Filipinas –, mas, também, do surgimento, nas sociedades mais desenvolvidas, de um novo tipo de proletariado, um novo tipo de classe trabalhadora. Professores, pesquisadores, cientistas, analistas, que não se veem a si mesmos como classe trabalhadora, mas, sim, como pequenos empresários. Todavia, no fundo, constituem uma nova composição social da classe trabalhadora, do princípio do século XXI.

Porém, ao mesmo tempo, temos, também no mundo, uma criação daquilo que poderíamos chamar de proletariado difuso. Sociedades e nações não-capitalistas, que são subsumidas formalmente à acumulação capitalista. América Latina, África, Ásia – falamos de sociedades e de nações não estritamente capitalistas, mas, que, no conjunto, aparecem subsumidas e articuladas, como formas de proletarização difusas. Não somente por sua qualidade econômica, mas, também, pelas próprias características de unificação fragmentada, ou de difícil fragmentação por sua dispersão territorial.

Temos, então, não somente uma nova modalidade da expansão da acumulação capitalista, mas, também, uma reacomodação das classes, do proletariado e das classes não-proletárias, no mundo. O mundo, hoje, é mais conflitivo. O mundo, hoje, está mais proletarizado. Só que as formas de proletarização são distintas daquelas que conhecemos no século XIX e princípios do século XX. E as formas de proletarização destes proletários difusos, destes proletários profissionais liberais não tomam necessariamente a forma de um sindicato. A forma sindicato perdeu sua centralidade em alguns países e surgem outras formas de unificação do popular, do laboral, do obreiro.

O que fazer? – a velha pergunta de Lênin. O que fazemos? Compartilhamos diagnósticos sobre o que está errado, sobre o que está mudando no mundo e, frente a essas mudanças, não podemos responder – ou melhor – as respostas que tínhamos, antes, são insuficientes, caso contrário a direita não estaria governando aqui na Europa. Está faltando algo em nossas respostas e em nossas propostas. Permitam-me, de maneira modesta, fazer cinco sugestões nesta construção coletiva a que se propõe a esquerda europeia.

A esquerda europeia não pode se contentar com o diagnóstico e a denúncia. O diagnóstico e a denúncia servem para gerar indignação moral e é importante a expansão da indignação moral, mas ela não gera vontade de poder. A denúncia não é uma vontade de poder. Pode ser a antessala de uma vontade de poder, mas não é a própria. A esquerda europeia e a esquerda mundial – diante desse turbilhão destrutivo, depredador da natureza e do ser humano, impulsionado pelo capitalismo contemporâneo – têm que aparecer com propostas ou com iniciativas.

Nós precisamos construir um novo sentido comum. No fundo, a luta política é uma luta pelo sentido comum. Pelo conjunto de juízos e preconceitos. Pela forma como, de modo simples, as pessoas – o jovem estudante, o profissional, a vendedora, o trabalhador, o operário – ordenam o mundo. Esse é o sentido comum. É a concepção de mundo básica, com a qual ordenamos a vida cotidiana. A maneira pela qual valoramos o justo e o injusto, o desejável e o possível, o impossível e o provável. A esquerda mundial tem que lutar por um novo sentido comum, progressista, revolucionário, universalista. Mas, obrigatoriamente, um novo sentido comum.

Em segundo lugar, necessitamos recuperar – como apresentou o primeiro expositor de maneira brilhante – o conceito de democracia. A esquerda sempre reivindicou a bandeira da democracia. É nossa bandeira. É a bandeira da justiça, da igualdade, da participação. Mas, para isso, temos que nos livrar da concepção da democracia como um fato meramente institucional. A democracia são instituições? Sim, são instituições. Mas, é muito mais do que isso. A democracia é votar a cada quatro ou cinco anos? Sim, mas é muito mais do que isso. É eleger o Parlamento? Sim, mas é muito mais do que isso. É respeitar as regras da alternância? Sim, mas não é só isso. Essa é a maneira liberal, fossilizada, de entender a democracia, na qual, às vezes, ficamos presos. A democracia são valores? São valores, princípios organizativos do entendimento do mundo: a tolerância, a pluralidade, a liberdade de opinião, a liberdade de associação. Está bem, são princípios, são valores, mas, não são somente princípios e valores. São instituições, mas, não são somente instituições.

