NOAM CHOMSKY – CONFERÊNCIA NO PERU EM 2006:

514 ANOS DEPOIS, O IMPÉRIO CAMBALEIA

Avram Noam Chomsky, o brilhante lingüista norte-americano e destacado ativista contra a política imperialista dos EUA, visitou o Peru em 2006.

Eu sua estada na terra dos Incas, ressaltou a conferência proferida na Universidade Nacional Maior de São Marcos, sob o título de “514 anos depois, o Império cambaleia”, e seu encontro com Ollanta Humala, o ex-candidato presidencial, pelo Partido Nacionalista Peruano, com quem trocou, assim mesmo, idéias sobre a política peruana e internacional. Chomsky esteve interessado no rumo que tomará o partido liderado por Humala em relação à corrente de governos progressistas da região. O texto da conferência, feita pelo linguista estadunidense na decana universidade da América, é o seguinte:

Entre as datas que marcaram o rumo da história está, sem dúvida, o ano de 1492, no qual sucederam fatos, tanto assombrosos quanto atrozes. Como todos sabemos, as viagens de Colombo abriram o caminho para a conquista européia no hemisfério ocidental, quer dizer, na América Latina, com as consequências terríveis para a população americana e, logo depois, para os africanos que foram trazidos para cá. Foi Vasco da Gama quem abriu o caminho até a África e a Ásia, como citou Adam Smith.

Foi também em 1492 que os conquistadores católicos, com toda a sua influência bárbara, arrasaram uma das civilizações mais avançadas e tolerantes da história europeia: a Espanha mourisca. A conquista de grande parte do mundo forçou a que os árabes e os judeus fossem expulsos de grande parte do território, e que os textos clássicos que, até então, haviam sido criados, fossem destruídos.

A conquista do mundo por parte da Europa e de seus descendentes, entre eles os Estados Unidos, foi, desde então, o tema principal do mundo, embora haja desafios que devem ser enfrentados. As principais razões de seu êxito militar foram as seguintes: primeiro, a sociedade dos europeus causou epidemias que dizimaram as populações mais saudáveis do hemisfério ocidental. Além disso, graças à superioridade militar – e não por qualquer vantagem moral, social ou natural – foi que as pessoas brancas puderam criar e controlar, ainda que brevemente, a primeira hegemonia global da historia. Da América ao Sudeste Asiático, as populações se viram surpreendidas pelo selvageria dos europeus, por sua fúria destruidora e por seu armamento. As sociedades latino-americanas eram pacíficas e desconheciam os níveis de selvageria dos europeus. Não é uma questão de tecnologia, mas, sim, de estado de espírito.

Hoje em dia, esta brecha entre norte e sul foi criada pela conquista global. Tanto intelectuais quanto cientistas têm descoberto recentemente estes informes que haviam sido deixados de lado pelo governo imperial. Descobriram recentemente que, no momento da conquista e antes, o hemisfério ocidental era onde se encontravam as civilizações mais avançadas. Um dos países mais pobres de hoje em dia, como a Bolívia, foi um dos lugares mais sofisticados e complexos, com uma rede ecológica sem igual, com calçadas e canais, com extraordinária riqueza, com muitas obras de arte, pertencentes a um dos maiores impérios da época, talvez – numa escala de comparação – muito maior que o império chinês ou otomano e, inclusive, o russo. Tanto os Andes como a Mesopotâmia foram centros das civilizações mais avançadas, com conquistas, tanto na agricultura como na organização social e nas artes.

No outro lado do mundo, tanto a Índia como a China foram os centros comerciais e industriais mais importantes do mundo, muito mais avançados do que a Europa, em temas como a saúde pública, a sofisticação e o tamanho de sistemas de mercado e de comércio. A esperança de vida do Japão era muito maior do que a da Europa. A Inglaterra tomou emprestado da Índia o que agora se chama de pirataria: suas técnicas e métodos. Atualmente, a pirataria está por cima de qualquer tratado de livre comércio e não é, senão, outra fase do cinismo dos estados ricos. Os historiadores de economia chamam a isso de subir a escada do progresso: Nos Estados Unidos, faz-se todo o possível para se desenvolvê-la e se nega isso ao conhecimento dos demais. Os Estados Unidos também confiaram no uso da pirataria e do protecionismo.

