GOLPE CIVIL-MILITAR DE 64: VITÓRIA DA BURGUESIA E DO IMPERIALISMO

Tendo sido candidato eleito das forças de direita do país em 1960, em agosto de 1961 Jânio Quadros renuncia ao cargo de presidente da República. O seu vice, Jango Goulart, de acordo com a Constituição Federal, de imediato, tomaria posse. Seria o novo presidente.

Contudo, para a burguesia, associada aos latifundiários e ao imperialismo norte-americano, Goulart representava um perigo, uma ameaça aos seus interesses, já que, em todo o seu trajeto político, sempre teve uma boa relação com a classe trabalhadora, defendendo a melhora de suas condições de vida e, com a sua perspectiva nacionalista, defendia a realização de um conjunto de reformas estruturais que proporcionasse o desenvolvimento econômico e social do país, a começar pela reforma agrária.

Intransigentemente, as forças conservadoras entraram em ação para inviabilizar a posse de Goulart, procurando implementar um golpe de estado. Mobilizaram setores das Forças Armadas para este fim.

Com a iniciativa do governador Brizola de construir a Cadeia da Legalidade em seu Estado, Rio Grande do Sul, armando o povo para a resistência ao golpe, contando com manifestações antigolpistas em outras regiões do país, a conspiração golpista não conseguiu vingar, embora seu intento, de certa forma, não tivesse sido plenamente derrotado, já que conseguiu impor uma condição para que Goulart assumisse a presidência: o parlamentarismo, que tirava do presidente o poder de governar, de chefe do governo. Uma imposição que, na prática, significava rasgar a Constituição.

Entretanto, ainda que as forças democráticas, progressistas e de esquerda estivessem conscientes de que sua vitória, ao derrotarem a escalada golpista, não foi a esperada, sentiram-se motivadas para, junto a um presidente nacionalista, de compromisso com reformas importantes para a economia e melhora da vida do povo, ocuparem o máximo de espaço democrático conquistado, para aprofundar suas lutas por mudanças político-sociais e derrotar o imperialismo ianque e seus aliados internos. Achavam estar chegando o momento de avanços nas lutas por conquistas econômicas das massas de trabalhadores e a construção de um Brasil soberano, livre política e economicamente do capital estrangeiro e do imperialismo. Esta tomada de consciência da gente do povo foi decisiva – diga-se de passagem – para, através de um plebiscito, derrotar o parlamentarismo, garantindo o retorno de Goulart como presidente de fato e de direito, com todas as atribuições inerentes a este cargo no regime presidencialista.

De fato, apesar de certos equívocos das forças progressistas, de esquerda, vivia-se, como nunca, um momento de ascensão da consciência, das massas trabalhadoras e mesmo de parte da classe média, da necessidade de mudanças na ordem econômica e político-social, refletindo-se, de uma forma ou de outra, nas diversas áreas de atividade, como na cultural, principalmente com o Cinema Novo e no movimento teatral; no campo pedagógico, quando começa a ser praticado o método Paulo Freire; no campo, com a organização das Ligas Camponesas, colocando sempre na ordem do dia a questão da reforma agrária; na economia, com defesa da nacionalização de bancos, de refinarias particulares, da energia elétrica, da telefonia, da indústria farmacêutica e do controle da remessa de lucros de empresas estrangeiras; na implementação de uma política externa soberana, de relação com todos os países, inclusive com Cuba e outros países socialistas. E, embora um tanto atrelado à orientação janguista, com falta de um trabalho de base mais contundente, o movimento sindical também avançava.

Ora, face a estes avanços políticos do povo, nos seus diversos setores necessitados de mudanças, era de se esperar que a burguesia interna e externa, os grandes latifundiários e o imperialismo jamais deixariam de conspirar contra o processo democrático em andamento. Neste processo, o protagonismo da classe trabalhadora, da juventude estudantil, aparecia para estes setores como um verdadeiro atentado aos seus privilégios. Aí, em nome da democracia, acusando as forças progressistas de antidemocráticas, não paravam um segundo de conspirar para derrubar o governo democrático e a democracia. Pregavam a democracia para derrubar a democracia, expediente de enganação, de distorção de conceitos para atingir seus objetivos. Pregavam a liberdade para lutarem contra ela, destruí-la.