A democracia é prática, é ação coletiva. A democracia, no fundo, é a crescente participação na administração dos bens comuns que uma sociedade possui. Há democracia se os cidadãos participam dessa administração. Se temos, como um patrimônio comum, a água, então democracia é participar na gestão da água. Se temos, como patrimônio comum, o idioma, a língua, democracia é a gestão comum do idioma. Se temos, como patrimônio comum, as matas, a terra, o conhecimento, democracia é a gestão comum destes bens. Crescente participação comum na gestão das matas, na gestão da água, na gestão do ar, na gestão dos recursos naturais. Teremos democracia, no sentido vivo, não-fossilizado do termo, se a população (e a esquerda trabalhar para isso) participar de uma gestão comum dos recursos comuns, das instituições, do direito e das riquezas.

Os velhos socialistas dos anos 70 falavam que a democracia deveria tocar as portas das fábricas. É uma boa ideia, mas, não é suficiente. Deve tocar a porta das fábricas, a porta dos bancos, das empresas, das instituições, a porta dos recursos, a porta de tudo o que seja comum para as pessoas. Nosso delegado da Grécia me perguntava sobre o tema da água. Como começámos na Bolívia? Por temas básicos, de sobrevivência: água! E, em torno da água, que é uma riqueza comum, que estava sendo expropriada, o povo travou uma “guerra” e recuperou a água para a população. Depois, recuperamos não somente a água, fizemos outra guerra social e recuperamos o gás e o petróleo, as minas e as telecomunicações, e falta muito ainda por recuperar. Mas, a água foi o ponto de partida para a crescente participação dos cidadãos na gestão dos bens comuns que uma sociedade, uma região, têm.

Em terceiro lugar, a esquerda tem que recuperar, também, a reivindicação do universal, dos ideais universais. Dos comuns. A política como bem comum, a participação como uma participação na gestão dos bens comuns. A recuperação dos bens comuns, como direito: direito ao trabalho, direito à aposentadoria, direito à educação gratuita, direito à saúde, a um ar limpo, direito à proteção da mãe-terra, direito à proteção da natureza. São direitos. Mas, são universais, são bens comuns universais, frente aos quais a esquerda, a esquerda revolucionária, tem que propor medidas concretas, objetivas e de mobilização. Eu estava lendo no jornal como, na Europa, estão se utilizando recursos públicos para salvar bens privados. Isso é uma aberração. Usaram o dinheiro dos poupadores europeus para socorrer os bancos.

Usaram bens comuns para socorrer o privado. O mundo está ao contrário! Tem que ser o inverso disso: usar os bens privados para salvar e ajudar os bens comuns. Não os bens comuns para salvar os bens privados. Os bancos têm que ter um processo de democratização e de socialização de sua gestão. Caso contrário, eles vão acabar tirando, não somente seu trabalho, sua casa, sua vida, sua esperança e tudo o mais, e isso é algo que não se pode permitir.

Também precisamos reivindicar, em nossa proposta como esquerda, uma nova relação metabólica entre o ser humano e a natureza. Na Bolívia, por nossa herança indígena, chamamos isso de uma nova relação entre ser humano e natureza. Como o presidente Evo diz, a natureza pode existir sem o ser humano, mas o ser humano não pode existir sem a natureza. Contudo, não é o caso de cair na lógica da economia verde, que é uma forma hipócrita de ecologismo.

