FILHO DO POVO MATA POVO

Toninho nasceu e morava num bairro popular, periferia, em São Paulo, capital do capital. Adorava sua comunidade e era adorado por ela. Querido de todos. Santista fanático, no tempo de Robinho, dizia que o Santos ia ser campeão mundial mais uma vez. Corintianos, São-paulinos e palmeirenses ficavam loucos com ele. Um dia Toninho mudou de vida, se afastou de todo mundo, de sua gente, entrou na Polícia. Logo teve sua primeira aula, aula de mudança: não brincar em serviço; soldado que vacila, que não dá tiros, não serve. Suspeito tem de ser tratado como merece, a bala. Nada de aproximação com estes elementos de balcão de boteco. Periferia é só perigo… Toninho agora tinha de ser outro, de novo espírito. Nada de bate-papo com os tais amigos de tanto tempo. Cara fechada, hora para chegar no bairro, e pronto. Lembrava-se de velhos colegas vizinhos com quem gostava de tomar uma cachacinha, uma cervejinha. “Gente ruim!”, registrou na mente. Cabeça mudada, tudo mudado. O bairro de suas alegrias, de suas gozações, de bate-bola em chão de terra, virou lugar de perigosos. O Toninho brincalhão ficou invertido. Jovens inquietos, depois de uma festinha local, armaram uma briga. Tapa pra lá, tapa pra cá… Os chega-disso entram em cena. Os valentões se acalmaram. No quartel mais próximo, a polícia se assanha. Tinha de “dar uma lição aos bagunceiros”, “bando de maconheiros, de vagabundos…” Toninho, acompanhado de outros soldados, foi escalado para essa empreitada. Cheio de farda, de ódio e preconceito produzido, aproximou-se dos briguentos, todos apaziguados. Um, de dezoito anos, logo o reconheceu: ” Sou eu, santista, tudo bem por aqui, zoeira da gente!” “Que santista coisa nenhuma!” bradou o transformado. Balas repetidas. Balas do ex-povo no peito de seu ex-amigo. Revólveres de outros ex-povo contra gente sem arma. O carro dos ex-povo cantou pneus em retirada. “Foi o Toninho!”, bradavam mulheres em choro de mães, de irmãs e amigas dos fuzilados. Mais gente chegava, revoltas em gritos quase enlouquecidos. No bairro do ex-povo, uma ordem: ” Aqui Toninho não pisa mais os pés. Podem nos matar, mas aqui ele não pisa. Aqui é lugar de trabalhadores, não de assassino, traidor!” A decisão era para valer, decisão de todos. O cerco ao ex-povo. Qual seria agora seu destino? Para onde Toninho iria? No seu bairro não podia ficar. Para o bairro do capitão que lhe dava ordens, também não: não é lugar de soldado. Para o bairro do governador, que dava ordens ao capitão, nem imaginar: ali não mora soldado. Pior ainda, ali mora também o homem de escritório de mármore e cristais, que dá ordem ao governador. Finalmente, para o bairro do homem que não fala português, sócio-mandante do homem de escritório de mármore e cristais, nem pensar. Seria alucinação total do ex- povo sonhar com isso. Seria apelidado de “Malucão” pelos seus colegas. Tendo provado ser bom de bala, de não vacilar no cumprimento de ordens, embriagado de elogios, Toninho se sentia todo poderoso e amado por gente importante, mas lugar de soldado é na periferia. Surge um boato: Toninho estava de malas prontas para residir no Bairro dos Pimentões, onde dois jovens negros tinham sido assassinados por dois ex-povo de farda. Um alvoroço! Um grupo de moradores se incumbiu de ir até lá, em solidariedade aos irmãos de periferia. Ali o ex-povo não poderia ficar. Triste sina de um filho do povo que mata povo!

Alberto Souza

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