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BOLÍVIA – A REVOLUÇÃO DE 1952

29/01/2011

Em 1932, é iniciada, entre a Bolívia e o Paraguai, a Guerra do Chaco, indo até 1935. É que a Bolívia queria uma saída para o Atlântico, através do Rio Paraguai. Contudo, em grande medida, estavam por trás dessa disputa, as petroleiras Standard Oil, truste americano, e a Shell, anglo-holandesa. Ambas de olho no petróleo do Charco Boreal, região petrolífera. Um conflito de grande derramamento de sangue, pondo fim à vida de quase 100 mil pessoas de dois povos irmãos da América do Sul.

Em termos militares, a grande derrota foi da Bolívia, cujas forças armadas ficaram profundamente desgastadas junto à população boliviana. O que trouxe rebeldias dentro do Exército e um tipo de setor militar mais voltado para o povo e de sentimento antiimperialista, com cunho fortemente progressista. Gente disposta a defender a soberania do país, a começar pela defesa dos hidrocarbonetos, que deveriam sair das mãos da Standard Oil. Em decorrência desse processo político de pós-guerra, surge o primeiro governo desse segmento das FFAA, liderado pelo coronel Davi Toro, que logo expropriaria os bens do truste ianque e nacionaliza o petróleo e o gás, fazendo surgir a estatal YPFB. O segundo governo desse setor foi o do general Gérman Busch que, devido à terrível pressão das oligarquias e de três famílias – Simón Patiño, Carlos Aramayo e Maurício Hoschild – que detinham o controle do estanho e de outros minérios, acaba suicidando-se.

Busch se torna mártir de um povo que despertava para mudanças, para enfrentar os seus exploradores e o próprio imperialismo.

Derrotados o setor nacionalista e o progressista militar, o povo Boliviano continua sob um quadro econômico e social de, praticamente, um mínimo de alteração em relação a décadas de exploração e miséria, a que sempre foi submetido desde a era de dominação espanhola: a quase totalidade da população, na sua absoluta maioria vivendo no campo, em condição de servidão, sob a brutal exploração de latifundiários. Para estes, os camponeses tinham de trabalhar metade dos dias da semana, ficando com os dias restantes para produzirem para o seu sustento e o de sua família. Mais de 90% do povo eram analfabetos e sem direito a voto, sem cidadania, num momento em que para ter esse direito, ser reconhecida como cidadã, a pessoa tinha de ter alguma posse e acesso à escola.

Os índios, maioria absoluta da população, que no passado tinham terras para trabalhar e ganhar a vida, após perdê-las para latifundiários, viram-se obrigados a um regime de semi-escravidão, trabalhando para uma minoria que os expropriou, a troco de quase nada; 92% das terras cultivadas estavam nas mãos de 6% da população rural; somente 2% das terras eram cultivadas. Assim, a produção de alimentos, subordinada a uma estrutura de latifúndios, era extremamente precária, forçando o país a importar comestíveis, vendendo-os a preços insuportáveis para a grande maioria da população, elevando enormemente a inflação.

O controle dos minérios, como o estanho e outros, permanecia nas mãos das mesmas famílias oligárquicas de sempre.

As condições objetivas para revoltas, inclusive para a revolução, estavam dadas, e algum nível de consciência e organização, principalmente entre o proletariado mineiro,  tornava-se evidente. É quando, nos anos 40, surge o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), partido de composição ideológica contraditória, pois dentro dele existiam, desde setores antiimperialistas e socialistas, até nazi-fascistas, simpatizantes de Hitler e Mussolini, tendo prevalecido, no entanto, com o passar do tempo, os que tinham o propósito de derrotar as oligarquias e o imperialismo, para levar o país a ser dono de suas riquezas, buscando fazer as reformas necessárias, como a reforma agrária, por exemplo. O seu líder maior era o intelectual Victor Paz Estenssoro, ao lado de Siles Suazo.

Estenssoro ganha as eleições em 1952, mas não consegue tomar posse, devido a uma ação militar golpista. O que leva o MNR a recorrer à luta armada, armando camponeses e mineiros para isso, chegando ao poder.

No poder, levado pela pressão das massas revolucionárias, o governo do MNR logo destitui o exército, trocando-o por milícias populares armadas; decreta a reforma agrária; estabelece o direito de voto para todos os indígenas, que passam a poder votar pela primeira vez, ganhando juntamente com outros setores dos explorados a condição de cidadãos; cria a COB, instrumento nacional de luta do proletariado boliviano, tendo Juan Lechin como o seu líder e dirigente máximo, o qual integraria a composição do governo revolucionário.  Medidas políticas irrefutavelmente relevantes.

Inegavelmente, houve avanços com a Revolução, porém, os problemas graves do país não foram resolvidos, tendo ocorrido dificuldades econômicas e, em conseqüência, crises políticas, inclusive com cisões entre as forças socialistas.

Intelectual nacionalista, muito respeitado, bem aceito pela classe média, Paz Estenssoro começa a se afastar da contundência revolucionária pela qual primava durante as ações de tomada do poder e do início de seu governo: restabelece as FFAA, apesar dos protestos da COB e de outras forças que estiveram em ação armada para colocar o MNR à frente do governo; com certeza, prevenindo-se contra a tendência de o proletariado radicalizar, com apoio dos camponeses, buscando o poder e a transformação socialista da sociedade.

Destaque-se que, diferentemente do que acontecia com fatos políticos parecidos na América Latina, os EUA decidiram apoiar o governo do MNR, dando-lhe, inclusive, apoio financeiro, achando que o apoio a Estenssoro e Siles Suazo significava evitar que o poder caísse em mãos de comunistas ou de outras forças dispostas a mudanças radicais. Buscava anular “o pior”. Indubitavelmente, essa manobra do imperialismo americano muito contribuiu para que o MNR fosse perdendo prestígio junto à massa popular que o apoiava, levando seus governantes, cada vez mais, para a direita, principalmente no segundo governo de Paz Estenssoro, derrubado, em 1964, por um golpe militar liderado pelo general Barrientos.

CONCLUSÕES

O proletariado e os camponeses foram as forças que, de fato, fizeram a Revolução, pegando em armas, procurando levar o processo revolucionário às últimas conseqüências. Contudo, não tinham a liderança do movimento como um todo, que ficou sob o controle de intelectuais da classe média que, em geral, tendem a mudar de discurso e prática após a vitória, optando pelo caminho da conciliação. O que mostra que as massas trabalhadoras quase sempre enfrentam a contradição de serem lideradas, em momentos revolucionários, por pessoas ou setores que, pelo seu caráter de classe, não se dispõem a levar a revolução adiante. A não ser quando os egressos de algum setor médio da sociedade – como Lênin, Fidel Castro, Guevara e outros, representando exceções –, assumam política e ideologicamente os propósitos históricos do proletariado.

O golpe militar de 1964 se deu porque os dirigentes do MNR, à frente do governo, preferiram a política de conciliação, tendo recebido, inclusive, o apoio do próprio imperialismo ianque, em detrimento de milhões de explorados bolivianos, que acreditaram ter chegado, com a Revolução, o momento de sua libertação e da construção de uma nova sociedade.

Comitê Bolivariano de São Paulo

ONDE ESTÁ O GOLPISMO?

26/01/2011

Durante o processo de organização do golpe militar de 64, nem sempre as forças progressistas e democráticas conseguiam identificar os espaços de atuação dos conspiradores, seja em termos físicos seja ideologicamente.

Muitos não percebiam, por exemplo, que órgãos de comunicação de massas participavam, direta ou indiretamente, da organização para derrubar o governo constitucional de Jango Goulart, comprometidos que eram com os grupos econômicos nacionais e internacionais obedientes à orientação norte-americana de que tudo deveria ser feito para que o processo democrático não avançasse no Brasil, por ver nisso uma ameaça aos seus interesses.

Na verdade se subestimou a capacidade de ação das forças de direita; o que explica por que pouco se fez para evitar o seu crescimento, não se denunciando de forma sistemática suas práticas. E, quando se identificavam golpistas, concluía-se tratar-se de grupo diminuto, nada ameaçador.

Sobre a propaganda político-ideológica de setores fascistas notórios, ou não, muito pouco foi realizado para combatê-la, não se percebendo que o sucesso de qualquer escalada de atentado à democracia depende de tal expediente.

Conclusão: aconteceu o golpe, com uma quantidade de golpistas jamais imaginada pela quase totalidade das forças democráticas: golpistas nos grandes jornais e redes de televisão; nos quartéis; na Igreja; em governos; nas escolas; em institutos financiados pelos EUA, aparentemente desativados, como ADEP, IBAD; e outros. Tudo isso, frente a uma nítida falta de unidade entre os setores antigolpistas, não só no sentido ideológico, mas também em termos políticos e orgânicos, com certeza, em decorrência de erros de análises sobre a realidade política vigente.

E, nos dias de hoje, quais seriam os piores erros, caso não se tirassem lições dos equívocos cometidos no período pré-64?

1) Seria imaginar que não existem mais processos golpistas, que os setores de direita resolveram abrir mão de atentados à democracia, preferindo defender seus interesses de forma democrática, abandonando velhos métodos de ação política e ideológica, como o de satanizar lideranças populares e movimentos sociais, pensamentos humanistas ou socialistas, para justificar um apelo de “salvação da ordem”;

2) Seria acreditar que tais setores decidiram abdicar de idéias fascistas, rompendo com a defesa da “limpeza social”, do geneticismo ou hereditarismo como formas de justificar a desigualdade social, do racismo e de outros preconceitos, como se isso não significasse a sua própria perda de identidade mental;

3) Seria crer que a direita – embora representante do capital monopolista do campo e da cidade – passou a convencer-se de que deve defender a concentração das riquezas nas mãos de um punhado de capitalistas nacionais e estrangeiros, deixando de lado seu caráter de organização violento por princípio;

4) Seria esquecer que é dever de qualquer pessoa que aposta no aprofundamento da democracia, com o protagonismo do povo organizado, travar lutas políticas e ideológicas, noite e dia, para evitar que forças retrógradas deem qualquer passo rumo ao triste passado, de que nosso povo foi tragicamente vítima.