Há empresas que aparecem ante vocês, europeus, como protetoras da natureza, como se fossem limpas, mas, essas mesmas empresas provocam uma série de desperdícios e danos na Amazônia, na América e na África. Aqui, são depredadores, aqui são defensores e ali se tornam depredadores. Converteram a natureza em outro negócio. A preservação radical da ecologia não é um novo negócio, nem uma nova lógica empresarial. É preciso restituir uma nova relação, que é sempre tensa. Porque a riqueza que vai satisfazer necessidades humanas requer transformar a natureza e, ao fazermos isso, modificamos sua existência, modificamos a biosfera. Ao modificarmos a biosfera, muitas vezes destruímos a natureza e também o ser humano. O capitalismo não se importa com isso, porque, para ele, tudo não passa de um negócio. Mas, para nós – sim – para a esquerda, para a humanidade, para a história da humanidade. Precisamos reivindicar uma nova lógica de relação, não diria harmônica, mas, sim, metabólica, mutuamente benéfica, entre o entorno vital natural e o ser humano. Trabalho, necessidades.

Por último, não resta dúvida de que precisamos reivindicar a dimensão heroica da política. Hegel via a política em sua dimensão heroica. E, seguindo Hegel – suponho – Gramsci dizia que as sociedades modernas, a filosofia e um novo horizonte de vida, têm que se converter em fé na sociedade. Isso significa que precisamos reconstruir a esperança, que a esquerda tem de ser a estrutura organizativa, flexível, crescentemente unificada, que seja capaz de reabilitar a esperança nas pessoas. Um novo sentido comum, uma nova fé – não no sentido religioso do termo –, mas, sim, uma nova crença generalizada pela qual as pessoas dediquem heroicamente seu tempo, seu esforço, seu espaço e sua dedicação.

Eu destaco o que comentava minha companheira quando nos dizia que, hoje, temos 30 organizações políticas reunidas aqui. Excelente. Isso quer dizer que é possível reunir-se, que é possível sair dos espaços fechados. A esquerda, tão débil hoje na Europa, não pode se dar ao luxo de ficar distante de seus companheiros. Pode haver diferença em 10 ou 20 pontos, mas, coincidimos em 100. Esses 100 têm que ser os pontos de acordo, de proximidade, de trabalho. E deixemos os outros 20 para depois. Somos demasiado fracos para nos darmos ao luxo de seguir em brigas doutrinárias e de pequenos feudos, distanciando-nos dos demais. É preciso assumir, novamente, uma lógica gramsciana para unificar, articular e promover ações comuns.

É preciso tomar o poder do Estado, lutar pelo Estado, mas nunca devemos esquecer de que o Estado, mais do que uma máquina, é uma relação. Mais do que matéria, é uma ideia. O Estado é, fundamentalmente, ideia. E um pedaço é matéria. É matéria, como relações sociais, como força, como pressões, como orçamentos, acordos, regulamentos, leis. Mas, é fundamentalmente ideia, como crença de uma ordem comum, de um sentido de comunidade. No fundo, a luta pelo Estado é uma luta por uma nova maneira de nos unificarmos, por um novo universal. Por uma espécie de universalismo que unifique voluntariamente as pessoas.

Mas, isso requer uma vitória prévia no terreno das crenças, uma vitória sobre os nossos adversários na palavra, no sentido comum, ter derrotado previamente as concepções dominantes de direita no discurso, na percepção do mundo, nas percepções morais que temos das coisas. E isso requer um trabalho muito árduo. A política não é somente uma questão de correlação de forças, capacidade de mobilização. Em um momento, ela será isso. Mas, ela é, fundamentalmente, convencimento, articulação, sentido comum, crença, ideia compartilhada, juízo e conceito compartilhado a respeito da ordem do mundo. E aqui a esquerda não pode se contentar somente com a unidade de suas organizações. Ela tem que se expandir para o âmbito dos sindicatos, que são o suporte da classe trabalhadora e sua forma orgânica de unificação.

