CINCO SÉCULOS DE PROIBIÇÃO DO ARCO-ÍRIS NO CÉU AMERICANO

Eduardo Galeano (13 de outubro de 2004)

Em 12 de outubro de 1492, a América descobriu o capitalismo. Cristóvão Colombo, financiado pelos reis da Espanha e pelos banqueiros de Gênova, trouxe a novidade às ilhas do Mar do Caribe.

Em seu Diário do Descobrimento, o almirante escreveu 136 vezes a palavra ouro; 50 vezes, a palavra Deus ou Nosso Senhor. Ele não conseguia cansar os olhos, vendo tanta beleza naquelas praias e, em 27 de novembro, profetizou: – Terá toda a cristandade negócios nelas.

E nisso não se enganou.

Colombo achou que o Haiti era o Japão e que Cuba era a China; achou que os habitantes da China e do Japão eram índios; porém, nisso não se equivocou.

Ao longo de cinco séculos de negócios da cristandade, foi destruída a terça parte das selvas americanas, está desabitada muita terra que era fértil, e mais da metade da população não se alimenta de forma continuada.

Os índios, vítimas da mais gigantesca espoliação da história universal, continuam sofrendo a usurpação das últimas sobras de suas terras e condenados à negação de sua identidade própria. Permanece a proibição de seus modos e lhes é negado, na realidade, o direito de ser.

A princípio, o saque e o otrocidio foram realizados em nome do Deus dos céus. Agora, são efetuados em nome do deus do progresso. Contudo, nessa identidade proibida  e vilipendiada,  ainda se expressam manifestações importantes de outra América possível. A América, cega pelo racismo não as vê

Em 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo escreveu em seu diário que ele deseja levar alguns índios para a Espanha a fim de que aprendessem a falar [que deprendan fablar (1)]. Cinco séculos depois, em 12 de outubro de 1989, numa corte de justiça dos Estados Unidos, um índio mixteco foi considerado retardado mental (mentally retarded), porque não falava corretamente a língua espanhola. Ladislao Pastrana, mexicano de Oaxaca, lavrador não-legalizado em campos da Califórnia, estava para ser colocado em um asilo público. Como não se entendia com a intérprete espanhola, um psicólogo viu nele uma clara deficiência intelectual.

Finalmente, os antropólogos esclareceram a situação: Pastrana se expressava perfeitamente em sua língua, a língua mixteca, que é falada pelos índios herdeiros de uma importante cultura que tem mais de dois mil anos de existência.

O Paraguai fala guarani. Um caso único na história universal: a língua dos índios, língua dos vencidos é o idioma nacional unânime. Entretanto, a maioria dos paraguaios opina, segundo pesquisas, que aqueles que não entendem espanhol são como animais.

De cada dois peruanos, um é índio, e a Constituição do Peru afirma que o quéchua é um idioma oficial, tanto quanto o espanhol. A Constituição garante, mas, na prática, ocorre o contrário. O Peru trata os índios como a África do Sul trata os negros. O espanhol é o único idioma que é ensinado nas escolas, único entendido pelos juízes, os policiais e os funcionários (o espanhol não é o idioma da televisão, porque a televisão também fala inglês).

Faz cinco anos, funcionários do Registro Civil das Pessoas, em Buenos Aires, se negaram a registrar uma criança. Os pais, indígenas da província de Jujuy, queriam que seu filho se chamasse Qori Wamancha, um nome de sua língua. O Cartório argentino não aceitou, por ser nome estrangeiro.

Os índios das Américas vivem exilados em sua própria terra. A linguagem não é um sinal de identidade, mas sim, uma marca de maldição. Não os distingue, delata-os. Quando um índio renuncia à sua língua, começa a civilizar-se. Começa a civilizar-se ou começa a suicidar-se?

Quando eu era criança, nas escolas do Uruguai, nos ensinavam que o país tinha-se salvado do problema indígena, graças aos generais que, no século passado, haviam exterminado os últimos charruas.

O problema indígena: os primeiros americanos, os verdadeiros descobridores da América, são um problema. E, para que o problema deixe de ser um problema, é necessário que os índios deixem de ser índios. Tirá-los do mapa ou apagar a sua alma, aniquilá-los ou forçar-lhes a assimilação: o genocídio ou o otrocidio.