Quanto mais avançavam as lutas do povo por mudança, pelo desenvolvimento e consolidação da democracia, por um Brasil plenamente soberano sob todos os aspectos, com mais igualdade e justiça social, mais avançava a conspiração de uma minoria contra o governo, buscando sempre desestabilizá-lo, rumo a um golpe de estado.

Nacionalista, estando comprometido com um projeto avançado, mas não revolucionário, Goulart tinha esperança e ilusão de que este novo Brasil, advindo de suas Reformas de Base, como a reforma agrária e outras, seria construído pacífica e democraticamente. Setores que o apoiavam, inclusive de esquerda, também tinham esta esperança. Sua visão de conjuntura apontava para isso. Assim, sabia Goulart que a conspiração existia, mas a subestimava, não acreditava, em nenhuma hipótese, em seu sucesso. Qualquer tentativa de golpe estaria condenada ao fracasso, pensavam ele e os principais setores que o apoiavam.

Frente a esta ilusão do presidente e de forças que o defendiam, inclusive de esquerda, o espaço democrático existente – explorado pelas forças progressistas para a conscientização e organização do povo, a fim de conquistas políticas e sócio-econômicas, de natureza estrutural – foi usado, sem limites e regras, pela forças antidemocráticas para derrubar o governo e, consequentemente, paralisar o processo de luta popular por mudanças. A conspiração foi se tornando cada vez mais escancarada, insolente, aberta.

Os Estados Unidos, através da CIA, seu órgão principal de conspiração e de assassinatos de presidentes e de outros dirigentes políticos que não fazem o seu jogo de ingerência e dominação de outros países – com a obtenção de adesão de agentes internos, dentro das Forças Armadas ou não – recorriam a quaisquer meios para tirar Goulart do governo. Com seu apoio, foram instalados no país organizações como IBAD, IPES, ADEP e outras, para mobilizar políticos e militares, objetivando a conspiração antigovernamental. Através destes organismos, dinheiro da CIA foi distribuído para financiamento de campanhas políticas, tanto para candidatos ao parlamento como para as prefeituras e estados, comprometidos com o movimento político visando à derrubada do presidente. A Embaixada dos EUA chegou a distribuir dinheiro a governadores e prefeitos da oposição, usando recursos da chamada Aliança para o Progresso, agindo abertamente, como se fosse um superministério. Era o imperialismo ianque agindo descaradamente à frente da conspiração. Só em 1962, chegaram dos Estados Unidos, principalmente ao Nordeste, 5 mil agentes militares dos Estados Unidos, todos boinas-verdes, com disfarces, a serviço das ações antigoverno. Feitas as denúncias, esta maldita imigração continuou em 63, mas de forma mais reduzida. Um submarino estadunidense chegou a Pernambuco, descarregando uma boa quantidade de armas, de forma clandestina. É que a CIA e os conspiradores internos achavam que o Nordeste era uma das regiões em que ocorreria maior resistência ao golpe, por isso teriam de estar preparados para enfrentar tal situação.

A escalada golpista se alastrava, com apoio da CIA. A direita, com recursos vindos de empresários nacionais e estrangeiros, avançava rapidamente na criação de meios para atacar as forças progressistas e o Governo. Espalhara grupos de guerrilhas por várias partes do país, trazendo, para isso, armas contrabandeadas do Paraguai e de outras regiões. Depósitos de armas foram encontrados em várias regiões do país. Fazendeiros se diziam em condições de obterem as armas necessárias para suas ações armadas. Próximo a uma propriedade de Jango Goulart, em Jacarepaguá, no Rio de janeiro, foi encontrada uma quantidade de armas que, pelas suspeitas levantadas, seriam usadas para assassinar o presidente e até mesmo seus familiares.