É preciso ficar muito atento também, companheiros e companheiras, a outras formas inéditas de organização da sociedade, à reconfiguração das classes sociais na Europa e no mundo, às formas diferentes de unificação, formas mais flexíveis, menos orgânicas, talvez mais territoriais, menos por centros de trabalho. Tudo é necessário. A unificação por centros de trabalho, a unificação territorial, a unificação temática, a unificação ideológica. É um conjunto de formas flexíveis, frente às quais a esquerda tem que ter a capacidade de articular, propor e de seguir adiante.

Permitam-me – em nome do presidente, e em meu nome – felicitá-los, celebrar esse encontro, desejar-lhes e exigir-lhes – de maneira respeitosa e carinhosa – que lutem, lutem e lutem! Não nos deixem sós, outros povos que estamos lutando de maneira isolada em alguns lugares, na Síria, na Espanha, na Venezuela, no Equador, na Bolívia. Não nos deixem sós. Precisamos de vocês, precisamos, mais ainda, de uma Europa que não veja somente à distância o que ocorre em outras partes do mundo, mas sim, novamente, uma Europa que volte a iluminar o destino do continente e o destino do mundo.

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Mandela morreu. Por que esconder a verdade sobre o Apartheid? (Fidel Castro)

03/01/2014

Talvez o império não acreditasse que nosso povo honraria sua palavra quando, nos dias incertos do século passado, afirmamos que, caso a URSS desparecesse, Cuba continuaria lutando.

A Segunda Guerra Mundial começou quando, em 1.º de setembro de 1939, o nazifascismo invadiu a Polônia e caiu, como um raio, sobre o heroico povo da URSS, que contribuiu com 27 milhões de vidas, para preservar a humanidade daquela brutal matança que colocou fim à vida de mais de 50 milhões de pessoas.

A guerra é, por outro lado, a única atividade, ao longo da história, que o gênero humano nunca foi capaz de evitar; o que levou Einstein a responder que não sabia como seria a Terceira Guerra Mundial, porém a Quarta seria com paus e pedras.

Somados os meios disponíveis, as duas mais poderosas potências, Estados Unidos e Rússia, dispõem de mais de 20.000 – vinte mil – ogivas nucleares. A humanidade deve saber que, três dias depois da ascensão de John F. Kennedy à presidência de seu país, em 20 de janeiro de 1961, um bombardeiro B-52, dos Estados Unidos, em voo de rotina, que transportava duas bombas atômicas com uma capacidade destrutiva 260 vezes superior à utilizada em Hiroshima, sofreu um acidente que precipitou o aparato na terra. Em tais casos, equipamentos automáticos sofisticados aplicam mecanismos que impedem o estouro das bombas. A primeira caiu na terra sem risco algum; na segunda – dos 4 mecanismos, três falharam, e o quarto, em estado crítico, funcionou – e, por puro azar, a bomba não estourou.

Nenhum acontecimento presente ou passado, que eu recorde ou tenha ouvido mencionar, como a morte de Mandela, impactou a opinião pública mundial; e não por suas riquezas, mas pela qualidade humana e a nobreza de seus sentimentos e ideias.

Ao longo da história, até apenas um século e meio – e, antes das máquinas e robôs, a um custo mínimo de energia, se ocuparem de nossas modestas tarefas – não existia nenhum dos fenômenos que hoje comovem a humanidade e regem inexoravelmente cada uma das pessoas: homens ou mulheres, crianças e idosos, jovens e adultos, agricultores e operários, manuais ou intelectuais. A tendência dominante é a de instalar-se nas cidades, onde a criação de empregos, transporte e condições elementares de vida, demandam enormes investimentos em detrimento da produção alimentícia e de outras formas de vida mais razoáveis.

Três potências colocaram artefatos na Lua de nosso planeta. No mesmo dia em que Nelson Mandela, envolto na bandeira de sua pátria, foi enterrado no pátio da humilde casa onde nasceu há 95 anos, um artefato sofisticado da República Popular da China era posto no espaço iluminado de nossa Lua. A coincidência de ambos os fatos foi absolutamente casual.