Veio a campanha eleitoral recente. Ao contrário do que pode ter pensado gente ingênua, a direita não deixou nenhuma dúvida sobre seus métodos e propósitos e de que não pode deixar de ser o que é: tentou embriagar a sociedade com farsas de todos os tipos, como a chantagem emocional sobre o aborto; forjou uma tal de desordem moral; fez, por vezes, o discurso bushista de que certa candidatura era afeita ao terrorismo; desenvolveu preconceitos; praticou terror ideológico e psicológico de todo tipo, buscando anular a capacidade de raciocínio das pessoas; atacou governos progressistas da América Latina; fez exploração do sentimento religioso, buscando endemoninhar a força adversária; satanizou movimentos sociais.

Contudo, felizmente, ao invés de atingir os seus objetivos, primeiro momento para passos e mais passos atrás, foi derrotada, em 1.º de novembro, graças ao fato positivo de que, frente à ameaça evidente , democratas de todos os setores da sociedade não erraram, uniram-se nas urnas para eleger Dilma, uma candidata que, se não significa um avanço, inegavelmente serviu para evitar o retrocesso.

Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo

AS LUTAS DO POVO E AS FORÇAS ARMADAS

26/01/2011

É fato conhecido que as Forças Armadas, ao longo da história do Brasil, sempre agiram contra as lutas do povo, inclusive cometendo enormes matanças como a de Canudos, Contestado e outras.

Contudo, isso não quer dizer que não haja existido no seio delas militares que não tenham fugido a esta constante. Sempre houve, em maior ou menor quantidade, homens de quartel insatisfeitos com a ordem vigente. Citemos, como exemplo das primeiras décadas do século passado, os movimentos tenentistas que, não obstante seu caráter programático confuso, sem projeto político e econômico definido, refletiam certo nível de insatisfação frente ao processo político da época, fraudulento por natureza.

Deste potencial de rebeldia surgiriam, inclusive, revolucionários, como Luís Carlos, que compreendeu a verdadeira causa das mazelas vividas pelo nosso povo, abraçando o marxismo até a sua morte.

Surgiriam nos anos 40, marinheiros, oficiais do Exército à frente da histórica campanha pelo direito de o Brasil ser dono de seu petróleo, conhecida como “O Petróleo é Nosso”, vitoriosa em 1953, quando se aprovou o projeto de criação da Petrobrás.

Apareceram nos anos 60, movimentos de sargentos em apoio às Reformas de Base, assumidas por Jango Goulart, sem falar de oficiais do Exército e de outras corporações militares que também se posicionavam favoravelmente a reivindicações populares, como a reforma agrária e tantas outras.

E quanto às constantes tentativas golpistas de grupos das forças armadas, sempre em oposição a qualquer avanço político e social, atentando contra um processo democrático que apenas ganhava seus primeiros anos de vida, esses setores progressistas da área militar agiram, como puderam, para evitar seu êxito.

O golpe de 64 dizimou essa parte patriótica das Forças Armadas, ficando as corporações militares sem setores de idéias progressistas. O que explica porque os comandos dessa instituição nada fazem para que se abram os arquivos da ditadura, possibilitando a punição de quem torturou e matou em nome das próprias Forças Armadas. Sequer fazem questão de esclarecer que não se deve confundir aqueles que cometeram crime, instrumentalizando a instituição militar para isso – que devem ser punidos dentro da Lei – com as Forças Armadas, contribuindo para que o Brasil deixe de ser réu na Corte Internacional da OEA.

Comitê Bolivariano de São Paulo

ALAN GARCÍA, DE CAVALO LOUCO A CAMALEÃO

17/01/2011

O Peru se permite estas coisas: um político que, durante 20 anos, após ser ardente defensor da social-democracia, tornou-se grande adepto do neoliberalismo, unindo-se às elites, reprimindo comunidades indígenas. A metamorfose da má política.

“O oportunismo, habitualmente, é inerente à APRA. Seus membros, ao manobrarem, se embananam , extraviam-se, embaraçam-se a si próprios. A doutrina não é nem quer o ‘chefe’ que seja clara. Tampouco, pode ser posta de maneira clara. Porém, que lhe oferece? Adjetivos, adjetivos. No fundo, constituem a reserva do imperialismo ianque e das forças reacionárias nacionais. Inevitavelmente, se lançarão contra nós, o proletariado e o campesinato.”

O lúcido texto de José Maria Arguedes, no pequeno romance “O Sexto” – que narra a difícil vida numa prisão de Lima, em pleno regime do general Manuel Odría, onde ladrões, assassinos e trapaceiros conviviam com presos políticos – caiu como uma luva para radiografar a figura de Alán García Pérez, presidente do Peru.

O ‘chefe’ a que se refere o texto do prestigioso autor andino é Víctor Raúl Haya de la Torre, fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA), em 1924 – um militante político que, inicialmente, defendeu posições progressistas, passando, depois, a adotar posturas anti-esquerdistas e antiimperialistas. Algo assim como uma terceira via, porém ao estilo peruano.

Seu discípulo segue linha parecida. Integra o conjunto de figuras políticas latino-americanas que efetuaram uma das maiores transformações político-ideológicas de uma presidência a outra. Para ser mais claro: a maior traição aos ideais juvenis.

Nascido na cidade de Lima, em 1949, numa família de classe média, conheceu, aos cinco anos, seu pai Carlos García Ronceros, secretário da APRA, preso por Odría. Destacou-se, já em sua adolescência, por sua oratória e compromisso social, tornando-se o principal quadro político do Partido e discípulo de Haya de la Torre.

Da APRA, à qual se filiou García, não resta sequer o nome: foi substituído por PAP (Partido Aprista Peruano), possivelmente para que algum desprevenido não confunda a palavra Revolucionária, ou talvez para que os setores que votaram em Alan García, em 2006, não sintam manchados seus currículos reacionários e conservadores. O politicamente correto indica que ocorreu mudança de nome para captar novos setores sociais.

Quais foram os ideários que, em 1985, o jovem Alan García tentou levar adiante em sua primeira presidência? Para não cansar o leitor, apenas exporemos alguns, mas que expressam, de forma clara, a diferença entre o personagem – apelidado, de maneira desdenhosa, de “cavalo louco”, nos anos 80 e mesmo, nos 90 – e a nova versão século XXI, que de cavalo não tem sequer uma unha.

Com muitas boas intenções e péssimos resultados, a gestão daquele momento defendeu a intervenção estatal na economia peruana com o objetivo de estimular o consumo, apoiar com subsídios os setores deprimidos, como os do campo e da periferia das cidades, criar um mercado interno forte com grande investimento interno.

Não obstante, a ineficiência da gestão, somada ao enfrentamento com os “doze apóstolos” – o grupo financeiro mais poderoso do país – foi determinante para que se nacionalizassem os bancos (uma bandeira tradicional da esquerda latino-americana); fato que nunca lhe perdoaram o setor concentrador da economia peruana e os organismos internacionais de crédito. Os desacertos afundavam a gestão e precipitaram a débâcle econômica e a hiperinflação, ao mesmo tempo em que crescia a violência do grupo guerrilheiro, Sendero Luminoso.

Ao contrário, quando chegou ao poder, em 2006, Alan García escolheu outro caminho. Optou por uma vereda mais cômoda, sem quaisquer espinhos, em que não tivesse de enfrentar os tradicionais senhores de Lima. “Aprendeu a lição”, disseram habitantes de bairros ricos, como Miraflores e Barranco. Agora, transita pela estreita calçada das políticas ortodoxas, previsíveis e corretas do neoliberalismo, com um pouco de xenofobia e intolerância.

Seu velho anti-imperialismo ficou atrás; agora, existe linha direta com Washington; assina ou patrocina TLCs com este ou aquele país (EUA, Chile, Canadá, China, Cingapura, Japão, Tailândia), em nome do livre comércio, e ataca Hugo Chávez e Evo Morales, em momentos oportunos, para mostrar aos Estados Unidos de que lado está.

Mais de uma vez falou sobre os movimentos indígenas da Bolívia, com frases, tais como: “fundamentalismo andino produtor de coca”, que “move multidões étnicas”.

Com arrogância, tem repudiado os povos originários de seu país, por “impedirem o progresso do Peru” e serem “selvagens atrasados”, após protestos indígenas que se opunham à venda de terras para as petroleiras e mineradoras transnacionais (consequência do TLC) em terras nativas da Amazônia, reprimindo a manifestação, provocando dezenas de mortos – ação conhecida hoje como a Matança de Baguá.

Dessa maneira, o melhor quadro político da velha APRA tem curiosa qualidade de ter realizado políticas social-democratas, como a de seu primeiro governo, e as do receituário neoliberal como as de hoje, arrastando, em consequência, seu país para a condição de uma das sociedades mais desiguais do continente, favorecendo os privilégios dos grupos econômicos do país, conseguindo atrair ódio e desconfiança, tanto da esquerda quanto de setores da própria direita.

Como seu ‘chefe’, García possui uma capacidade pessoal: é um orador admirável. “É enfeitiçador de serpentes”, afirmam tanto seguidores seus como opositores. Graças à sua verborragia e sua retórica, sabe contentar aos que lhe estão próximos e a outros, mesmo quando estejam em lados opostos. O problema é que todos já não têm tanta ilusão, não crêem mais no que ele diz, como antes.

Mesmo assim, seu governo é totalmente funcional aos interesses e estratégias dos poderosos, aos que, antes, ele atacava com a sua retórica, com os quais se alia no momento por conveniência e convicção. Uma mudança política que o transforma, na linha evolutiva zoológica, em um autêntico animal político: o camaleão.

Comitê Bolivariano de São Paulo

O GRITO DE HOJE

17/01/2011

Nos primeiros parágrafos deste escrito, retomamos os eventos originários do Grito de Lares e expressamos de maneira simplificada as causas e razões que deram vida àquele movimento.

Em 1866-67, os liberais reformistas e independentistas, José Julián Acosta, Francisco Mariano Quiñones e Segundo Ruiz Belvis, respectivamente, denunciaram o despotismo colonial e formularam petições de consenso em relação à ordem econômica, social e política.

Sobre o econômico, exigiam liberdade de comércio e fomento agrícola industrial; no social, o fim da escravidão e do sistema de cadernetas de pagamento a diaristas; e no político, a descentralização administrativa e um governo próprio frente à Junta Informativa de Madrid.

Entre as causas que motivaram o Grito de Lares se encontram a indiferença do governo espanhol às demandas de reforma dos porto-riquenhos. Em lugar de mostrar-se conciliador, o governo colonial tentava resolver a situação com o máximo de repressão, desterros e prisão.

