HÁ 50 ANOS DO PORTEÑAZO, A RESISTÊNCIA CONTINUA

Neste 2 de junho se comemoram os 50 anos da tentativa de golpe cívico-militar conhecida como o Porteñazo. Alguns a chamaram de batalha; outros, de massacre. Com este levante, fecha-se o ciclo golpista que tem sua primeira manifestação com o O Guairazo, em janeiro de 1962, e foram tentativas de militares e militantes do PCV e do MIR de “dar ao povo o poder”. Já naquele momento, um setor do PCV mantinha um posicionamento teórico, segundo o qual “a insurreição se pode fazer com o sim do exército, mas nunca contra ele.”

No estamento militar havia grupos descontentes pelos deslocamentos e pelas recomposições. Sentiam que não tinham sido transferidos para os lugares que lhes correspondiam, pois a nascente administração, para neutralizar alguns e ganhar confiança de outros, ia fazendo uma seleção de cunho partidário para aumentar seus níveis de segurança, daí que muitos se sentiram substituídos dentro da nova ordem.

Esta influencia nos militares descontentes dava, na esquerda conspirativa, segurança de triunfo. É possível que isto tenha influído para que a oposição se radicalizasse, reduzindo a defesa da Constituição que antes apregoava, e começasse a vigorar a tendência golpista. O PCV que considerava as Forças Armadas como um corpo anticomunista experimenta uma aproximação com os setores democráticos e patrióticos no seio do exército.

Diz-se que, já no ano de 1957, Douglas Bravo e Eloy Torres se reuniram na casa do oficial, Rafael Arráez Morles, em El Paraíso, e determinaram que as Forças Armadas eram permeáveis às ideias revolucionárias. Isto motivou um trabalho de captação de oficiais que, em poucos anos, conseguiria a incorporação de 170 fardados ao PCV. No III Congresso desse partido pode-se ler: “… é ilusão pensar que podemos vencer e estabilizar um governo democrático, patriótico e soberano, sem Forças Armadas imbuídas de: resistência patriótica ao explorador estrangeiro; não-vacilação e conciliação ante suas pressões, chantagens e adulações; bem como imbuídas de uma atitude democrática resoluta contra os setores reacionários internos que servem de agentes e aliados dos grandes monopólios norte-americanos.” Com este documento, começa a se fortalecer uma tendência golpista da esquerda, que buscará suplantar a luta popular para “dar de presente ao povo” um novo governo.

A derrota destes levantes militares debilita fortemente o chamado “Movimiento Revolucionário”. Em posteriores apreciações históricas, caracteriza-se a inexistência, na Venezuela, de um Partido Revolucionário; elas se sustentam, em parte, com a observação de ver como as vanguardas do momento foram detalhando todo o seu poderio e influências. Nos balanços desses momentos, acusam-se desvios aventureiros, foquistas, imediatistas, vanguardistas, e contradições entre o dizer e o fazer. Ao não existirem vínculos entre a teoria e a prática, nenhuma das duas era revolucionária. Sem teoria revolucionária (concepção estratégica) tudo se converte em taticismo oportunista de bater a esmo.

Na reavaliação do Porteñazo, ficou claro que muitas das forças militares e políticas comprometidas não chegaram a decolar. Outros afirmam que Betancourt, com a chamada “tática do pente”, promoveu o descontrole dentro da esquerda até a insurreição. O mandatário contra-atacou, concentrando um enorme potencial bélico contra os sublevados que erroneamente puseram em prática a guerra de posições.

Com a criminosa arremetida contra a insurgência, cercou-se e se metralhou a cidade sob o conceito de “terra arrasada”. Foi uma matança por mar, terra e ar. Calcula-se, conservadoramente, em 700 os mortos do bestial ataque, sendo, em sua maioria, civis os metralhados indiscriminadamente. O nascente regime democrático, com este massacre, dava uma lição de advertência do que viria. O contingente militar foi dizimado.

Assim, com esta quinta tentativa, as direções tradicionais foram deixando pelo caminho todo o seu potencial, ficando sem linha de organização e de massas, e menos ainda com uma coordenação de planos estratégicos; oscilavam entre o reformismo e o aventureirismo. Ao caírem no ar e não encontrarem o que fazer, inventaram a Frente de Libertação Nacional (FLN) e depois, para arranjarem ocupação para alguns militares atrasados, criaram as Forças Armadas de Libertação Nacional (FALN) onde boa parte da direção da luta armada ficou com os militares presos.

Mais adiante, se intensificarão as lutas urbanas e rurais. Inaugurar-se-á o tempo das ações espetaculares, de dar demonstrações ao povo para “acender a faísca que incendiaria a pradaria”. É o foquismo em sua máxima expressão, onde as ações das Unidades Táticas de Combate (UTC) das FALN iniciaram uma série de ações exemplares que pretendiam substituir as massas. Ações que, tampouco, chegaram a propagar a faísca. Produz-se o encapsulamento da esquerda, com seu posterior fracionamento em ilhas dispersas, aflorando contradições e “tendências” de acordo com identificações internacionais.

Iniciam-se confusas linhas políticas que, no fundo, pregavam a pacificação sob o disfarce de luta armada. Chame-se recuo tático, ou dispersão ordenada, retirada atacando ou trégua unilateral — todas finalmente, convergiam no sentido de “dar a Leoni uma chance para que demonstrasse suas intenções de pacificação”. Oportunidade que foi aproveitada pelo aparente “Presidente bobo” para dar carta branca aos militares treinados na Weins Point, que inauguraram a figura do desaparecimento e do massacre de milhares de patriotas em campos e cidades; genocídio acrescentado nos cinco campos de concentração da época. Foram quadros médios, em sua maioria, à margem das direções do PCV e do MIR, que começaram a reorganizar a chamada luta armada com visões de guerra prolongada que, combinada com distintas formas de luta e resistência, manteve a esperança por mais de 30 anos, até que amadureceram de novo as condições que iniciaram a etapa do processo que vivemos atualmente.

Rafael Pompilio Santeliz

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