Milhões de cientistas investigam matérias e radiações na Terra e no espaço; por eles se conhece que Titã, uma das luas de Saturno, acumulou 40 – quarenta – vezes mais petróleo que o existente em nosso planeta quando começou a exploração deste, há apenas 125 anos e que, ao ritmo atual de consumo, durará apenas um século mais.

Os fraternais sentimentos de irmandade profunda, entre o povo cubano e a pátria de Nelson Mandela, nasceram de um fato que nem sequer foi mencionado, e do qual não tínhamos falado uma palavra ao longo de muitos anos; Mandela, porque era um apóstolo da paz e não desejava prejudicar ninguém. Cuba, porque jamais realizou ação alguma em busca de glória ou prestígio.

Quando a Revolução triunfou em Cuba, fomos solidários com as colônias portuguesas na África, desde os primeiros anos; os Movimentos de Libertação nesse continente punham em xeque o colonialismo e o imperialismo, depois da Segunda Guerra Mundial e a libertação da República Popular da China – o país mais povoado do mundo –, após o triunfo glorioso da Revolução Socialista Russa.

As revoluções sociais assombravam os alicerces da velha ordem. A população do planeta, em 1960, alcançava o número de 3 bilhões de habitantes. Da mesma forma, cresceu o poder das grandes empresas transnacionais, quase todas nas mãos dos Estados Unidos, cuja moeda, apoiada no monopólio do ouro e na indústria intacta pela distância das frentes de batalha, se fez dona da economia mundial. Richard Nixon aboliu, unilateralmente, o respaldo de sua moeda em ouro. Assim, as empresas de seu país apoderaram-se dos principais recursos e matérias-primas do planeta que adquiriram com papéis.

Até aqui, não existe nada que não se conheça.

Porém, por que se pretende esconder que o regime do Apartheid, que tanto fez sofrer a África e indignou a imensa maioria das nações do mundo, era fruto da Europa colonial e foi convertido em potência nuclear pelos Estados Unidos e Israel, o qual Cuba, um país que apoiava as colônias portuguesas na África que lutavam por sua independência, condenou abertamente?

Nosso povo, que foi cedido pela Espanha aos Estados Unidos após a heroica luta de mais de 30 anos, nunca se resignou ao regime escravista imposto durante quase 500 anos.

Da Namíbia, ocupada pela África do Sul, em 1975, partiram as tropas racistas apoiadas por tanques rápidos com canhões de 90 milímetros, que penetraram mais de mil quilômetros até as proximidades de Luanda. No local, encontrava-se um Batalhão de Tropas Especiais cubanas – enviadas por ar – e várias tripulações, também cubanas, com tanques soviéticos, que as contiveram. Isso ocorreu em novembro de 1975, 13 anos antes da Batalha de Cuito Cuanavale.

Já disse que não fizemos nada em busca de prestígio ou benefício. Porém, é um fato muito real que Mandela foi um homem íntegro, revolucionário profundo e radicalmente socialista que, com grande estoicismo, suportou 27 anos de encarceramento solitário. Eu não deixava de admirar sua honradez, sua modéstia e seu enorme mérito.

Cuba cumpria seus deveres internacionalistas rigorosamente. Defendia pontos-chave e, anualmente, treinava milhares de combatentes angolanos para o manejo das armas. A URSS fornecia o armamento. No entanto, naquela época, não compartilhávamos da ideia do principal assessor dos fornecedores dos equipamentos militares. Milhares de angolanos jovens e saudáveis ingressavam constantemente nas unidades de seu incipiente exército. O principal assessor não era, no entanto, um Zhúkov, Rokossovski, Malinovsky ou muitos outros que levaram à glória a estratégia militar soviética. Sua ideia obsessiva era enviar brigadas angolanas com as melhores armas ao território, onde, supostamente, residia o governo tribal de Savimbi, um mercenário a serviço dos Estados Unidos e da África do Sul. Era como enviar as forças que combatiam em Stalingrado à fronteira da Espanha falangista, que havia enviado mais de cem mil soldados pata lutarem contra a URSS. Nesse ano, estava sendo produzida uma operação desse tipo.