Os trabalhadores se achavam economicamente explorados e não desfrutavam de seus direitos políticos, sociais e trabalhistas. A demissão era uma instituição aceita pela administração colonial, pela qual os fazendeiros costumavam praticar dispensas arbitrárias de seus trabalhadores diaristas, ou de seus peões e agregados.

Face a tal situação, na noite de 23 de setembro de 1868, frente a um exército rebelde de aproximadamente 1.000 homens reunidos em sua fazenda, o general Manuel Rojas se dirigiu às tropas e lhes falou das contribuições exorbitantes, da corrupção dos funcionários governamentais e do dever de colocar fim ao regime tirânico. Os anseios libertários do Grito de Lares vinham acompanhados por profundos desejos de reivindicações econômicas e sociais.

Hoje, há 141 anos do Grito de Lares, o povo porto-riquenho – particularmente os trabalhadores e as comunidades pobres – enfrenta uma situação econômica, social e política que apresenta grande semelhança com aquela enfrentada pelos boricuas de 1868.

Igualmente ao que defendiam os independentistas em 1868, os de hoje têm de explicar ao país porque com a independência nacional se pode atender melhor os problemas econômicos, sociais e políticos que atormentam os porto-riquenhos atuais. Procurando não ser cansativo, considerando as limitações de espaço, passo a enumerar algumas considerações.

No econômico:

Para responder de forma efetiva ao colapso da economia colonial, necessitamos da independência para obtermos a liberdade de comércio com outros países, assim como para nos libertarmos das Leis de Cabotagem, que encarecem todas as importações e que, segundo economistas, causam aos consumidores uma quantia acima de 750 milhões de dólares anuais.

Sem as restrições das Leis de Cabotagem, e com liberdade de comércio, o Porto das Américas se converteria em uma extraordinária fonte de atividade econômica e trabalho. Conseguiríamos benefício máximo de nossa privilegiada condição geográfica, o primeiro porto entre a Europa e as Américas, e a meio caminho entre a América do Sul e a do Norte.

Para que tenhamos uma ideia, o valor agregado das mercadorias que as indústrias manufatureiras existentes em Porto Rico produzem a granel gera 250.000 empregos nos Estados Unidos, para onde são transportadas para a sua elaboração, empacotamento e distribuição. Esse valor poderia realizar-se na Ilha, com a utilização das vantagens de baldeação e localização do Porto das Américas, gerando ali os milhares de empregos que hoje são gerados nos EUA.

Outro impedimento colonial ao desenvolvimento econômico nacional são as chamadas Leis do Comércio Inter-Estatal, determinando que qualquer centro comercial pode ser colocado em qualquer lugar, provocando a quebra dos pequenos comerciante. Tomemos, por exemplo, a cadeia de Farmácias Wallgeens. Esta multinacional desafiou as leis do ELA, que requeriam um Certificado de Necessidade e Conveniência para estabelecer esse tipo de negócio em Porto rico. Essa proteção à viabilidade das farmácias de comunidade ficou desmantelada, ao prevalecer, no Tribunal dos Estados Unidos, que a lei de Certificados de Necessidade e Conveniência era uma interferência nas Leis de Comércio Inter-Estatal.

A agricultura jamais poderá sair da situação em que se encontra, a persistir a condição colonial atual. Em 1940, a atividade agrícola representava 40% do PNB; hoje, alcança apenas 3%. Destruíram sistematicamente esse benefício econômico para nos levarem a ser o terceiro país importador de alimentos, num mercado em plena dependência dos Estados Unidos. Só produzimos 15% dos alimentos de que necessitamos. Todos os países do mundo consideram a auto-suficiência alimentar como um assunto de segurança nacional, estabelecendo subsídios e políticas protecionistas para a atividade agrícola. Não podemos aplicar impostos, nem mesmo em cerveja importada, sob pena de sermos acusados de “interferência no Comércio Inter-Estatal”.

Na condição de República de Porto Rico, estaríamos desfrutando atualmente de preços preferenciais do petróleo venezuelano, sob o programa Petrocaribe, barateando substancialmente o custo da energia e de vida no país.

A liberdade de comércio que desfrutaríamos como país independente nos permitiria, ademais, estabelecer consórcios com nossos vizinhos, com os quais poderíamos desenvolver projetos conjuntos para, uns cultivarem suas amplas extensões de terra, outros mecanizarem o empacotamento, e outros distribuírem e comercializarem os alimentos. Também se poderiam desenvolver projetos de turismo compartilhado, oferecendo ao turista uma variedade de programas, com uns dias em Varadero, outros em Punta Cana, e visita ao Yunque ou ao Viejo San Juan. Há um mundo de possibilidades quando existe liberdade e independência.

O edifício em que estão as instalações do Tribunal dos Estados unidos, na Rua Churdón, por exemplo, poderia tornar-se um Centro de Comércio Internacional, a serviço da economia nacional. Os projetos de autogestão e o corporativismo têm de ter todo o apoio e proteção governamental sob a República de Porto Rico.

De outro lado, uma proposta independentista sem um profundo sentido de justiça social não terá um significado prático para nosso povo. Por isso, o projeto independentista de hoje, como o do Grito de Lares, tem de estar vinculado a um compromisso de mudança do regime de injustiça social imperante.

No social:

Porto Rico tem um grave problema de segurança pública, com um dos índices de assassinatos mais altos do mundo (22 para cada 100.000 habitantes). No mês de agosto passado, ocorreram 604 assassinatos, 47 a mais do que os ocorridos no mesmo mês de 2009. Segundo informações da própria polícia, 63% deles ficaram sem qualquer esclarecimento.

80% desses assassinatos têm relação com o narcotráfico e com a venda de drogas no país. Foi proposto o tratamento dos viciados em droga, como uma medida buscando atingir economicamente o narcotráfico e, em consequência, reduzir de forma substancial a criminalidade decorrente do mundo das drogas. Essa alternativa, apoiada por terapeutas e conhecedores do tema em geral, é inviável sob as condições coloniais, já que as “leis federais” nos proíbem de agir nessa direção.

Segundo o FBI, Porto Rico é a capital de delitos violentos dos Estados Unidos. Contudo, essas agências federais não mencionam em suas estatísticas que, em decorrência de nossa sujeição colonial, são de responsabilidade delas a vigilância de nossas costas, portos e aeroportos, por onde entram as drogas e armas sem controle, caindo em mãos do submundo. Os ianques não querem reconhecer o seu fracasso em relação a medidas para evitar o tráfego de armas e drogas.

No político:

A nova lua independentista, sem esperar que fique constituída a República de Porto Rico, tem de atender o problema da subestimação do trabalho e o esforço próprio como fontes de dignidade e progresso; estancar a deterioração acelerada da situação social das pessoas e da saúde mental, tanto individual como coletiva; enfrentar o apetite insaciável dos desenvolvimentistas, que se apoderaram dos melhores terrenos agrícolas e ecologicamente sensitivos, para a especulação e desenvolvimento de projetos de construção; neutralizar a criminalização e a repressão contra o movimento sindical, comunitário e ambientalista; combater a presença e terrível ingerência, na vida diária do país, de todas as agências reguladoras e repressivas dos Estados Unidos. Tudo isso temos de fazer em momentos de dispersão e falta de unidade do movimento patriótico.

A abolição da escravidão e a caderneta de diaristas que, para os patriotas do Grito de Lares, representou bandeira de luta pela independência, para os independentistas do século XXI é a dependência, a pobre auto-estima e o projeto privatizador e neoliberal dos tempos modernos.

Nossa tarefa política, frente à impossibilidade de uma insurreição armada como a de Lares, deve ser organizar o descontentamento popular e propiciar o desenvolvimento de uma revolução cidadã que ponha freio ao desmantelamento do Estado e ao desaparecimento dos programas de proteção social vigentes, como também às leis de proteção dos trabalhadores e trabalhadoras. Defender o patrimônio ambiental, cultural e nacional é uma tarefa da máxima importância. Tudo isso nos levará rumo à descolonização e independência, objetivo maior de nossa luta de libertação.

A independência nos devolverá – o que afinal de contas é o fundamental – o sentido de conseguir o controle do país que temos perdido, a unidade de propósitos tão necessária, a alegria de defender nossa dignidade de povo, o valor do trabalho e o rechaço à dependência . Será devolvida ao nosso povo a satisfação de depender de si mesmo, de fazer parte, em igualdade de condições, do concerto das nações livres, o que nos tornará um povo orgulhoso das vitórias concretizadas.

Hector L. Pesquera Sevillano

FUGITIVOS IDEOLÓGICOS OU INFILTRADOS?

17/01/2011

Lá pelos anos 60 ingressei no Partido Comunista Brasileiro, em plena vigência da ditadura militar. Claro, fiz isso porque queria lutar contra o capitalismo, pelo socialismo. Ainda muito jovem, de cara, achava que a sociedade capitalista é injusta e, portanto, imoral. Compreendi que estudar o marxismo era dever de todo militante comunista, já que sem pensamento de mudança nada se muda. Percebi logo que a classe dominante tem as suas ideias e que o explorado consciente deve ter as suas. Fui em frente, crente de que todo membro do partido é dono de um nível de consciência que só os que lutam contra a exploração do homem pelo homem têm. Marxista neófito, deixei a dialética de lado e via o comunista como uma criatura praticamente perfeita. Passado certo tempo, percebi que companheiros do partido também eram falíveis, capazes de cometer erros. Não erros que agredissem em profundidade os princípios que nos norteavam, pois apesar de suas falhas, foram eles os mais elevados seres humanos com que lidei em minha vida, dispostos a sacrifícios pela libertação da classe trabalhadora.

Em situação difícil de clandestinidade, não pude, é bom que se diga, conhecer grande quantidade de ativistas do Partido; por isso, ao ouvir críticas a este ou aquele membro da organização, principalmente a alguns que tinham cargo de direção, pouco me preocupava. Prevalecia minha impressão de que tudo ia às mil maravilhas no nosso processo partidário. Veio a anistia política de 1979, uma conquista nas ruas do nosso povo, e exilados do partido também retornam ao país. Nesse momento, algo que chegou a me chocar me foi revelado: havia problemas político-ideológicos no Partido, dividindo-o basicamente em dois grupos. Um, que, na prática, abria mão da luta pelo socialismo; outro, liderado por Luís Carlos Prestes, que se opunha a isso e denunciava o fato para o conjunto de filiados de base. Passei a entender que partido comunista também tem crise, porém não cheguei a achar que alguém do PCB tivesse rompido com o ideário socialista, como propósito de lutar contra o capitalismo.