Nesses momentos aguçados da luta de classes, traidores do povo mostram, como nunca em situações mais ou menos normais, que sua capacidade de ficar contra o país, colocando-se a serviço de impérios, é ilimitada. Carlos Lacerda, governador do Rio de Janeiro, em entrevista a um jornal norte-americano, pediu medidas dos Estados Unidos no sentido de providências contra o governo federal. Júlio Mesquita, diretor do jornal O Estado de São Paulo, seguiria o mesmo caminho, em pronunciamento em Miami. Na verdade, estavam de acordo com o propósito do imperialismo norte-americano de invadir o Brasil, caso o golpe não vingasse, tendo o governo estadunidense enviado navios de guerra para o litoral brasileiro com este propósito. Fato posteriormente revelado pelo próprio Lincoln Gordon, embaixador norte-americano no Brasil, à época. Registre-se que a operação de ataque, força-tarefa, conhecida como Operação Brother Sam, acionada pelos EUA para atuar no Brasil se necessário fosse, caso o golpe fracassasse, era algo assustador, composta do porta-aviões FORRESTA, navios cheios de armas e alimentos, quatro petroleiros (Santa Inez, Chepachewt, Hampton Roads e Nash Bulk), levando um total de 136.000 barris de gasolina comum, 272.000 barris de combustível para jatos, muita gasolina para aviões, grande quantidade de óleo diesel e querosene. Sete aviões traziam 110 toneladas de armas, aviões de caça, além de aviões de comunicação e um posto que teriam a função de estabelecer uma ponte aérea, ligando as bases estadunidenses ao Brasil.

Não se deve esquecer de que todo este poderio de ataque ao nosso país e ao nosso povo se dava com o apoio de uma grande quantidade de inimigos do povo e da pátria, como Ademar de Barros, latifundiários, líderes empresariais, escribas de plantão e outros, além dos citados acima. O inimigo internacional número um seria recebido em festas, como o salvador destes lesa-pátria, como o principal protetor de seus privilégios.

Quanto ao papel da mídia, pode-se dizer que, sem seu apoio, o golpe não aconteceria. Era ela responsável por todo o clima político-ideológico, psicológico, distorções e farsas que eram usados como argumentos golpistas, tendo atingido, principalmente, os setores mais estúpidos e despolitizados da classe média, fornecedora de militantes de um dia de Idade Média: a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, realizada há dias do golpe, com a participação do padre Peyton, agente da CIA, enviado ao Brasil para integrar a conspiração contra o governo Goulart.

A escalada golpista chegou à sua fase conclusiva: armada por dentro pelos inimigos do país, com metralhadoras e tanques à sua disposição; armada por fora, pelas forças militares do imperialismo norte-americano já presentes há tempo em território nacional, podendo ser acrescidas de reforços a chegarem. Tanques e metralhadoras nas ruas. O golpe é efetivado. É implantada a ditadura civil-militar. É derrotada a democracia. É derrotado o povo brasileiro. Uma vitória fascista da burguesia.

 

A RESISTÊNCIA

Efetivamente, não houve resistência ao golpe. Chegou-se a decretar uma greve geral dos trabalhadores, mas sem êxito. Na área estudantil, a mesma coisa. No campo, também não houve ações. Sem receberem armas, estes setores não teriam condições de lutar contra os golpistas.

Já são conhecidas as razões por que não aconteceu a devida resistência ao golpe. Primeiro, a meu ver, na prática, havia em Goulart o erro de tratar inimigos da democracia como se tivessem eles o direito de agir sem limites, conspirativamente, contra a Constituição e um governo eleito democraticamente pelo povo. Inimigos que, certos da inexistência de medidas que os inibissem, passaram a ter a conspiração como o seu cotidiano. Na prática, tinham permissão para agir como se não estivessem promovendo a desestabilização do governo e o desrespeito à decisão soberana e democrática do povo em eleger o seu presidente. Segundo, talvez a razão maior para não se resistir ao golpe tenha sido a falta de união e de organização das esquerdas, e das demais forças democráticas, antigolpistas. Setores que, na sua maioria, por um lado, entre outros, cometeram o grave erro de superestimar a capacidade de resistência das forças legalistas das Forças Armadas, neste sentido, indo a reboque de Goulart, que acreditava neste dispositivo militar; sendo que a área minoritária destas forças de esquerda, por sua parte, caía para um claro esquerdismo, exigindo de Jango uma conduta revolucionária, como se este revolucionário fosse. O esquerdismo que, com a sua deslocação da realidade, tratava Jango Goulart como inimigo, achando que o presidente, por não ser socialista, acabaria traindo a classe trabalhadora, enquanto a grande maioria da esquerda se submetia às limitações político-ideológicas do janguismo, tratando o presidente mais como um pai querido dos trabalhadores do que um líder político comprometido com mudanças importantes, que deveria agir sempre nesta direção.