O inimigo avançava por depois das forças de várias brigadas angolanas, golpeadas nas proximidades do objetivo para onde eram enviadas, a 1.500 quilômetros, aproximadamente, de Luanda. Dali, vinham perseguidas pelas forças sul-africanas em direção a Cuito Cuanavale, antiga base militar da OTAN, a uns 100 quilômetros da primeira Brigada de Tanques cubana.

Nesse instante crítico, o Presidente de Angola solicitou o apoio das tropas cubanas. O Chefe de nossas forças no Sul, General Leopoldo Cintra Frías, nos comunicou a solicitação, algo que soava ser habitual. Nossa resposta firme foi que prestaríamos esse apoio se todas as forças e equipamentos angolanos dessa frente se subordinassem ao comando cubano no Sul da Angola. Todo o mundo compreendia que nossa solicitação era um requisito para converter a antiga base no campo ideal para golpear as forças racistas da África do Sul.

Em menos de 24 horas chegou de Angola a resposta positiva.

Decidiu-se o envio imediato de uma Brigada de Tanques cubana para esse ponto. Várias mais estavam na mesma linha para o Oeste. O obstáculo principal era a lama e a umidade da terra na época da chuva, fazendo com que verificássemos, metro a metro, a existência de minas terrestres. Igualmente, foi enviado a Cuito o pessoal para operar os tanques sem tripulação e os canhões que precisavam delas.

A base estava separada do território, que se situa à Leste, pelo caudaloso e rápido, rio Cuito, sobre o qual se sustentava uma sólida ponte. O exército racista a atacava desesperadamente; um avião teleguiado, repleto de explosivos, conseguiu atingir a ponte e inutilizá-la. Os tanques angolanos em retirada que podiam mover-se cruzaram a ponte num ponto mais ao Norte. Os que não estavam em condições adequadas foram enterrados, com suas armas apontando para Leste; uma densa faixa de minas terrestres e antitanques converteram a linha numa mortal armadilha no outro lado do rio. Quando as forças racistas reiniciaram o avanço e chocaram contra aquela muralha, todas as peças de artilharia e os tanques das brigadas revolucionárias disparavam a partir de seus pontos de localização na zona de Cuito.

Um papel especial foi reservado para os caças Mig-23 que, em velocidade próxima a mil quilômetros por hora e a 100 – cem – metros de altura, eram capazes de distinguir se o pessoal da artilharia era negro ou branco, e disparavam incessantemente contra eles.

Quando o inimigo desgastado e imobilizado iniciou a retirada, as forças revolucionárias se prepararam para os combates finais.

Numerosas brigadas angolanas e cubanas se moveram, em ritmo rápido e com distância adequada, para o Oeste, onde estavam as únicas vias amplas por onde os sulafricanos sempre iniciavam suas ações contra Angola. O aeroporto, no entanto, estava a aproximadamente 300 – trezentos – quilômetros da fronteira com a Namíbia, totalmente ocupada pelo exército do Apartheid.