A União Soviética continuava. Nenhum dos dois grupos rompia com a URSS; defendiam-na um e outro praticamente com a mesma ênfase. Formalmente, o PCUS mantinha relações com o setor do qual Prestes se afastou, ao sair do Partido, mas o ex-secretário geral do Partido era bem recebido e respeitado no governo soviético, sempre defendendo a URSS, inclusive, defendendo, até a sua morte, em 1990, a tese de que as mudanças ocorridas naquele país não significavam qualquer sinal de retrocesso.

Veio a queda da URSS e de outros países socialistas. O maior trauma dos últimos séculos. Muita gente entrou em verdadeiro transe político-ideológico, pois ninguém, considerado em seu estado mental normal, esperava que isso acontecesse, depois de mais de 70 anos da Revolução Bolchevique. Aí, como se tivessem levado uma pancada no cérebro, um tanto estonteados, vítimas de sua ignorância teórica em relação aos processos históricos (um mal que tanto atingia à quase totalidade do Partido), muitos militantes sentiram-se como que abandonados por uma força que lhes fugia. Morre a URSS; o Partido, em decorrência, tende a morrer. Surgem, entre dirigentes dos diversos níveis, discursos de reconsiderações teóricas sobre o socialismo e, aos poucos, aderem a partidos da burguesia, inclusive aos mais de direita, tornando-se irreconhecíveis no que se refere ao que defendiam antes por muito tempo. Viraram inimigos de quaisquer idéias de mudança, de persistência na luta contra o poder capitalista. Tornaram-se fugitivos ideológicos.

INFILTRADOS

Esse quadro de crise político-ideológica, sem precedente no seio do movimento comunista brasileiro, provocaria, inevitavelmente, as diversas análises e conclusões sobre a debandada ideológica, inclusive de membros do Comitê Central do PCB. Surgem duas assertivas muito constantes sobre o fato: a dos que entendem que não se trata de fuga ideológica, mas sim da revelação da existência de gente a serviço do capitalismo, infiltrada no Partido, que muitos dos tais fugitivos de consciência na realidade nunca foram comunistas, protegiam-se nas próprias debilidades da Organização, agindo contra os propósitos históricos desta; e a dos que acham que em momentos de grandes dificuldades, de derrotas políticas e ideológicas do movimento revolucionário, a debandada ideológica sempre acontece, com maior ou menor intensidade, já que, em geral, muito ativistas não estão armados ideologicamente para suportar qualquer situação de retrocesso da luta por uma nova sociedade, por verem-se, em tais circunstâncias, muito distantes das possibilidades reais de seu sonho; não percebendo que é uma ilusão achar que todas as portas estão fechadas.

Entretanto, é compreensível, independentemente de qualquer análise, que haja forte indignação contra certos infiltrados ou reais fugitivos ideológicos; principalmente, quando se trata de indivíduos que foram altos dirigentes do Partido, que citavam Marx e Lênin a todo instante, e que, hoje, estão à frente de partidos de direita, como o PPS, em aliança com neoliberais e fascistas de todos os tipos. Partido, considerado por muita gente como o principal ninho de fugitivos e ideológicos, dirigido por Roberto Freire, ex-membro do Comitê Central do PCB.

Que nenhum lutador se iluda: não existe luta sem traição. Compreender isso é importante para não ser vítima de desencanto.

Cláudio de Lima

MÉXICO – A REVOLUÇÃO MEXICANA

12/01/2011

Já no início da presença espanhola em solo mexicano, a Coroa determina uma forma de propriedade da terra chamada encomienda, em que o seu proprietário recebe uma quantidade de índios para explorar, pagando ao indígena um “salário”, sempre em mercadorias ou espécie. Era um trabalho forçado, do qual o índio não podia afastar-se. Depois, surgiu a figura do hacendado (fazendeiro), desenvolvendo o trabalho de “pionagen” (trabalhadores de fazenda), em que o trabalhador, sempre endividado, jamais podia desgarrar-se do latifúndio.

Ao mesmo tempo, persistia a propriedade comunal dos indígenas, que cada vez mais se enfraquecia ante a ação expropriatória dos fazendeiros e encomenderos, apesar da existência de uma lei da Espanha voltada para um certo nível de proteção da propriedade indígena, a fim de evitar que a Coroa perdesse o monopólio da terra na colônia.

Essas circunstâncias contribuíram para que as lutas pela independência do México se dessem sobre a seguinte contradição: o indígena chegou a odiar mais o seu dominador local — que se enriquecia às custas do seu sangue — do que a própria potência colonizadora. Ou seja: prioritário para o indígena e para os demais escravizados, ou semi-escravizados, era agir contra os que os exploravam de forma direta, cotidianamente.

Veio a independência, como “resultado das necessidades políticas e militares de grupos dirigentes da colônia (Igreja, exército, oligarquias) para manterem e prolongarem o mesmo sistema feudal ou semifeudal de antes, na prática, em função dos interesses do capital inglês”. A Espanha sai de cena, entra a Inglaterra, em continuidade a uma estrutura sócio-econômica, advinda do período pré-independência, que resiste a mudanças de fundo. O caráter burguês capitalista que a Independência assumiria, inclusive, com a realização de uma reforma agrária, não se deu.

Assim, todo o discurso liberal, fundamentado nas idéias revolucionárias francesas, não vai além, em termos concretos, de uma subordinação à grande potência capitalista da época.

Frente a esse quadro, no fundamental nada inovador, ao longo do século XIX, comunidades indígenas, de forma constante, se rebelam contra latifundiários que cada vez mais as tornam miseráveis. Este processo chegaria à primeira década do século XX com índios e camponeses em geral, na verdade, em condição de semi-escravizados, presos a dívidas em quitandas de latifundiários e a uma situação de miserabilidade crescente.

As terras que os indígenas perderam durante a colônia, e depois da Independência, jamais seriam recuperadas por eles. Suas condições de vida pioravam sem parar. A proposta liberal de solução da questão da terra, na realidade, não significou outra coisa senão o surgimento de mais impostos, sobrecarregando as comunidades de índios e camponeses.

Contudo, os liberais, de pouco liberalismo, vêem-se diante de tamanha crise econômica, que uma guerra civil acaba-se tornando inevitável. Cresce a dívida externa, e os chamados conservadores, apesar de derrota momentânea, permanecem como uma ameaça. A crise é tão grande que o governo decide suspender o pagamento de dívidas a estrangeiros, o que provoca pretexto para a intervenção de potências da Europa, que logo se dá: a Inglaterra, França e Espanha intervêm no país.

Os interventores objetivavam a instalação, no México, de uma base de apoio aos sulistas dos EUA, em guerra contra o norte industrial daquele país. Especificamente, o que a Inglaterra desejava nesse conflito era evitar o sucesso de um grande rival comercial e industrial, que dava todo apoio aos liberais mexicanos para derrotar os concorrentes europeus, que, por sua vez, se dividiam na contenda.

Enfim, inegavelmente, ocorre, apesar de tudo, o avanço das forças liberais, inclusive, afetando um velho setor privilegiado de longos anos de colônia e de pós-colônia – a Igreja – que, em desespero, promete excomungar os compradores de suas terras. Contudo, tal avanço, em vez de significar alguma mudança na propriedade da terra, ainda que nos limites de uma concepção que apontasse para algum nível de relações capitalistas no país, trouxe, concretamente, o aumento do latifúndio, ao lado de pequenas propriedades debilitadas, sem condição de subsistir.

É evidente que, nesse contexto, já se pode falar da existência de algum capitalismo no México, porém, abertamente associado à grande propriedade fundiária, que continua predominante. É um momento de escalada liberal, é certo, mas sem o resultado esperado em termos de construção de uma ordem burguesa econômico-social.

A partir de 1883, já no governo do ditador Porfírio Diaz, não só os fazendeiros locais vêem aumentarem seus privilégios, como também financistas e empresários estrangeiros se apoderam de grandes áreas do país. Mais e mais áreas comunais são entregues a estrangeiros. E a conseqüência mais grave é o maior empobrecimento não só de índios como também de camponeses e peões de fazenda.

Devido a tal fato, ocorrem muitas revoltas indígenas e de outros setores de explorados do campo, logo reprimidas impiedosamente.

É este quadro sócio-econômico o fator determinante para que se iniciasse a Revolução, em 1910: uma das mais importantes revoluções sociais do continente latino-americano, por ser uma ação contra um tirano a serviço do latifúndio e do capital, principalmente o norte-americano. Uma revolução em que representantes da burguesia se juntam a revolucionários comprometidos com as massas populares, traindo-os em seguida, inclusive em conciliação com as forças derrotadas. Uma revolução – na luta por um México mais justo, com o máximo de igualdade – em que muitos revolucionários de hoje se inspiram, principalmente em Zapata, Pancho Villa e Ricardo Magón, todos a serviço das comunidades indígenas, camponeses e outros explorados do país.

Líderes da Revolução

Francisco I. Madero — Líder liberal, empresário agrícola. Opõe-se à reeleição do ditador Porfírio Diaz. Para isso, já em 1909, criou o Partido Nacional Anti-reeleicionista. Adotou, inicialmente como tática, o diálogo com os setores porfiristas, parte da burguesia, e não teve sucesso. Avançou, em conseqüência, para a adoção da luta armada.

Defendeu propostas avançadas, como a reforma agrária, conseguindo, por causa disso, o apoio de líderes populares de destaque, como Zapata, Pancho Villa e Ricardo Flores Magón. Vitoriosa a luta, tornou-se presidente do México, em 1911.

Logo, demonstrou desinteresse pelos compromissos assumidos em relação às mudanças sociais de fundo, a começar pela não-solução do problema agrário. Em conseqüência, Zapata, Pancho Villa e Ricardo Magón passam a lutar contra ele. Seu governo perde força. Acontece o golpe militar de 1913. O general Victoriano Huerta toma o poder e, de imediato, assassina Francisco Madero. Era instalada uma das mais sangrentas ditaduras da história do México.

