DIA DA IGNORÂNCIA DIPLOMADA

Diplomados e diplomadas de todos os tipos: advogados(as), engenheiros(as), administradores(as) de empresa e tantos outros. Portadores de um ou mais canudos, eram a maioria. 15 de março, na Avenida Paulista, lá estavam eles e elas, num domingo de assalto à razão.

Era um samba de branco doido. Enorme quantidade de manifestantes usando a democracia para atentar contra ela. Muitos chegaram a defender mais um golpe militar. Todos guiados pelo ódio aos que são favoráveis a uma sociedade mais democrática, justa, igualitária. Nenhum humanista escapava aos seus ataques raivosos. Paulo Freire era xingado sem trégua. Se estivesse vivo, com certeza, defenderiam sua morte.

Era uma multidão muito parecida com as das marchas de março de 64 na defesa da morte da democracia naquele ano, de uma parte da classe média conservadora, com o cérebro ocupado ideologicamente por preconceitos e fobias de toda ordem contra o povo, contra a classe trabalhadora, mormente contra os movimentos sociais, setores mais politizados e organizados da população.

No meio desse aglomerado de antidemocratas, de anti-humanistas, apenas um pobre foi adotado: um soldado da PM. Tietado como se fosse um artista de televisão, muitos o abraçavam e tiravam fotos com ele. Coisa que o coitado, filho do povo, não conseguia entender. Mas os berros diziam tudo: “Vocês estão certos, têm de matar estes bandidos”, “Saem lá de seus buracos e vêm nos matar”, “Têm de acabar com esta raça”, “Esse negócio de que vocês matam pobres e negros é coisa dessa gente dos tais direitos humanos, um bando de comunistas”, “Viva a PM!”.

Na verdade, através do soldado perdido, os fardados de calça verde, camiseta ou blusa amarela homenageavam a PM paulista, uma das polícias que mais matam no mundo, herdeira da ditadura civil-militar. Grande quantidade de individualistas que nunca se viram em nenhum lugar, através das redes sociais, se identificaram e decidiram juntar-se num show contra o progresso social e político. Todos golpistas, tinham eles uma imediata centralidade: passar por cima da decisão eleitoral, soberana, do povo, em outubro passado, ao reeleger Dilma. E o PT, que nada fez no seu governo contra os privilégios dos ricos, garantindo os lucros dos banqueiros, do agronegócio e de outros grupos econômicos, era atacado como se fosse a imagem do Demônio. Embora o PT não seja anticapitalista, atacavam fobicamente o partido, acreditando estarem atacando o socialismo. Ódio somente explicável porque Lula e Dilma propiciaram alguma melhora na vida dos mais empobrecidos pelo capitalismo brasileiro. Coisa inaceitável para os paranoicos do conservadorismo.

Era um samba de branco doido.

Ao lado de uma minoria sem diploma, afirmavam os diplomados, escondidos em vestimentas verde-amarelas, que são apolíticos, como se tivessem vindo de outro planeta, humanamente inabitado. Diziam terem votado em Aécio, mas, na sua lógica invertida, isso não é política. Achavam-se apolíticos, preocupados em moralizar a sociedade, acabar com a corrupção, todavia votaram nos que tradicionalmente praticam e protegem as roubalheiras de todas as espécies. Parecia não terem noção de sua farsa.

Pus-me a refletir: foi essa irracionalidade do setor mais atrasado, ideologicamente endoidecido, misantropo, da classe média, que levou Hitler, Mussolini, Pinochet, Castelo Branco e outros inimigos da liberdade, da democracia e da própria humanidade, ao poder. Lembrei-me de 64.

CONVERSA COM UM IGNORANTE DIPLOMADO

Decidi falar com um desses diplomados do dia 15. Como eu não tenho problema de refluxo estomacal, fui adiante. Disfarçado de imparcial, apenas um curioso preocupado com os acontecimentos, num bar, ao lado de uma estação do Metrô, me dirigi ao personagem. Era um engenheiro. Fiel à causa, estava de calça verde e camiseta amarela. Não estava todo de verde-amarelo – diga-se de passagem – seu sapato era preto, e o cabelo não estava pintado com as cores da bandeira nacional.

Com um ar de dono da lógica universal, o diplomado aceitou minhas perguntas:

— Você se considera apolítico? — Claro, esse movimento odeia política, os políticos são todos iguais.

— Bom, quero entender. Esses manifestantes são apolíticos, apartidários, de fato? Ninguém votou em partidos, candidatos, nas eleições passadas? Meio sem jeito, gaguejando: — não tivemos outro jeito…

— Agora, vocês vão às ruas contra Dilma, Lula e até contra Simón Bolívar, porém não se colocam contra o PSDB, o DEM. Isso não é assumir uma posição política?

O diplomado insistiu: — amigo, nós nos consideramos apolíticos. Este país tem que ter ordem. Este governo está acabando com o Brasil. É comunista!

— Vamos manter nossa conversa, está interessante, falei. Aristóteles afirmou que o homem é um animal político. Pelo visto, você não concorda com ele. — Não, não concordo: esse cara deve ser um desses tipos de esquerda que andam por aí falando certas coisas, só teorias… Brinquei: — Petista ele não é, dizem que é da velha guarda da esquerda da velha Grécia. O diplomado quase sorriu, pedindo uma latinha de cerveja.

De repente, uma recaída. O diplomado do dia 15 não se tocou que não estava na Avenida Paulista. E tome xingamento: “Essa vaca tem de cair”, “É uma comunista”, “Deveriam ter matado esta terrorista”, “Lula me dá ódio”, “Este país tá um caos”, “Bandidos estão soltos, têm de morrer”, “Tudo quanto é de vagabundo acha que tem direitos”, “Esse negócio de Bolsa-Família, um monte de vagabundos”, “Tá uma imoralidade este país; os gays saíram do armário, tão acabando com a família”,”Tem baderneiros fazendo greves, a polícia tem de agir”.

Chegou a hora. Uma pergunta não poderia faltar:

— Você se considera um fascista?

O diplomado não vacilou: — Que fascista coisa nenhuma: sou brasileiro, nasci aqui, sou paulistano.

O representante da ignorância diplomada não se conhecia. O que me impôs mais uma pergunta, a saideira.

— Você concorda com a frase de Sócrates “conhece a ti mesmo”?  O homem de verde-amarelo foi duro na queda: — Esse tal de Sócrates era um cachaceiro, nem a torcida do Corinthians gostava dele.

Pensei em ficar calado e terminar diplomaticamente a conversa. Não resisti: — Entendo você, mas o Sócrates de que falo é da Grécia antiga. Nunca tomou cachaça. Coitado, tomou cicuta. E assumi um grande risco: — O Sócrates do Corinthians lutou contra a ditadura.

Aí, o diplomado emudeceu-se, mudo de ódio.

Sem palavras, apenas com gestos, despedi-me de todos que estavam no bar. E, antes de virar a esquina, me vieram palavras contra o dia 15: “Comunistas, Socialistas, Humanistas, Progressistas, Democratas, uni-vos!”

Alberto Souza

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