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MONIKA ERTL: A MULHER QUE VINGOU CHE GUEVARA

30/06/2014

A boliviana de origem alemã, Monika ERTL, provou que nenhum criminoso está livre do alcance da justiça e que os fascistas não devem permanecer impunes, ainda que os tribunais oficiais e os legisladores se comportem como seus cúmplices. Também nos ensinou que, apesar da origem de uma determinada pessoa, de ter nascido em uma família nazista, ou numa família burguesa, ela pode mudar seu destino, sentir-se indignada e, assim, como disse Che, “ser irmã na indignação” de todos aqueles que sonham e lutam por um mundo melhor, de igualdade e justo.

Filha de um dos grandes propagandistas do nazismo, Hans ERTL, conhecido por muito tempo como “fotógrafo de Hitler”, Monika foi levada pelo seu pai para a Bolívia, quando o Exército Vermelho acabou com o Terceiro Reich, e muitos de seus agentes se evadiram da Alemanha, em muitos casos com a colaboração da elite capitalista dos EUA, Inglaterra ou França etc., para diferentes lugares do mundo, especialmente para a América Latina.

Monika foi criada num ambiente fechado e racista, onde se destacavam tanto o seu pai como outro sinistro personagem, que ela costumava chamar, com carinho, de “tio Klaus”. Um empresário alemão, ex-chefe da Gestapo, em Lyon, com o pseudônimo de “Klaus Barbie”, mais conhecido como “O Carniceiro de Lyon”.

Klaus Barbie trocou seu sobrenome por “Altmann”, antes de envolver-se com a família ERTL. Em estreito círculo de personalidades em La Paz, este indivíduo ganhou suficiente confiança e espaço a tal ponto que o próprio pai de Monika decidiu apresentá-lo como cidadão judeu-alemão, tendo conseguido, desta maneira, seu primeiro emprego na Bolívia.

Sobre este nazista, sabe-se que assessorou ditaduras sul-americanas, contando com o apoio de sempre das grandes corporações capitalistas norte-americanas.

Entretanto, a jovem e bela alemã cresceu e tudo mudou no final dos anos 60. A morte de Che Guevara na selva boliviana foi decisiva para tal mudança. Monika rompeu com as suas raízes e, numa virada gigantesca, passou a militar nas fileiras do Exército de Libertação Nacional (ELN), um grupo de guerrilheiros criado pelo próprio Che Guevara.

Em 1971, ela cruza o Atlântico, volta à Alemanha, sua terra natal e, em Hamburgo, pessoalmente, executou o cônsul boliviano nesta cidade. Quem era esse desprezível fascista? Nada menos que o coronel Roberto Quintanilla, o responsável pelo ultraje final imposto a Guevara: a amputação de suas mãos.

Em Hamburgo, Alemanha, eram 9:40 da manhã de um dia de abril de 1971. Uma bela e elegante mulher, de lindos olhos azuis, entra no escritório do cônsul da Bolívia e, pacientemente, espera ser atendida. Enquanto espera na sala, olha, indiferente, os quadros que adornam o escritório. Roberto Quintanilla, cônsul boliviano, trajado elegantemente de roupa escura de lã, aparece e cumprimenta a jovem, impactado pela beleza dessa mulher, que se apresenta como a australiana que, dias atrás, lhe havia solicitado uma entrevista. Por um rápido momento, ambos se encontram frente a frente. A vingança aparece encarnada num rosto feminino muito atraente. A mulher de beleza exuberante o encara e, sem meias palavras, saca o revólver e dispara três vezes. Não houve qualquer tipo de resistência, luta. O alvo foi plenamente atingido. Em sua fuga, deixou uma peruca, sua bolsa, seu COLT 38 Special e um pedaço de papel, em que estava escrito: ”Vitória ou Morte, ELN”.

Após Monika concretizar seu objetivo, teve início uma caçada, ao longo de países e mares, que só teve fim quando ela tombou morta em 1973, numa emboscada que, segundo fontes, foi montada pelo seu traidor “tio”, Klaus Barbie.

Uma incrível história, resultado de um grande trabalho de pesquisa de Jurguen Schreiben, um dos mais premiados jornalistas alemães da atualidade, tirando tal fato do esquecimento e da ocultação.

APORREA

CHÁVEZ, A REVOLUÇÃO BOLIVARIANA E O SOCIALISMO (Carlos Pereira)

24/07/2013

Não se deve fazer uma análise do processo revolucionário venezuelano sem se falar do papel de Hugo Chávez nessa luta. Chávez, já nos anos 70, se inquietava com a realidade do país, com a situação de neocolonialismo, de desigualdade e miséria em que se encontrava a pátria de Bolívar. Já percebia que o sonho do Libertador com uma Venezuela, com o máximo de justiça social e felicidade para todos, cada vez se afastava de sua concretização. Via mais ainda que o maior desejo de Bolívar – uma América Latina Unida, como uma grande e única nação – ia de água abaixo. Ao lado de outros patriotas, militares ou não, achava que ser patriota é lutar pela efetivação do projeto de Simón Bolívar.

Foi inspirado no pensamento do Libertador que Chávez criou em 1982 o MBR-200 (Movimento Bolivariano Revolucionário), dando um primeiro passo, de suma importância, na luta por uma Venezuela soberana e com o máximo de justiça social, após uma reflexão profunda sobre as lutas sociais e patrióticas venezuelanas.

Veio o ”Caracaço”, em 1989, levante popular espontâneo do povo, principalmente, em Caracas, contra as desgraças provocadas pela política neoliberal de Carlos André Pérez, que reprimiu em forma de verdadeiro massacre as multidões insurgentes, causando a morte de centenas de pessoas. Chávez e seus companheiros da Organização se viram no dever de tirar grande lição de tal movimento e agirem contra o governo das oligarquias e do imperialismo. É daí que surge o levante militar de 4 de Fevereiro de 1992, quando, pelas armas, tenta derrubar o governo neoliberal e sua política de subordinação do país aos interesses de grupos econômicos nacionais e estrangeiros.

Derrotado o levante, Chávez assume toda a responsabilidade pela revolta, deixando, contudo, praticamente explícito que retomaria a luta na hora oportuna; o que se deu, por outro caminho: o contato mobilizador e conscientizador constante com o povo, que decorreria na sua vitória eleitoral para presidente da República, em 1998.

Respeitando politicamente o seu mais importante compromisso de campanha, Chávez logo convoca uma Assembleia Constituinte, a fim de aprovar uma nova Constituição, que refletisse os anseios políticos e sociais do povo venezuelano.

Amparado nas novas normas constitucionais, Chávez é reeleito em 2000, sentindo-se suficientemente fortalecido para enfrentar o imperialismo e as oligarquias locais. Caracterizava-se como chefe de um governo nacionalista, acreditando que por esta linha a Venezuela se libertaria do neocolonialismo, tornando-se soberana. Para isso, aprofunda o resgate da pessoa de Simón Bolívar, sempre defendendo o sentimento do Libertador de que povo e forças armadas não devem estar separados, de que “maldito é o soldado que atira em seu próprio povo”.

A busca da libertação de seu país não aconteceria, como era de se esperar, sem a reação das forças de direita, internas e do imperialismo, mormente o norte-americano. Cresce a escalada golpista no país com apoio claro dos Estados Unidos, culminando com a derrubada do governo em 11 de abril de 2002, com a prisão imediata de Chávez. Os grupos econômicos de todos os tipos, dentro e fora do país, comemoravam o acontecimento, principalmente através de seus meios de comunicação, acusando o deposto de ditador e falando de que este teria levado a Venezuela ao caos.

Contudo, um povo, quando toma consciência de seus reais interesses, não só vai à luta contra os que o oprimem como também se torna imbatível. Os caraquenhos, principalmente os provindos dos bairros populares, das massas trabalhadoras, vão para a frente do Palácio Miraflores, ocupado por golpistas, e exigem a libertação de Chávez e seu retorno ao governo. Enfrentam as balas golpistas, perdendo vidas, até que o golpe fosse derrotado.

Chávez era salvo pela sua gente – multidões – sem armas e pela gente armada, militares patriotas que, seguindo Bolívar, se recusaram a atirar no seu povo, tendo agido, inclusive, para evitar o assassinato do líder bolivariano, alternativa defendida por vários golpistas.

Em 13 de abril, dois dias depois de sua deposição, Chávez volta à presidência da República, sob os aplausos generalizados do povo. Pede paz para o país e descarta qualquer ação punitiva mais forte contra os líderes golpistas, fala, até mesmo, em conciliação nacional.

Por conseguinte, esperava-se que tudo voltaria ao normal, que os inimigos da democracia se acalmariam, que, face à derrota que sofreram, abririam mão de novas escaladas golpistas. Puro engano! Ao contrário, tendo fracassado o seu golpe, as forças conservadoras, as oligarquias como um todo, viram o perigo do processo democrático avançar, já que a tendência era crescer o protagonismo popular, por uma democracia sem limite, com povo. O caminho que escolhem, ainda em 2002, é o mesmo de antes: mais ações golpistas. Agora, não confiando mais nas forças armadas, que se recusaram, na sua maioria, a ficar contra o povo e a democracia, escolhem a estatal petroleira, a PDVSA, como seu principal instrumento, pela importância que esta tem na economia da Venezuela. Achavam que, com a sua paralisação, provocariam o caos econômico e, consequentemente, o governo cairia. Contavam com o apoio de gerentes e diretores da empresa que tinham o controle produtivo e político dela, seguros de que a maioria absoluta dos operários petroleiros obedeceria a esses seus agentes. Param a produção da PDVSA. Era deflagrado o tal “golpe petroleiro”. As perdas econômicas logo aconteceriam; inclusive começaram rapidamente a faltar combustíveis no país. Crimes de sabotagens dentro da estatal aconteciam a todo momento, até mesmo em áreas de risco da empresa em termos de segurança.

Na medida em que procuravam destruir a economia do país, tentando o caos generalizado, em claro atentado à soberania nacional, em qualquer outro país que se diz democrático, tais golpistas teriam sido fortemente reprimidos. Na Venezuela, o governo democrático, eleito livremente pelo povo, preferiu não adotar este caminho.

Quem não vivia na Venezuela, distante da realidade deste país, não conhecedor do nível de consciência da gente Venezuelana, sem dúvida, imaginava que inevitavelmente o governo bolivariano viria abaixo, que o “golpe petroleiro”, atingiria seu fim. Mas, Chávez sabia que uma coisa é provocar o caos econômico no país e outra é provocar o caos na consciência de um povo. Sabia que a reação vitoriosa contra as forças golpistas não dependia apenas dele, mas principalmente do povo. Recorre a este. Busca gente sem qualquer experiência na produção e refino de petróleo, treina-a, às pressas, emergentemente, contando ainda com técnicos voluntários de fora do país. Assim, vai assumindo o controle da empresa, derrotando os que a paralisavam e a sabotavam. A escalada golpista petroleira era derrotada. Agora, a PDVSA ficaria sob o controle de patriotas, destinada a cumprir o seu papel econômico-social, com a adequada aplicação de seus lucros em projetos sociais e em investimentos da área produtiva.

Alguém pode ter suposto que as oligarquias e o imperialismo, mediante este último insucesso, não teriam mais como conspirar contra Chávez e seu governo. Ainda não se compreendia, de maneira clara, que a burguesia jamais se recusa a lutar contra o avanço do processo democrático, que, para isso, por mais paradoxal que pareça, recorre, inclusive, a “métodos democráticos”, “institucionais”, mascarando por aí expedientes como compra de pessoas ou votos, gastos de milhões com corrupções eleitorais, com manipulações através de sua mídia, com ardis de todas as espécies.

Destarte, sem contar com apoio militar, sem o domínio do petróleo, as oligarquias, em 2004, decidem derrubar o governo via Constituição, legalmente. Partem para a tentativa de tirar Chávez do governo, através de um refendo revocatório, que estipula que o presidente pode perder o mandato na sua metade através de uma consulta popular em votação secreta, sendo necessário, para isso, o número de assinaturas necessárias. Um dispositivo constitucional – diga-se de passagem – proposto pelo próprio Chávez, quando da aprovação da nova constituição, em 1999.

O poder econômico coloca seus agentes nas ruas, à busca de assinaturas para o citado referendo. De cara, usa assinaturas fraudulentas, sendo tal expediente logo rechaçado. Volta a campo, obtém as assinaturas necessárias.

O poder econômico, nesse processo, agiu de acordo com a sua natureza: despejou dinheiro a rodo em todo o país. Isso é “democracia”, diziam seus partidários, nas ruas e na grande mídia. Somem-se a este montante doméstico os milhões de dólares que chegavam “democraticamente” dos EUA, para a derrota de uma ameaça contra os interesses ianques.

Chame-se ou não esta opção tática das forças de direita de golpismo disfarçado, ou de outra coisa, o certo é que as fortunas que gastam para alcançarem seus objetivos nada têm a ver com democracia, muito pelo contrário, são um atentado contra ela. Fortunas gastas para que o processo político-social e democrático não avance.

O referendo acaba se dando. Mais um fracasso do imperialismo e de seu séquito venezuelano. A direita tenta a última cartada: apesar da vitória do não à revogação do mandato de Chávez, ela ameaça não reconhecer o resultado das urnas. Não deu certo, sem nenhuma surpresa, esta artimanha. Nesse momento, Chávez se sente ainda mais fortalecido para fazer avançar a Revolução Bolivariana.

Mas o inimigo não se freia na procura de pôr fim a um governo que representa os interesses populares. Recorre também a tentativas de assassinato do líder da Revolução Bolivariana, através de grupos paramilitares provindos da Colômbia, apoiados por contrarrevolucionários venezuelanos. Com a prisão de muitos membros destes grupos, um de seus cabeças acaba por confessar seu intento de eliminar o presidente, eliminando qualquer dúvida sobre tal objetivo. Frente a tantas derrotas das forças oligárquicas, a Revolução dá passos.

SOCIALISMO                                

Um novo momento histórico na Venezuela. Para surpresa de muita gente, mesmo da organização do presidente, o Movimento Quinta República (MVR), em 2005, durante a realização de Foro Social Mundial, de Porto Alegre, Chávez afirma categoricamente que o caminho a ser seguido pelo povo da Venezuela é o socialismo. Com esse enunciado diz ao seu povo, aos povos da América Latina e do resto do mundo que a Revolução mudaria de caráter, indo além do nacionalismo, tornando-se anticapitalista.

Foi com Bolívar, inspirando-se neste, que Chávez e as forças revolucionárias como um todo chegaram a 2005, já com algum contato do líder bolivariano com textos marxianos. Mas, com a virada ao socialismo, Chávez teria de inevitavelmente recorrer como nunca ao pensamento marxista, ao pensamento de mudança da classe trabalhadora. Inicialmente, aprofunda o contato com o marxismo latino-americano, a começar com os textos de Carlos Mariátegui, autor da tese da construção do socialismo indo-americano, “livre de cópias”, e também com o pensamento de Che Guevara, além de outros. Logo, aproxima-se também dos clássicos do marxismo e de grandes marxistas europeus do século passado. Aproxima-se de Marx porque vê neste a explicação do caráter do capital, do capitalismo; de Lênin, por ver neste a primeira grande explicação sobre a natureza do capitalismo em sua fase superior, o imperialismo, e seu trabalho sobre a essência do Estado; de Rosa Luxemburgo, por perceber a importância da assertiva desta revolucionária de que a luta por reformas pode não significar necessariamente reformismo, se elas não forem tratadas como um fim, além da sua visão antiburocrática de partido; de Gramsci, porque este fala da questão da hegemonia de classe, de que só através da luta pela hegemonia uma classe derrota a outra, não só militarmente, mas também ideológica e culturalmente.

Assim, Bolívar – que não vem sozinho neste processo, mas, trazendo consigo, segundo a óptica de Chávez , José Martí, Artigas, Ezequiel Zamora e tantos outros revolucionários, de antes, durante e depois das lutas pela Independência dos países latino-americanos –, acaba por se justapor ao marxismo. E os dois ganham as ruas da Venezuela.

Essa busca teórica de Chávez e de outros líderes bolivarianos se dá, partindo-se da compreensão de que, sem a prática de mudança não há mudança, mas que, também, sem pensamento revolucionário não há revolução. Em nenhum instante, o líder bolivariano descuidou-se da conscientização do povo, convicto de que este precisa avançar para a derrota do capitalismo no país. Compreendendo que só uma força organizada, ou poder, derrota outra, Chávez parte para desenvolver a prática de construir o poder popular, comunitário, de forma socialmente protagônica, já com a prática de as comunas dirigirem seus próprios interesses, não só política, mas também administrativamente.

Empresas sociais, ou socialistas, foram criadas pelo governo bolivariano, sendo elas colocadas sob o controle de trabalhadores e comunidades organizadas. Ao lado das relações políticas e de produção capitalistas, torna-se imprescindível para a conquista do socialismo a construção, desde já, de relações de produção e políticas entre as massas trabalhadoras, pensava Chávez.

A vitória de Chávez nas eleições presidenciais de 2006 o convencia de que a grande votação que recebera, mais de 60% dos votas, era uma clara aprovação do projeto de socialismo em debate entre as forças revolucionárias e o povo. Busca, então, aprofundar a organização do poder comunal.

A política social bolivariana se destaca cada vez mais, levando a ONU a classificar a Venezuela como o país da América Latina com menor índice de desigualdade.

MEDIDAS DE UNIDADE LATINO-AMERICANA E CARIBENHA

O desejo de levar adiante o sonho de Bolívar por uma América Latina, para Chávez era o seu princípio maior. Tinha plena convicção de que sem esta unidade nenhum povo deste continente seria definitivamente livre, de que desta união depende a derrota do imperialismo estadunidense. E tudo procura fazer neste sentido em todos os aspectos da vida da sociedade latino-americana. Defende os diversos tipos de medidas integracionistas: declara guerra à ALCA, busca aproximar-se do MERCOSUL, defende a criação do Banco Sul, como forma de os países da América do Sul se libertarem das imposições do FMI, podendo eles contar com recursos bancários próprios, com taxas de juros bem menores, adequadas às necessidades de desenvolvimento social e econômico de cada país associado; defendeu a criação da Petroamérica, uma espécie de holding que juntasse as estatais de petróleo da região, com investimentos e políticas de petróleo e energia em geral, de forma conjunta, ressaltando, não só a importância política da iniciativa, como também o seu significado econômico, já que a América Latina é detentora de 11% do total das reservas de petróleo de mundo, além de outros enormes recursos minerais.

Chávez demonstra, na prática, que sua defesa da unidade latino-americana e caribenha não é retórica, ou puro jogo diplomático, cria a Petrocaribe, proporcionando fornecimento de petróleo a baixos custos aos países do Caribe que, antes, tinham de receber este produto a preços internacionais, com grandes consequências para a sua economia.

Para uma relação de comércio e de intercâmbios diferenciados, baseados não na busca de lucros, mas sim fundamentados em princípios de colaboração entre povos, Chávez propõe a criação da ALBA (Alternativa Bolivariana para a América e Caribe), hoje composta por Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua, Bolívia e algumas ilhas caribenhas.

Chávez pôde comemorar parte da realização de seus sonhos: viu surgir a Anasur e a CELALC – para cuja criação foi de suma importância a sua liderança – órgãos de integração continental importantes, não só para relações econômicas, como também para relações políticas, com gestões interessantes para evitar conflitos entre os países da região, geralmente insuflados pelos desejos norte-americanos de tudo fazerem para que os países latino-americanos se mantenham desunidos.

Eram muitos os sonhos de Chávez com o propósito de levar às últimas consequências a unidade latino-americana. Chegou a defender uma universidade de todo o continente.

Inegavelmente, foi Chávez o líder máximo da luta pela defesa da unidade da América Latina, com uma habilidade política que chamava a atenção de mundo, pois tinha a sabedoria de saber lidar com as diferenças políticas e ideológicas existentes entre os governantes da região.

Chávez vinha bem de saúde. Estava tão animado com as suas tarefas político-administrativas, com tanta energia, que talvez nunca imaginasse que poderia ser afetado, tão rapidamente, por alguma enfermidade. Uma vez, um velho general aposentado advertiu-o, durante uma conversa pela televisão, de que deveria cuidar um pouco mais de sua saúde. Chávez desconversou. Infelizmente, em 2011, descobre ter sido atingido por um câncer. Inicialmente, parece ter ficado perplexo, achando estranho que, tanto ele como outros líderes latino-americanos, de uma hora para outra, fossem afetados por algum tipo de câncer. Chegou, de forma indireta, a suspeitar de que houvesse alguma ação de inimigo em tal situação.

Foi a Cuba para tratamento por várias vezes, sem perder, apesar desse momento difícil, o entusiasmo pelo que fazia junto ao seu povo, mantendo-se sempre firme frente a empreitadas e grandes desafios. Muito debilitado, disputa a presidência em 2012 e é vitorioso, mas com uma votação menor que a de 2006. Sem dúvida, embora nunca tenha demonstrado fraqueza em momentos tão difíceis para a sua vida, com certeza, já não podia estar com a mesma energia, não só à frente do governo, mas também no seu contato direto de praxe com o povo, com o dia a dia deste. Também, já não podia viajar como antes à busca das relações necessárias da Venezuela com outros países. Tudo isso, numa conjuntura de dificuldades econômicas que começavam a acontecer, em certa medida, como reflexos da crise econômica em países desenvolvidos.

Era um momento em que o centro das atenções da gente venezuelana, em particular, de membros de destaque do governo, estava voltado para a salvação do líder da Revolução Bolivariana. O inimigo usou este quadro de dificuldade de todas as maneiras possíveis, indo das ações psicoemocionais até ações criminosas de sabotagens de fornecimento de energia e de alimentos.

Acontece o falecimento do líder latino-americano. O país para, para chorar sua ausência. Novas eleições seriam convocadas para, mais ou menos, um mês depois de sua morte. O candidato que Chávez tinha indicado na hipótese da inviabilidade de sua candidatura era Nicolás Maduro.

Decorrentemente de um período tão duro para o governo bolivariano, devido à saúde e morte de seu líder máximo, o candidato chavista tinha a gigantesca tarefa de ganhar as eleições e de convencer o povo de que, com a sua eleição, o projeto e sonho de Chávez continuariam.

O inimigo, na pessoa de seu candidato, Capriles, partiu para todas as astúcias não imaginadas por muita gente das próprias forças chavistas. Primeiro, começou a exaltar a pessoa de Chávez, dizendo que manteria todos os seus projetos sociais em andamento. Culpava Maduro pelos problemas existentes na economia e na administração e se colocava, de certa forma, como mais apto a cumprir o plano de Chávez do que o próprio candidato da Revolução Bolivariana. Era eloquente com a sua farsa, com a sua pantomima. Por outro lado, sua campanha agia através de expedientes criminosos, por iniciativas de gente de seu apoio: recorria a sabotagens de fornecimento de energia e de produtos de primeira necessidade, conseguindo deixar grande quantidade de pessoas descontes com o governo. Num momento de disputa eleitoral, não é necessário dizer qual seria o tamanho do dano à campanha do candidato chavista. E o dano se deu. Maduro foi eleito com a diferença de apenas 250 mil votos de diferença. Fato usado pelo candidato derrotado da direita, para alardes e agitações que acabaram provocando a morte de dez pessoas por agentes direitistas. Maduro não se abateu. Sabia que não era fácil substituir Chávez sem caminhos cheios de pedras. Pela primeira vez, o eleito não era Chávez, mas um chavista.

DESAFIOS SEM CHÁVEZ

Acontece a posse de Nicolás Maduro. Seu discurso de posse foi uma demonstração de que muita coisa terá de ser feita para a correção de rumo, para recuperar terreno perdido, em todos os aspectos da vida política e social da Venezuela. A começar pelo aprofundamento da relação do governo com a população, mormente com a organizada, com um programa claro de combate à violência urbana, como também com firmes medidas contra o burocratismo e a corrupção, além de iniciativas no sentido da solução do problema de abastecimento de alimentos, buscando ainda melhorar todos os programas sociais. Tudo isso sem se abrir mão da caminhada para o socialismo, para o qual é imprescindível a continuação e intensificação da organização do poder comunal.

É a Revolução Bolivariana marchando sem Chávez, com Chávez, já que estão vivos seus exemplos de amor a seu povo e à causa de sua libertação.

CULTO À PERSONALIDADE?   POPULISMO?

Não faltam afirmações, inclusive de gente considerada de esquerda, de que existiu e continua existindo o fenômeno do culto à personalidade da pessoa de Chávez, na Venezuela. Conclusão profundamente equivocada, pois o único culto que o próprio Chávez procurava levar às consequências era o culto ao conhecimento e aos ideais revolucionários, ao desenvolvimento do sentimento de solidariedade, que, para ele, são imprescindíveis para que um povo se torne livre. Sempre chamava o povo, o explorado, a pensar, a tomar consciência de que, só através da luta pelo socialismo, de forma organizada, protagônica, ele conquistará a sua libertação. Assim, jamais se colocou como um tipo de salvador dos oprimidos e explorados.

Na verdade, o que se vê na Venezuela é a batalha das ideias, com o povo percebendo, cada vez mais, quais valores ideológicos e políticos refletem os seus interesses, em oposição ao pensamento da burguesia. E isso não é culto à personalidade!

Bom, Chávez sempre foi vítima também de juízos precipitados provindos de setores de esquerda.

Sobre a acusação de populista, isso não só provinha do campo das forças de direita, mas também de áreas tidas como progressistas. Ora, populismo é uma característica de políticos que fingem estar ao lado do povo, ser um dos seus, fingindo que gostam do cotidiano da gente explorada, dizendo que vão acabar com todos os tipos de privilégios, que apresentam soluções mágicas para os problemas dos explorados, que não dialogam com as pessoas, que escondem as causas da situação de pobreza em que vivem as massas trabalhadores, que se colocam com salvadores do povo, que em nenhum momento fazem crítica ao sistema econômico-social vigente, que, em relação aos que exploram a classe trabalhadora, se colocam como um justiceiro moral, falando em cadeia para os desonestos, procurando com estes artifícios evitar que o povo se assuma como sujeito de seu destino, das verdadeiras soluções de seus problemas.

O populista é uma espécie de mágico da política, coloca-se como um tipo de milagreiro, buscando abafar a tendência à insurgência das vítimas da ordem socioeconômica vigente. Sabe que, se o povo se conscientiza politicamente, tornando-se sujeito de sua própria luta, ele não será mais ouvido.

Hugo Chávez era exatamente o contrário de tudo isso. Para início de conversa, nunca se colocou como salvador do povo, sempre dizendo que a obra de libertação da classe trabalhadora é obra dela própria. Como agente do processo de luta revolucionária do povo venezuelano, Chávez apenas atinava para o fato de que existe o papel do indivíduo nas lutas sociais de transformação, mas compreendendo que tal indivíduo não é produto de si mesmo, é intérprete ativo dos anseios populares.

Chávez foi o líder que foi, sendo uma referência, não só para as lutas revolucionárias de América Latina, mas também para as forças de mudança de praticamente todo o mundo, exatamente por ser antes de tudo, o intérprete prático dos que precisam lutar pela sua libertação. Não foi por acaso que as esquerdas de várias partes do mundo, que em geral não se unem, uniam-se na defesa da candidatura de Chávez à presidência da República. Obviamente, isso só foi possível, graças à identificação com as ideias, práticas e coerências do líder maior da luta pela unidade dos povos latino-americanos.

COM A SUA MORTE, CHÁVEZ ESTÁ AUSENTE?

É comum na Venezuela as pessoas do povo afirmarem que Chávez morreu apenas fisicamente, que jamais deixará de estar presente nas lutas da população, por que as ideias e projeto de mundo que defendia não sairão da mente da gente venezuelana. De fato, é o que está acontecendo. O pensamento e exemplos do líder da Revolução Bolivariana são evocados a todo instante das lutas do povo da Venezuela. Para as forças de mudanças de outros países do continente latino-americano e do Caribe, o mesmo fenômeno acontece. Ninguém deveras se esquece de que foi ele que, como ninguém, colocou a necessidade de se retomar a luta pelo socialismo, num contexto em que as esquerdas em geral, como nunca, estavam encolhidas em relação a esta questão, que foi ele que, ao defender o que ele chama de Socialismo do Século XXI, impulsionou práticas de construção do poder popular, comunal, compreendendo ser este o caminho para a construção do socialismo.

Mesmo boa parte da esquerda latino-americana, que tinha divergências teóricas com Chávez, aproximou-se efetivamente do líder bolivariano, defendendo-o dos ataques do imperialismo e do seu séquito externo.

Mas, não são só as esquerdas que veem um Chávez que não morre na consciência de muita gente do povo; com preocupação, o imperialismo e capitalistas de todos os tipos também percebem isso. Por isso, mantêm os mesmos ataques à pessoa de Chávez. Certos de que ele está vivo nas lutas do povo, inspirando explorados a ações contra as oligarquias e o capitalismo, tratando o maior defensor de uma América Latina unida – com povos protagônicos, sujeitos conscientes das lutas por uma nova sociedade –como o seu grande inimigo. Sua meta, agora, é a morte ideológica de Chávez, recorrendo, nesta tentativa, a todos os recursos de que dispõem. Procuram passar a ideia de que Chávez é exatamente o contrário do que foi e continua sendo para a gente venezuelana e para os povos latino-americanos. Usam seus intelectuais orgânicos e sua mídia para deformar as suas ideias.

O ódio do poder econômico e seus ideólogos ao chavismo é mais uma prova de que Chávez morreu apenas fisicamente.

PRESIDENTE CHÁVEZ, UM HOMEM RENASCENTISTA DO SÉCULO XXI (JAMES PETRAS)

30/03/2013

O presidente Hugo Chávez foi um homem único em múltiplas áreas da vida política, social e econômica, tendo dado importantes contribuições para o avanço da humanidade. A profundidade, o alcance e a popularidade de seus sucessos distinguem-no como o “presidente renascentista do século XXI”.

Muitos autores assinalaram uma ou outra de suas contribuições históricas, destacando as leis para combater a pobreza, a capacidade de ganhar eleições populares com grande maioria, e sua defesa da educação e da saúde públicas, gratuitas e universais, para todos os venezuelanos.

Neste artigo, destacaremos as singulares contribuições históricas que o presidente Chávez deu, no âmbito da economia política, da ética e do direito internacional, e na redefinição das relações entre os líderes políticos e os cidadãos. Começaremos com sua contribuição perdurável, para o desenvolvimento da cultura cívica na Venezuela e em outros países.

Hugo Chávez, o grande mestre dos valores cívicos

Desde seus primeiros dias no cargo, Chávez empreendeu uma mudança constitucional que facilitasse, ante os cidadãos, a prestação de contas dos dirigentes e das instituições políticas. Através de seus discursos, informou ao eleitorado, clara e meticulosamente, sobre as medidas e as leis que serviriam para melhorar seu modo de vida, e o convidou a fazer comentários e críticas. Seu estilo era a criação de um diálogo constante, especialmente com os pobres, os desempregados e os trabalhadores. Teve tanto êxito – em seus ensinamentos ao eleitorado venezuelano, sobre as responsabilidades cívicas – que milhões de habitantes dos bairros pobres de Caracas se levantaram espontaneamente para se oporem à junta militar-empresarial, respaldada pelos Estados Unidos, que tinha sequestrado o presidente e fechado o parlamento. Em 72 horas – um recorde – os cidadãos com consciência cívica restauraram, na Venezuela, a ordem democrática e o governo da lei, rejeitando completamente a defesa dos golpistas e de seu efêmero regime autoritário, feita pelos meios de comunicação.

Chávez, como todos os grandes educadores, aprendeu, com esta intervenção democrática da massa cidadã, que os defensores mais efetivos da democracia estavam no meio da população trabalhadora, e que seus piores inimigos se achavam nas elites empresariais e nos oficiais do exército com contatos em Miami e Washington.

A pedagogia cívica de Chávez batia o pé na importância dos ensinamentos e nos exemplos históricos dos pais-fundadores da nação, como Simón Bolívar, na hora de criar uma identidade nacional e latino-americana. Seus discursos elevaram o nível cultural de milhões de venezuelanos que tinham crescido no meio da cultura servil e alienante, de Washington, e das obsessões consumistas que os grandes centros comerciais de Miami provocavam.

Chávez conseguiu infundir uma cultura de solidariedade e de apoio mútuo entre os explorados, destacando a importância dos vínculos “horizontais” frente à dependência clientelar vertical dos ricos e poderosos. Seu triunfo na criação de uma consciência coletiva afetou decisivamente o equilíbrio de poder, tirando-o dos governantes endinheirados, dos partidos políticos e dos sindicatos corruptos, e orientando-o na direção dos novos movimentos socialistas e sindicatos de classe. O que mais provocou a cólera histérica dos venezuelanos ricos e seu ódio imperecível ao presidente – que tinha criado um sentido de autonomia, dignidade e “empoderamento de classe” – foi a educação política que Chávez realizou, explicando, à maioria do povo, seu direito de desfrutar de uma saúde e uma educação superior gratuitas, de salários dignos e pleno emprego – o que conseguiu através de uma educação pública que acabou com séculos de privilégios e onipotência das elites.

É preciso destacar que os discursos de Chávez, com ensinamentos – tanto de Bolívar, como de Karl Marx – criaram um importante e generoso sentimento, patriótico e nacional, e uma profunda rejeição à elite prostrada aos pés de Washington, aos banqueiros de Wall Street, e aos executivos das companhias petroleiras. Os discursos antiimperialistas de Chávez tinham eco, porque – utilizando a linguagem das pessoas comuns – ampliavam sua consciência nacional até conseguirem sua identificação com a América Latina, especialmente com a luta cubana contra as intervenções e as guerras imperialistas.

As relações internacionais e a Doutrina Chávez

No início da década anterior, depois do 11 de setembro de 2001, Washington declarou a “Guerra ao Terror”. Foi uma declaração pública que abria a porta a intervenções militares unilaterais e guerras contra nações soberanas, movimentos e indivíduos considerados como adversários – em violação ao direito internacional.

Quase todos os países cederam ante essa flagrante violação dos Acordos de Genebra, mas não o presidente Chávez, que refutou Washington da forma mais profunda e simples: “Não se combate o terrorismo com terrorismo de Estado”. Na defesa da soberania das nações e da jurisprudência internacional, Chávez enfatizou a importância de encontrar as soluções políticas e econômicas para os problemas e conflitos sociais, repudiando as bombas, a tortura e o caos. A Doutrina Chávez batia o pé no comércio e nos investimentos Sul-Sul, e na solução diplomática e não-militar dos conflitos. Defendeu os Acordos de Genebra frente à agressão colonialista e imperialista, ao mesmo tempo em que rejeitava a doutrina imperial da “Guerra contra o Terror”, definindo o terrorismo de Estado ocidental como perigosamente similar ao da Al-Qaeda.

A grande síntese entre a teoria e prática política

Um dos aspectos mais profundos e influentes do legado de Chávez é sua síntese original, de três grandes correntes do pensamento político: o cristianismo popular; o nacionalismo e a integração regional bolivarianos; e o pensamento político, social e econômico do marxismo. O cristianismo de Chávez inculcou nele uma profunda crença na justiça e na igualdade das pessoas, assim como na generosidade e no perdão aos adversários, embora tivessem participado de um golpe de Estado violento, de uma greve patronal asfixiante, ou tivessem colaborado abertamente e recebido financiamento de organismos de inteligência inimigos. Enquanto, em qualquer outro lugar do mundo, quem dá um golpe de Estado enfrenta condenações à prisão ou, inclusive, a execuções, a maior parte dos golpistas contra Chávez evitou a ação judicial e, inclusive, voltou a tomar parte nas organizações subversivas. Chávez demonstrou uma firme crença na redenção e no perdão. Seu cristianismo faz parte da “opção pelos pobres”, da amplitude e da profundidade de seu compromisso com a erradicação da pobreza, e de sua solidariedade com os pobres frente aos ricos.

A aversão profunda de Chávez e sua oposição eficaz, ao imperialismo norte-americano e europeu e ao brutal colonialismo israelense, estavam profundamente arraigadas em sua interpretação dos escritos e da história de Simón Bolívar, o fundador da pátria venezuelana. As ideias bolivarianas sobre libertação nacional são bem anteriores a qualquer contato com escritos de Marx, Lênin ou de outros autores antiimperialistas mais contemporâneos. Sua forte e inquebrantável defesa da integração regional e do internacionalismo estava muito influenciada pelos “Estados Unidos Latino-americanos” propostos por Simón Bolívar e por sua atividade internacionalista em apoio aos movimentos anticolonialistas.

Chávez incorporou suas ideias marxistas a uma prévia visão mundial baseada em sua antiga filosofia internacionalista de talhe cristão e bolivariano. A opção pelos pobres se aprofundou com seu reconhecimento da importância da luta de classes e da reconstrução da nação bolivariana através da socialização das “reuniões de cúpula para o comando da economia”. O conceito socialista de fábricas autogeridas e do poder popular mediante conselhos comunitários adquiriu legitimidade moral, graças à fé cristã numa ordem moral igualitária de Chávez.

Enquanto o Presidente respeitava e escutava, com atenção, as opiniões dos acadêmicos esquerdistas que o visitavam e frequentemente elogiavam seus escritos, muitos destes não chegaram a se dar conta ou, pior ainda, ignoraram deliberadamente a própria síntese original – de história, religião e marxismo – de Chávez. Desgraçadamente, como costuma acontecer, alguns acadêmicos de esquerda acreditavam ser, a partir de sua postura autoindulgente, “professores” e assessores de Chávez sobre qualquer matéria de “teoria marxista”. Falamos desse colonialismo cultural de esquerda que criticou Chávez pejorativamente, por não ter seguido suas prescrições prontas para o consumo, publicadas nas revistas políticas de Londres, Nova York e Paris.

Felizmente, Chávez aproveitou, dos acadêmicos estrangeiros e dos estrategistas políticos financiados por ONGs, o que considerava útil, enquanto descartava aquelas ideias que não levavam em conta as especificidades histórico-culturais venezuelanas, de classe e de Estado rentista.

O método de pensamento que Chávez legou, aos intelectuais e ativistas do mundo, é global e específico; histórico e teórico; material e ético; e abrange análise de classe, democracia e importância espiritual, em ressonância com a grande massa da humanidade, numa linguagem que qualquer pessoa pode entender. A filosofia e a prática de Chávez (mais do que qualquer discurso elaborado em um fórum social por exaltados especialistas) demonstraram que a arte de formular ideias complexas numa linguagem simples pode levar milhões de pessoas a “fazerem história, e não somente a estudá-la…”

Busca de alternativas práticas ao neoliberalismo e ao imperialismo

Talvez a maior contribuição de Chávez seja a de ter demonstrado, através de iniciativas políticas e medidas práticas, que muitos dos maiores desafios políticos e econômicos contemporâneos podem ser resolvidos satisfatoriamente.

A reforma radical de um Estado rentista

Nada apresenta mais dificuldades do que mudar a estrutura social, as instituições e as atitudes de um Estado petroleiro rentista, com políticas clientelistas bem arraigadas, corrupção endêmica do aparato dos partidos e do Estado, e uma psicologia de massas baseada no consumismo. Não obstante, Chávez teve êxito onde outros regimes petroleiros fracassaram. A administração Chávez começou realizando mudanças constitucionais e institucionais, para criar um novo marco político. Depois, pôs em marcha programas sociais que aprofundaram os compromissos políticos de uma maioria ativa, que, por sua vez, defendeu valentemente o regime frente a um golpe de Estado violento, promovido pela elite empresarial e pelo exército, com respaldo dos Estados Unidos. As mobilizações de massa e o apoio popular radicalizaram, por sua vez, o governo de Chávez e prepararam o caminho para uma maior socialização da economia e para a colocação em marcha de uma reforma agrária radical. A indústria do petróleo foi socializada e se aumentaram os impostos e as taxas para conseguir financiar o enorme aumento do gasto social em benefício da maioria dos venezuelanos.

Chávez preparava, praticamente todo dia, palestras educativas, facilmente compreensíveis, sobre temas sociais, éticos e políticos relacionados com os programas redistributivos de seu regime, batendo o pé na solidariedade social frente ao consumismo individualista. As organizações e os movimentos comunitários e sindicais se multiplicaram, criando uma nova consciência social, disposta e desejosa de provocar a mudança social e enfrentar os ricos e poderosos. As vitórias de Chávez, contra o golpe de Estado apoiado pelos EE.UU. e contra as greves patronais, assim como sua afirmação da tradição bolivariana e da identidade soberana da Venezuela, criaram uma consciência nacionalista poderosa que minou a mentalidade rentista e reforçou a busca por uma “economia equilibrada” diversificada. Esta nova vontade política e consciência produtiva nacional implicaram num grande salto para frente, embora ainda persistam os principais traços de uma economia rentista dependente do petróleo. A transição extremamente difícil da Venezuela começou, e se trata de um processo em desenvolvimento. Os teóricos esquerdistas estrangeiros que criticam a “corrupção” e a “burocracia” da Venezuela ignoraram completamente as enormes dificuldades implicadas na passagem de um Estado rentista para uma economia socializada, e o tremendo progresso alcançado por Chávez.

Crise econômica sem austeridade capitalista

Em todo o mundo capitalista arruinado pela crise, os partidos governantes – trabalhistas ou socialdemocratas ou conservadores – impuseram “programas de austeridade” retrógrados que implicam em reduções brutais de benefícios sociais, de gastos em educação e saúde, e em demissões maciças de trabalhadores, enquanto utilizam nossos subsídios para socorrerem bancos e empresas capitalistas quebrados. Fazendo coro com o lema thatcheriano, “não há outra alternativa”, os economistas capitalistas justificam a imposição da carga que “a recuperação capitalista” representa sobre a classe trabalhadora, enquanto permitem ao capital recuperar seus benefícios para poder investir.

A política de Chávez foi exatamente o contrário: em meio à crise, manteve os programas sociais, rejeitou as demissões maciças e aumentou o gasto social. A economia venezuelana toureou a crise mundial e se recuperou com um saudável índice de crescimento, de 5,8% em 2012. Quer dizer, Chávez demonstrou que o empobrecimento maciço era produto da própria “fórmula” capitalista para a recuperação e mostrou outra alternativa para superar a crise econômica: aumento da tributação sobre os ricos, fomento do investimento público e manutenção do gasto social.

Transformação social em uma “economia globalizada”

Muitos analistas – de esquerda, direita e centro – têm defendido que o advento de uma “economia globalizada” descartava as transformações sociais radicais. Não obstante, a Venezuela, que está profundamente globalizada e integrada no mercado mundial através do comércio e dos investimentos, realizou grandes avanços em reformas sociais. O realmente relevante em uma economia global é a natureza do regime político-econômico e dos seus programas, que determina como se distribuem os benefícios e os custos do comércio e o investimento internacional. Em resumo, o que é decisivo é o caráter de classe do regime que gerencia seu lugar na economia mundial. Chávez, sem dúvida, não “desconectou” a Venezuela da economia mundial e, sim, a “reconectou” de uma nova maneira. Direcionou o comércio e o investimento venezuelanos para a América Latina, Ásia e Oriente Próximo, especialmente para países que não intervêm ou impõem condições reacionárias sobre as transações econômicas.

Antiimperialismo em tempos de ofensiva imperialista

Numa época protagonizada por uma intensa ofensiva imperialista, da parte dos Estados Unidos e da União Europeia – que comporta invasões militares “preventivas”, intervenções com mercenários, torturas, assassinatos e ataques com drones no Iraque, Mali, Síria, Iêmen, Líbia e Afeganistão e brutais sanções econômicas contra o Irã; expulsões colonialistas israelenses de milhares de palestinos com o apoio dos EE.UU.; golpes de Estado com respaldo norte-americano em Honduras e Paraguai, e revoluções abortadas, por meio de títeres, no Egito e Túnis – o presidente Chávez, sozinho, manteve-se como o principal defensor da política antiimperialista. Seu profundo compromisso antiimperialista marca um contraste agudo com a capitulação, ao modo ocidental, de certos intelectuais “marxistas” que sustentaram justificativas rudimentares para explicarem seu apoio aos bombardeios da OTAN sobre a Iugoslávia e a Líbia; a invasão francesa de Mali e o financiamento saudi-francês (“monarco-socialista”) dos mercenários islamitas; e o equipamento militar contra a Síria. Os mesmos “intelectuais” de Londres, Paris e Nova York que, condescendentemente, tratavam Chávez de “populista” ou “nacionalista”, recriminando-o por não ter escutado seus conselhos ou lido seus livros, capitularam toscamente sob a pressão do Estado e dos meios de comunicação capitalistas, prestando seu apoio a “intervenções humanitárias” (quer dizer, bombardeios da OTAN)… e justificando seu oportunismo numa linguagem de obscuras seitas esquerdistas.

Chávez enfrentou as pressões e ameaças da OTAN, a subversão desestabilizadora de seus adversários internos, e articulou valorosamente os princípios mais profundos e significativos do marxismo dos séculos XX e XXI: o direito inalienável à autodeterminação das nações oprimidas e a oposição incondicional às guerras imperialistas. Enquanto Chávez falava e atuava na defesa dos princípios antiimperialistas, muitos europeus e norte-americanos de esquerda consentiam com as guerras imperiais: não havia protestos maciços; os movimentos contra a guerra tinham sido assimilados ou estavam moribundos; o partido “socialista” dos trabalhadores britânicos defendia os bombardeios maciços da Líbia; os “socialistas” franceses invadiam Mali – com o apoio do partido “anticapitalista”. Enquanto isso, o “populista” Chávez desenvolvia uma compreensão dos princípios e da prática marxistas, muito mais profunda em qualquer caso, do que a de seus autodesignados “tutores” marxistas estrangeiros.

Não houve nenhum outro dirigente político, nem intelectual de esquerda, que tenha desenvolvido, aprofundado e ampliado, na era da guerra imperialista global, os princípios fundamentais da política antiimperialista com maior agudeza do que Hugo Chávez.

Transição de um Estado neoliberal fracassado para um Estado do bem-estar dinâmico

A reorganização programática e global da Venezuela e sua transformação, de um regime neoliberal desastroso e falido para um Estado de bem-estar dinâmico, é um marco histórico na economia política dos séculos XX e XXI. A reconversão bem sucedida das políticas e instituições neoliberais, assim como a nova nacionalização das “reuniões de cúpula de comando da economia”, demoliram o dogma neoliberal reinante, derivado da era Thatcher-Reagan e resumido no lema “Não há alternativa” às brutais políticas neoliberais.

Chávez rejeitava as privatizações; de fato, voltou a nacionalizar as indústrias-chave relacionadas ao petróleo; socializou centenas de empresas capitalistas e desenvolveu um extenso programa de reforma agrária, incluindo distribuição de terras a 300.000 famílias. Fomentou as organizações sindicais e o controle operário das fábricas, em oposição, inclusive, a administradores públicos e a seu próprio gabinete de ministros. Na América Latina, Chávez mostrou o caminho para definir, com maior precisão e com mudanças sociais mais gerais, a era pós-neoliberal. Chávez visualizou a transição do neoliberalismo para um novo Estado do bem-estar socializado, como um processo internacional, e proporcionou fundos e apoio político às novas organizações regionais, como a ALBA, PetroCaribe e UNASUR. Rejeitava a ideia de construir o Estado do bem-estar num só país, motivo pelo qual formulou uma teoria das transições pós-neoliberais, baseada na solidariedade internacional. As ideias e as políticas originais de Chávez, em relação à transição para superar o neoliberalismo, passaram despercebidas para os marxistas de gabinete e para os especialistas viajantes das ONGs do Fórum Social, cujas “alternativas globais” sem importância serviram fundamentalmente para conseguir recursos de fundações ocidentais.

Chávez demonstrou, por meio da teoria e da prática, a possibilidade de superar o neoliberalismo, o que supõe um descobrimento político fundamental pra o Século XXI.

Mais além do liberalismo social: definição radical do pós-neoliberalismo

Os regimes neoliberais promovidos pelos EE.UU. e pela UE desmoronaram sob o peso da maior crise econômica desde a Grande Depressão. O desemprego maciço provocou revoltas populares, novas eleições e o surgimento, na maior parte da América Latina, de regimes de centro-esquerda que rejeitavam ou, pelo menos, diziam repudiar o “neoliberalismo”. A maior parte destes governos promulgou leis e decretos para financiar programas contra a pobreza, ativar controles financeiros e realizar investimentos produtivos, ao mesmo tempo em que aumentava o salário mínimo e estimulava o emprego. Não obstante, foram poucas as empresas lucrativas que foram nacionalizadas. Em sua agenda, não estava incluído tratar das desigualdades e da concentração de riqueza. Formularam uma estratégia que consiste em trabalhar com os investidores de Wall Street, os exportadores locais agromineradores e os sindicatos digeridos.

Chávez propôs uma alternativa completamente diferente a esta forma de “pós-neoliberalismo”: nacionalizou as indústrias de matérias-primas, deixou fora os especuladores de Wall Street e limitou o papel das elites vinculadas à agroindústria e à mineração. Projetou um Estado do bem-estar socializado como alternativa à ortodoxia social-liberal imperante nos governos de centro-esquerda, embora trabalhasse com estes governos na integração latino-americana e na oposição aos golpes de Estado promovidos pelos EE.UU.

Chávez foi o líder que definiu uma alternativa mais socializada para a libertação social e para a consciência que preocupava seus aliados para avançar mais além.

Socialismo e democracia

Chávez inaugurou um novo, e extraordinariamente original e complexo, caminho ao socialismo, baseado em eleições livres; reeducação do estamento militar para defender os princípios democráticos e constitucionais; e desenvolvimento dos meios de comunicação de massa e comunitários. Acabou com o monopólio capitalista dos meios de comunicação e reforçou a sociedade civil, como forma de resistir à intenção de paramilitares e quinta-colunistas apoiados pelos Estados Unidos para desestabilizarem o Estado democrático.

Nenhum outro presidente democrata-socialista resistiu com êxito às campanhas de desestabilização promovidas pelo império (nem Jagan na Guiana, nem Manley na Jamaica, nem Allende no Chile). Desde o princípio, Chávez compreendeu a importância de criar um sólido marco legal e político para facilitar sua liderança executiva, promover as organizações populares da sociedade civil e acabar com a influência norte-americana no aparato do Estado (polícia e exército). Ativou programas radicais de grande impacto social que lhe asseguraram a lealdade e fidelidade das maiorias populares e debilitaram os tentáculos econômicos do poder político exercido pela classe capitalista desde há muito tempo. Como resultado, os dirigentes políticos, os soldados e oficiais leais à constituição, e as massas populares esmagaram um sangrento golpe direitista, uma asfixiante greve petroleira, um referendo financiado pelos Estados Unidos, e se promoveram reformas socioeconômicas ainda maiores, em um processo continuado e crescente de socialização.

A originalidade de Chávez, em parte fruto de um processo de tentativa e erro, tinha as raízes em seu “método experimental”: Sua profunda compreensão das atitudes e comportamentos populares estava fortemente enraizada na história de injustiças raciais e de classe, e da rebeldia popular da Venezuela. Chávez viajou, conversou e ouviu as classes populares da Venezuela falarem das coisas cotidianas. Seu “método” era transportar o conhecimento, baseado no pequeno, para grandes programas de mudanças. Na prática, era a antítese desses intelectuais ‘sabe-tudo’, estrangeiros e locais, que literalmente se dirigem às pessoas, de cima para baixo, e que consideram a si mesmos os “mestres do mundo”… pelo menos, no micromundo acadêmico das esquerdas, conferências socialistas endogâmicas e monólogos ególatras. A morte de Hugo Chávez foi chorada por milhões de pessoas na Venezuela, e por centenas de milhões em todo o mundo, porque sua transição ao socialismo era o seu próprio caminho; porque ouviu suas demandas e, em consequência delas, atuou com eficácia.

A socialdemocracia e a segurança nacional

Durante mais de 13 anos, Chávez foi um presidente socialista que enfrentou uma oposição, violenta e prolongada em grande escala, e sabotagens financeiras de Washington, da elite econômica local e dos magnatas dos meios de comunicação. Foi o artesão da consciência política que deu motivação a milhões de trabalhadores e assegurou a lealdade constitucional do exército para vencer o golpe militar-empresarial apoiado pelos Estados Unidos em 2002. Chávez adaptava as mudanças sociais de acordo com uma avaliação realista do que podia encaixar dentro da ordem político-legal. E, sobretudo, Chávez se assegurou da lealdade dos militares, pondo fim aos “assessores” norte-americanos e à doutrinação imperial no estrangeiro, promovendo, em seu lugar, cursos intensivos sobre a história venezuelana, a responsabilidade cívica e o vínculo fundamental que deve unir as classes populares e os militares numa missão nacional comum.

As políticas de segurança nacional de Chávez se baseavam em princípios democráticos e no claro reconhecimento das graves ameaças que avançavam sobre a soberania do país. Conseguiu, ao mesmo tempo, salvaguardar a segurança nacional e os direitos democráticos e liberdades políticas de seus cidadãos, uma proeza que granjeou para a Venezuela a admiração e a inveja de advogados constitucionalistas e de cidadãos dos Estados Unidos e da UE.

Ao contrário, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, arrogou-se o poder de assassinar, com base em informações secretas e sem juízo prévio, dentro ou fora dos EE.UU. Sua administração assassinou cidadãos norte-americanos “selecionados” e seus filhos, encarcerou outros sem julgamento e mantém “arquivos” secretos sobre 40 milhões de estadunidenses. Chávez nunca se atribuiu esses poderes, nem assassinou ou torturou um só venezuelano. A dúzia de prisioneiros convictos de atos violentos de subversão, julgados publicamente nos tribunais da Venezuela, oferece um agudo contraste com as dezenas de milhares de imigrantes muçulmanos e latino-americanos encarcerados e, secretamente, considerados culpados nos Estados Unidos. Chávez se opôs ao terror de Estado, enquanto Obama conta com equipes especiais para realizarem assassinatos no solo de mais de 70 países. Obama respalda a invasão policial arbitrária de lares e locais de trabalho “suspeitos”, segundo “provas secretas”, enquanto Chávez chegou a tolerar as atividades de conhecidos partidos da oposição financiados pela CIA. Quer dizer, Obama utiliza a “segurança nacional” para destruir as liberdades democráticas, enquanto Chávez fez respeitar as liberdades democráticas e impôs limites constitucionais ao aparato de segurança nacional.

Chávez procurou uma resolução diplomática e pacífica para os conflitos com vizinhos hostis, como a Colômbia, que alberga sete bases militares norte-americanas, potenciais trampolins para uma intervenção norte-americana. Por outro lado, Obama está implicado em guerras abertas com, pelo menos, sete países, e realizou ações hostis disfarçadas contra muitos outros mais.

Conclusão

O legado de Chávez possui múltiplas facetas. Suas contribuições são originais, teóricas e práticas, e de relevância universal. Demonstrou, na prática, como um pequeno país pode defender-se contra o imperialismo, manter os princípios democráticos e, ao mesmo tempo, ativar programas sociais avançados. Sua busca da integração regional e sua promoção dos valores éticos no governo da nação são exemplos relevantes, num mundo capitalista inundado de políticos corruptos que baixam o nível de vida de suas populações, enquanto enriquecem os plutocratas.

A rejeição de Chávez à doutrina Bush-Obama (que justifica o “terrorismo de Estado para combater o terror”), sua afirmação de que as raízes da violência são a injustiça social, o assalto econômico e a opressão política, e sua crença em que o caminho para a paz passa pela resolução destes temas fundamentais supõem um guia ético-político para a sobrevivência da humanidade.

Enfrentando um mundo violento de contrarrevolução imperial e decidido a estar do lado dos oprimidos do mundo, Hugo Chávez passa a tomar parte da história mundial como um dirigente político completo, com a estatura do líder mais humano e multifacetado de nossa época: Uma figura do renascimento para o Século XXI.

Traduzido para o ‘Rebelión’ por Paco Muñoz de Bustillo

Rebelión publicou este artigo com a permissão do autor, por meio de uma licença da Creative Commons, respeitando sua liberdade para publicá-lo em outras fontes.

ESTAMOS SEM HUGO CHÁVEZ, A AMÉRICA LATINA ESTÁ DE LUTO

06/03/2013

Os povos latino-americanos estamos em momento de grande tristeza: Chávez já não está fisicamente conosco. Deu sua vida pela vida da América Latina. É ele dos que vão e ficam, como Simón Bolivar, Gervasio Artigas, Carlos Mariátegui, Tupac Amaru, Luís Carlos Prestes, Che Guevara, José Martí, Julio Mella, Tupac Katari, Carlos Marighella, Gaitán, Sandino, Salvador Allende, Zapata e tantos outros próceres da Nossa América. É um exemplo a ser seguido por todos os humanistas e revolucionários do nosso continente e do mundo. Quem é contra a exploração e opressão do homem pelo homem, que sonha e luta por uma nova humanidade, fundamentada na igualdade, sempre se sentirá acompanhado por ele.

Revolucionário, Chávez entendia que o ponto culminante da unidade de nossos povos é o socialismo, que, a seu ver, é a sociedade do amor e da felicidade.

Morre Chávez, mas não morre seu ideário de esperança, incrustado na alma do povo venezuelano e no sonho dos que lutam por uma América Latina definitivamente livre e igualitária.

Chávez é criatura de um momento histórico em que a América Latina decidiu não ser mais a mesma, amparando-se cada vez mais no brado e ideias dos que colocaram a sua vida a serviço de sua libertação.

Prestamos nossa solidariedade ao povo da Venezuela, neste momento de dor e tristeza, que também é nosso. Tristes, porém comprometidos com o sonho de seu líder máximo, que por ser seu, também é nosso.

Comitê Bolivariano de São Paulo

HAITI – ALEXANDRE PETIÓN (1770-1818)

10/10/2012

CONTEXTO:

– Mundial: Os Estados Unidos emergem como nova potência.

– América Latina: Tempos de lutas de emancipação.

– Haiti: A ilha La Española estava dividida entre Espanha e França. Os Estados Unidos proíbem o comércio com a nova república haitiana.

 

ANTECEDENTES:

– A Revolução Francesa de 1789 tinha enviado uma onda de otimismo às suas colônias. As bandeiras de Igualdade, Liberdade e Fraternidade foram erguidas pelo povo do Haiti, ainda que a Metrópole não aplicasse esses princípios às suas colônias.

 

DADOS BIOGRÁFICOS:

– No final do século XVIII e no começo do século XIX, muitos homens lutaram pela independência do Haiti. Entre eles, estava Alexandre Petión. Petión é considerado como o Fundador da República do Haiti. Nasceu em Porto Príncipe, em 2 de abril de 1770, filho de pai francês e de mãe negra. Aos 18 anos, realizou estudos militares na Academia Militar de Paris. Participou da expulsão dos ingleses da ilha (1798). Retornou do exílio em 1802 com as tropas francesas de Leclerc, mas se juntou aos patriotas, porque temia a volta da escravidão. Junto a Jean-Jacques Dessaline, Petión organizou a independência do Haiti, a primeira da Nossa América, declarada em 1.º de janeiro de 1804. Depois da morte de Dessaline, Petión foi eleito presidente da primeira república negra do mundo, em 9 de março de 1806, cargo que ocupou até sua morte, em 29 de março de 1818. Durante seu governo, o Haiti começou a ajudar os seus vizinhos da América do Sul a obterem sua liberdade.

 

SÍNTESE DE SUA ATUAÇÃO:

– Em seu mandato, confiscou as plantações dos franceses; dividiu as terras entre seus soldados e camponeses; baixou o preço delas e deu liberdade plena ao seu povo.

Petión forneceu os meios de que Bolívar precisava para ir em frente na sua campanha libertadora: dinheiro, armas, víveres, munições e também soldados voluntários haitianos para participarem de sua luta. Contudo, procurou evitar o protagonismo. Temia que os espanhóis incentivassem uma represália dos franceses no Haiti. Petión não só deu apoio militar, mas também a estratégia política para o triunfo, ao solicitar a Bolívar a abolição da escravatura. Bolívar cumpriu. Diante dos legisladores do Congresso de Angostura, o Libertador lhes disse: “Imploro-lhes pelo fim da escravidão como o faria pela minha própria vida.” Os negros de Boves, antes contra o Libertador, passaram de imediato para o exército patriota. O espírito de Alexandre Petión viveu a façanha libertadora, desde seu início até o seu final. Os soldados haitianos integraram o exército de Bolívar no Alto Peru e tiveram um papel destacado na batalha de Ayacucho. O apego de Petión à justiça o impulsionou a enviar carregamentos de café e alimentos à resistência do povo grego, que lutava contra a dominação do Império Turco. Recebeu exilados políticos de todo o continente, entre eles, o coronel Manuel Dorrego, expulso de sua terra durante as lutas civis do Rio da Prata.

Em correspondência entre Bolívar e Petión, ficou claro que este último se negava a que Bolívar o apresentasse ao mundo como “autor de nossa liberdade”.

 

SÍNTESE DE SEU PENSAMENTO:

Depois de sua viagem ao Haiti, Simón Bolívar incorpora à causa da independência a luta pela igualdade, fortalecendo o conteúdo social do seu programa, contando, em decorrência, com mais apoio de gente do povo. O apoio material foi muito importante, porém, a contribuição ideológica de Petión foi determinante: unir as idéias de igualdade e liberdade.

Desde esse momento, a façanha bolivariana, ao assumir contendas nacional e social, comoveu o continente. Petión, acossado pelas grandes potências, estava convencido de que somente a independência de toda a América garantiria a do Haiti.

 

CITAÇÕES IMPORTANTES:

O Libertador, ao render homenagem, disse a populações da Venezuela, em 22 de outubro de 1818… ”Perdida Venezuela e Nova Granada, a ilha do Haiti me recebeu com hospitalidade: o magnânimo presidente Petión me deu sua proteção e, sob seus auspícios, formei uma expedição de 300 homens comparáveis em valor, patriotismo e virtude aos companheiros de Leônidas…”

 

TRANSCENDÊNCIA:

O líder haitiano é precursor da causa emancipadora, e suas idéias igualitárias servem de base para a construção dos ideais socialistas.

Comitê Bolivariano de São Paulo

A LENDA DE MANUELA SÁENZ (A LIBERTADORA DO LIBERTADOR)

29/09/2012

Dentro de uma perspectiva contemporânea, muitas latino-americanas, nos dias de hoje, se identificam com aquela célebre quitenha, Manuela Sáenz, lendariamente conhecida como a “Libertadora do Libertador”.

Uma vida intensa de 59 anos foi a daquela mulher, que nasceu em Quito, no Equador, no fim do século XVIII, tendo morrido na pobreza, em Lima, sob o esquecimento das autoridades. Sobre ela pesa a injustiça dos homens e também a manipulação historiográfica.

Durante os episódios de sua existência, vinculados em essência à obra revolucionária de Simón Bolívar, que não foi apenas o seu amor, mas também a possibilidade para que ela tivesse protagonismo histórico, num ambiente de lutas e no complexo processo de independência da América do Sul.

Manuela Sáenz foi a expressão de ousadia e a manifestação mais consciente do sentido de autoestima das mulheres, muitas em silêncio naqueles históricos dias, mas presentes no aspecto afetivo, no conjunto daquelas longas e duras batalhas políticas, sociais e militares.

Reconhecida pelo próprio Bolívar como companheira, tanto na relação íntima como na identificação de ideias, Manuela, filha de um espanhol conservador, legitimista, e de uma quitenha, também de espírito rebelde, assumiu na juventude como sua a ideologia independentista.

Tanto Manuela como a sua mãe adotaram esses ideais, em oposição à atitude paterna. Por assumir tais ideias, a jovem foi internada no Convento de Santa Catalina, onde aprendeu a ler, rezar e pensar.

Com apenas 20 anos se casou com o comerciante inglês, Jaime Thorne, muito mais velho que ela. Tendo conseguido, com tal união, certa margem de independência, mais que em seu lar, mudou-se para Lima. Nesta cidade, não reinavam os ideólogos da revolução, mas sim o peso do colonialismo, incrustado nesta urbe, que seria um dos bastiões das ideias mais atrasadas, até o final da contenda e a batalha de Ayacucho.

Durante a campanha peruana do general José de San Martín, na condição de membro ativo da conspiração contra o vice-rei, José de la Serna e Hinojosa, ao ser declarada a independência do Peru, Manuela Sáenz prestaria valiosos serviços à causa independentista. Isto lhe propiciaria, em 1822, a Ordem do Sol. Na inscrição em que ostenta a condecoração, resumem-se os valores daquela sul-americana: “Ao patriotismo das mais sensíveis”.

Posteriormente, já separada do esposo, em visita a Quito, sua terra natal, ocorre o seu encontro com Simón Bolívar, quando o Libertador emergiu no panorama como a máxima esperança dos revolucionários do continente, entrando naquela cidade equatoriana em 16 de junho de 1822.

Assim, ela se uniria aos exércitos bolivarianos e, inclusive, chegaria ao grau de “coronel”, segundo se afirma, tendo sido vista montada num cavalo, com um sabre na mão, em motim acontecido em Quito.

Quando o Libertador partiu para o Peru, Manuela se uniu a ele, fazendo-se presente em todo aquele complicadíssimo processo político-militar, tanto em Lima como em Trujillo.

A abundante troca de cartas expressa a fluidez da relação dos dois amantes, num contexto em que imperavam – apesar das batalhas revolucionárias em evidência – os códigos de ética de uma sociedade patriarcal, em que mulheres como Manuela Sáenz eram vistas como verdadeiras transgressoras.

No Palácio da Magdalena, próximo a Lima, coabitaria com Bolívar. Depois da saída do general venezuelano, em setembro de 1826, permaneceria num ambiente, o da sociedade limenha, que lhe seria muito hostil, onde, finalmente, sempre em defesa do ideário bolivariano, enfrentaria a reação, até ser presa e enviada posteriormente ao desterro, em 1827.

Inicialmente, a heroína se instalou em Quito, depois, Bogotá em 1828, encontrando-se mais tarde com Bolívar, ambos enfrentando as intrigas e o jogo da traição contra o Libertador; até que ocorresse o conhecido episódio dos conjurados.

Em 25 de setembro de 1828, tentaram assassiná-lo, fato que proporcionou, para sempre, protagonismo a Manuela Sáenz, ao providenciar a fuga de Bolívar através de uma janela do Palácio do Governo.

Depois, aconteceram dias difíceis para ela, ao conhecer, em Guadas, terras neogranadinas, em 1830, quando se dá a morte de Bolívar. E começa, frente à reação, a luta, por meio da palavra impressa, em defesa das ideias do grande caraquenho. O que causou a sua expulsão do território.

De Kingston, capital da Jamaica, onde moraria por um ano, escreveria ao general Juan José Flores, presidente do Equador, que lhe concedeu um salvo-conduto. Contudo, quando voltou à terra natal, não pôde entrar em Quito. Suas credenciais foram consideradas inválidas, já que o mandatário tinha perdido o poder.

Pobre, com seus bens confiscados na Colômbia, Manuela Sáenz foi morar em Paita, ao norte do Peru, onde se mantinha de um modesto comércio de fumo. Vencida sua saúde, sob depressão decorrente de tanta miséria e infâmias, contraiu difteria, doença que provocou a morte desta valorosa mulher, nossa contemporânea.

Mercedes Santos Moray

Escritora e jornalista cubana, doutora em Ciências Históricas

VENEZUELA – A LUTA DE GUAICAIPURO

12/01/2011

Os colonizadores espanhóis acharam ouro na região de Los Teques. Procuraram logo povoar toda a localidade para levarem esta riqueza. O que causou a reação do cacique Guaicaipuro, que, juntando-se a outros caciques, obrigou os invasores a deixarem todo esse espaço, em debandada.

Após tal derrota, o governador da Província da Venezuela, Pablo de Collado, mandou Juan Rodríguez atacar Guaicaipuro e seus aliados. Rodríguez ataca a resistência indígena, dominando a região rebelada e deixa mineiros com a responsabilidade de cuidarem da área, os quais acabaram sendo mortos pelos índios, em contra-ataque.

Outras ações, em forma de emboscadas, foram efetuadas por Guaicaipuro, nesta luta de resistência ao colonizador.

Esses fatos fazem de Guaicaipuro líder das tribos de Caracas, garantindo uma unidade decisiva para que ocorressem vitórias, por muito tempo, das coletividades indígenas; episódios que, cada vez mais, colocavam em polvorosa o conquistador espanhol.

Frente a uma situação que fugia ao seu controle, devido à genialidade de um líder, que avançava, com sua gente, para outras possíveis façanhas, o governo colonial indicou o capitão Diego Losada para que capturasse Guaicaipuro, vivo ou morto, considerado o seu principal inimigo, por não aceitar o seu domínio sobre as terras indígenas.

Os espanhóis, contando com algumas traições, acabaram por localizar a choça de Guaicaipuro. Ao ser atacado, este lendário revolucionário, com sua morada em chamas, enfrenta as lanças dos inimigos, avançando valentemente sobre eles, sendo lancetado e morto.

Depois, com o passar dos anos, como acontece com todos os grandes revolucionários e heróis, com medo da influência de seu exemplo junto às novas gerações, historiadores de ideologia conservadora, a serviço de oligarquias, vêm procurando deturpar a imagem desse histórico comandante indígena, tentando convencer as pessoas de que ele se suicidou, tendo ele próprio queimado a sua choça.

Contudo, não tem faltado historiadores sérios, como Oviedo Baños, autor do livro ‘História da Conquista e da População da Província da Venezuela’, agindo contra os que distorcem uma figura e um dos momentos de glória das primeiras lutas de resistência de um povo contra a dominação.

Guaicaipuro na memória do povo

A tentativa de desfiguração da imagem de Guaicaipuro e do seu exemplo, entretanto, não conseguiu evitar que as pessoas na Venezuela vejam, nessa figura histórica, um dos seus heróis, entre os iniciadores de um processo de resistência à dominação, que passaria por Bolívar e outros independentistas, chegando, no momento, às ações populares por uma Venezuela socialista.

Com o governo de Hugo Chávez, preocupado em resgatar a memória de líderes das lutas históricas do povo venezuelano e da América Latina, ao longo de 500 anos de dominação e exploração colonial e pós-colonial, os restos mortais de Guaicaipuro foram levados para o Panteón Nacional, de forma simbólica, em 2001, ficando ao lado de Simón Bolívar e de outros próceres da Venezuela. Em 2003, é criada a Misión Guaicaipuro, voltada para reivindicações sociais, políticas e econômicas das diversas etnias.

Conclusões

Toda luta contra a opressão é revolucionária. No caso de Guaicaipuro, sua luta foi contra o opressor, para preservar o que originalmente era de seu povo: a terra, sem a qual perderia o direito à própria vida.

Por ser considerado um dos primeiros revolucionários da história da Venezuela, exemplo heróico de apego à sua gente, para que não fosse dominada, hoje, o povo venezuelano, na sua luta por uma nova Venezuela, em que reinem a justiça e a igualdade, inspira-se também nele, evocando-o nas suas lutas por mudança.

Comitê Bolivariano de São Paulo

URUGUAI – JOSÉ GERVASIO ARTIGAS (1764-1850)

06/05/2010

Nasceu em 19 de junho de 1764 em Montevidéu. Pertencia a uma família cujas origens se vinculavam aos fundadores da cidade. Quando jovem, trabalhou no campo. Ingressou no regimento de Blandengues de Fronteras, onde se tornou oficial. Participou da Reconquista de Buenos Aires contra as Invasões Inglesas, de 1806 e 1807.

Em 1811, deserta do lado espanhol, quando o novo vice-rei desconhece a junta revolucionária de maio de 1810. O governo revolucionário de Buenos Aires o nomeou Tenente-Coronel. Sua missão era provocar levantes na banda oriental contra os espanhóis; armou uma força militar baseado no grande prestígio que tinha no campo. Encabeçou o Grito de Asencio. Triunfou na batalha de Las Piedras. Participou no Sitio a Montevideo. Teve que lutar contra a oligarquia portenha, as forças espanholas e a invasão portuguesa. Tornou-se o Protector de los Pueblos Libres. Foi derrotado pelos portugueses em Tacuarembó. Foi traído por muitos de seus chefes. Derrotado, finalmente, por um deles em 1920, parte para o seu exílio de 30 anos no Paraguai, onde é recebido pelo Dr. José Gaspar Rodríguez de Francia. Morre em 23 de setembro de 1850.

Síntese de sua atuação:

Em 28 de fevereiro de 1811, inicia-se a revolução na Banda Oriental (o Grito de Asencio). Em 18 de maio, obtém a vitória de “Las Piedras”, o que abre a passagem ao cerco a Montevidéu (ocupado pelos espanhóis). Em julho desse mesmo ano, tropas portuguesas ingressam no território oriental. Buenos Aires abandona Artigas e pactua com o vice-rei Elío. Artigas se transfere ao acampamento de Ayuí, em um processo que é conhecido como o “Exodo Oriental”, onde o povo da planície o segue para proteger-se contra as represálias da Espanha. As relações conflitivas com Buenos Aires, em que predominam tendências centralistas, levam à desobediência de Artigas, que é qualificado como “traidor da pátria” pelo governo portenho. Convoca-se a Assembléia do Ano XIII, onde se estabeleceriam os princípios de governo das províncias de governo do Rio de la Plata. Artigas decide reconhecer a convocatória. Convoca o Congreso de Tres Cruces, em que se origina uma série de instruções para os deputados da Banda Oriental que vão tomar parte da Assembléia do Ano XIII. Os deputados artiguistas são rechaçados, sob pretextos formais. Na realidade, o rechaço se deve ao conteúdo das Instrucciones del Congreso: federalismo, igualitarismo, democracia, independência e unidade. Devia-se evitar que o partido artiguista entrasse em contato com o partido sanmartiniano, ambos opositores à burguesia comercial portenha. Aprofunda-se o conflito com Buenos Aires. Artigas é declarado novamente traidor e o Directorio põe sua cabeça a prêmio.

Sua liderança cresce, obtém o apoio de Misiones, Corrientes, Entre Rios, Santa Fé e Córdoba, além da Banda Oriental, que constituem a Liga de los Pueblos Libres. Artigas é nomeado Protector, desfraldando a luta contra o centralismo e a oligarquia portenha. Desenvolve seu programa revolucionário. É combatido por Buenos Aires e pelo império português, que invade a Banda Oriental, com a participação de representante argentino no Rio de Janeiro visando derrotar Artigas.

San Martí enviou correspondência a Artigas buscando unir sua luta contra o império espanhol, porém as cartas foram interceptadas e nunca chegaram às mãos do líder oriental. Dois lugar-tenentes de Artigas, Estanislau López e Francisco Ramírez, triunfam contra as forças diretoriais (tropas portenhas) na Batalla de Cepeda. Enquanto isso, Artigas cai derrotado frente aos portugueses em Tacuarembó. À sua derrota, segue a traição de seus principais chefes. López e Ramirez assinam um tratado com Buenos Aires às suas costas. Após numerosos enfrentamentos, Artigas é derrotado por Ramírez em Rincón de Abalos, em 24 de julho de 1820. Exila-se no Paraguai.

Síntese de seu pensamento:

Seu pensamento se viu expressado, principalmente no Reglamento de Tierras e nas Instrucciones a los Deputados de la Banda Oriental. Sua doutrina pode ser resumida em :

1-A confederação e a unidade americana.

2-A soberania popular.

3-Igualdade para os índios.

4-A divisão justa de terras.

5-A independência de toda opressão estrangeira.

6-A proteção das artes e indústrias nacionais frente aos produtos estrangeiros.

Citações importantes:

“Com liberdade não ofendo nem temo.”

“Os povos da América do Sul estão intimamente unidos por vínculos de natureza e interesses recíprocos.”

“Nada podemos esperar a não ser de nós próprios.”

“Não venderei o rico patrimônio dos Orientais ao vil preço da necessidade.”

“Que os índios e seus povos se governem por si mesmos.”

“Que os mais infelizes sejam os mais privilegiados.”

“Sejam os Orientais tão ilustrados como valentes.”

“Eu continuarei sempre em minhas duras lutas pela liberdade e grandeza deste povo. A energia nivelará seus passos posteriores até sua consolidação e em meio dos maiores apuros não me prostituirei jamais.”

“Para mim, é um dever proteger com minhas armas as livres determinações dos povos.”

“Minhas armas não têm tido outro objetivo que o de sustentar a liberdade geral dos povos, em cuja defesa tenho estado pronto a sacrificar minha existência.”

“O povo tem direito a alterar o governo e tomar as medidas necessárias à sua segurança, prosperidade e felicidade.”

Transcendência histórica:

A reforma agrária impulsionada por Artigas, segundo o princípio de que “os mais infelizes são os mais privilegiados” no momento da divisão da terra (Reglamento de Tierras de 1815). O conteúdo social e igualitário de sua atuação e sua subordinação à soberania popular são bases para a democracia participativa e a construção do Socialismo do Século XXI. Sua luta foi pela federação, unidade, igualdade e autodeterminação, como bandeiras inseparáveis. É um precursor indiscutível da causa da Nossa América.

AMÉRICA ÍNDIA E LATINA – SIMÓN BOLÍVAR (1783-1830)

06/05/2010

Nasceu na cidade de Caracas, em 24 de julho de 1783, filho de uma família procedente da região da Vascônia (território hispano-francês denominado como Províncias Vascongadas, na Espanha, e Baixos Pirineus, na França), abastada e de prestígio e que pertencia à aristocracia dos espanhóis colonialistas. Teve vários mestres, sendo Simón Rodríguez (pedagogo e escritor venezuelano, 1771-1854) sua referência e orientador, que o acompanhou até sua morte. Este mestre foi quem o influenciou, começando pelos princípios da Revolução Francesa, a qual serviu como guia a Simón Bolívar. Foi desse princípio que nasceu a idéia de pensar e trabalhar pela libertação, a independência e a construção de uma América unida e soberana. Em 1810, Bolívar retorna da Europa à Venezuela e faz discurso em favor da independência americana ante a Sociedade Patriótica.

Sua batalha definitória começa quando, com um pequeno exército, que o Congreso de Tunja (Colômbia) lhe confiara, entrou vitorioso na Venezuela em 1813. O Congreso de Angustura o titula como Libertador. Em 1814, os espanhóis se refazem e tentam retomar o controle. Bolívar os rechaça na Batalha de Carabobo. Os espanhóis continuam renovando suas forças e voltam a novas tentativas e se destacam com sucesso em La Puerta. Bolívar vai para Nova Granada e daí para as Antilhas (Jamaica), onde escapa de uma tentativa de assassinato. É proclamado chefe supremo e volta à Venezuela, onde vence os espanhóis e convoca o Congreso de Angustura. Depois, em nova batalha, derrota os espanhóis na Batalha de Boyacá e entra em Santa Fé de Bogotá, na Colômbia. Em 17 de dezembro de 1819, fica constituída a República da Colômbia.

Em 1821, derrota de novo os espanhóis e liberta Carabobo. Incorpora-se Quito à República da Colômbia. Em 1822, realiza-se a reunião entre Bolívar e San Martí (libertador de origem argentina), em Guayaquil (Equador), onde se afirmam os princípios e objetivos comuns para a unidade latino-americana. San Martí retorna a Lima, ao Peru libertado, e abdica do mando. Um ano depois, Bolívar entra em Lima e o Congreso Peruano o proclama chefe supremo. Tempo depois, anuncia seu plano de formar uma grande confederação hispano-americana. A convenção de Chuquisaca decreta a criação da Bolívia, nome em reconhecimento a Bolívar, que é convertido em seu protetor perpétuo. Uma comissão venezuelana defendeu sua coroação. O grande estadista Bolívar não a aceitou, condenando a proposta. Houve uma nova tentativa de assassinato.

Bolívar conseguiu fugir. Em 1830, foi novamente nomeado presidente da Colômbia. O Libertador Bolívar não o aceita. Enquanto lutava fora da Venezuela, Bolívar é vítima de rivalidades  entre caudilhos que começavam a governar esse país. Vai à Colômbia e se retira a uma chácara de um amigo, perto da cidade de Santa Marta, onde recebe a notícia do assassinato de Sucre (militar e estadista de origem venezuelana, 1795-1830). Esse fato agravou o estado de saúde de Bolívar e apressou o seu fim. Sua morte aconteceu em 17 de dezembro de 1830, aos 47 anos de idade. Nos seus últimos tempos, viveu desiludido, pobre, longe de amigos. Sua amargura e frustração, por não ter conseguido ver a união e o nascimento de uma nova pátria americana se faz sentir numa de suas declarações: “Colombianos, meus últimos votos são pela felicidade da pátria. Se minha morte contribui para que se acabem as divisões e se consolide a união, eu descerei tranqüilo ao sepulcro.”

Simón Bolívar foi um dos maiores libertadores desta nossa América ainda colonizada, pobre, inculta e injusta. Foi um grande patriota, inspirador, grande legislador e homem virtuoso por suas façanhas militares e políticas em prol da libertação, contrário à escravatura e à exploração do homem. Sua visão e concepção ideológica e política foi grandiosa e destacada entre os grandes heróis da libertação e pela justiça na América Índia e Latina. Simón Bolívar não foi só um libertador, foi quem tentou, acima de tudo, construir uma América Índia e Latina unida, justa, soberana e solidária.

CHILE – LUÍS EMILIO RECABARREN (1876-1916)

06/05/2010

Dirigente operário, fundador do Partido Comunista do Chile, Luís Emilio Recabarren Serrano, nasceu em 6 de julho de 1876, em Valparaíso. Sempre indignado com as injustiças sociais, em 1894 integrou o Partido Democrático do Chile, o qual, naquele momento, representava os setores mais avançados da sociedade, única organização política popular daquele tempo. Nesse partido, Recabarren representava o setor socialista. Tendo estado à frente do jornal O Trabalho, ao fazer artigo criticando a situação da classe operária no país, foi preso por oito meses. Eleito deputado, em 1905, não pôde tomar posse porque se negou a jurar seu cargo por Deus.

Após esse fato, ele fundou o Partido Democrático Doutrinário, que se declarou democrata e socialista. Ainda em 1905, os tribunais o condenaram à prisão, decidindo ele viver na Argentina, integrando as fileiras do Partido Socialista, tendo logo defendido a criação de um partido revolucionário, capaz de estar à frente das lutas da classe operária. Depois de alguns anos, retornou ao Chile, tendo sido levado para a prisão durante 18 meses. Após várias atividades em seu país, em 1918 retorna à Argentina, participando da fundação do Partido Comunista Argentino, fazendo parte de sua primeira direção. De volta ao Chile, Recabarren participa do Terceiro Congresso do Partido Operário-Socialista, contribuindo para a mudança de nome do POS para Partido Comunista do Chile. Após ter sido um líder exemplar das lutas operárias, Recabarren, aos 40 anos, suicida-se.

Um revolucionário inesquecível, tendo estado sempre na memória dos oprimidos e explorados do Chile. É o mais importante educador de massas da história desse país. Usou todos os meios possíveis em sua época para educar, unir e organizar a classe operária em seu partido revolucionário.