Conclusões

Madero, de fato, teve papel importante no processo revolucionário mexicano, na medida em que foi o líder liberal de oposição ao ditador Porfírio Diaz já no primeiro momento da Revolução. É evidente que, com as vacilações típicas de um liberal burguês para preservar os interesses de sua classe, fez política de conciliação com setores porfiristas, ao mesmo tempo em que desrespeitava os compromissos assumidos com as forças populares. Chegou, por causa disso, a ser tratado por Zapata como um traidor da Revolução.

Venustiano Carranza — Nasceu em 1859. Constitucionalista, liberal por convicção, inspira-se nas idéias de Benito Juárez, num momento em que já sentia a necessidade de lutar contra a ditadura de Porfírio Diaz.

Em 1893, um grupo de fazendeiros organiza uma oposição à reeleição de Porfirio Diaz. Carranza apóia esse movimento. Um liberal em ação, claro.

Quando Francisco Madero cria um partido contrário à reeleição de Diaz, Carranza dá seu apoio a ele. Em 1911, torna-se governador de Coahuila. Começa seu governo com as seguintes medidas: Reforma do Judiciário; ataque aos monopólios comerciais; combate ao alcoolismo e à prostituição; investimento na educação, vendo nesta a chave do futuro.

Nesse momento, a relação de Carranza com Madero piora, dizendo ser este um governante fraco. Age contra Madero, buscando aliado para isso.

Contudo, em 1913, ocorre o inesperado para Carranza: o general Victoriano Huerta derrota Madero. Era um golpe militar. Carranza acha que a falta de firmeza de Madero foi decisiva para a vitória golpista de Huerta. Põe-se em rebelião contra Huerta.

Sobre o Plano de Madero, chamado Plan de San Luís Potosí, Carranza disse tratar-se de um equívoco a inclusão de compromisso com reformas sociais nele, criando, segundo ele, falsas esperanças na população, levando-a a desiludir-se com a Revolução, à medida que o prometido não fosse cumprido.

Para combater Huerta, contou com a participação dos líderes camponeses Emiliano Zapata e Pancho Villa, os quais alimentavam esperanças em relação à distribuição de terras e outras medidas sociais, ainda que Carranza apresentasse resistência à solução do problema agrário, só aceitando-a após longos contatos com Zapata, que o convenceu. O que o levou a admitir mudanças em várias áreas: Garantia da independência do Judiciário; reforma agrária; reforma trabalhista e outras. Compromissos que acabaria por desrespeitar, jogando contra o seu governo não apenas Zapata, mas também o líder popular Pancho Villa, chefe do Exército do Norte.

Em relação ao empresariado estrangeiro, Carranza inicialmente contou com o apoio dos EUA — passando a se conflitar com esse país, ao agir contra as mineradoras e empresas petrolíferas, acolhidas anteriormente pelo ditador Diaz. Dizia que tais riquezas deveriam pertencer ao povo mexicano.

Enfrentou dificuldades para tomar tal medida, porque várias regiões estavam sob o controle de generais que amparavam tais grupos econômicos.

Algumas das medidas que tomou contra empresas estrangeiras foram o aumento de impostos e o fim do direito diplomático aos recursos jurídicos, submetendo-os às regras das cortes mexicanas.

Em relação ao projeto de nova Constituição, em grande medida inspirada basicamente na de 1857, Carranza convoca uma Convenção Constitucional, em 1916. Entretanto, quando essa Convenção se reúne, 132 delegados, de linha radical, exigem que fique incorporada na nova Constituição a reforma agrária. Velha demanda dos camponeses, que, no processo revolucionário mexicano, tinham como lideranças Zapata e Pancho Villa. Também, era exigida a melhora das relações de trabalho, nas fábricas e em outras áreas, sendo ainda defendida a implantação da jornada de 8 horas, além do fim do trabalho infantil, a proteção do trabalho da mulher e de trabalhadores adolescentes. Exigiam também que fossem parte da Constituição: dias de descanso, salários dignos, indenização no caso de demissão e mudança na relação do Estado com a Igreja.

Tais reivindicações iam muito além do que defendia Carranza, é claro.

Proclamou-se a nova Constituição, em 1917; não como desejavam os revolucionários defensores de um programa de mudanças sociais de profundidade.

Nesse contexto, seria inevitável a oposição efetiva de Zapata e Pancho Villa a Carranza, que acabou não respeitando compromissos que ele próprio assumira com estes líderes revolucionários; na verdade, traindo o povo.

Zapata põe seu exército em ação contra Carranza. Sofre derrotas, mas não se desanima, mantém-se atuando nas montanhas de Morelos, enquanto Pancho Villa permanece ativo.

Vem a Primeira Guerra Mundial. Carranza procura manter o México neutro, embora se mantendo, por um tempo como aliado do Império Alemão, após o Secretário de Relações desta potência ter convidado o México para ficar do lado alemão nessa guerra. O que fazia mediante a promessa de que ajudaria o México a retomar territórios perdidos para os Estados Unidos na guerra mexicano-americana; priorizando, no prometido, a reconquista dos Estados do Texas, Novo México e Arizona.

Num primeiro momento, Carranza foi receptivo a tal promessa; depois, desistiu.

No governo de Carranza, era grande a prática de corrupção. Chegou-se a criar o verbo carrancear, sinônimo de roubar.

Não tendo mais condição de resistir às forças diversas que se opunham a seu governo, Carranza é derrotado e assassinado pelo general Rodolfo Herrera, enquanto dormia, em Tlaxcalantongo.

Conclusões

No processo revolucionário mexicano, havia dois tipos de revolucionários em destaque. Liberais, de origem burguesa, preocupados em fazer com que a Revolução não fosse além do seu projeto de classe, mas sabedores de que seus objetivos só seriam alcançados se contassem com a contundência revolucionária de forças populares. O que os leva a assumir compromissos avançados para a época, como a reforma agrária.

De outro, líderes populares, principalmente à frente de lutas pela distribuição de terras para os indígenas e camponeses. É o caso de Zapata e Pancho Villa, mais ainda de Ricardo Magón, sob influência de idéias anarquistas.

No primeiro exemplo, encontra-se Carranza que, como qualquer representante dos interesses da burguesia, ao atingir os seus objetivos, com o apoio do povo, sem o qual não seria vitorioso, trai este mesmo povo.

No segundo exemplo, em que se encontra Zapata, Pancho Villa e Ricardo Magón, o revolucionário cumpre o seu dever de rebelar-se contra o traidor.

Pancho Villa — Nasceu em Durango, tendo trabalhado no campo até os 16 anos. Estando no Exército, apoiou Francisco Madero na luta contra o ditador Porfírio Diaz, em 1910. Acaba-se exilando, um ano depois.

Acusado de insubordinação, é condenado à morte. Refugia-se, então, nos Estados Unidos.

Com a morte de Madero, Pancho Villa volta ao México para lutar ao lado de Carranza e Zapata contra o general golpista Victoriano Huerta. É um momento de guerra civil.

Nessa luta contra o novo ditador, Pancho comanda uma cavalaria composta de 40 mil homens, que foi decisiva para a derrota do regime de Huerta.

Contudo, como Carranza, tal como se deu com Madero, não respeita os compromissos com ele e com Zapata, em termos de aplicação de reformas sociais profundas na sociedade mexicana, principalmente no que se refere à estrutura agrária; rebela-se contra as forças carrancistas, ao lado de Zapata.

Suas tropas tiveram de travar lutas muitos difíceis, numa situação em que o apoio dos Estados Unidos a Carranza foi decisivo para algumas de suas derrotas.

Entretanto, não deixaria de dar a devida e possível resposta ao apoio estadunidense, desencadeando ações contra norte-americanos.

Para Pancho Villa, Carranza não passava de um instrumento dos interesses dos Estados Unidos, vendendo o México aos “gringos”; denúncia que jogou muita gente contra Carranza.

Outras ações contra os EUA aconteceram por iniciativa de Villa. Uma, de grande repercussão, foi a tomada do forte de cavalaria, em Camp Furlong, em 9 de maio de 1916. A imprensa estadunidense logo fez repercutir o fato, dizendo que Pancho Villa foi o único mexicano a invadir os Estados Unidos em sua história. O que levou o governo estadunidense a terrível ação punitiva, designando o general John Pershing para essa empreitada.

Buscando capturar Pancho Villa, os Estados Unidos recorreram à sua maior operação de guerra desde o fim da guerra contra a Espanha, em 1898. Usaram, nessa escalada, aviões, caminhões, veículos militares, além de quase 5 mil homens, avançando 480 quilômetros dentro do território de Chihuahua.

Pancho Villa escapou ileso dessa perseguição, ocultando-se nas montanhas. Enquanto isso, Carranza se via em maus lençóis, sendo visto como tolerante para com a intervenção dos Estados Unidos no país. Um transtorno para si e para o próprio governo norte–americano, já que, na prática, tal ação punitiva fracassara.

Deixando Carranza com a imagem de traidor para muitos mexicanos, desmoralizados, milhares de soldados dos Estados Unidos deixam o país. Nessa altura, mais de 10 mil.

Por seu lado, todos os inimigos de Villa, oligarcas em geral, gente a serviço de grupos econômicos e do latifúndio, todos eles buscavam atacar a sua imagem, dizendo tratar-se de um bandoleiro, basicamente aventureiro, assaltante de trens, bancos e fazendas; enquanto o povo, a gente do campo, via nas suas ações, condenadas pelos seus opressores, simples formas de luta contra os donos do poder, por um mundo mais justo.

Tendo de enfrentar forças externas e internas, os villistas acabam sendo derrotados. O que se dá, em 1920, quando Pancho Villa concorda em desarmar suas tropas.

Todavia, a perseguição a Pancho Villa não pára aí. Quando Álvaro Obregón se torna presidente, levado pelo medo de Pancho voltar à ação revolucionária, em armas, decide pôr fim à sua vida.

Assim, apesar de estar fora de combate, desarmado, acolhendo acordo feito com o governo, Pancho Villa é assassinado, em 1923, numa emboscada montada pela polícia secreta.

Mais um grande revolucionário do povo era vítima de um grande ato de traição.

Conclusões

Existem, na verdade, dois Pancho Villa. Um, falsificado, invertido, forjado pelos opressores e exploradores do povo mexicano e pelos Estados Unidos, apresentando-o como bandoleiro, aventureiro, assaltante, bandido, criminoso. E, como naquela época ainda não se usava o termo terrorista para atacar a imagem de revolucionários, Pancho escapou desse adjetivo.