Enquanto as tropas se reorganizavam e se reequipavam, decidiu-se, com toda urgência, construir uma pista de aterrissagem para os Mig-23. Nossos pilotos estavam utilizando os equipamentos aéreos entregues pela URSS a Angola, cujos pilotos não possuíam o tempo necessário para sua adequada instrução. Vários equipamentos aéreos estavam prejudicados por baixas que, às vezes, eram ocasionadas por nossos próprios artilheiros ou operadores de meios antiaéreos. Todavia, os sulafricanos ocupavam uma parte da estrada principal que conduz, da borda do planalto angolano, até a Namíbia. Nas pontes sobre o caudaloso rio Cunene, entre o Sul da Angola e o Norte da Namíbia, na época, começaram os joguinhos de disparos com canhões de 140 milímetros, que davam a seus projéteis um alcance próximo a 40 quilômetros. O problema principal radicava no fato de que os racistas sulafricanos possuíam, segundo nossos cálculos, entre 10 e 12 armas nucleares. Tinham realizado testes, inclusive nos mares ou nas áreas congeladas do Sul. O presidente, Ronald Reagan, tinha autorizado tais testes e, entre os equipamentos entregues por Israel, estava o dispositivo necessário para fazer estourar a carga nuclear. Nossa resposta foi organizar pessoal em grupos de combate, de não mais de 1.000 – mil – homens, que deviam marchar de noite numa ampla extensão de terreno e dotados de carros de combate antiaéreos.

As armas nucleares da África do Sul, segundo informes fidedignos, não poderiam ser carregadas por aviões Mirage: necessitavam de bombardeiros pesados, tipo Canberra. Porém, em qualquer caso, a defesa antiaérea de nossas forças dispunha de numerosos tipos de foguetes que podiam golpear e destruir objetivos aéreos até a dezenas de quilômetros de nossas tropas. Além disso, uma barragem de 80 milhões de metros cúbicos de água, situada em território angolano, tinha sido ocupada e minada por combatentes cubanos e angolanos. O estouro daquela represa teria sido equivalente a várias armas nucleares.

Não obstante, uma hidrelétrica que usava as fontes correntes do rio Cunene, antes de chegar à fronteira com a Namíbia, estava sendo utilizada por um destacamento do exército sulafricano.

Quando, no novo teatro de operações, os racistas começaram a disparar os canhões de 140 milímetros, os Mig-23 golpearam fortemente aquele destacamento de soldados brancos, e os sobreviventes abandonaram o lugar, deixando, inclusive, alguns grupos críticos contra seu próprio comando. Tal era a situação quando as forças cubanas e angolanas avançavam para a linha inimiga.

Soube que Katiuska Blanco, autora de vários relatos históricos, junto a outros jornalistas e repórteres, estava lá. A situação era tensa, mas ninguém perdeu a calma.

Foi então que chegaram notícias de que o inimigo estava disposto a negociar. Conquistou-se o fim da aventura imperialista e racista num continente que, em 30 anos, teria uma população superior à da China e Índia juntas.

O papel da delegação de Cuba, por conta do falecimento de nosso amigo e irmão Nelson Mandela, será inesquecível.

Felicito o companheiro Raúl por seu brilhante desempenho e, em especial, pela firmeza e dignidade quando, com um gesto amável, porém firme, saudou o chefe do governo dos Estados Unidos e lhe disse, em inglês: “Senhor Presidente, eu sou Castro”.

Quando minha própria saúde pôs limite à minha capacidade física, não vacilei um minuto em expressar meu critério sobre quem, em meu juízo, poderia assumir a responsabilidade. Uma vida é um minuto na história dos povos e penso que quem assume, hoje, tal responsabilidade requer a experiência e autoridade necessárias para optar ante um número crescente, quase infinito, de variantes.

O imperialismo sempre reservará várias cartas para dobrar nossa ilha, ainda que tenha que despovoá-la, privando-a de homens e mulheres jovens, oferecendo-lhe migalhas de bens e recursos naturais que saqueia do mundo.

Que falem, agora, os portavozes do império sobre como e por que surgiu o Apartheid.

Fidel Castro Ruz

18 de dezembro de 2013.

8 e 35 p.m.

Fonte: http://www.cubadebate.cu/fidel-castro-ruz/2013/12/19/articulo-de-fidel-mandela-ha-muerto-por-que-ocultar-la-verdad-sobre-el-apartheid/

Tradução: Partido Comunista Brasileiro (PCB)