CHÁVEZ, A REVOLUÇÃO BOLIVARIANA E O SOCIALISMO (Carlos Pereira)

Não se deve fazer uma análise do processo revolucionário venezuelano sem se falar do papel de Hugo Chávez nessa luta. Chávez, já nos anos 70, se inquietava com a realidade do país, com a situação de neocolonialismo, de desigualdade e miséria em que se encontrava a pátria de Bolívar. Já percebia que o sonho do Libertador com uma Venezuela, com o máximo de justiça social e felicidade para todos, cada vez se afastava de sua concretização. Via mais ainda que o maior desejo de Bolívar – uma América Latina Unida, como uma grande e única nação – ia de água abaixo. Ao lado de outros patriotas, militares ou não, achava que ser patriota é lutar pela efetivação do projeto de Simón Bolívar.

Foi inspirado no pensamento do Libertador que Chávez criou em 1982 o MBR-200 (Movimento Bolivariano Revolucionário), dando um primeiro passo, de suma importância, na luta por uma Venezuela soberana e com o máximo de justiça social, após uma reflexão profunda sobre as lutas sociais e patrióticas venezuelanas.

Veio o ”Caracaço”, em 1989, levante popular espontâneo do povo, principalmente, em Caracas, contra as desgraças provocadas pela política neoliberal de Carlos André Pérez, que reprimiu em forma de verdadeiro massacre as multidões insurgentes, causando a morte de centenas de pessoas. Chávez e seus companheiros da Organização se viram no dever de tirar grande lição de tal movimento e agirem contra o governo das oligarquias e do imperialismo. É daí que surge o levante militar de 4 de Fevereiro de 1992, quando, pelas armas, tenta derrubar o governo neoliberal e sua política de subordinação do país aos interesses de grupos econômicos nacionais e estrangeiros.

Derrotado o levante, Chávez assume toda a responsabilidade pela revolta, deixando, contudo, praticamente explícito que retomaria a luta na hora oportuna; o que se deu, por outro caminho: o contato mobilizador e conscientizador constante com o povo, que decorreria na sua vitória eleitoral para presidente da República, em 1998.

Respeitando politicamente o seu mais importante compromisso de campanha, Chávez logo convoca uma Assembleia Constituinte, a fim de aprovar uma nova Constituição, que refletisse os anseios políticos e sociais do povo venezuelano.

Amparado nas novas normas constitucionais, Chávez é reeleito em 2000, sentindo-se suficientemente fortalecido para enfrentar o imperialismo e as oligarquias locais. Caracterizava-se como chefe de um governo nacionalista, acreditando que por esta linha a Venezuela se libertaria do neocolonialismo, tornando-se soberana. Para isso, aprofunda o resgate da pessoa de Simón Bolívar, sempre defendendo o sentimento do Libertador de que povo e forças armadas não devem estar separados, de que “maldito é o soldado que atira em seu próprio povo”.

A busca da libertação de seu país não aconteceria, como era de se esperar, sem a reação das forças de direita, internas e do imperialismo, mormente o norte-americano. Cresce a escalada golpista no país com apoio claro dos Estados Unidos, culminando com a derrubada do governo em 11 de abril de 2002, com a prisão imediata de Chávez. Os grupos econômicos de todos os tipos, dentro e fora do país, comemoravam o acontecimento, principalmente através de seus meios de comunicação, acusando o deposto de ditador e falando de que este teria levado a Venezuela ao caos.

Contudo, um povo, quando toma consciência de seus reais interesses, não só vai à luta contra os que o oprimem como também se torna imbatível. Os caraquenhos, principalmente os provindos dos bairros populares, das massas trabalhadoras, vão para a frente do Palácio Miraflores, ocupado por golpistas, e exigem a libertação de Chávez e seu retorno ao governo. Enfrentam as balas golpistas, perdendo vidas, até que o golpe fosse derrotado.

Chávez era salvo pela sua gente – multidões – sem armas e pela gente armada, militares patriotas que, seguindo Bolívar, se recusaram a atirar no seu povo, tendo agido, inclusive, para evitar o assassinato do líder bolivariano, alternativa defendida por vários golpistas.

Em 13 de abril, dois dias depois de sua deposição, Chávez volta à presidência da República, sob os aplausos generalizados do povo. Pede paz para o país e descarta qualquer ação punitiva mais forte contra os líderes golpistas, fala, até mesmo, em conciliação nacional.