O outro Pancho Villa é o verdadeiro, com cara e alma de povo, herói de uma gente sofrida, impiedosamente explorada e oprimida, que via e vê nele um líder e símbolo de sua luta contra a exploração, para que cada um pudesse ter a sua terra, alimento e moradia para os seus filhos, na construção de uma sociedade com o máximo de igualdade e justiça possíveis.

Todo libertador é odiado pelo opressor;

Todo libertador é amado pelo oprimido.

Ricardo Flores Magón — Nasceu em Oaxaca, em 16 de setembro de 1874. Sua concepção de mundo era o anarquismo, tendo sido influenciado por Bakunin, Proudhon, Peter Kropotkin e outros clássicos do anarquismo. Também procurou estudar textos de Marx.

É um dos maiores pensadores da Revolução mexicana e fundador do Partido Liberal Mexicano.

Sempre viu com entusiasmo o sistema de comunidade e de autonomia dos povos indígenas, colocando-se a favor deles.

Em 1893, participa de movimentos estudantis, em oposição à reeleição do ditador Porfírio Diaz.

Em 1900, cria o jornal ‘Regeneración’, órgão de combate à ditadura porfirista. E, ao fazer duras críticas ao ditador, acaba sendo preso. O que também acontece com os seus irmãos.

Ao sair da prisão, Ricardo dirige o jornal ‘El Hijo de El Ahuizote’ (o filho da calúnia), com críticas à ditadura.

Em 1904, sabendo que poderia ser assassinado a mando de Porfírio Diaz, exila-se nos Estados Unidos. Aí, também acaba sendo preso por mais de uma vez.

Nos Estados Unidos, voltou a publicar o ‘Regeneración’. Logo, sofre uma tentativa de assassinato, provocada por um enviado de Porfírio Diaz.

Ainda nos Estados unidos, durante o período em que ali esteve, sempre foi vítima de constantes tentativas de assassinato através de sicários do ditador mexicano.

Em 1905, em Missouri, Ricardo e seu irmão Henrique Magón participaram da criação da Junta Organizadora do Partido Liberal Mexicano; na realidade, uma organização libertária, que não participava de eleições. Seus postulados eram revolucionários. Algumas das coisas defendidas por essa organização eram o tema da reeleição e o fim da pena de morte para qualquer preso. Defendia, também, o ensino básico, a criação de salário mínimo, e a coletivização dos latifúndios e de terras não cultivadas.

Em 1906, o governo do México oferece uma recompensa de 25 mil dólares para quem capturasse ou matasse Ricardo Magón.

Em agosto de 1907, Ricardo foi preso em Los Angeles, sem qualquer acusação formal.

Ao ser convidado por Madero para participar do seu plano de governo, Ricardo aceita o convite, dizendo que Madero apenas liderava uma revolta burguesa, não vendo no seu projeto propostas de melhoria da vida da maioria da população.

Na verdade, Ricardo defendia, como verdadeira solução para os problemas da maioria do povo, a abolição do Estado e da propriedade privada.

Ricardo Magón e seu irmão Henrique entraram em contato com os revolucionários Pancho Villa e Emiliano Zapata. As idéias de Ricardo, em grande medida, exerceram influência sobre Zapata.

Também influenciou muito militantes sindicais nos Estados Unidos.

Em 1911, é organizada, a partir de Los Angeles, a Rebelião da Baixa Califórnia. Partindo da fronteira com os Estados Unidos, o movimento objetivava implantar um território autônomo, de linha anarquista, na península, que poderia servir de base para levar a revolta a todo o México. Ricardo conseguiu influenciar muitos militantes dessa iniciativa, inspirando-se principalmente na obra “A Conquista do Pão, de Peter Kropotkin, para ele uma espécie de ‘bíblia anarquista”. Teve Ricardo o sonho de criar o primeiro território libertário das Américas.

Preso, no Estado de Washington, Ricardo Magón, muito doente, quase cego, é transferido para a prisão de Leavenworth, em Kansas. Antes de sua morte, escreve uma carta, em que diz; “estou condenado à cegueira e à morte na prisão, mas prefiro isto a voltar as costas aos trabalhadores e ter as portas da prisão ao preço de minha vergonha”.

Em 21 de novembro de 1922, com 44 anos de idade, Ricardo Magón morre na prisão. Há mais de uma versão sobre a sua morte, mas, a mais certa é a de que, na realidade, foi assassinado por enforcamento ou por agressões a que não conseguiu resistir.

Morto, seu corpo foi levado para a Cidade do México, onde foi velado, no Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários.

Conclusões

Talvez, como já se disse, Ricardo Magón seja o ativista do processo revolucionário mexicano, do século passado, com maior domínio sobre idéias revolucionárias, idéias que respeitou até os últimos instantes de sua vida.

É um líder revolucionário que, anarquistas ou não, ontem e hoje, com certeza, nunca esquecerão, vendo nele um exemplo de amor incontestável por uma causa.

Foi por isso que a classe dominante, tanto no México como nos Estados Unidos, sempre preferiam vê-lo na cadeia, ou até mesmo morto.

Todo opressor percebe quem são seus inimigos.

Emiliano Zapata — Nasceu no Estado de Morelos, sul do México. Camponês desde a infância, enfrenta muitas dificuldades inerentes à vida do campo. Teve escolaridade limitada. Cedo, teve de cuidar da família, porque seu pai morreu quando ele tinha 17 anos de idade.

Nas proximidades do século 20, o México era governado pelo ditador Porfírio Diaz, que chegou ao poder em 1876. Naquele tempo, o sistema sócio-econômico do país ainda era uma espécie de semifeudalismo, ou pré-capitalista, com grandes latifundiários controlando a quase totalidade das terras, apoderando-se de áreas de comunidades indígenas e de mestiços camponeses, que estavam submetidos aos grandes fazendeiros por endividamentos crescentes.

O governo de Porfírio Diaz era a própria garantia dos privilégios das oligarquias.

A família de Zapata, embora não fosse rica, conseguia manter sua independência. Como a maioria das famílias da região, os Zapata sempre estavam sob o risco de empobrecimento.

Em 1906, Zapata participou de uma reunião em Cuautla, em que se discutia como defender as terras do povo. Sua presença nesse evento já não foi bem vista pelos mandantes da localidade, que a viam como um ato de rebeldia. O que resultou em penalidade para Zapata.

Embora não pertencesse aos sem-terra de Morelos, Zapata era cada vez mais admirado pela gente de sua vila, Anenecuilca.

Aos 30 anos de idade, Zapata se torna líder da defesa do Comitê da Vila, sendo porta-voz de seus interesses. Isso se deu em 1909, um ano antes do início da Revolução. Tornou-se o grande líder de Anenecuilca, onde sua família vivia há muito tempo, envolvendo-se em lutas pelos direitos dos camponeses de Morelos.

Conseguiu concretizar a distribuição de terras em fazendas, de forma pacífica, mas enfrentando resistência em outras.

Zapata viu muitos conflitos entre camponeses de sua vila e latifundiários, onde ocorriam muitos roubos de terra de trabalhadores, e presenciou também fazendeiros tocando fogo em vilas inteiras, podendo perceber, nesses movimentos, de que lado ficavam os governantes.

Frente a tal quadro de injustiças e de desinteresse dos governantes para com a solução dos problemas da terra, Zapata recorre à ação armada, na luta pela terra.

Em 1910, Porfírio Diaz se vê ameaçado pela candidatura de Francisco Madero. Zapata fez grande discussão com Madero, em quem via uma chance para mudanças de fundo no país. E logo acaba tendo importante papel, na luta contra Diaz, tornando-se o general-de-exército de Morelos, o Exército Libertador do Sul.

Era a sua união a Madero, contra Porfírio Diaz, ao lado de Pancho Villa e camponeses em rebelião.

Em 1911, Diaz é derrotado, na batalha da Ciudad Juarez. Madero se compromete a realizar a reforma agrária e, mais tarde, realizar eleições. Porém, Zapata entra em desacordo com Madero sobre a questão agrária. Não via nele o desejo de levar adiante a distribuição de terras, apesar de ter tentado convencê-lo da importância de tal medida, de caráter social.

As relações entre os dois pioraram mais ainda, quando Madero indicou como presidente interino uma pessoa que apoiava os grandes fazendeiros, sem nenhuma vontade de conversar com Zapata sobre questões agrárias.

O compromisso entre os dois chega ao fim em novembro de 1911, logo após Madero se tornar presidente do país.

Zapata, então, vai para as montanhas e lá estabelece o mais radical plano de reformas do México, o Plano de Ayala.

Zapata recebe particular influência de Ricardo Flores Magón, de ideologia anarquista. Essa influência pode ser notada nesse Plano, contudo, mais ainda, no slogan zapatista “Terra e Liberdade”.

A influência anarquista em Zapata se deu através de um professor, Otílio Montano Sánchez, que foi executado em 1917. Professor, que apresentou a Zapata as obras de Peter Kropotkin e de Ricardo Mogán, no momento em que o líder de Morelos começava a participar de lutas camponesas pela terra.

Zapata passou a ver Madero como um traidor da revolução, recorrendo às armas contra ele, contando com o apoio de antigos maderistas.

Madero, um tanto apavorado, pede a Zapata que desmobilize e desarme os seus combatentes. Zapata responde que, se armados, os camponeses não conseguem que o governo os respeite, imagine-se o que seria deles, uma vez desarmados e sem apoio. Madero tenta um acordo, sem sucesso.

Em 1919, Zapata é vítima de uma traição: fingindo-se adepto do zapatismo, o general Jesús Guajardo o encontra, assassinando-o.

Conclusões

Morre Zapata, mas não morre para o seu povo. Está presente na memória e consciência da gente mexicana, por ser um símbolo de luta dos camponeses por terra e liberdade.

Zapata está tão presente, que em 1994, no Estado de Chiapas, surge um movimento revolucionário chamado de Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).

Além disso, milhares de ativistas político-sociais do México de hoje sempre fazem referência a ele em suas ações de ruas e praças. Frases como “se Zapata estivesse vivo, estaria conosco nesta luta”, “Zapata vive, a luta continua” e outras são muito comuns entre os lutadores da terra dos astecas.

Em algumas lendas do povo, Zapata é tido como alguém que não morreu, que poderá retornar, liderando uma nova revolução.