 

AUTOCRÍTICA

Mas as esquerdas, logo após o golpe, de forma discutida ou não, foram impelidas a uma autocrítica. Tendo percebido o grave erro cometido, de não se prepararem para resistir ao golpe, logo após a vitória golpista, mudaram de comportamento. Foram às ruas, mobilizando milhares de pessoas em protestos contra a ditadura. A tal ponto chegaram estas mobilizações de massas, que os agentes da ditadura se assustaram e, por conseguinte, partiram para maior radicalização de suas medidas contra as forças democráticas. É quando surge o AI-5, trazendo, como nunca, a prática generalizada da tortura e do assassinato ao país, nos diversos porões do regime.

Neste contexto, aparecem, no seio das forças antiditatoriais, duas visões sobre os caminhos a serem adotados para derrubar a ditadura. Uma, setor minoritário, achava que – em não havendo o mínimo de espaço para manifestações de rua, devido ao aumento estrondoso da repressão levado a cabo pelos órgãos armados da ditadura – só haveria um caminho para derrotá-la: a luta armada. Muitos grupos de esquerda fizeram esta opção; outros setores de esquerda afirmavam que só o caminho eleitoral e as ações abertas de massa poderiam pôr abaixo o regime.

O certo é que, independentemente de quem estava certo ou errado em relação às formas de luta adotadas, ambos os setores foram muito importantes para a derrota da ditadura. Foi a soma de todas as forças democráticas, revolucionárias ou não, que determinou o fim da ditadura, ficando claro que a vitória final se deu, efetivamente, quando milhões de pessoas saíram às ruas em protestos, dispostas à conquista do estado democrático.

O concreto é que, se ilusões e equívocos de toda natureza tenham sido decisivos para que o golpe vingasse sem a devida resistência, o mesmo não ocorreu em relação à fase posterior à quartelada golpista, pois multidões, lideradas pelas esquerdas, ganharam as ruas em protestos, já nos primeiros anos do golpe, como também anos depois do AI-5, em manifestações pela anistia geral dos presos, perseguidos e políticos cassados, ao lado de uma nova ascensão das lutas dos trabalhadores em greves históricas. O povo tinha um objetivo nesta luta: as eleições diretas para todos os cargos. Era consenso entre as forças democráticas que este tipo de eleição seria a reconquista da democracia.

 

“DIRETAS JÁ”  x  CONCILIAÇÃO

Mesmo entre pessoas do campo da esquerda, tem havido a afirmação de que o povo brasileiro tem a tradição da conciliação em momentos de crise. O que é um equívoco, pois confundem a prática das elites – representantes da classe dominante, que se junta ao povo para alcançar seus objetivos e depois o traem – com a conduta mesma do povo em tais situações. Esquecem-se de que, em nenhum momento crítico da nossa história, o povo abriu mão de seu objetivo, em conciliação com as forças dominantes. Poderia estar um tanto alheio ao que acontecia, mas conciliando, jamais. Quando entrava em ação, não o fazia para conciliar com os seus inimigos. O povo não conciliou na Cabanada, no Pará; em outras revoltas populares, como a Revolta dos Alfaiates; o Contestado; Canudos; na campanha “O Petróleo é Nosso”; no movimento antifascista de 35 e tantos outros momentos de levantes de libertação.

O povo brasileiro não conciliou para que, no lugar de eleições diretas, prevalecesse o Colégio Eleitoral, para que, por via indireta, se indicasse o presidente da República em substituição ao último ditador militar de plantão. Quem fez isso foi um pequeno grupo de representantes da burguesia, passando por cima do objetivo de milhões de pessoas da classe trabalhadora, que se sentiram traídos por este mesmo grupo.

 

PÓS-DITADURA

A ditadura foi derrotada, conquistou-se a democracia, mas não com o devido aprofundamento esperado. A classe dominante, como um todo, tratou de se proteger contra um possível maior protagonismo popular no processo político. O que explica a manobra da criação do tal Colégio Eleitoral. Não aceitariam, ela e seus agentes militares e civis, perder o controle da situação, garantia para manter seus interesses.

