POBRE CAMPANHA ELEITORAL

As forças de direita usaram a sua astúcia para evitar o debate político, principalmente no segundo turno das eleições para Presidente da República. Colocaram em pauta nos debates televisivos questões religiosas, aborto e corrupção generalizada. Só faltou a tentativa de trazer de volta a Santa Inquisição e transformar o Brasil em Sodoma. Uma escalada fascista que tentava convencer a população de que o país estava sob o efeito das coisas do demônio, matando criancinhas, empesteado de roubos; um caos que exigia alguém que salvasse a nação brasileira. Mentir repetidamente, com ares de dramaticidade, tentando convencer ingênuos, foi uma constante do candidato da direita e seu séquito. Rezas e orações não faltaram. Era necessário provar que só o candidato tucano não estava com o diabo. O ataque fascista foi maior do que muita gente imagina. Padres e bispos entraram em campo, e Deus parecia ter decidido participar da contenda. Serra fechava os olhos e orava nas igrejas protestantes, e rezava nas igrejas católicas. Dilma, vacilante, lá com as suas razões, aderiu à regra do jogo: começou a rezar e orar, e não parava de fazer o sinal da cruz junto a altares; garantindo também a pastores que é cristã desde criancinha. Uma guerra santa para libertar o Brasil de tantos males. Serra usava como mote o Ficha Limpa e se colocava como o que tinha condição de purificar a pátria invadida por todos os malefícios. Dilma fazia a sua parte, tentando mostrar que a dignidade personificada era ela.

Os setores mais politizados da sociedade chegavam ao ápice da irritação. Achavam que tudo o que tinham feito, para politizar o maior número possível de pessoas antes do período eleitoral, poderia ir de água baixo. Para eles, os debates eleitorais, na verdade, entorpeciam, ameaçavam mentes que tentam se libertar de ideologias de dominação, antigas e modernas.

Surge, enfim, uma pequena luz, antes pouco do que nada: Dilma fica um dia sem beatice e toma uma decisão profana; dá atenção a coisas de pecadores ansiosos por viverem melhor aqui na terra. Diz a Serra que não aceita que ele privatize o pré-sal. Serra e toda a sua direita entram em pânico. Não esperava que sua pauta fosse tão diabolicamente atacada. Agora, teria de parar de olhar para o céu, tentando com a ajuda de Deus evitar essa coisa subversiva chamada debate político, que pode despertar o povo para crítica, exigências e julgamentos políticos. Tinha que fazer alguma magia: dizer que o feio é bonito, que dois mais dois não são quatro, que, assim sendo, quando era ministro privatizante, ao lado de FHC, quase transformou o Brasil num paraíso. Perdeu a razão que não tinha: chegou a prometer estatizar tudo, defendendo uma Petrobrás cem-por-cento estatal. Quase vira um socialista radical, causando risos e mais risos e inspiração para humoristas. Estava nocauteado.

Dilma, com esta sua subversão da lógica eleitoral da direita – ainda que de maneira trepidante – acabou conseguindo votos até mesmo de eleitores de esquerda que já pensavam em votar em branco. O pré-sal foi a salvação.

Alberto Souza

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