A Inglaterra praticou a pirataria, cometendo os mais atrozes crimes contra a humanidade durante a ocupação de suas colônias. Os botins feitos por Sir Francis Drake podem ser considerados a fonte original dos investimentos estrangeiros na Grã-Bretanha. A Inglaterra, finalmente, adotou a forma do liberalismo em 1846. 150 anos de protecionismo e intervenção estatal lhe deram uma enorme vantagem comparativa. Para isto, destruiu a manufatura-de-ponta indiana por meio de altas tarifas aduaneiras e do uso direto da força.

Os Estados Unidos adotaram a mesma política econômica e comercial. Para isso, retinham, então, metade da riqueza do mundo. Logo depois da segunda guerra mundial, suas redes industriais se viram severamente prejudicadas, e os compromissos de livre comércio estavam restritos. Por exemplo, a Índia permaneceu sendo um protetorado britânico enquanto os ingleses construíam a maior rede de narcotráfico da história: a conquista da Índia se fez, em grande parte, para monopolizar a produção do ópio, de onde os comerciantes ianques tiveram sua fatia.

O monopólio do ópio possibilitou à Grã-Bretanha transformar a China em um país de viciados e entrar no mercado chinês, ao qual os ingleses não tinham podido ter acesso, porque – por considerá-los superiores – os chineses somente compravam seus próprios produtos.

Assim mesmo, o vício do ópio pagou o custo do domínio imperial, pagou os custos administrativos da Índia e foi suficiente para comprar algodão norte-americano, que foi o combustível da revolução industrial, e isso foi possível graças à sistemática violação dos princípios do mercado: conquista, extermínio e escravidão. Isto tem sido ignorado por vários historiadores.

Os Estados Unidos fizeram o mesmo: seus atuais compromissos com tratados de livre comércio são bastante restritos. Isto está na discussão de comércio: a economia norte-americana – sustentada na economia de pós-guerra, baseada na eletrônica de alta tecnologia – vende ao dinâmico setor estatal. Para dizer a verdade, isto sucede também com outras sociedades desenvolvidas. Em geral, com uma ampla intervenção estatal e uma violência doméstica que se transformava em barbárie (nas regiões conquistadas), a Europa e seus descendentes se converteram em sociedades ricas e industrializadas, tanto que as regiões conquistadas foram sujeitas à disciplina do mercado e se converteram no Terceiro Mundo, quer dizer, o Sul.

Os efeitos são surpreendentemente dramáticos. Como exemplo, mencionamos o país mais pobre do hemisfério ocidental – o Haiti – que foi a colônia mais rica do Sul, fonte da riqueza francesa. O primeiro país independente da América Latina (1804), vinte anos depois de a nação mais poderosa do mundo, os Estados Unidos, terem-se libertado da Inglaterra. Os haitianos tiveram que pagar um alto preço por sua libertação: os Estados Unidos rechaçaram a independência haitiana em 1862, do mesmo modo como rechaçaram a independência da Libéria, porque os escravos estavam sendo libertados e havia muita preocupação em manter um país livre de cidadãos não-brancos. Do mesmo modo, a França impôs ao Haiti uma forte dívida para ele poder se libertar de seu jugo. Há uns anos o ex-presidente haitiano, Aristide, perguntou diplomaticamente se o tempo não havia acalmado os efeitos da guerra para cortar o castigo. A França se enfureceu e se uniu aos Estados Unidos para derrotar o governo democrático de Aristide e instaurar um reino de terror na sofrida sociedade haitiana.

Do outro lado do mundo, os conquistadores britânicos estavam assombrados com o bem-estar e alto nível de sofisticação da cultura da civilização bengali; estavam surpresos com o que encontraram. Descreveram o centro têxtil de Dakka, como sendo tão extenso, populoso e rico, como a cidade de Londres. Após um século de ocupação britânica, a população diminuiu, de 150 mil para 30 mil pessoas; voltaram a lei da selva e a malária. Adam Smith escreveu que centenas de milhares de bengalis morriam, em razão de os conquistadores britânicos obrigarem os camponeses a substituírem seus ricos cultivos de arroz e de outros grãos, por cultivos de ópio. Nas palavras dos conquistadores britânicos, a miséria encontra um lugar na história do comércio. Os ossos dos tecedores de algodão fazem barulho nas planícies da Índia. A produção do fino algodão se extinguiu, foi transladada para a Inglaterra, e Bangladesh se converteu, como o Haiti, em símbolo da miséria humana.

Assim a história continua, com poucas exceções. O único caso que se salvou foi o do Japão. É o único país do Sul que se desenvolveu e se industrializou. Adam Smith escreve que a sociedade se desenvolveu de outra maneira nas sociedades conquistadoras e industrializadas e continua até hoje. O império, em forma de luta de classes interna, já havia sido compreendido por Adam Smith há 130 anos atrás: Os grandes comerciantes e produtores ingleses foram os principais arquitetos das políticas de estado que se asseguraram de resguardar seus próprios interesses sem se importarem com os efeitos prejudiciais para o resto da população, incluindo a de seu próprio país. Smith formulou um princípio mais autêntico sobre a teoria das relações internacionais, junto com outra máxima, que diz que os poderosos fazem o que querem e os fracos sofrem porque devem. Estes princípios ilustram o que se deveria fazer para viver em uma sociedade mais decente.

Outro princípio é que aqueles que tiverem o garrote podem fazer seu trabalho eficientemente com o benefício da cegueira auto-induzida, que inclui a amnésia histórica sobre as consequências de suas ações. Para mencionar um exemplo, uma versão convencional da era de Colombo, depois de 500 anos, era a de que os europeus chegaram a um lugar vazio (América) e a chegada dos europeus era a criação da civilização (texto típico escolar norte-americano). Segundo os estudiosos da diplomacia norte-americana, as 13 colônias, depois de se libertarem do domínio inglês, deviam derrubar árvores e tirar os índios de suas fronteiras naturais. “É necessário retirar estas bestas (lobos e índios) para as Montanhas Stone.” (Tomás Jefferson). Estas frases não tinham tanta importância anos atrás, mas em nossos tempos seriam condenadas por serem racistas e vulgares, e isso é um dos tantos indicadores do êxito do ativismo político das sociedades ocidentais nos anos 60, não obstante ainda falte muito o que fazer.

A amnésia histórica se relaciona com a guerra iminente e preferente da doutrina de Bush. Esta tese provém do historiador proeminente, John F. Cadiz: a expansão é o caminho para a segurança. Cadiz rastreia esta doutrina: estes ideais “nobres” provêm de Quincy Adams (6.° presidente dos Estados Unidos) e Woodrow Wilson (28.° presidente dos Estados Unidos). Adams subscreveu estes ideais após a invasão da Flórida contra os escravos libertos e os índios, e a justificou sob o pretexto de que esses “renegados” estavam atentando contra a segurança nacional norte-americana. Na realidade, Adams via nesses povoadores um obstáculo para conquistar Cuba e o Canadá. Isto também se aplicou no Canadá, por meios contemporâneos de subjugação. Pode-se concluir, por comentários feitos por proeminentes historiadores, que tem havido 500 anos de selvageria e se compreendeu que derrubar árvores e índios não era tão importante, e que, seguramente, nestes tempos, isto seria condenado.

A conquista da Flórida em 1818 foi a primeira grande violação da constituição, coisa que, agora, estabeleceu-se como uma rotina. Anos depois, logo após ter-se aposentado, Adam Smith reconheceu seus crimes e se envergonhou de ter colaborado com a destruição da raça norte-americana. Não obstante, suas palavras acabaram prevalecendo. O atual presidente, George Bush, quando disse aos cidadãos que devem estar preparados para uma ação militar iminente para defender a liberdade, faz eco a uma retórica antiga. A doutrina Clinton, por exemplo, defendia que os Estados Unidos tinham direito de recorrer ao uso colateral do poder militar para terem acesso a mercados que lhes fornecem recursos energéticos e outros recursos naturais. Estes arquitetos da política se preocupam com sua própria segurança, mas não com a segurança da população. No início, estes arquitetos eram os comerciantes; hoje em dia são as megacorporações, transnacionais criadas e respaldadas pelos estados que elas controlam.

A segurança, hoje em dia, tem a ver com duas ameaças: a guerra nuclear e a catástrofe ambiental, dois temas superdimensionados para sua própria conveniência. Não porque eles queiram a destruição da espécie, mas, sim, porque há outras altas prioridades, como o lucro a curto prazo e o poder. Também, a ameaça terrorista pode ser construída dentro desta política. O caso do Iraque é um exemplo relevante. A ameaça terrorista, mais além do que na realidade representa, tem sido uma desculpa para que os Estados Unidos controlem os fornecimentos energéticos e Washington tenha o poder dissuasivo frente a seus rivais industriais.

Isto também está relacionado com a destruição do Líbano por parte de Israel e da América do Norte, sob o mesmo pretexto de que não mereceu em nenhum momento uma investigação exaustiva. Todos coincidem em assinalar que isso vai criar uma nova geração de terroristas inspirados no ódio aos Estados Unidos, uma nova geração de jihads.

A administração Bush permitiu que se formasse uma comissão para investigar as melhores medidas de segurança, logo após o 11 de setembro. Mas, as recomendações feitas por essa comissão foram ignoradas. Um exemplo é que a comissão reconheceu a importância de implementar segurança na fronteira canadense. A resposta da administração Bush foi transladar agentes de segurança até a fronteira mexicana, que ocultava a resposta dos Estados Unidos após o Tratado de Livre Comércio, em 1994, (NAFTA) com esse país, prevendo que os camponeses empobrecidos buscariam fugir para o norte. Por isso, a fronteira devia ser militarizada.

Este esquema ilustra os mecanismos que foram utilizados pelas potências econômicas para chegarem a este sistema de dominação que hoje se chama globalização. Num sentido liberal, globalização implica em integração internacional, pessoas que se unem ao mundo, que viajam de todos os lados e trabalham juntos para desenvolverem formas de integração mundial nos âmbitos econômico, cultural e político, e que se interessam pelas pessoas do mundo, pelas pessoas reais – de carne e osso. No sistema doutrinal, o termo técnico se usa como integração econômica que serve aos interesses dos investidores e instituições estrangeiras que concentram o poder privado e o estado.

O controle da América Latina foi o primeiro objetivo norte-americano, não somente pelos mercados, como também por uma visão estratégica: se era capaz de controlar a América Latina, podia fazê-lo com o resto do mundo, e isso está citado em documentação confidencial. Não obstante, os métodos tradicionais de controle estão perdendo eficácia, a região está-se separando da influência norte-americana, tal como vêm demonstrando a Venezuela e a Argentina, e o poder da China na Ásia Ocidental e Oriente Médio está crescendo. Mas, na América Latina, diferentemente do Sudeste Asiático, os grandes investidores provêm dos países imperialistas ou dominadores.

Existem, não obstante, grupos e organizações que se interessam, sim, pelas pessoas e cada vez têm maior acolhida. Grupos mal chamados de “antiglobalizadores”, porque eles, sim, se preocupam com uma verdadeira globalização onde as pessoas importem mais do que os investidores. São grupos que não negam o progresso, mas que buscam utilizá-lo como oportunidades de promessa para um futuro melhor.

Tradução livre de extrato da Revista Mariátegui/CBP, feita por Alberto Souza

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