Suas manobras deram resultado. Escolhido Tancredo Neves para a presidência da República, não teria a burguesia nem uma noite de insônia, por ser ele egresso das oligarquias mineiras. Morto, substituído por Sarney, um oligarca do Maranhão, provindo dos próprios quadros da ditadura, não ficaria nenhuma sombra de dúvida de que todos os grupos econômicos se achavam seguros de que não haveria qualquer ameaça aos seus privilégios, à sua dominação de classe.

Assim, a democracia renascia limitada, freada, por obra de uma classe social que sabe o que quer, que usa e repele o povo, para atingir seus objetivos e sustentar seus interesses.

Um momento de avanço, porque retornava a democracia, mas, ao mesmo tempo, um retrocesso, em relação aos objetivos populares. A ditadura derrotada conseguia manter um dos seus no posto maior do país, a Presidência, garantindo ainda que outro, provindo de suas hostes, assumisse posteriormente tal posição. O que se deu com a eleição de Collor de Mello, em substituição a Sarney.

Tudo isso era uma garantia para os grupos econômicos nacionais e estrangeiros e o imperialismo de que as sonhadas reformas defendidas pelo nacionalista Jango Goulart seriam descartadas de uma vez por todas e, consequentemente, ficariam abertas as portas do país para o neoliberalismo, para a destruição do patrimônio público através das privatizações das estatais e as ações políticas constantes pela queda de conquistas sociais da classe trabalhadora.

O último dos presidentes da ditadura, o general Figueiredo, com o apoio de todos os grupos privados internos e externos que representava, tudo fez para, face à inevitável derrota do regime, deixar assegurado que o projeto econômico-social e político – de mudanças estruturais, que as forças golpistas derrotaram em 64, através das armas – não retornasse, em definitivo. O objetivo maior era evitar a eleição de um governo voltado para a retomada de tal projeto. Daí, a defesa da tal abertura ”lenta, gradual e segura”, iniciada por Ernesto Geisel, penúltimo presidente da ditadura, buscando com esta medida evitar que a luta pela democracia avançasse a tal ponto que culminasse com a vitória das forças de esquerda, progressistas, retomando, em consequência, o projeto nacionalista, de reformas de Jango Goulart, que significaria a derrota do principal objetivo do golpe de 64.

A abertura “lenta, gradual e segura”, da chamada “transição”, que nunca acabava, trazia com Sarney os resultados almejados pelas forças de direita, pela grande burguesia local e os interesses do capital internacional. Primeira importante vitória da manobra de Geisel, assumida pelo seu substituto, o general Figueiredo. A segunda aconteceria em seguida: a eleição de Collor de Mello, também um filhote da ditadura, comprometido em entregar as riquezas estratégicas do Brasil para os grupos econômicos internacionais, além de tantas outras medidas neoliberais, acolhendo as determinações das potências imperialistas, principalmente dos Estados Unidos.

Péssimo quadro político da direita, fabricado pela Rede Globo e outros setores da mídia, o “caçador de marajás” entraria logo em desgraça e saiu da governança.

 

SEM COLLOR

Poder-se-ia pensar que a saída de Collor do governo, substituído pelo seu vice, Itamar Franco, governante vacilante, em relação a ser ou não ser um neoliberal, abriria espaço para a vitória de um candidato antineoliberal, antiprivatista, não-entreguista, sem o objetivo de destruir conquistas da classe trabalhadora para beneficiar maior acumulação de capital, pelo fato de as forças de direita terem ficado aparentemente sem quadros para disputar a presidência da República. Puro engano. Sem muito trabalho, foram elas à busca de um e acharam: Fernando Henrique Cardoso. Um grande e inteligente achado, pois este vinha com as credenciais de quem fez oposição à ditadura, logo um cidadão acima de qualquer suspeita, que não poderia ser acusado de ser mais um filhote do período ditatorial, que substituiria o “caçador de marajás”, tendo-se tornado, pela montagem da mídia, o “pai do Plano Real”, imagem da qual não se descolou um segundo sequer para ser eleito e reeleito presidente.

