A MÍDIA E A ABERTURA DOS ARQUIVOS DA DITADURA

Apoiadores dos que torturaram e mataram durante o período ditatorial estão sendo chamados pela mídia para participarem de debates  sobre a abertura dos arquivos da ditadura, como se tais discussões  fossem viáveis. Ora, sabe-se  que os defensores de uma causa indefensável, de ação criminosa configurada, não têm condição de debater, de argumentar, de obedecer  a qualquer regra  de debate, principalmente quando se trata de crime de lesa-humanidade. Então, por que a mídia  os convida?  É que boa parte dela, por ter apoiado o golpe militar, hoje, sob disfarce, não vê com bons olhos  que gente que esteve ao seu lado, militar ou civil, não tenha espaço para  tentar enganar a opinião pública – numa tentativa sutil de colocar em pé de igualdade os que torturaram e mataram nos porões da ditadura,  e suas  vítimas. A mídia sabe que se trata de  gente que não tem como argumentar, expressar-se racionalmente, que só tem um recurso: insultar e xingar a todos os setores que, de uma forma ou de outra, lutaram contra a ditadura.

Por outro lado, alguém que aceita este jogo da mídia – achando que deve debater com um defensor de torturadores, apoiador de quem cometeu crimes de lesa-humanidade – pode, equivocadamente, admitir que seria correto que os agentes da Alemanha nazista, da ditadura de Franco, do regime de Pinochet, ou de Videla na Argentina, viessem ao meios de comunicação para  fazer provocações de carceragem contra os que, patrioticamente,  lutaram  pela conquista da democracia.

O democrata, a serviço dos direitos humanos, apenas deve limitar-se a defender o direito de qualquer criminoso, inclusive o lesa-humanidade, de ter advogado de defesa. Agora, bater-boca com quem defende ou pratica  a tortura, que xinga, esbraveja e insulta — porque não lhe é possível outro caminho — é fazer o jogo de uma mídia  que quer confundir e buscar  meios  de preservar os setores da sociedade que ela defende.

Há poucos dias, um defensor  da abertura dos arquivos da era ditatorial apareceu  numa rede de televisão para um tal debate com um apoiador das ações criminosas da  ditadura militar. O humanista,  militante da luta pelos direitos humanos,  tentou convencer  o admirador  do golpe de 64 de que a criação  da Comissão da Verdade e seus propósitos são nobres, de alta importância para a democracia  e um direito do povo brasileiro.  O golpista não vacilou, não veio ali para debater coisa nenhuma: foi para o insulto e espumava de raiva. Chamou de terrorista todo mundo que lutou contra a ditadura. Para ele, era gente que queria implantar uma ditadura comunista no país e outras irracionalidades; só faltou dizer que o golpe foi feito, inclusive para salvar nossas criancinhas. O militante humanista tentou argumentar… o golpista não deu trégua, e berrava…

Descontrolado, o iludido ativista dos direitos humanos começou a tremer, suas mãos saltavam sobre a mesa sem parar, parecia que algo de grave poderia acontecer-lhe.  Valeu a experiência para quem tem a ilusão de achar viável debater democraticamente com fascistas.

Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo

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