Em dezembro de 1976, o ministro do interior do Brasil, triunfal, anunciou que o problema indígena ficaria completamente resolvido no fim do século vinte. Disse: – Todos os índios estarão devidamente integrados à sociedade brasileira, já não serão índios. O ministro explicou que o organismo oficial, destinado à sua proteção (FUNAI, Fundação Nacional do Índio) se encarregará de civilizá-los, ou seja, se incumbirá de acabar com eles.

As balas, a dinamite, a oferta de comida envenenada, a contaminação dos rios, a devastação dos bosques e a difusão de vírus e bactérias desconhecidos dos índios têm acompanhado a invasão da Amazônia pelas empresas à procura de minerais, madeira e outros recursos naturais.

Todavia, a longa e feroz investida não bastou. A domesticação dos sobreviventes, que os resgata da barbárie, é também uma arma imprescindível para a retirada de obstáculos do caminho da conquista.

Matar o índio e salvar o homem, aconselhava o piedoso coronel norte-americano, Pratt. E muitos anos depois, o escritor peruano, Mario Vargas Llosa, explica que não há outro remédio senão o de modernizar os índios, ainda que se sacrifique a sua cultura, para salvá-los da fome e da miséria.

A salvação condena os índios a trabalharem, de sol a sol, em minas e plantações, em troca de salários que sequer dão para a compra de uma lata de comida para cachorro.

Salvar os índios também consiste em pôr fim a seus refúgios comunitários e jogá-los nas pedreiras, de mão-de-obra barata, na violenta intempérie das cidades, em que trocam de língua, nome, vestimenta e terminam tornando-se mendigos, bêbados e putas de bordel.

O salvar os índios se resume em colocar uniforme neles e, com fuzil no ombro, mandá-los matar  outros índios, ou morrerem defendendo o sistema que os nega.

Em suma, os índios são boa carne de canhão; dos 25 mil norte-americanos enviados à Segunda Guerra Mundial, morreram 10 mil.

Em 16 de dezembro de 1492, Colombo anunciara em seu diário: os índios servem para que os mandemos trabalhar, plantar, fazendo tudo o que for necessário, que construam vilas e aprendam a andar vestidos e se adaptem aos nossos costumes.

Sequestro dos braços, roubo da alma: para dar nome a esta operação, em toda a América, usa-se, desde os tempos coloniais, o verbo reduzir. O índio salvo é o índio reduzido. Reduz-se até desaparecer, esvaziado de si mesmo; é um não-índio, é ninguém.

O xamã dos índios chamacocos, do Paraguai, canta às estrelas, às plantas de seu entorno e à louca Totila, que perambula pelos bosques e chora.

Canta também o que conta o Martim pescador: – Não passe fome, não passe sede.

Canta o que conta a neblina: – Venho destruir a geada, para que teu povo não passe frio.

E canta o que lhe contam os cavalos do céu: – Selem-nos e vamos buscar a chuva.

Não obstante, os missionários de uma seita evangélica obrigaram o xamã a deixar suas plumas, suas soalhas e seus cânticos, por serem coisas do diabo: ele já não pode curar mordidas de cobras, nem trazer a chuva durante as secas, nem voar sobre a terra para cantar o que vê.

Em uma entrevista com Ticio Escobar, o xamã diz:

– Deixo de cantar e fico doente; meus sonhos não sabem aonde ir e me atormentam. Estou velho, estou ferido. Afinal, de que me adianta renegar a mim mesmo?

O xamã disse essas coisas em 1986. Em 1614, o arcebispo de Lima queimou todas as flautas e demais instrumentos de música dos índios, proibindo também suas danças, cantos e cerimônias, para que o demônio não pudesse continuar praticando suas enganações.

Em 1625, o ouvidor da Real Audiência da Guatemala proibiu as danças, cantos e cerimônia dos índios, sob pena de cem açoites, porque via nelas pacto com o diabo.

Para privar os índios de sua liberdade e de seus bens, retiram-se deles seus símbolos de identidade. São proibidos de cantar, dançar e sonhar com seus deuses, embora eles tenham sido por seus deuses cantados, dançados e sonhados no distante dia da Criação.

Desde os frades e funcionários do poder colonial, até os missionários das seitas norte-americanas que hoje se proliferam na América Latina, crucificam-se os índios em nome de Cristo. Para salvá-los do inferno, é preciso evangelizar os pagãos, idólatras.

