17 DE ABRIL : DIA DOS HORRORES NA CÂMARA DOS DEPUTADOS

Dia 17 de abril de 2016. Um dia de horrores. Era a exibição de uma peça teatral de autoria da Rede Globo. O palco da encenação:  a Câmara dos Deputados. Alguns desavisados poderiam imaginar que os atores viriam de fora da Câmara. Não sabedores de que a Câmara tem seu próprio elenco. O espetáculo teve início mais ou menos às 16 h. Em cena, o primeiro ator. Com gritos de ódio, com Deus na ponta da língua, disse estar contra o Diabo. E foi adiante. Pediu a Deus exclusividade para sua mulher, filhos, uma neta… Proteção total para toda a sua sagrada família. Em seguida, outro, no palco. Nada a dizer: repetiu o primeiro. Em passos de trote, outros de mesmo papel, repetindo os anteriores. Não paravam as repetições. Deus pra lá, Deus pra cá, minha esposa… “fora o Diabo!” Uma Guerra do Mal contra o Bem, destes dois desconhecidos. Um quadro de regressão. O diretor da peça, repentinamente, se empolgou. E, gritando Deus, entrou no palco para defender as tradições. Deu-se mal. Um dos de fora do elenco, impacientemente, soltou o verbo: “você não, você é ladrão!” Vozes de socorro ao diretor: “respeite o diretor, seu bolivariano, seu comunista!” Outro, de fora do elenco: “calem essa boca, vocês também são ladrões!”. “Não querem que eu fale de seu chefe!” Alguns dos de fora do elenco pediam socorro à Razão. Sem sucesso. Um quadro de regressão! Perguntas na plateia: “O que pretende a Globo com esta peça, quer enlouquecer todo mundo?” Lembrei-me das piores coisas que já vi. Tentei comparações. Fracassei. O espetáculo Global continuava. Um ator aparece, interpretando um personagem que fala Deus e xinga. Os xingados, ninguém os identifica. Fiz o máximo de esforço: tentei achar adjetivos apropriados para o que via e ouvia. Impossível.  Meu pobre vocabulário me frustrou. Pus-me a perguntar: de onde vêm tantos homens de paletó escuro e mulheres de vestidos azulados, berrando fobias e famílias sem pecado? Teriam vindo da Idade Média? Bom, mas estamos no século 21! Um nó na minha cabeça. Luzes, no entanto. Achei! Trata-se da fusão de ideias medievais com o fascismo. O fascismo é regressivo. Daí, este casamento do obscurantismo de ontem com o obscurantismo de hoje. Não demorou. Logo veio a confirmação de minha conclusão. Em passos marchantes, um dos personagens de paletó escuro entra no palco e berra, quase fala, voz fracionada. Parecia querer vomitar. Não se limita o bruto de gravata. Vomitalmente, escancara-se: imagina-se numa sala de tortura e de extermínio de humanistas, de democratas… homenageia seu herói, o maior assassino e torturador de opositores à ditadura civil-militar implantada em 64. Em seguida, aos saltos de bicho estranho, com urros de Gestapo, sai, aos gritos, dizendo palavras misturadas com cuspe. O discurso vomital foi fortemente aplaudido. Vozes ecoavam entre os integrantes do elenco: – Viva Jesus!  Palavras abençoadas!  Diziam os medievo-fascistas. Senti-me momentaneamente, mais uma vez, fora de qualquer astro. De fato, terrível mal-estar. Cheguei a xingar o mundo. Um tanto derrotado. Coragem! Coragem! Fiz-me este apelo. Fortaleci-me. Agigantei-me. Consegui rever Galileu, Giordano Bruno, Marx, Gramsci… Refiz-me de um pesadelo. E bradei: abaixo o medievo-fascismo! Dia seguinte, lá estava eu – na Rua da Democracia – em voz alta: “Abaixo o golpe de 2016!”

Wagner Assunção

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