A ÉTICA E O CAPITALISMO

Para Aristóteles, Platão, Sócrates e outros, era ético que os aristocratas gregos explorassem os que deveras trabalhavam, produziam riquezas: os escravos. Para eles, antiético seria exatamente o contrário: o fim da escravidão. Toda a sua argumentação filosófico-ideológica se dava nesta perspectiva.

Para o escravo consciente de sua situação, inconformado, a ética era outra.

Para São Tomás de Aquino e outros pensadores medievais, ética era a exploração dos servos, camponeses, pelos senhores feudais. O contrário seria inaceitável.

Para o servo que se insurgia contra isso, ética era outra coisa.

Para os pensadores burgueses, do capital, a ética fundamental é a exploração dos operários, dos assalariados do campo e da cidade, dos que produzem mercadorias.

Logo, por exemplo, não pagar ao operário o valor que ele produz a mais do que de fato recebe pelo valor de seu trabalho não é um roubo. É algo normal, ético.

E é considerado igualmente ético o que um banqueiro, um especulador, um sonegador de impostos leva, através de diversas formas, do valor criado pelo trabalho de milhões de pessoas.

Para o trabalhador consciente de sua condição de classe, a ética é de outro tipo, porque libertadora.

A ética do capitalista é, de fato, a ética da exploração e do roubo.

É por isso que instrumentos capitalistas importantes, como os grandes jornais e redes de televisão – também grandes empresas privadas – quando falam da corrupção e do roubo, se limitam apenas a falar de efeitos. Escondem a verdadeira causa, a matriz geradora de tais imoralidades: o sistema sócio-econômico, o capitalismo. Criam a ilusão de que o roubo não é inerente à sociedade capitalista, de que  existe enriquecimento individual sem exploração e roubo. Na prática, denunciam o roubo ilegal, de conjuntura, de maior ou menor intensidade, de acordo com os momentos, usando esse expediente para esconder os saques legais, feitos legalmente, a começar pela parte do trabalho não pago no instante de exploração da força de trabalho.

Principalmente, a classe média se deixa levar por semelhante farsa, acreditando ser possível moralizar um sistema imoral pela sua própria natureza, que só pode continuar, enquanto os que necessitam de uma sociedade fundamentada em relações de igualdade não optarem por uma ética que negue a exploração do homem pelo homem.

É correto que qualquer roubo ou corrupção devem ser atacados, sejam eles legais ou não. Isso significa um mínimo de indignação, de alguma ética. Contudo, quando isso se dá separado da luta contra um mundo que só é o que é porque explora e corrompe, trata-se de pura ilusão, puro moralismo. É falsa ética em relação aos interesses dos oprimidos e explorados. Quem não é contra uma sociedade fundamentada na exploração, opressão e roubo, na verdade, não quer mudar. É contra a ética de mudança. Se oprimido e explorado, é contra si mesmo; se opressor, explorador, é coerente.

Alberto Souza

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