Por conseguinte, esperava-se que tudo voltaria ao normal, que os inimigos da democracia se acalmariam, que, face à derrota que sofreram, abririam mão de novas escaladas golpistas. Puro engano! Ao contrário, tendo fracassado o seu golpe, as forças conservadoras, as oligarquias como um todo, viram o perigo do processo democrático avançar, já que a tendência era crescer o protagonismo popular, por uma democracia sem limite, com povo. O caminho que escolhem, ainda em 2002, é o mesmo de antes: mais ações golpistas. Agora, não confiando mais nas forças armadas, que se recusaram, na sua maioria, a ficar contra o povo e a democracia, escolhem a estatal petroleira, a PDVSA, como seu principal instrumento, pela importância que esta tem na economia da Venezuela. Achavam que, com a sua paralisação, provocariam o caos econômico e, consequentemente, o governo cairia. Contavam com o apoio de gerentes e diretores da empresa que tinham o controle produtivo e político dela, seguros de que a maioria absoluta dos operários petroleiros obedeceria a esses seus agentes. Param a produção da PDVSA. Era deflagrado o tal “golpe petroleiro”. As perdas econômicas logo aconteceriam; inclusive começaram rapidamente a faltar combustíveis no país. Crimes de sabotagens dentro da estatal aconteciam a todo momento, até mesmo em áreas de risco da empresa em termos de segurança.

Na medida em que procuravam destruir a economia do país, tentando o caos generalizado, em claro atentado à soberania nacional, em qualquer outro país que se diz democrático, tais golpistas teriam sido fortemente reprimidos. Na Venezuela, o governo democrático, eleito livremente pelo povo, preferiu não adotar este caminho.

Quem não vivia na Venezuela, distante da realidade deste país, não conhecedor do nível de consciência da gente Venezuelana, sem dúvida, imaginava que inevitavelmente o governo bolivariano viria abaixo, que o “golpe petroleiro”, atingiria seu fim. Mas, Chávez sabia que uma coisa é provocar o caos econômico no país e outra é provocar o caos na consciência de um povo. Sabia que a reação vitoriosa contra as forças golpistas não dependia apenas dele, mas principalmente do povo. Recorre a este. Busca gente sem qualquer experiência na produção e refino de petróleo, treina-a, às pressas, emergentemente, contando ainda com técnicos voluntários de fora do país. Assim, vai assumindo o controle da empresa, derrotando os que a paralisavam e a sabotavam. A escalada golpista petroleira era derrotada. Agora, a PDVSA ficaria sob o controle de patriotas, destinada a cumprir o seu papel econômico-social, com a adequada aplicação de seus lucros em projetos sociais e em investimentos da área produtiva.

Alguém pode ter suposto que as oligarquias e o imperialismo, mediante este último insucesso, não teriam mais como conspirar contra Chávez e seu governo. Ainda não se compreendia, de maneira clara, que a burguesia jamais se recusa a lutar contra o avanço do processo democrático, que, para isso, por mais paradoxal que pareça, recorre, inclusive, a “métodos democráticos”, “institucionais”, mascarando por aí expedientes como compra de pessoas ou votos, gastos de milhões com corrupções eleitorais, com manipulações através de sua mídia, com ardis de todas as espécies.

Destarte, sem contar com apoio militar, sem o domínio do petróleo, as oligarquias, em 2004, decidem derrubar o governo via Constituição, legalmente. Partem para a tentativa de tirar Chávez do governo, através de um refendo revocatório, que estipula que o presidente pode perder o mandato na sua metade através de uma consulta popular em votação secreta, sendo necessário, para isso, o número de assinaturas necessárias. Um dispositivo constitucional – diga-se de passagem – proposto pelo próprio Chávez, quando da aprovação da nova constituição, em 1999.

O poder econômico coloca seus agentes nas ruas, à busca de assinaturas para o citado referendo. De cara, usa assinaturas fraudulentas, sendo tal expediente logo rechaçado. Volta a campo, obtém as assinaturas necessárias.

O poder econômico, nesse processo, agiu de acordo com a sua natureza: despejou dinheiro a rodo em todo o país. Isso é “democracia”, diziam seus partidários, nas ruas e na grande mídia. Somem-se a este montante doméstico os milhões de dólares que chegavam “democraticamente” dos EUA, para a derrota de uma ameaça contra os interesses ianques.

Chame-se ou não esta opção tática das forças de direita de golpismo disfarçado, ou de outra coisa, o certo é que as fortunas que gastam para alcançarem seus objetivos nada têm a ver com democracia, muito pelo contrário, são um atentado contra ela. Fortunas gastas para que o processo político-social e democrático não avance.

O referendo acaba se dando. Mais um fracasso do imperialismo e de seu séquito venezuelano. A direita tenta a última cartada: apesar da vitória do não à revogação do mandato de Chávez, ela ameaça não reconhecer o resultado das urnas. Não deu certo, sem nenhuma surpresa, esta artimanha. Nesse momento, Chávez se sente ainda mais fortalecido para fazer avançar a Revolução Bolivariana.

Mas o inimigo não se freia na procura de pôr fim a um governo que representa os interesses populares. Recorre também a tentativas de assassinato do líder da Revolução Bolivariana, através de grupos paramilitares provindos da Colômbia, apoiados por contrarrevolucionários venezuelanos. Com a prisão de muitos membros destes grupos, um de seus cabeças acaba por confessar seu intento de eliminar o presidente, eliminando qualquer dúvida sobre tal objetivo. Frente a tantas derrotas das forças oligárquicas, a Revolução dá passos.

SOCIALISMO                                

Um novo momento histórico na Venezuela. Para surpresa de muita gente, mesmo da organização do presidente, o Movimento Quinta República (MVR), em 2005, durante a realização de Foro Social Mundial, de Porto Alegre, Chávez afirma categoricamente que o caminho a ser seguido pelo povo da Venezuela é o socialismo. Com esse enunciado diz ao seu povo, aos povos da América Latina e do resto do mundo que a Revolução mudaria de caráter, indo além do nacionalismo, tornando-se anticapitalista.

Foi com Bolívar, inspirando-se neste, que Chávez e as forças revolucionárias como um todo chegaram a 2005, já com algum contato do líder bolivariano com textos marxianos. Mas, com a virada ao socialismo, Chávez teria de inevitavelmente recorrer como nunca ao pensamento marxista, ao pensamento de mudança da classe trabalhadora. Inicialmente, aprofunda o contato com o marxismo latino-americano, a começar com os textos de Carlos Mariátegui, autor da tese da construção do socialismo indo-americano, “livre de cópias”, e também com o pensamento de Che Guevara, além de outros. Logo, aproxima-se também dos clássicos do marxismo e de grandes marxistas europeus do século passado. Aproxima-se de Marx porque vê neste a explicação do caráter do capital, do capitalismo; de Lênin, por ver neste a primeira grande explicação sobre a natureza do capitalismo em sua fase superior, o imperialismo, e seu trabalho sobre a essência do Estado; de Rosa Luxemburgo, por perceber a importância da assertiva desta revolucionária de que a luta por reformas pode não significar necessariamente reformismo, se elas não forem tratadas como um fim, além da sua visão antiburocrática de partido; de Gramsci, porque este fala da questão da hegemonia de classe, de que só através da luta pela hegemonia uma classe derrota a outra, não só militarmente, mas também ideológica e culturalmente.

Assim, Bolívar – que não vem sozinho neste processo, mas, trazendo consigo, segundo a óptica de Chávez , José Martí, Artigas, Ezequiel Zamora e tantos outros revolucionários, de antes, durante e depois das lutas pela Independência dos países latino-americanos –, acaba por se justapor ao marxismo. E os dois ganham as ruas da Venezuela.

Essa busca teórica de Chávez e de outros líderes bolivarianos se dá, partindo-se da compreensão de que, sem a prática de mudança não há mudança, mas que, também, sem pensamento revolucionário não há revolução. Em nenhum instante, o líder bolivariano descuidou-se da conscientização do povo, convicto de que este precisa avançar para a derrota do capitalismo no país. Compreendendo que só uma força organizada, ou poder, derrota outra, Chávez parte para desenvolver a prática de construir o poder popular, comunitário, de forma socialmente protagônica, já com a prática de as comunas dirigirem seus próprios interesses, não só política, mas também administrativamente.

Empresas sociais, ou socialistas, foram criadas pelo governo bolivariano, sendo elas colocadas sob o controle de trabalhadores e comunidades organizadas. Ao lado das relações políticas e de produção capitalistas, torna-se imprescindível para a conquista do socialismo a construção, desde já, de relações de produção e políticas entre as massas trabalhadoras, pensava Chávez.

A vitória de Chávez nas eleições presidenciais de 2006 o convencia de que a grande votação que recebera, mais de 60% dos votas, era uma clara aprovação do projeto de socialismo em debate entre as forças revolucionárias e o povo. Busca, então, aprofundar a organização do poder comunal.

A política social bolivariana se destaca cada vez mais, levando a ONU a classificar a Venezuela como o país da América Latina com menor índice de desigualdade.

MEDIDAS DE UNIDADE LATINO-AMERICANA E CARIBENHA

O desejo de levar adiante o sonho de Bolívar por uma América Latina, para Chávez era o seu princípio maior. Tinha plena convicção de que sem esta unidade nenhum povo deste continente seria definitivamente livre, de que desta união depende a derrota do imperialismo estadunidense. E tudo procura fazer neste sentido em todos os aspectos da vida da sociedade latino-americana. Defende os diversos tipos de medidas integracionistas: declara guerra à ALCA, busca aproximar-se do MERCOSUL, defende a criação do Banco Sul, como forma de os países da América do Sul se libertarem das imposições do FMI, podendo eles contar com recursos bancários próprios, com taxas de juros bem menores, adequadas às necessidades de desenvolvimento social e econômico de cada país associado; defendeu a criação da Petroamérica, uma espécie de holding que juntasse as estatais de petróleo da região, com investimentos e políticas de petróleo e energia em geral, de forma conjunta, ressaltando, não só a importância política da iniciativa, como também o seu significado econômico, já que a América Latina é detentora de 11% do total das reservas de petróleo de mundo, além de outros enormes recursos minerais.

Chávez demonstra, na prática, que sua defesa da unidade latino-americana e caribenha não é retórica, ou puro jogo diplomático, cria a Petrocaribe, proporcionando fornecimento de petróleo a baixos custos aos países do Caribe que, antes, tinham de receber este produto a preços internacionais, com grandes consequências para a sua economia.

Para uma relação de comércio e de intercâmbios diferenciados, baseados não na busca de lucros, mas sim fundamentados em princípios de colaboração entre povos, Chávez propõe a criação da ALBA (Alternativa Bolivariana para a América e Caribe), hoje composta por Venezuela, Cuba, Equador, Nicarágua, Bolívia e algumas ilhas caribenhas.

Chávez pôde comemorar parte da realização de seus sonhos: viu surgir a Anasur e a CELALC – para cuja criação foi de suma importância a sua liderança – órgãos de integração continental importantes, não só para relações econômicas, como também para relações políticas, com gestões interessantes para evitar conflitos entre os países da região, geralmente insuflados pelos desejos norte-americanos de tudo fazerem para que os países latino-americanos se mantenham desunidos.

Eram muitos os sonhos de Chávez com o propósito de levar às últimas consequências a unidade latino-americana. Chegou a defender uma universidade de todo o continente.

Inegavelmente, foi Chávez o líder máximo da luta pela defesa da unidade da América Latina, com uma habilidade política que chamava a atenção de mundo, pois tinha a sabedoria de saber lidar com as diferenças políticas e ideológicas existentes entre os governantes da região.

Chávez vinha bem de saúde. Estava tão animado com as suas tarefas político-administrativas, com tanta energia, que talvez nunca imaginasse que poderia ser afetado, tão rapidamente, por alguma enfermidade. Uma vez, um velho general aposentado advertiu-o, durante uma conversa pela televisão, de que deveria cuidar um pouco mais de sua saúde. Chávez desconversou. Infelizmente, em 2011, descobre ter sido atingido por um câncer. Inicialmente, parece ter ficado perplexo, achando estranho que, tanto ele como outros líderes latino-americanos, de uma hora para outra, fossem afetados por algum tipo de câncer. Chegou, de forma indireta, a suspeitar de que houvesse alguma ação de inimigo em tal situação.

Foi a Cuba para tratamento por várias vezes, sem perder, apesar desse momento difícil, o entusiasmo pelo que fazia junto ao seu povo, mantendo-se sempre firme frente a empreitadas e grandes desafios. Muito debilitado, disputa a presidência em 2012 e é vitorioso, mas com uma votação menor que a de 2006. Sem dúvida, embora nunca tenha demonstrado fraqueza em momentos tão difíceis para a sua vida, com certeza, já não podia estar com a mesma energia, não só à frente do governo, mas também no seu contato direto de praxe com o povo, com o dia a dia deste. Também, já não podia viajar como antes à busca das relações necessárias da Venezuela com outros países. Tudo isso, numa conjuntura de dificuldades econômicas que começavam a acontecer, em certa medida, como reflexos da crise econômica em países desenvolvidos.

Era um momento em que o centro das atenções da gente venezuelana, em particular, de membros de destaque do governo, estava voltado para a salvação do líder da Revolução Bolivariana. O inimigo usou este quadro de dificuldade de todas as maneiras possíveis, indo das ações psicoemocionais até ações criminosas de sabotagens de fornecimento de energia e de alimentos.

Acontece o falecimento do líder latino-americano. O país para, para chorar sua ausência. Novas eleições seriam convocadas para, mais ou menos, um mês depois de sua morte. O candidato que Chávez tinha indicado na hipótese da inviabilidade de sua candidatura era Nicolás Maduro.

Decorrentemente de um período tão duro para o governo bolivariano, devido à saúde e morte de seu líder máximo, o candidato chavista tinha a gigantesca tarefa de ganhar as eleições e de convencer o povo de que, com a sua eleição, o projeto e sonho de Chávez continuariam.

O inimigo, na pessoa de seu candidato, Capriles, partiu para todas as astúcias não imaginadas por muita gente das próprias forças chavistas. Primeiro, começou a exaltar a pessoa de Chávez, dizendo que manteria todos os seus projetos sociais em andamento. Culpava Maduro pelos problemas existentes na economia e na administração e se colocava, de certa forma, como mais apto a cumprir o plano de Chávez do que o próprio candidato da Revolução Bolivariana. Era eloquente com a sua farsa, com a sua pantomima. Por outro lado, sua campanha agia através de expedientes criminosos, por iniciativas de gente de seu apoio: recorria a sabotagens de fornecimento de energia e de produtos de primeira necessidade, conseguindo deixar grande quantidade de pessoas descontes com o governo. Num momento de disputa eleitoral, não é necessário dizer qual seria o tamanho do dano à campanha do candidato chavista. E o dano se deu. Maduro foi eleito com a diferença de apenas 250 mil votos de diferença. Fato usado pelo candidato derrotado da direita, para alardes e agitações que acabaram provocando a morte de dez pessoas por agentes direitistas. Maduro não se abateu. Sabia que não era fácil substituir Chávez sem caminhos cheios de pedras. Pela primeira vez, o eleito não era Chávez, mas um chavista.

DESAFIOS SEM CHÁVEZ

Acontece a posse de Nicolás Maduro. Seu discurso de posse foi uma demonstração de que muita coisa terá de ser feita para a correção de rumo, para recuperar terreno perdido, em todos os aspectos da vida política e social da Venezuela. A começar pelo aprofundamento da relação do governo com a população, mormente com a organizada, com um programa claro de combate à violência urbana, como também com firmes medidas contra o burocratismo e a corrupção, além de iniciativas no sentido da solução do problema de abastecimento de alimentos, buscando ainda melhorar todos os programas sociais. Tudo isso sem se abrir mão da caminhada para o socialismo, para o qual é imprescindível a continuação e intensificação da organização do poder comunal.

É a Revolução Bolivariana marchando sem Chávez, com Chávez, já que estão vivos seus exemplos de amor a seu povo e à causa de sua libertação.

CULTO À PERSONALIDADE?   POPULISMO?

Não faltam afirmações, inclusive de gente considerada de esquerda, de que existiu e continua existindo o fenômeno do culto à personalidade da pessoa de Chávez, na Venezuela. Conclusão profundamente equivocada, pois o único culto que o próprio Chávez procurava levar às consequências era o culto ao conhecimento e aos ideais revolucionários, ao desenvolvimento do sentimento de solidariedade, que, para ele, são imprescindíveis para que um povo se torne livre. Sempre chamava o povo, o explorado, a pensar, a tomar consciência de que, só através da luta pelo socialismo, de forma organizada, protagônica, ele conquistará a sua libertação. Assim, jamais se colocou como um tipo de salvador dos oprimidos e explorados.

Na verdade, o que se vê na Venezuela é a batalha das ideias, com o povo percebendo, cada vez mais, quais valores ideológicos e políticos refletem os seus interesses, em oposição ao pensamento da burguesia. E isso não é culto à personalidade!

Bom, Chávez sempre foi vítima também de juízos precipitados provindos de setores de esquerda.

Sobre a acusação de populista, isso não só provinha do campo das forças de direita, mas também de áreas tidas como progressistas. Ora, populismo é uma característica de políticos que fingem estar ao lado do povo, ser um dos seus, fingindo que gostam do cotidiano da gente explorada, dizendo que vão acabar com todos os tipos de privilégios, que apresentam soluções mágicas para os problemas dos explorados, que não dialogam com as pessoas, que escondem as causas da situação de pobreza em que vivem as massas trabalhadores, que se colocam com salvadores do povo, que em nenhum momento fazem crítica ao sistema econômico-social vigente, que, em relação aos que exploram a classe trabalhadora, se colocam como um justiceiro moral, falando em cadeia para os desonestos, procurando com estes artifícios evitar que o povo se assuma como sujeito de seu destino, das verdadeiras soluções de seus problemas.

O populista é uma espécie de mágico da política, coloca-se como um tipo de milagreiro, buscando abafar a tendência à insurgência das vítimas da ordem socioeconômica vigente. Sabe que, se o povo se conscientiza politicamente, tornando-se sujeito de sua própria luta, ele não será mais ouvido.

Hugo Chávez era exatamente o contrário de tudo isso. Para início de conversa, nunca se colocou como salvador do povo, sempre dizendo que a obra de libertação da classe trabalhadora é obra dela própria. Como agente do processo de luta revolucionária do povo venezuelano, Chávez apenas atinava para o fato de que existe o papel do indivíduo nas lutas sociais de transformação, mas compreendendo que tal indivíduo não é produto de si mesmo, é intérprete ativo dos anseios populares.

Chávez foi o líder que foi, sendo uma referência, não só para as lutas revolucionárias de América Latina, mas também para as forças de mudança de praticamente todo o mundo, exatamente por ser antes de tudo, o intérprete prático dos que precisam lutar pela sua libertação. Não foi por acaso que as esquerdas de várias partes do mundo, que em geral não se unem, uniam-se na defesa da candidatura de Chávez à presidência da República. Obviamente, isso só foi possível, graças à identificação com as ideias, práticas e coerências do líder maior da luta pela unidade dos povos latino-americanos.

COM A SUA MORTE, CHÁVEZ ESTÁ AUSENTE?

É comum na Venezuela as pessoas do povo afirmarem que Chávez morreu apenas fisicamente, que jamais deixará de estar presente nas lutas da população, por que as ideias e projeto de mundo que defendia não sairão da mente da gente venezuelana. De fato, é o que está acontecendo. O pensamento e exemplos do líder da Revolução Bolivariana são evocados a todo instante das lutas do povo da Venezuela. Para as forças de mudanças de outros países do continente latino-americano e do Caribe, o mesmo fenômeno acontece. Ninguém deveras se esquece de que foi ele que, como ninguém, colocou a necessidade de se retomar a luta pelo socialismo, num contexto em que as esquerdas em geral, como nunca, estavam encolhidas em relação a esta questão, que foi ele que, ao defender o que ele chama de Socialismo do Século XXI, impulsionou práticas de construção do poder popular, comunal, compreendendo ser este o caminho para a construção do socialismo.

Mesmo boa parte da esquerda latino-americana, que tinha divergências teóricas com Chávez, aproximou-se efetivamente do líder bolivariano, defendendo-o dos ataques do imperialismo e do seu séquito externo.

Mas, não são só as esquerdas que veem um Chávez que não morre na consciência de muita gente do povo; com preocupação, o imperialismo e capitalistas de todos os tipos também percebem isso. Por isso, mantêm os mesmos ataques à pessoa de Chávez. Certos de que ele está vivo nas lutas do povo, inspirando explorados a ações contra as oligarquias e o capitalismo, tratando o maior defensor de uma América Latina unida – com povos protagônicos, sujeitos conscientes das lutas por uma nova sociedade –como o seu grande inimigo. Sua meta, agora, é a morte ideológica de Chávez, recorrendo, nesta tentativa, a todos os recursos de que dispõem. Procuram passar a ideia de que Chávez é exatamente o contrário do que foi e continua sendo para a gente venezuelana e para os povos latino-americanos. Usam seus intelectuais orgânicos e sua mídia para deformar as suas ideias.

O ódio do poder econômico e seus ideólogos ao chavismo é mais uma prova de que Chávez morreu apenas fisicamente.

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