Para a direita, seu “caçador de marajás” fracassou, mas seu objetivo de levar a destruição do patrimônio público às ultimas consequências se mantinha, pois FHC prometeu de pés juntos que a cartilha neoliberal do Consenso de Washington, adotada por Collor, seria mantida e aplicada sem restrições.

Com Fernando Henrique Cardoso, a abertura “lenta, gradual e segura”, a “transição” sem fim, é mantida. Mais uma vitória do gradualismo, evitando, ao gosto das forças de direita, a ameaça da eleição de um governo popular, com um projeto antimonopolista e antiimperialista.

Tornou-se FHC – com suas privatizações, com a destruição de grande quantidade das unidades produtivas do país, com o aumento do desemprego, com o achatamento salarial, com aumentos da taxa de juros às alturas para beneficiar o capital financeiro, enfim, com a sua política neoliberal generalizada – o maior lesa-pátria de nossa história, considerado por muita gente como um autêntico neocolonialista, que tratou o Brasil como uma neocolônia de potências imperialistas, mormente dos EUA.

Mais uma vitória da direita. Seu projeto vitorioso em 64 não só foi conservado pelos ditadores militares, manteve-se também, no seu essencial, com Sarney, Collor e FHC. O imperialismo, que aplaudiu o golpe, agora aplaudia os governos de pós-golpe.

 

AS ESQUERDAS E LULA

Em 2002, as esquerdas chegam, sem projeto próprio, ao processo eleitoral para eleger o substituto de FHC. Pareciam ter esquecido os seus propósitos antimonopolistas e antiimperialistas dos anos 60, do projeto que o golpe derrotou.

Assim, quando Lula fez sua famosa Carta ao Povo Brasileiro – comprometendo-se, se eleito, em respeitar os interesses dos grupos econômicos em geral – as esquerdas, sem rumo, sem alternativa própria, demonstraram algum descontentamento, mas marcharam com Lula, achando que, apesar da Carta, uma vez eleito o candidato petista, não haveria espaço para quaisquer medidas de caráter neoliberal no país. E aí, alguns destes setores, para não se chocarem com a Carta, tornaram-se menos de esquerda, já durante a campanha eleitoral para eleger o candidato petista.

Veio a eleição de Lula. Derrota do neoliberalismo, mas não de políticas neoliberais. O compromisso governamental com o capital monopolista continuou. Na área de petróleo, Lula manteve os leilões de FHC, seguindo à risca a lei entreguista da era fernandista. O agronegócio agigantou-se – com o apoio financeiro do governo – com o seu domínio de grandes áreas de terra, em detrimento de uma reforma agrária que o governo petista desistiu de fazer. A remessa de lucros se manteve, sem qualquer limite ou controle. Estradas foram privatizadas. Muitas grandes empresas privadas nacionais e estrangeiras receberam do governo, através do BNDS, grande ajuda financeira. E, em relação à dívida pública, o governo não concordou em fazer uma auditoria, como determina a Constituição de 88.

Um governo menos neoliberal que o de FHC, mas cada vez mais distante de um programa de reformas estruturais, distante do sonho brasileiro de, através das reformas de base, estruturais, construir um Brasil mais independente e justo. Um governo mais democrático que o anterior, mas, ao mesmo tempo, limitador do avanço da democracia, pois um dos fatores determinantes para que o processo democrático avance são as mudanças estruturais, opção descartada pelo lulismo. Limitador da marcha democrática, também, porque, devido a compromisso assumido com os donos do capital e com gente ligada à ditadura, como Sarney e outros, não determinaria a abertura dos arquivos da ditadura, apurando os seus crimes e punindo os seus agentes, principalmente os que mataram e torturaram lutadores pela democracia. Assim, nega-se a modificar a Lei da Anistia que, como está, beneficia os que, usando o Estado, cometeram crimes de lesa-humanidade. O que significa um estímulo para que setores fascistas continuem, de uma forma ou de outra, em ação, jogando na lata de lixo qualquer princípio de garantia de direitos humanos, com a prática de tortura e matança por partes de órgãos policiais contra pessoas do povo, principalmente negros e mestiços. Consequentemente, tem-se uma democracia limitada. A ditadura já não existe, mas se mantêm vivos suas heranças e derivados, como ameaças constantes de retrocesso.

Destarte, também com Lula, persistiu, basicamente, a lógica da abertura “lenta, gradual e segura”. Uma democracia restrita, sem projeto de mudança, sem protagonismo popular, proporcionando todas as garantias possíveis para que a burguesia se enriqueça cada vez mais, mantendo, sem nenhuma ameaça, todos os seus privilégios.

Com Lula, o projeto de reformas – pelo qual as forças de esquerda e nacionalistas lutaram até o golpe de 64, quando foram derrotadas – jamais retornaria. E a política econômica de FHC, no seu fundamental, foi mantida.

 

ELEIÇÃO DE DILMA

Aconteceu a eleição de Dilma. Ouvi de militantes da luta contra a ditadura palavras de esperança de que, com ela, o processo democrático avançaria, que, inclusive, os agentes do regime autoritário envolvidos com assassinatos e tortura sofreriam a devida penalidade. Esqueciam-se esses combatentes de que, não obstante algum avanço no governo Lula em relação a algumas políticas públicas, como Bolsa-Família, e seu pragmatismo positivo no que tange à política externa – fator deveras importante para um certo nível de integração latino-americana, por exemplo – o modelo político e econômico do primeiro governo petista não sofreria qualquer alteração com Dilma. Assim, também comprometida com o grande capital privado nacional e estrangeiro, mormente o financeiro, a presidenta não agiria com medidas que pudessem afetar as forças conservadoras.

É certo que, em relação aos direitos humanos, o que é importante para a democracia, ela criou a Comissão Nacional da Verdade, contudo dentro da lógica de que esta deve ficar engessada pela Lei da Anistia, a qual ela se recusa, até o momento, a modificar, favorecendo, com isso, agentes da ditadura que torturaram e mataram combatentes pela democracia.

Seus compromissos políticos – decorrentes de seu comprometimento com uma política econômica a serviço do agronegócio, de grandes empreiteiras, de petroleiras, do capital financeiro – aprofundados com medidas privatizantes, como a privatização do petróleo e de outras áreas estratégicas da economia, através de leilões, determinam por que, também com ela, a abertura continua “lenta, gradual e segura”, do jeito que os capitalistas de todos os tipos querem. Uma democracia “lenta, gradual e segura”, levando consigo derivados e heranças da ditadura, expressos, principalmente, em terror policial contra o povo, inclusive com a prática de assassinatos e, ao mesmo tempo, com o máximo de velocidade, a incontrolável concentração de riquezas nas mãos dos capitalistas.

Também com Dilma é garantido ao poder econômico que estão descartadas quaisquer reformas estruturais, como reforma agrária, a plena nacionalização de áreas estratégicas da economia e outras, preservando, desta forma, os objetivos das forças conservadoras e do imperialismo, alcançados em 1.º de abril de 1964.

 

GOVERNO POPULAR

Conscientes de que um programa de mudanças de fundo, estruturais, não seria possível com governos do tipo FHC, Lula e Dilma – dos quais não se poderia esperar a realização da reforma agrária, controle da remessa de lucros, fim das privatizações, reestatização total da Petrobras, retomada da Vale do Rio Doce, desprivatização de grande parte do serviço de saúde, reforma universitária, nacionalização de bancos, retomada de grandes estatais privatizadas etc. – setores dos movimentos sociais já levantam a preocupação da conquista de um governo popular, para que o povo conquiste as condições políticas necessárias para concretizar, com as devidas adaptações que o momento exige, o que foi impedido de ser feito pelo golpe civil-militar. O grande desafio para se efetivar este objetivo é a unidade das esquerdas, difícil, mas não impossível, já que a clara necessidade de se unirem forças para mudanças, cada vez mais se impõe.

A conquista de um governo popular seria o resultado do protagonismo do povo, mormente da classe trabalhadora, na caminhada pela conquista da democracia plena, superando, de uma vez por todas, a chamada abertura “lenta, gradual e segura”, da “transição” que não tem fim. Seria a conquista da possibilidade política concreta de se retomar o projeto de mudanças inviabilizado pelas forças golpistas que derrubaram o governo democrático de Jango Goulart.

Cláudio de Lima

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: