“EL PORTEÑAZO”, UMA AÇÃO GOLPISTA?!

O professor Wladimir Abreu, historiador, tem opinião diferente dos que vêem no Porteñazo uma ação golpista. Vê neste movimento uma iniciativa revolucionária cívico-militar. Segue aqueles que entendem que um ato revolucionário não pode ser caracterizado como golpismo, já que seu objetivo não é derrotar a democracia, implementar o retrocesso. Sua meta é conquistar a democracia verdadeira, plena, popular, na luta antiimperialista e socialista. Assim, para Wladimir, o Porteñazo deve ser sempre lembrado como um momento de glória e de orgulho de um povo na luta pela liberdade.

Segue abaixo seu artigo sobre esse movimento, dando detalhes sobre batalhas heroicas de patriotas e revolucionários da Venezuela, em 1962.

A GRANDE SUBLEVAÇÃO REVOLUCIONÁRIA CÍVICO-MILITAR DE PUERTO CABELLO

50 ANOS DE “EL PORTEÑAZO”

Wladimir Abreu

A traição do governo Betancourt ao esforço popular de 23 de janeiro de 1958 (quando o povo derrotou o ditador Jiménez) foi combatida pelo Partido Comunista, com a participação de trabalhadores e militares patriotas, que não vacilaram em enfrentar, com todos os meios disponíveis, o Pontofixismo (Puntofijismo).

Junho anunciava uma das maiores ações revolucionárias da história venezuelana, em que o sangue de valentes combatentes era derramado em terras da Venezuela.

Era sábado, 2 de junho de 1962. Às 5 horas, começa a ação, os oficiais se insurgiram no batalhão de infantaria da Marinha, “Rafael Urdaneta” Número 2. Detêm os oficiais ligados ao governo assassino de Rómulo Betancourt. Às 7, tomam o aeroporto e grande parte da cidade; libertam 50 guerrilheiros no Castillo Libertador, incorporando-os à rebelião.

Essa ação, desde seu início, contou com o apoio da população de Puerto Cabello. Vale destacar que jovens e estudantes se juntaram valentemente à ação revolucionária.

De repente, o Destacamento 55 da Guarda Nacional, que estava comprometido com a rebelião, “se arrepende”, perdendo, assim, as forças revolucionárias uma importante posição estratégica na defesa da cidade.

Às 11 horas da manhã, as forças de Betancour começam a ofensiva contra a Puerto Cabello revolucionária. Os batalhões Carabobo n.º 41, Piar, Simón Bolívar, a Companhia de Tanques de Bravos de Apure com 16 carros AMX-13 e o grupo de artilharia Salón são enviados para o cerco à revolta. A patrulheira leal ao governo ARV Mejilón ataca os revolucionários até ter de render-se, devido ao contra-ataque da artilharia rebelde. Nesse momento, as tropas de Betancourt tentam tomar por terra a cidade, sendo rechaçadas pelas forças revolucionárias. Por sua vez, os navios leais ao governo esmagam as posições rebeldes com os seus canhões.

Da rádio de Puerto Cabello, os revolucionários convocam as massas populares, conclamando-as para o combate. Horas depois, a aviação destruiria as antenas de rádio, silenciando a voz da rebelião. Ressalte-se que, ao ser instaurada a censura, muitas emissoras de rádio do país colocam, de maneira repetida, a canção “Puerto Cabello”, ludibriando a censura, em solidariedade com os revoltosos.

Assim que começou a sublevação, as forças do governo enviam bombardeiros Camberra (os mesmos usados em Cantaura), B-25, aviões Sabres F-86 e os DH Vampiros, com os quais atacam indiscriminadamente a cidade e as posições das forças revolucionárias.

Já durante a tarde, o Batalhão Carabobo penetra em Puerto Cabello até a estação de bombeiros. No Bairro de San Millán, se combate até a noite. No Liceu Miguel Peña, os jovens da Juventude Comunista, em conjunto com os infantes da Marinha, se entrincheiram na instituição e rechaçam os blindados das forças governamentais. No Forte Soberano, os paraquedistas se chocam no solo ante a firme defesa das forças rebeldes.

3 de junho

No domingo de 3 de junho, o destróier Zulia se junta ao movimento revolucionário, sendo o primeiro barco da pequena marinha revolucionária venezuelana cujos canhões obrigam os navios leais ao governo a suspenderem momentaneamente o bombardeio a posições rebeldes.

Logo cedo, pela manhã, a Força Aérea ataca as posições dos sublevados, enquanto os tanques do governo do Batalhão Blindado ‘Bravos de Apure’ atacam pelo leste a cidade. É quando as forças revolucionárias impõem o maior golpe às forças governamentais, pois tanques que avançam pela cidade são emboscados pelos revolucionários, na célebre esquina da La Ancantarilla, derrotando a infantaria que os acompanha.

As forças do governo aumentam a ofensiva e com seus tanques tomam, a sangue e fogo, o Liceu Miguel Peña, que era heroicamente defendido pela Juventude Comunista e os jovens do MIR, junto com os infantes da Marinha.

Pouco a pouco, se aperta o cerco, é bombardeado e destruído o Hospital de Puerto Cabello, por expressa ordem do Ministro do Interior, Carlos Andrés Pérez, ferindo e assassinando civis inocentes.

Nas últimas horas do domingo, 3 de junho, são detidos o capitão-de-fragata Pedro Medina Silva, o capitão-de-navio Manuel Ponte Rodríguez(que, de forma vil, deixaram morrer na prisão) e o capitão-de-corveta Víctor Hugo Morales, os quais dirigiam a rebelião.

4 de junho

Na segunda feira, 4 de junho, os últimos disparos da Puerto Cabello revolucionária ressoavam para a história. Puerto Cabello jamais se rendeu em três dias de combates ferozes. Isolados, sem possibilidade de receber reforços e sem que nenhuma outra guarnição se somasse à rebelião, os defensores da cidade iam ficando sem armas e sem munições, para o rechaço a forças seis vezes maiores. Como relata o capitão Pedro Medina Silva: “ Lembro-me de que, em 1966, quando convidado a fazer uma palestra em Cuba, o público me perguntou por que Puerto Cabello se rendeu. Respondi: “Puerto Cabello não se rendeu. Apenas não se tinham mais armas”. Os aplausos foram apoteóticos. Esta é e será a verdade. Não havia mais armamentos para a continuação do combate.

Exemplo e estímulo

Estima-se entre 300 e 700, aproximadamente, os mortos na luta revolucionária, sendo uma das batalhas mais sangrentas da história venezuelana.

É uma dívida à memória histórica o resgate de centenas de venezuelanos que foram enterrados em valas comuns, sem nenhum tipo de identificação, deixando claras as arbitrariedades do governo de Betancourt ao sufocar a rebelião. Um estudo que esclareça, definitivamente, o número de vítimas de El Porteñazo e as circunstâncias de suas mortes, ressaltando que muitos sobreviventes relatam os fuzilamentos massivos realizados pelas forças governamentais.

A atitude heroica desses militares revolucionários, que se opuseram, desde o princípio, aos crimes da falsa democracia de pacto do Ponto Fixo, é um fato que a história deve reivindicar.

O apoio do povo de Puerto Cabello à rebelião, o sacrifício dos jovens e adultos comunistas que, com armas nas mãos, combateram ombro a ombro com os militares revolucionários em Puerto Cabello, é parte de nosso glorioso passado, como também exemplo e estímulo para redobrar o trabalho pela revolução socialista na Venezuela.

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