Usa-se o Deus dos cristãos como meio para o saque.

O arcebispo Desmond Tutu se refere à África, porém, também vale para a América:

– Vieram.

Eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra.

E nos disseram:

– Fechem os olhos e rezem. E quando abrimos os olhos, eles tinham a terra e nós tínhamos a Bíblia.

Os doutores do Estado moderno preferem a lógica da Ilustração para salvá-los das trevas; deve-se civilizar os bárbaros ignorantes. Antes e agora, o racismo  torna o saque colonial  um ato de justiça. O colonizado é um sub-homem, capaz de superstição, mas incapaz de religião; preparado para o folclore, porém incapaz de cultura; o sub-homem merece trato sub-humano, e seu escasso valor corresponde ao baixo preço dos frutos de seu trabalho.

O racismo legitima a rapina colonial e neocolonial, tudo ao longo dos séculos e dos diversos níveis de suas humilhações sucessivas. A América Latina trata os seus índios como as grandes potências tratam a América Latina.

Gabriel René-Moreno foi o mais prestigiado historiador boliviano do século passado. Uma das universidades da Bolívia leva o seu nome atualmente. Este prócer da cultura nacional achava que os índios são asnos, que geram mulos quando cruzam com brancas.

Ele pesou o cérebro de um índio e o de um mestiço, os quais, segundo sua balança, pesavam entre cinco, sete e dez onças menos que o cérebro da raça branca, considerando-os, portanto, incapazes de conceber a liberdade republicana.

O peruano, Ricardo Palma, contemporâneo e colega de Gabriel René-Moreno, escreveu que os índios são uma raça abjeta e degenerada. E o argentino, Domingo Faustino Sarmiento, elogiava, desta maneira, a longa luta dos índios araucanos pela sua liberdade: – São mais indomáveis, ou seja, animais mais rebeldes, menos aptos para a Civilização e a assimilação europeia.

O mais feroz racismo da história latino-americana se encontra nas palavras dos intelectuais mais célebres e celebrados do final do século, e nos atos dos políticos liberais que fundaram o Estado moderno.

Às vezes, eles eram índios de origem, como Porfírio Diaz, autor da modernização capitalista do México, que proibiu os índios de caminharem pelas ruas principais e sentarem-se nas praças públicas, caso não trocassem os calções de algodão pela calça européia e os huaraches por sapatos.

Eram os tempos da preparação para o mercado mundial, regido pelo Império Britânico; e o desprezo científico pelos índios outorgava impunidade ao roubo de suas terras e braços.

O mercado exigia café e o café exigia mais terras.

Vejamos, àquela época, como exemplo, um liberal da Guatemala, Justo Rufino Barrios, homem do progresso, que restabeleceu o trabalho forçado da época colonial e presenteava seus amigos com terras dos índios e peões indígenas em grande quantidade.

O racismo se expressa, com mais crueldade, em países como a Guatemala, onde os índios continuam sendo maioria porfiada, apesar das frequentes ondas de extermínio.

Em nossos dias, não existe mão-de-obra pior paga: os índios maias recebem 65 centavos de dólar, para lavrar uma quinta de café ou de algodão ou uma tonelada de cana. Os índios não podem plantar milho sem permissão militar e não podem movimentar-se sem permissão de trabalho. O exército organiza o recrutamento massivo de braços para o plantio e colheitas de exportação.

Nas plantações, usam-se pesticidas cinquenta vezes mais tóxicos que o máximo tolerável; o leite das mães é o mais contaminado do mundo ocidental. Felipe, irmão mais novo de Rigoleta Manchú, e a melhor amiga dela, morreram na infância, por causa de pesticidas lançados por pequenos aviões. Felipe morreu trabalhando no café; Maria, no algodão.

A facão e bala, o exército acabou depois com todo o restante da família de Rigoleta e com todos os demais membros da sua comunidade. Ela sobrou para contar a história.

Com alegre impunidade, reconhece-se oficialmente que foram eliminadas do mapa 440 aldeias indígenas, entre 1981 e 1983, durante uma longa campanha de aniquilação muito extensa, que assassinou, ou fez desaparecer, milhares de homens e mulheres.

A limpeza da serra, plano de terra arrasada, pôs fim à vida de uma incontável quantidade de crianças. Os militares guatemaltecos têm a certeza de que o vício da rebelião se transmite geneticamente.

Uma raça inferior, condenada ao vício e à vagabundagem, incapaz da ordem e do progresso, merece melhor sorte?

A violência institucional e o terrorismo de Estado incumbem-se de sanar as dúvidas. Os conquistadores já não usam couraça de ferro, vestem, sim, uniforme da Guerra do Vietnã. Não têm pele branca: são mestiços envergonhados de seu sangue ou índios arrastados à força e obrigados a cometer crimes que destroem a si mesmos.

A Guatemala menospreza os índios. A Guatemala se automenospreza. Esta raça inferior descobriu o número zero, mil anos antes de os matemáticos europeus saberem que existia.

Já havia conhecido a idade do universo, com enorme precisão, mil anos antes que os astrônomos do nosso tempo a conhecessem.

Os maias continuam sendo os viajantes do tempo. O que é um homem no caminho? Tempo.

Eles ignoravam que o tempo é dinheiro, como nos revelou Henry Ford. O tempo, fundador do espaço, lhes parece sagrado, como sagrados são sua filha, a terra e seu filho, o ser humano. Como a terra, como a gente, o tempo não pode ser comprado nem vendido. A Civilização continua fazendo o possível para tirá-los do erro.

A história muda segundo a voz que a conta. Na América, na Europa, ou em qualquer outra parte. O que para os romanos foi a invasão dos bárbaros, para os alemães foi emigração para o Sul.

Não é a voz dos índios que tem contado, até agora, a história da América. Nas vésperas da conquista espanhola, um profeta maia, que foi porta-voz dos deuses, anunciou: “Ao terminar a cobiça, a cara e as mãos ficarão desatadas. Os pés do mundo ficarão livres.” E quando se desata a boca, o que dirá? O que dirá a outra voz, a jamais ouvida? Do ponto de vista dos vencedores, que até o momento tem sido o único, os costumes dos índios sempre se caracterizam pelo seu caráter demoníaco ou por sua inferioridade biológica. Tem sido assim, desde os primeiros tempos da vida colonial.

Os índios das ilhas do Caribe se suicidavam por se negarem ao trabalho escravo? Para o colonizador, a razão é a sua vagabundagem.

Andam nus, com todo o corpo praticamente exposto? O motivo é que não têm vergonha.

Ignoram os índios o direito à propriedade e dividem tudo, e não têm desejo de riquezas? Porque são mais parentes de macacos do que do homem.

Banham-se com suspeita frequencia? Porque se parecem com hereges da seita de Mahoma, que ardem nos fogos da Inquisição.

Jamais batem nas crianças e as deixam andar livres? Porque são incapazes de castigo e doutrina.

Creem nos sonhos e obedecem a seus deuses? Por influência de Satanás ou por estupidez. Comem quando têm fome e não quando é hora de comer? Porque são incapazes de dominar os instintos.

Amam quando sentem desejos? Porque o demônio os induz a repetir o pecado original.

É livre a homossexualidade? A virgindade não tem importância alguma? Porque vivem na antessala do inferno.

Em 1523, o cacique Nicarágua perguntou aos conquistadores:

– E o rei dos senhores, quem o elegeu?

O cacique tinha sido eleito pelos anciões das comunidades.

Havia sido o rei de Castela eleito pelos anciões de suas comunidades?

A América pré-colombiana era vasta e diversa, e tinha formas de democracia que a Europa não conseguia ver, que o mundo ainda ignorava.

Reduzir a realidade americana ao despotismo dos imperadores incas, ou às práticas sanguinárias da dinastia asteca, equivale a reduzir a realidade da Europa renascentista à tirania dos monarcas ou às sinistras cerimônias da Santa Inquisição.

Na tradição guarani, por exemplo, os caciques são eleitos em assembleias de homens e mulheres – que os destituem caso não cumpram o mandato coletivo.

Na tradição iroquesa, homens e mulheres governam em pé de igualdade.

Os chefes são homens, porém são as mulheres que os põem e depõem, tendo elas o poder de decisão, através do Conselho de Matronas, sobre muitos assuntos fundamentais da confederação inteira.

Lá pelos anos 1600, quando os homens iroqueses se lançavam à guerra por sua conta, as mulheres fizeram greve de amores. Logo, os homens, ao se sentirem sozinhos, submeteram-se ao governo de compartilhamento.

Em 1919, o chefe militar do Panamá, nas Ilhas de San Blas, anunciou seu triunfo:

– As índias kunas já não vestirão molas, mas sim vestidos civilizados. Disse que as índias nunca mais pintariam o nariz, porém, as bochechas, como deve ser; que jamais colocariam argolas no nariz, mas, nas orelhas. Assim que deve ser.

Setenta anos depois daquele canto de galo, as índias kunas de nossos dias continuam brilhando suas argolas de ouro no nariz pintado, continuam vestindo suas molas, muitas delas feitas de cores e se expressam com enorme capacidade de imaginação e beleza; vestem suas molas na vida e com elas se submergem na terra, quando chega a morte.

Em 1989, nas vésperas da invasão norte-americana, o general Manuel Noriega afirmou que o Panamá era um país respeitador dos direitos humanos: – Não somos uma tribo, ressaltou.

As técnicas arcaicas, nas mãos das comunidades, tinham tornado férteis os desertos das Cordilheiras dos Andes. As tecnologias modernas, nas mãos do latifúndio privado, exportador, estão transformando em desertos as terras férteis dos Andes, em todas as regiões.

Seria absurdo retroceder cinco séculos nas técnicas de produção; porém, não menos absurdo é ignorar as catástrofes de um sistema que asfixia o homem, arrasa os bosques, viola a terra e envenena os rios para obter o máximo de lucro num mínimo de tempo. Não é absurdo sacrificar a natureza e a população nos altares do mercado internacional?

Nesse absurdo vivemos, e o aceitamos como se fosse nosso único destino possível.

As chamadas culturas primitivas se tornam ainda perigosas porque não perderam o sentido comum. Sentido comum é também, por extensão natural, sentido comunitário.  Se o ar pertence a todos, por que a terra tem de ter dono?

Se viemos da terra e para a terra voltaremos, por acaso não nos mata qualquer crime que se cometa contra a terra? A terra é berço e sepultura, mãe e companheira. São oferecidas a ela a primeira bebida e o primeiro bocado; dá-se descanso a ela, e se a protege da erosão.

O sistema menospreza o que ignora, porque ignora o que teme conhecer. O racismo é também uma máscara do medo.

O que sabemos das culturas indígenas? O que nos contaram os filmes de Faroeste.

E das culturas africanas, o que sabemos? O que nos contou o professor Tarzan, que nunca esteve na África.

Disse um poeta do interior da Bahia:

Primeiro, me roubaram da África. Depois, roubaram a África de mim. A memória da América foi mutilada pelo racismo. Permanecemos agindo como se fôssemos filhos da Europa, de ninguém mais.

No fim do século passado, um médico inglês, John Down, identificou a síndrome que hoje leva seu nome. Ele achava que a alteração dos cromossomas implicava um regresso às raças inferiores, que gerava mongóis idiotas, negroides idiotas e astecas idiotas.

Simultaneamente, um médico italiano, Cesare Lombrosos, atribuiu ao criminoso nato os traços físicos dos negros e dos índios. Procurou provar cientificamente que os índios e os negros são inclinados, por natureza, ao crime e à debilidade mental. Os índios e os negros, tradicionais instrumentos de trabalho, foram, desde então, também objetos da ciência. Na mesma época de Lombrosos e Down, um médico brasileiro, Raimundo Nina Rodrigues, decidiu estudar o problema do negro. Nina Rodrigues, que era mulato, chegou à conclusão de que a mistura de sangue perpetua características das raças inferiores e, por conseguinte, a raça negra no Brasil constituirá sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo. Este médico psiquiatra foi o primeiro pesquisador da cultura brasileira de origem africana. Estudou, como caso clínico: as religiões negras, como manifestações patológicas; os transes, como casos de histeria.

Pouco tempo depois, um médico argentino, o socialista, José Ingenieros, escreveu que os negros, vergonhosa escória da raça humana, estão mais próximos dos antropoides que dos brancos civilizados. Ao falar da suposta  inferioridade dos negros, Ingenieros dizia: – Os negros não têm ideias religiosas.

Na realidade, as ideias religiosas tinham atravessado o mar, ao lado dos escravos, nos navios negreiros. Uma prova de obstinação da dignidade humana; às costas americanas chegaram os deuses do amor e da guerra. Em compensação, os da fecundidade, que multiplicaram as colheitas e os escravos do amo, caíram na água.

Os deuses guerreiros e apaixonados que completavam a travessia tiveram de disfarçar-se de santos brancos, para sobreviverem e ajudar a sobreviverem milhões de homens e mulheres violentamente arrancados da África e vendidos como mercadorias.

Ogum, deus do ferro, se fez passar por São Jorge ou Santo Antônio ou São Miguel; Xangô, com seus trovões e seus fogos: no Brasil, por exemplo, ele se disfarça em São Jerônimo, São João e Arcanjo São Miguel. Obatala virou Jesus Cristo, e Oxum, a divindade das águas doces, tornou-se a Virgem da Candelária… (2)

Nas colônias espanholas e portuguesas, e em todas as demais, nas ilhas inglesas do Caribe, após a abolição da escravidão, continua a proibição de tocar tambores e do soar dos ventos ao modo africano; continuava, ainda, a punição com prisão para o simples fato de se ter uma imagem qualquer de algum deus africano.

Deuses proibidos, porque perigosamente exaltam as paixões humanas, e nelas encarnam.

Friedrich Nietzsche afirmou uma vez:

– Eu só acreditaria em um deus que soubesse dançar.

Como José Ingenieros, Nietzsche não conhecia os deuses africanos. Se os tivesse conhecido, talvez tivesse crido neles. Provavelmente, José Ingenieros tivesse mudado algumas de suas ideias, quem sabe.

A pele escura expõe incorrigíveis defeitos de fábrica. Assim, a tremenda desigualdade social, que também é racial, encontra sua explicação em defeitos hereditários. Isso tinha sido observado por Humboldt há duzentos anos e, até hoje, continua desta forma: a pirâmide das classes sociais é escura na base e clara na cúspide. No Brasil, por exemplo, a democracia racial consiste em que os brancos estão acima e os mais negros abaixo.

James Baldwin, sobre os negros nos Estados Unidos:

– Quando deixamos o Mississipi e viemos para o Norte, não encontramos a liberdade. Encontramos os piores lugares no mercado de trabalho; ainda estamos neles.

Um índio do norte argentino, Asunción Ontiiveros Yulquila, evoca hoje o trauma que marcou sua infância:

– As pessoas boas e bonitas eram as que se pareciam com Jesus e com a Virgem. Mas, meu pai e minha mãe não se pareciam em nada com as imagens de Jesus e da Virgem Maria que eu via na igreja de Abra Pampa. A cara própria é um erro da natureza. A cultura própria, uma prova de ignorância ou uma culpa sujeita à expiação. Civilizar é corrigir.

O fatalismo biológico, estigma das raças inferiores – congenitamente condenadas à indolência, à violência e à miséria – não nos impede de só ver as causas reais da nossa desventura histórica. Além disso, o racismo nos impede de conhecermos ou reconhecermos certos valores fundamentais que as culturas desdenhadas tenham conseguido milagrosamente perpetuar, e que elas encarnam ainda, mal ou bem, não obstante séculos de perseguição, humilhação e degradação.

Esses valores fundamentais não são objetos de museu. São fatores de história, imprescindíveis para nossa indispensável invenção de uma América sem mandões e mandados. Esses valores acusam o sistema que os nega.

Faz algum tempo, o sacerdote espanhol, Ignácio Ellacuría, me disse que acha absurdo esse tal de Descobrimento da América. O opressor é incapaz de descobrir, me disse.

– É o oprimido que descobre o opressor.

Ele achava que o opressor sequer pode descobrir-se a si mesmo. A verdadeira realidade do opressor só pode ser vista a partir do oprimido. Ignácio Ellacuría foi crivado de balas por acreditar nessa imperdoável capacidade de revelação e por compartilhar os riscos da fé em seu poder de profecia.

Assassinaram-no os militares de El Salvador, ou o assassinou um sistema que não pode tolerar um olhar que o delata?

(1) Expressão do idioma aragonês. (Observação do tradutor)

(2) Estes nomes de divindades do sincretismo religioso devem ter sido pegos de outras culturas afro-descendentes, uma vez que não coincidem exatamente com os do Candomblé baiano. (Observação do tradutor)

Livre tradução do original espanhol feita por Cláudio de Lima.

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