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DISCURSO FRENTE AO TÚMULO DE MARX (1883)

28/03/2012

Discurso pronunciado em inglês por Friedrich Engels no cemitério de Highgate em Londres, a 17 de março de 1883:

Em 14 de março, às 14:45 horas, deixou de pensar o maior pensador dos nossos dias. Apenas o deixamos dois minutos sozinho e, quando voltamos, o encontramos dormindo em sua poltrona, para sempre.

É, de fato, impossível calcular o que o proletariado militante da Europa e América e a ciência histórica perderam com a morte deste homem. Muito cedo será sentido o vazio que a morte desta figura gigantesca criou.

Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: o fato muito simples, porém oculto sob um emaranhado ideológico, de que o homem necessita, antes de tudo, comer, beber, ter moradia e vestir-se, antes de poder fazer política, ciência, arte, religião etc.; que, portanto, a produção dos meios de vida imediatos, materiais e, por conseguinte, a correspondente fase econômica de desenvolvimento de um povo ou de uma época é a base, a partir da qual se desenvolveram as instituições políticas, as concepções jurídicas, as idéias artísticas e, inclusive, as idéias religiosas das pessoas, através da qual devem ser explicadas, e não ao contrário, como até então se vinha fazendo. Mas, não é apenas isto. Marx descobriu também a lei específica que move o atual modo de produção capitalista e a sociedade burguesa criada por ele. O descobrimento da mais-valia deixou claro tais problemas, enquanto todas as análises anteriores, tanto as dos economistas burgueses como as dos críticos socialistas, vagaram nas trevas.

Dois descobrimentos como estes deviam bastar para uma vida. Quem tiver a sorte de fazer desta maneira apenas um descobrimento, já pode considerar-se feliz. Contudo, não houve um só campo que Marx não submetesse ao estudo científico – e foram muitos – e não se limitou a tratar nenhum deles de passagem (inclusive a matemática), em que não fizesse descobrimentos originais. Tal era o homem da ciência. Mas, isto não era de longe a metade do homem. Para Marx, a ciência era uma força histórica motriz, uma força revolucionária. Por mais prazeroso que fosse deparar-se com um novo descobrimento, feito em qualquer ciência teórica e cuja aplicação prática não pudesse ser prevista de maneira alguma, era maior ainda o prazer que experimentava quando se tratava de um descobrimento que exercesse imediatamente uma influência revolucionária na indústria e no desenvolvimento histórico em geral. Por isso, seguia em detalhe a marcha dos descobrimentos realizados no campo da eletricidade, até os de Marcel Deprez nos últimos tempos.

É que Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Cooperar, deste ou de outro modo, com a derrota da sociedade capitalista e das instituições políticas criadas por ela, contribuir com a emancipação do proletariado moderno, a quem ele infundira pela primeira vez a consciência de sua própria situação e de suas necessidades, a consciência das condições de sua emancipação: tal era a verdadeira missão de sua vida. A luta era seu elemento central. E lutou com uma paixão, uma tenacidade e êxito como poucos. Primeira Gazeta Renana, 1842; Vorwärts de Paris, 1844; Gazeta Alemã de Bruxelas, 1847; Nova Gazeta Renana, 1848-1849; New York Tribune, 1852 a 1861, além de uma grande quantidade de folhetos de luta, e o trabalho nas organizações de Paris, Bruxelas e Londres; até que, por último, nasceu, como resultado de tudo isso, a grande Associação Internacional dos Trabalhadores, que era, na verdade, uma obra de que seu autor podia orgulhar-se, mesmo que não tivesse criado nenhuma outra coisa.

Por isso, Marx era o homem mais odiado e mais caluniado de sua época. Os governos, tanto os absolutistas como os republicanos, o expulsavam. Os burgueses, tanto os conservadores como os ultrademocratas, disputavam, na prática, quem mais o difamava. Marx deixava tudo isso de lado como se fossem teias de aranha, não dava trela a isso; só respondia quando a necessidade se impunha. E morreu venerado, querido, chorado por milhões de operários da causa revolucionária, como ele, disseminados por toda a Europa e América, das minas da Sibéria até a Califórnia. E posso atrever-me a dizer que, se teve muitos adversários, teve apenas um inimigo pessoal. Seu nome atravessará os séculos e, com ele, sua obra.

INSTALAR IMEDIATAMENTE A COMISSÃO DA VERDADE

12/03/2012

Punir os militares que afrontam a democracia.

Testemunhamos nos últimos dias, entre militares da reserva, o ressurgir de vozes lúgubres, de oposição à criação e ao funcionamento da Comissão Nacional da Verdade.

As manobras dos indivíduos que buscam calar o direito à Memória, à Verdade e à Justiça tentam, por um lado, golpear a democracia, atingir e desmoralizar o governo federal e suas autoridades; por outro lado, envolver as Forças Armadas dos dias de hoje na defesa dos crimes cometidos, há décadas, pela Ditadura Militar, e implicá-las na defesa de militares e civis que foram os executores desses crimes.

O chamado “Manifesto à Nação”, assinado por militares da reserva, entre os quais conhecidos torturadores, é uma enorme afronta ao governo federal legitimamente eleito e aos Poderes da República, e seus ataques à Comissão Nacional da Verdade são inadmissíveis.

Externamos nosso integral apoio à decisão da presidenta Dilma Rousseff e do ministro da Defesa, Celso Amorim, de punir esses autores de crimes de desacato, e reiteramos a necessidade da instalação imediata da Comissão Nacional da Verdade, único instrumento capaz de investigar, conhecer e divulgar a verdade sobre as graves violações de direitos humanos praticadas pelos órgãos de repressão da Ditadura Militar, e a sanção de seus autores, nos termos da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos e do Supremo Tribunal Federal quanto aos crimes permanentes.

Por fim, face ao crescimento das adesões de militares a esse manifesto de vocação golpista, a punição aos seus subscritores tornou-se uma questão não só imprescindível, como urgente, sob pena de fragilizarem-se a Democracia e os Poderes constitucionais da República.

São Paulo, 7 de março de 2012

Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça

Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos