CRIME DE TRAIÇÃO NO SENADO

– Sob a proteção de Deus está aberta a sessão, anunciou o presidente do Senado. Iniciava-se a discussão do Projeto da Traição. Uma peça cheia de pompas, toda enfeitada de verborreia do chamado vocabulário jurídico. Um espetáculo de papel timbrado. Tudo solene. Solene, para matar a Petrobras e seu filho maior, o Pré-Sal, uma criatura que demorou 30 anos de dinheiro e tecnologia nacionais para vir ao mundo.

O primeiro a pedir a palavra foi o senador Serrador, para informar que, a seu convite, “nos honram com sua presença, as senhoras Chevron, Esso, Shell, British Petroleum e Repsol.” Aí, uma voz de inquietação ecoa : “peço a palavra, senhor presidente, não sei se ‘pela ordem’ ou ‘uma questão de ordem'”.

– Com a palavra, o senador Patriota, anunciou o presidente da Casa.

– Senhor presidente, sinto a necessidade de dizer a Vossa Excelência que o Brasil não é uma colônia. Não creio no que estou vendo ! Que fazem estas senhoras aqui ? Peço-lhe, em respeito a nosso país, a retirada destas senhoras do recinto desta Casa…

O presidente, com sua calma de diplomata, de imediato tratou de responder à ‘questão de ordem’ ou ‘pela ordem’ do senador Patriota :

– Senador Patriota, respeito seu direito de contraditar, mas não posso atender a seu pedido : trata-se de senhoras que merecem nosso total respeito; além disso, são convidadas do autor do importantíssimo projeto a ser votado, ainda hoje, nesta Casa, e aproveito o momento, senador, para, respeitosamente, discordar das reiteradas afirmações de Vossa Excelência de que esta maravilhosa iniciativa do senador Serrador deve ser chamada de Projeto da Traição, como faz o senador Petão. Peço a Vossa Excelência que se acalme. Estamos numa democracia !

O senador Petão também levantou a voz :

– Concordo com o senador Patriota : estas senhoras não podem ficar aqui. Elas já tentaram entrar em vários parlamentos pelo mundo afora… foram expulsas… nenhum amante deste país aceita este tipo de coisa !

– Senador Petão, sejamos elegantes com as convidadas de um colega que merece total respeito de todos nós nesta Casa. Sobre suas palavras, fica-lhe dito o que disse ao nobre senador Patriota – manifestou-se o presidente.

O presidente abriu a palavra para discussão da matéria :

– Com a palavra, o ilustre senador Serrador, autor do projeto.

Com a calma de traidor, de pele morta e congelada, Serrador estava programado para um discurso de vende-país. De olhos centrados nas suas convidadas, soltou o verbo :

– Senhor presidente, o apelo das ruas e da Nação exigem grandeza de seus representantes. Os investidores internacionais querem atitudes responsáveis de nossa parte; eles estão do nosso lado, mas, desde que ajamos com a racionalidade que a realidade nos impõe. A Petrobras não tem condições de ser operadora única, e o petróleo do Pré-Sal tem de sair do fundo do mar. Senhor presidente, nobres colegas desta egrégia Casa, as grandes petroleiras de todo o mundo, nossas parceiras do progresso, esperam mudança na nossa obsoleta lei de petróleo. O futuro do Brasil está nas nossas mãos. Estamos em plena globalização. O Brasil precisa se modernizar !

As cinco senhoras convidadas aplaudiram-no de pé, uma com uma bandeirola do Centro do Capitalismo Mundial.

O traidor, com seu teatral discurso, defendia a privatização da Petrobras e do Pré-Sal, sem usar o verbo privatizar. Ocultava o verbo para se ocultar. Usou palavras adequadas à sua tentativa de ocultamento do seu crime contra o povo brasileiro.

Aí, tentando controlar emoções e sentimentos, o senador Patriota pediu a palavra ‘pela ordem’, ou para ‘uma questão de ordem’ :

– Presidente, peço-lhe, mais uma vez, agora de público, que permita a entrada nesta Casa da senhora Soberania Nacional. Desde as nove horas da manhã, ela tenta entrar e não consegue. Presidente, Vossa Excelência é um democrata. Sabe que isso não está certo. É um direito dela !

O presidente, autocalculado para estas horas, abriu o Regimento Interno do Senado, na página qualquer uma, e respondeu ao solicitante :

– Vossa Excelência, senador Patriota, merece todo o meu respeito e admiração, é um homem responsável, equilibrado, sabe que não posso atender este pedido.

– Por quê ? perguntou o senador Patriota.

– Explico, nobre senador, reagiu o presidente da Egrégia Casa. É que a Senhora Soberania Nacional, em desobediência a esta magna casa de lei, não vai ficar quieta, calada. É coisa de sua índole. Inclusive, ilustre senador, acabo de ser informado de que esta senhora está lá na portaria desta Casa, chamando o nobre senador Serrador, e outras respeitáveis figuras do Senado Federal, de traidores, de lesa-pátria, de neocolonialistas… Senador Patriota, a senhora Soberania Nacional é muito bocuda. Diz o que lhe vem à cabeça, sem medir palavras. Repito, senador Patriota, Vossa Excelência é respeitado por todos nós aqui, mesmo discordando de suas ideias, mas, esta senhora aqui não entra. A democracia tem limite ! Além disso, senador Patriota, a senhora Soberania Nacional iria perder tempo aqui, já que a maioria dos digníssimos senadores já decidiu, há muito tempo, apoiar o projeto do eminente senador Serrador – concluiu.

– Lamentável, senhor presidente, protestou o senador Patriota. Minha convidada não pode entrar, mas as convidadas do senador Serrador podem, com direito a rirem do nosso povo. Por quê ? Um sorriso amarelo-descorado foi a resposta do presidente daquela casa de leis.

Face à decisão do dirigente máximo do Senado, as senhoras Chevron, Esso, Shell, British Petroleum e Repsol abraçaram-se umas às outras, emocionadas.

A sessão a todo vapor. Veio a votação. Simples confirmação da traição anunciada. Agora, as condições para a privatização da Petrobras, pedaço a pedaço, passavam a ser lei. A campeã mundial em tecnologia de exploração de petróleo em águas profundas acabava de perder a condição de operadora única na produção de petróleo e, em consequência, a indústria nacional, dependente dela, passaria a caminhar para o seu desaparecimento. Tudo isso, para que a Petrobras perca, cada vez mais, o acesso a uma área petrolífera que ela mesma descobriu. No lugar da grande obra da campanha “O Petróleo é Nosso”, a empresa-orgulho do povo brasileiro, agora poderão apoderar-se do petróleo nacional, sem restrições, as grandes petroleiras internacionais, sem a obrigação de obterem os equipamentos para a produção petrolífera no mercado nacional, como sonda, navios e tantos outros da área de exploração e produção de petróleo. Como parte do crime, foi aprovado também o fim do direito de a estatal brasileira ter a garantia de participar de, no mínimo, 30% dos contratos decorrentes de leilões para a exploração de petróleo no Pré- Sal. E, assim, não só a Petrobras, mas também o Pré-Sal, seu filhotão de centenas de barris de petróleo, são arrastados para mãos estranhas ao corpo de nosso país. Uma criminosa vitória de senhoras de guerras contra povos do Oriente Médio, da África, da América Latina e de outras partes do mundo.

Com a frase regimental “Sob a proteção de Deus, dou por encerrada a sessão”, a farsa chegava ao seu fim, com todos os traidores em regozijo; enquanto a senhora Soberania Nacional continuava sendo ameaçada de ser presa por um guarda brutamontes, na entrada da Casa do Povo.

O senador Patriota, com a altivez de suas convicções, começou a retirar-se do Plenário e, com ele, seus colegas de sentimentos e ideias. Entretanto, tiveram de conter os passos :

O pior dos piores acabava de acontecer. Com alegria nos olhos, o dirigente máximo do Senado anunciou :

– Está convocada uma sessão extraordinária para daqui a 15 minutos, para uma justa homenagem a seis grandes figuras, pelos seus incomparáveis serviços prestados ao Brasil. E já aproveito para informar a esta Casa que o Primeiro Mandatário, senhor Tremerão, enviou-me uma mensagem desejando pleno êxito a esta histórica sessão solene e, de antemão, dizendo aos homenageados que tem por eles enorme admiração, nos quais tem-se inspirado para dirigir esta grande nação. O primeiro mandatário esclarece ainda em sua mensagem que o motivo de sua ausência é o fato de ter de viajar para Washington, para uma importante reunião sobre o futuro do Brasil.

Para reforçar o já dito, o chefão do Senado leu mais algumas palavras laudatórias do senhor Tremerão aos homenageados, publicadas no jornal Global. E, por fim, prometeu entregar cópia do escrito do nobre mandatário a cada uma das “seis veneráveis figuras às quais temos o elevado prazer de homenagear”.

As emocionadas palavras do nobre presidente duraram exatamente 15 minutos. Coisa de alma disciplinada !

Enfim, aberta a tal sessão, “sob a proteção de Deus”. Com aplausos de quebra-mãos, os 6 homenageados – que se encontravam junto à entrada do Plenário – foram chamados a tomarem assento à Mesa Diretora da Casa.

Eram eles : Joaquim Silvério dos Reis; seu filho mais querido, Fernando H. Cardoso dos Reis; Juarez Távora; Filinto Müller; Carlos Lacerda e Castelo Branco.

Novamente ele, o senador Serrador ! Coube-lhe fazer o discurso da cerimoniosa homenagem. Soltou o pulmão :

De olhos fixos em Joaquim Silvério dos Reis, disse-lhe que “não existe ninguém no Brasil que o admire mais que eu” “e digo ainda, senhor Silvério, que esta Casa, através da maioria absoluta de seus membros, sente-se honrada em homenagear Vossa Magnificência e estes seus cinco fiéis seguidores, que ora nos prestigiam com a sua presença…”

Tudo tem lá seu limite. O ser humano também. O senador Patriota chegou ao seu :

– Vossa Excelência, senador Serrador, é um canalha ! Caiu sua máscara aos olhos de todo o nosso povo ! Vossa Excelência é um traidor de nosso país ! Vossa Excelência traiu, com o máximo de sadismo, a pátria de Tiradentes !

– Viva a senhora Soberania Nacional ! Viva a senhora Soberania Nacional ! Viva a senhora Soberania Nacional ! – bradou.

De repente, sem palavras, silente, o senador Patriota, mais uma vez, dá corda à sua indignação : olho nos homenageados, olho no senador Serrador. Olhar de condenação. Deu-lhes altivamente as costas.

Finalmente, calado, começou a soluçar. Soluços sem trégua. Com passos apressados, caminhou para o banheiro, e vomitou. Seu último protesto.

Aí, de volta às palavras, foi logo dizendo :

– “Às vezes, é preciso vomitar”.

SOBRE OS HOMENAGEADOS :

1) Joaquim Silvério dos Reis – traidor de Tiradentes.

2) Fernando H. Cardoso dos Reis – vendedor do Brasil

3) Filinto Müller – traiu Luís Carlos Prestes e entregou sua esposa à Alemanha Nazista.

4) Juarez Távora – inimigo ferrenho da campanha “O Petróleo é Nosso”.

5) Carlos Lacerda – líder da conspiração contra Getúlio que o levou à morte, e defensor de ações dos Estados Unidos contra o governo Goulart.

6) Castelo Branco – líder militar do golpe de 64, associado a agentes do imperialismo norte-americano, interessado no fim da democracia no Brasil.

Antônio de Freitas

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