À parte as lendas, a História poderá provocar o retorno de Zapata, em forma de milhões de combatentes por um México sem opressão e exploração.

Comitê Bolivariano de São Paulo

BRASIL – A REVOLTA DOS ALFAIATES

12/01/2011

Num contexto de monopólio comercial de Portugal, destacava-se, na Capitania da Bahia do século XVIII, a exportação de fumo, algodão e açúcar, produtos estes com baixo custo de produção graças à mão-de-obra escrava. Situação que provoca insatisfação crescente nos nativos com pretensão de atuar no comércio.

Contudo, maior indignação aumentava, sem parar, no seio da população pobre, vítima da escassez de alimentos e de seus impostos e preços altíssimos. O que acabaria provocando revolta contra a Coroa, num quadro em que as influências das lutas do Haiti (liberto da França em 1791) e das idéias da França Revolucionária, além de se fazerem presentes entre intelectuais e a maçonaria, começavam a penetrar na mente de setores populares, como alfaiates, artesãos, soldados ex-escravos e outros. O povo, que sempre viveu descontente com a dominação portuguesa, mas que não possuía a principal arma de combate – o pensamento de mudança – em 1798 começa a achar fundamento para lutar pela sua libertação. O exemplo haitiano e a trilogia revolucionária francesa, Legalidade, Fraternidade e Igualdade, adentram na alma popular; às escondidas começam a aparecer em panfletos de chamamento para a ressurreição, com consignas bem claras e definidas: libertação da dominação de Portugal, libertação dos escravos, aumento de salário para os soldados, regime republicano, separação do Estado da Igreja e, principalmente, a construção de uma sociedade fundamentada em princípios de igualdade, algo aproximado da Conjuração dos Iguais, liderada por Graccus Babeuf, em 1796. Um projeto político social, inegavelmente mais avançado do que o que era defendido pelos revoltosos da Inconfidência Mineira que, por exemplo, não tinham o propósito de pôr fim à escravidão, não fazendo qualquer alusão à desigualdade.

Assim sendo, a Revolta dos Alfaiates foi a primeira rebeldia do Brasil em que se colocou a necessidade de construir uma ordem sócio-econômica e política, de acordo com interesses da grande massa de oprimidos e explorados, por isso, tendo como seus principais líderes gente do povo, como os soldados, Lucas Dantas de Amorim Torres e Luís Gonzaga das Virgens, e os alfaiates, Manuel Faustino dos Santos e João de Deus.

Traição e Morte

A ressurreição ficou marcada para o dia 12 de Agosto do mesmo 1798. O chamamento para a ação seria feito através de panfletos que deveriam chegar a toda a população. A luta ganharia as ruas. Contudo, nesses momentos de grandeza humana, de luta pela liberdade, traidores não faltam, em geral. Logo, as forças portuguesas descobrem a trama revolucionária, graças à Traição de 3 Joaquins: Joaquim de Santana, Joaquim José da Veiga e José Joaquim de Siqueira. A repressão se alastra em toda a capital baiana, com prisões e degredos, em que eram incluídas valentes mulheres: Luzia Francisca de Araújo, Domingas Maria do Nascimento, Ana Romana Lopes e Lucrécia Maria, todas encarceradas. Mesmo participantes do movimento da elite local, como o médico e intelectual, Cipriano Barata, e outros, não escaparam à prisão. Evidentemente, considerados “homens bons”, receberam tratamento diferenciado.

Quanto aos principais líderes da Revolta – Lucas Dantas de Amorim Torres, Luís Gonzaga das Virgens, Manuel Faustino dos Santos, e João de Deus –, todos coerentes com a sua condição social, de classe, compreendendo que a luta de libertação do jugo do colonizador deveria significar o fim da própria desigualdade, a construção de um mundo de igualdade, para que todos tivessem direito a uma vida digna, achando que ter liberdade é ser feliz, todos eles, os quatro, foram condenados à forca, sendo esquartejados, e partes de seus corpos expostas pelas ruas e praças de Salvador, como forma de aterrorizar o povo, para que não seguisse o exemplo desses seus heróis. Porém, como a derrota de qualquer grande luta pela liberdade, contra a injustiça, não consegue evitar que tal luta renasça sob outra forma, através de multidões, que a evocam como exemplos de motivação para ação pela mudança, a Revolta dos Alfaiates acabaria por influenciar a grande luta pela libertação da Bahia, no século seguinte, redundando na vitória de 2 de Julho de 1823, que mereceu um poema do Poeta da Liberdade, Castro Alves, chamado Ode ao Dous de Julho.

Conclusões

Existe uma opinião sobre os propósitos programáticos e metas político-sociais da Revolta dos Alfaiates (Conjuração Baiana), segundo a qual os insurretos desse movimento não objetivam ir além do intento de construir uma república, tentando seguir o exemplo da burguesia francesa, de apenas tratar consignas como liberdade, fraternidade e igualdade com simples idealização de uma sociedade, fundada em novas formas de exploração, diferente da velha exploração feudal. Esta análise parte da idéia de que os revoltosos baianos de 1798 jamais lidaram com a noção de igualdade econômico-social.

Ora, nas condições históricas, tal assertiva pode ter algum sentido de verdade, porque, é evidente, a discussão sobre o conceito de liberdade não podia ocorrer com a devida intensidade, assiduidade e profundidade, como acabaria ocorrendo no século 19 na Europa, principalmente. Contudo, não se deve esquecer de que o conteúdo de idéias ou conceitos, numa sociedade de desigualdade, de classes, não é o mesmo, em geral, porque cada classe tende a conceituar, segundo os seus próprios interesses; o que nos leva a afirmar que nenhum explorado, ao falar de igualdade, faça-o do mesmo jeito abstrato ou meramente formal da burguesia que, no máximo, de maneira idealizadora, busca convencer a todos os indivíduos que, entre outras coisas, eles têm igual direito de ficarem ricos. O explorado, o oprimido, que luta pela sua libertação, não se inspira nessa fantasia. Dessa forma, com certeza, pode-se afirmar que o líder, Lucas Dantas, se não chegava a ter a compreensão do conceito de igualdade de um revolucionário operário do século 19 – quando Marx entra em cena com o seu Manifesto Comunista –, seguramente, a sua coerência de liderança popular, na luta por uma sociedade mais justa, levou-o a ver, em grande medida, a questão da igualdade diferentemente do mais avançado dos representantes da burguesia da época. Dentro do próprio conjunto de ativistas da Revolução dos Alfaiates, o significado da palavra igualdade não era o mesmo. Por exemplo, com todo o seu reconhecido avanço, o médico, Cipriano Barata, via o sentido de tal conceito de acordo com o que expressava a sua organização política, a maçonaria, à qual nem Lucas Dantas nem qualquer líder popular do movimento pertenceu, e na qual jamais seriam aceitos, inclusive, porque sua linguagem apontava para propósitos com que os maçons não concordariam. Certamente, não foi a defesa da igualdade o que propiciava uma certa unidade entre os insurretos das camadas ou classes populares e os membros da chamada elite intelectual, de profissionais liberais etc., organizada basicamente na maçonaria, mas sim a defesa da liberdade de comércio e do fim do domínio colonial.

Comitê Bolivariano de São Paulo

BRASIL – A GUERRA DO CONTESTADO (1912-1916)

12/01/2011

Existia na região do Contestado uma velha disputa territorial entre os Estados de Santa Catarina e Paraná, havia muito tempo. Na realidade, era uma contenda de duas oligarquias estaduais pelo controle das terras. Os camponeses que viviam neste espaço, efetivamente, eram vítimas dessas ações de latifundiários, de coronéis com seus jagunços em atividades na prática de perseguição e expulsão de gente pobre da terra em que vivia.

A situação adquire maior gravidade quando o governo federal contrata a empresa Brazil Railway Company, de propriedade do americano Percival Fakuar, e inclui no contrato a cessão de uma área de 30 quilômetros de largura, onde seria construído o trecho ferroviário do Estado de Santa Catarina; o que levaria essa companhia, após o término da obra, a implantar a posse dessa grande extensão territorial, considerada, casuisticamente pelo governo federal, área devoluta, como se nela não estivessem vivendo, ganhando a vida, grande quantidade de camponeses e pequenos proprietários.

Por iniciativa do próprio dono da Railway, instala-se também na região a madeireira Southern Brazil Lumber & Colonization, para exploração de terras da região.

Frente a esse quadro, a revolta dos camponeses e de pequenos e médios proprietários de terra se tornava inevitável, somando-se a eles trabalhadores da Railway, que, após o término da obra, foram deixados na rua da amargura, sem trabalho, sem qualquer indenização ou amparo. Assim, liderada pelo monge José Maria, toda esta gente se rebela contra os dominadores.

Em 1912, o presidente Hermes da Fonseca envia à região expedição militar para a repressão ao movimento, contando com o apoio repressivo dos governos estaduais de Santa Catarina e Paraná. Suas tropas foram derrotadas, mas acontece a morte do monge José Maria. Outras expedições foram enviadas para o ataque aos revoltosos, agora liderados pela jovem Maria Rosa. Mais derrotas para as forças governamentais. Cresce a luta dos camponeses, em manifestações claras contra a República, já considerada por José Maria “Lei do Diabo”. Os revoltosos criam, em 1914, o Manifesto Monarquista, é a Guerra Santa, diziam, inspirados no messianismo constante da região. Invadem propriedades de coronéis, apoderam-se de gado, de produtos alimentícios, indispensáveis para a sua luta.

Através do general Setembrino, o governo resolve adotar a estratégia de cerco aos insurgentes. Vem o cerco, e a conseqüência trágica para os revoltosos é a falta de alimentos, enfraquecendo cada vez mais a sua capacidade de resistência, agora sob a liderança de Deodato Manuel Ramos, já não se contando mais com a liderança de Maria Rosa, morta em combate.

Acabou acontecendo a derrota da gente pobre do Contestado, em 1916, momento em que se dá a prisão de seu líder Deodato, logo condenado a 30 anos de prisão. Prisão não cumprida na sua totalidade, pois, em 1923, após tentar escapar, Deodato é assassinado pelo chefe do presídio.

A revolta da região do Contestado foi a resistência de gente do povo, principalmente de camponeses, contra governos a serviço das oligarquias da terra e empresas americanas.

Qual o papel do messianismo nesta luta?

Estamos em 1912, numa região de plena ausência do poder público, de escolaridade, isolada de meios modernos de comunicação e do debate sobre injustiça e contradições sociais baseado em pensamentos de mudança em voga. Num quadro em que a figura do monge significava, inclusive, a ausência do médico, que não existia na localidade, realizando suas curandeiragens e discursos de esperança amparada na fé crescente. Nesse contexto, para o consolo ou para a revolta, o único ideário possível é o de inspiração mística, personificada em alguém, o monge, uma espécie de verdadeiro santo para tanta gente sem letras e sofrida. Principalmente, por ser o monge defensor de uma vida de humildade; o que foi decisivo para a opção dos revoltados por uma vida em comunidade, de igualdade, inclusive, abolindo as relações comerciais.

Isso nos leva a concluir que toda luta possível se fundamenta na sua ideologia possível. O messianismo foi a ideologia possível dos insurgentes do Contestado. E, se “criaram a sua monarquia”, fizeram-no, porque estavam contra uma república oligárquica, de união com o capital imperialista, não vendo nada diferente depois dela. Mas, a sua monarquia é de outro tipo, segundo sua imaginação, uma monarquia santa.

Entretanto, alguém poderia questionar: como condições subjetivas, sem ciência, sem pensamento de mudança, sem análise da natureza das estruturas sócio-econômicas, podem levar as pessoas à luta contra seu opressor e explorador? É que as pessoas são tão encurraladas pelas injustiças que o que lhes sobra é a luta. A gente do Contestado percebeu que ficar sem a terra seria ficar sem a própria vida. Foi à luta, por isso.

E os reflexos dessa luta nas lutas posteriores, na região e fora delas?  Merece um estudo esse tema.

Comitê Bolivariano de São Paulo

PARAGUAI E VIZINHOS – A REPÚBLICA DOS GUARANIS

12/01/2011

Boa parte do atual território do Paraguai, Argentina (ao norte), Bolívia, Uruguai e Brasil foi habitada por grandes populações guaranis. Gente guerreira, apegada a seus mitos, vivendo sob um tipo de organização social que pode ser classificada de comunismo primitivo.

Em 1609, chega à região do Paraguai uma missão jesuítica, com o apoio da Coroa espanhola. Veio para cristianizar as tribos guaranis. Inicia, nessa localidade, a criação de reduções ou missões.

Em 1626, os jesuítas cruzam o Rio Uruguai e, já em áreas que seriam brasileiras depois, estabelecem sete missões, na região que, posteriormente, passaria a ser parte do Rio Grande do Sul.

Deparando-se com uma sociedade de comunismo primitivo, de igualdade, os jesuítas, inicialmente, tentaram convencer os indígenas sobre a adoção da propriedade individual. Sugestão não acolhida, prevalecendo a propriedade coletiva, a terra para todos. Frente a tal realidade, os jesuítas se nortearam, de maneira praticamente absoluta, pela meta de levar adiante o propósito de tornar os guaranis uma grande comunidade cristã, deixando de lado a preocupação em imiscuir-se na forma de organização social existente. Os guaranis, embora jamais se afastando de seus mitos, à sua maneira, tornaram-se cristãos, vendo, inclusive, a sua própria relação com a terra como uma decisão divina, fundamento, em certa medida, para a sua relação econômico-cultural ante a natureza.

E, em convivência tranqüila com os jesuítas, desenvolvem atividades econômicas e artístico-culturais de nível significativo para as condições da época; desenvolvem a agricultura e a criação de gado; fazem avançar a produção de seus antigos produtos alimentícios, como a batata, o milho, a mandioca etc.; desenvolvem a metalurgia, a tecelagem, a produção de couro, de erva-mate, mel e frutas; implantam a impressão, a produção própria de instrumentos musicais, como a harpa, o violão, o violino e outros; desenvolvem o teatro; criam orquestras de destaque, as quais chegam a se apresentar em centros importantes, como Buenos Aires; desenvolvem a pintura, a escultura, a arquitetura, mormente a de igrejas; avançam em certo nível de comércio, inclusive com a Europa, para onde vendem couro, mel, frutas e esculturas, em troca de produtos de sua necessidade, como instrumentos cirúrgicos, metais e sal; constroem hospitais, biblioteca, escolas, igrejas e realizam a impressão de obras no idioma guarani; estudam três idiomas na escola: o guarani, o latim e o espanhol; desenvolvem o trabalho artesanal e introduzem na comunidade a arte barroca, com características próprias, em que aparecem imagens com feição de índio. Tudo, é evidente, em entrelaçamento com os padres jesuítas, capazes de compreenderem o talento criativo indígena, contribuindo para o seu desenvolvimento nos diversos aspectos da vida das missões. Tudo isso, sem quebrar o igualitarismo inerente ao mundo guarani; o que levou o escritor Clovis Lugon a dizer que se tratava da “República Comunista Cristã dos Guaranis”.

A tal ponto se consolidava esse mundo de reduções jesuíticas, que o governo da Espanha começou a enxergá-lo como uma ameaça à Coroa, vendo a possibilidade de seu desligamento efetivo de toda a região sob o controle espanhol; vendo ainda o interesse dos jesuítas na realização de uma sociedade independente, desgarrada do Império; na verdade, já achava que começava a desenvolver-se uma certa autonomia no mundo guarani, fugindo aos poucos de seus propósitos iniciais de força “civilizadora” e de dominação, quando apoiou as iniciativas cristianizadoras dos jesuítas, no início do século XVII.

Portugal, que sempre desejou ampliar o seu domínio para além dos limites do Tratado de Tordesilhas – contando, para isso, com as investidas assassinas e escravizadoras dos bandeirantes – também tinha interesse em tirar poder dos jesuítas, opositores claros à escravização dos indígenas. O Marquês de Pombal chegou a acusar os jesuítas de desejarem criar um “império temporal cristão”.

De fato, estavam criadas as condições para que a Espanha e Portugal buscassem um acordo entre si para a delimitação de áreas de controle de ambos os impérios. Foi aí que surgiu o Tratado de Madri, em 1750, decidindo que os Sete Povos das Missões, na época sob domínio da Espanha, passassem para o controle de Portugal, ao passo que a Colônia do Sacramento, próxima a Buenos Aires, passaria para a Espanha. Acordo que também contou com o apoio dos jesuítas, que não queriam ser vistos como desobedientes ao governo espanhol.

Para a concretização de tal acordo, decidiu-se que, com a demarcação da área das Sete Missões, os índios seriam deslocados para o lado ocidental do Rio Uruguai, deixando para trás todo um mundo construído por eles, perdendo tudo o que cultivaram e construíram; pior ainda, ficando sem a terra em que viveram por séculos, produzindo bens materiais e culturais. Era a perda de tudo; na prática, a sua própria morte como povo, sem espaço físico e cultural.

Os guaranis decidem reagir, não aceitando tal demarcação. Não aceitaram ficar sem nada, após terem tudo. Embora portadores de armas primitivas, foram à luta contra dois impérios cheios de armas modernas.

E os jesuítas, face a este quadro? Ficaram entre a cruz e a espada. Se ficassem com os índios, seriam acusados de traidores pelo governo espanhol; se ficassem com os espanhóis, seriam acusados de traição pelos indígenas. A maioria optou por respeitar o Tratado, mas alguns preferiram ficar ao lado dos guaranis. Foi o que se deu, por exemplo, com o padre Lourenço Balda.

A guerra guaranítica, como a chamam alguns historiadores, eclode, de fato, em 1754, tendo o índio Sepé Tiaraju como o principal líder indígena. Um guerreiro que fez de tudo que lhe foi possível no comando de seu povo, usando a guerra de guerrilha como forma de luta. Acabou sendo assassinado em 1756, numa batalha em que, em pequeno espaço de tempo, 1500 índios foram mortos pelas forças imperiais. Ocorreu a derrota dos indígenas, mas suas ações de resistência perduraram por vários anos.

Com essa matança, os dois impérios ibéricos cometiam mais um dos seus genocídios contra uma civilização que, depois de milhares de anos de existência em nosso continente, perdia o próprio direito de continuar existindo como parte da espécie humana, passando a sobreviver como uma comunidade quase extinta.

Apesar de brados do tipo “como poderá ser a vontade de Deus que vós tomeis e arruineis tudo o que nos pertence…?” “O que possuímos é fruto de nossa fadiga; o nosso rei nada nos deu”, as terras dos indígenas passam para novas mãos, viram latifúndios e suas estâncias se tornam grandes fazendas privadas. Viram propriedade de latifundiários, assaltantes de escrituras na mão, de roubo e crime de matança legalizados, ampliando-as através da grilagem e da ação de matadores contratados. Outros tipos de explorados surgem na região e, quando lutam, lembram-se de Sepé Tiaraju e, quando se lembram de Tiaraju, lutam.

Conclusões

A História mostra que nenhum povo deixa de lutar, principalmente quando se vê frente a uma opressão extremada, insuportável até mesmo para quem foi educado a fim de aceitar pacificamente, como destino, a dominação. A cristianização dos guaranis – que pela sua essência primava por pacificá-los, torná-los dóceis, apenas sendo guerreiros quando se tratasse da defesa do poder imperial espanhol, ante um acordo de destruição de um mundo – acaba por se tornar um valor moral e revolucionário, capaz de impulsionar Sepé e seus liderados para a defesa de uma terra que lhes pertence, “dada por Deus através de São Miguel”, com suas armas na mão, para que tivessem o direito à vida, a continuar existindo. Mesmo as idéias mágicas ou religiosas podem levar os seres humanos para lados diferentes, em última instância, de acordo com as circunstâncias.

Por outro lado, apesar de os jesuítas terem compromisso de fidelidade ao Rei, alguns deles encontraram fundamento ético na Bíblia e no cristianismo, que justificava seu apoio à luta dos guaranis, sacrificando-se por uma gente que apenas desejava a manutenção de um mundo justo, de igualdade. Tais religiosos trocavam a oração da passividade ante o opressor pela oração da luta por um mundo sem desigualdade. O que prova que, num quadro de circunstâncias excepcionais, culturas e deuses de origem distinta, considerados até mesmo opostos entre si, podem encontrar-se e fundir-se em forma de valores e mitos de ação libertadora.

Tupã e Cristo deram-se as mãos.

Comitê Bolivariano de São Paulo

Bibliografia:   Clovis Lugon – A República Comunista Cristã dos Guaranis