BOLÍVIA – A REVOLUÇÃO DE 1952

Em 1932, é iniciada, entre a Bolívia e o Paraguai, a Guerra do Chaco, indo até 1935. É que a Bolívia queria uma saída para o Atlântico, através do Rio Paraguai. Contudo, em grande medida, estavam por trás dessa disputa, as petroleiras Standard Oil, truste americano, e a Shell, anglo-holandesa. Ambas de olho no petróleo do Charco Boreal, região petrolífera. Um conflito de grande derramamento de sangue, pondo fim à vida de quase 100 mil pessoas de dois povos irmãos da América do Sul.

Em termos militares, a grande derrota foi da Bolívia, cujas forças armadas ficaram profundamente desgastadas junto à população boliviana. O que trouxe rebeldias dentro do Exército e um tipo de setor militar mais voltado para o povo e de sentimento antiimperialista, com cunho fortemente progressista. Gente disposta a defender a soberania do país, a começar pela defesa dos hidrocarbonetos, que deveriam sair das mãos da Standard Oil. Em decorrência desse processo político de pós-guerra, surge o primeiro governo desse segmento das FFAA, liderado pelo coronel Davi Toro, que logo expropriaria os bens do truste ianque e nacionaliza o petróleo e o gás, fazendo surgir a estatal YPFB. O segundo governo desse setor foi o do general Gérman Busch que, devido à terrível pressão das oligarquias e de três famílias – Simón Patiño, Carlos Aramayo e Maurício Hoschild – que detinham o controle do estanho e de outros minérios, acaba suicidando-se.

Busch se torna mártir de um povo que despertava para mudanças, para enfrentar os seus exploradores e o próprio imperialismo.

Derrotados o setor nacionalista e o progressista militar, o povo Boliviano continua sob um quadro econômico e social de, praticamente, um mínimo de alteração em relação a décadas de exploração e miséria, a que sempre foi submetido desde a era de dominação espanhola: a quase totalidade da população, na sua absoluta maioria vivendo no campo, em condição de servidão, sob a brutal exploração de latifundiários. Para estes, os camponeses tinham de trabalhar metade dos dias da semana, ficando com os dias restantes para produzirem para o seu sustento e o de sua família. Mais de 90% do povo eram analfabetos e sem direito a voto, sem cidadania, num momento em que para ter esse direito, ser reconhecida como cidadã, a pessoa tinha de ter alguma posse e acesso à escola.

Os índios, maioria absoluta da população, que no passado tinham terras para trabalhar e ganhar a vida, após perdê-las para latifundiários, viram-se obrigados a um regime de semi-escravidão, trabalhando para uma minoria que os expropriou, a troco de quase nada; 92% das terras cultivadas estavam nas mãos de 6% da população rural; somente 2% das terras eram cultivadas. Assim, a produção de alimentos, subordinada a uma estrutura de latifúndios, era extremamente precária, forçando o país a importar comestíveis, vendendo-os a preços insuportáveis para a grande maioria da população, elevando enormemente a inflação.

O controle dos minérios, como o estanho e outros, permanecia nas mãos das mesmas famílias oligárquicas de sempre.

As condições objetivas para revoltas, inclusive para a revolução, estavam dadas, e algum nível de consciência e organização, principalmente entre o proletariado mineiro,  tornava-se evidente. É quando, nos anos 40, surge o MNR (Movimento Nacionalista Revolucionário), partido de composição ideológica contraditória, pois dentro dele existiam, desde setores antiimperialistas e socialistas, até nazi-fascistas, simpatizantes de Hitler e Mussolini, tendo prevalecido, no entanto, com o passar do tempo, os que tinham o propósito de derrotar as oligarquias e o imperialismo, para levar o país a ser dono de suas riquezas, buscando fazer as reformas necessárias, como a reforma agrária, por exemplo. O seu líder maior era o intelectual Victor Paz Estenssoro, ao lado de Siles Suazo.

Estenssoro ganha as eleições em 1952, mas não consegue tomar posse, devido a uma ação militar golpista. O que leva o MNR a recorrer à luta armada, armando camponeses e mineiros para isso, chegando ao poder.

No poder, levado pela pressão das massas revolucionárias, o governo do MNR logo destitui o exército, trocando-o por milícias populares armadas; decreta a reforma agrária; estabelece o direito de voto para todos os indígenas, que passam a poder votar pela primeira vez, ganhando juntamente com outros setores dos explorados a condição de cidadãos; cria a COB, instrumento nacional de luta do proletariado boliviano, tendo Juan Lechin como o seu líder e dirigente máximo, o qual integraria a composição do governo revolucionário.  Medidas políticas irrefutavelmente relevantes.

Inegavelmente, houve avanços com a Revolução, porém, os problemas graves do país não foram resolvidos, tendo ocorrido dificuldades econômicas e, em conseqüência, crises políticas, inclusive com cisões entre as forças socialistas.

Intelectual nacionalista, muito respeitado, bem aceito pela classe média, Paz Estenssoro começa a se afastar da contundência revolucionária pela qual primava durante as ações de tomada do poder e do início de seu governo: restabelece as FFAA, apesar dos protestos da COB e de outras forças que estiveram em ação armada para colocar o MNR à frente do governo; com certeza, prevenindo-se contra a tendência de o proletariado radicalizar, com apoio dos camponeses, buscando o poder e a transformação socialista da sociedade.

Destaque-se que, diferentemente do que acontecia com fatos políticos parecidos na América Latina, os EUA decidiram apoiar o governo do MNR, dando-lhe, inclusive, apoio financeiro, achando que o apoio a Estenssoro e Siles Suazo significava evitar que o poder caísse em mãos de comunistas ou de outras forças dispostas a mudanças radicais. Buscava anular “o pior”. Indubitavelmente, essa manobra do imperialismo americano muito contribuiu para que o MNR fosse perdendo prestígio junto à massa popular que o apoiava, levando seus governantes, cada vez mais, para a direita, principalmente no segundo governo de Paz Estenssoro, derrubado, em 1964, por um golpe militar liderado pelo general Barrientos.

CONCLUSÕES

O proletariado e os camponeses foram as forças que, de fato, fizeram a Revolução, pegando em armas, procurando levar o processo revolucionário às últimas conseqüências. Contudo, não tinham a liderança do movimento como um todo, que ficou sob o controle de intelectuais da classe média que, em geral, tendem a mudar de discurso e prática após a vitória, optando pelo caminho da conciliação. O que mostra que as massas trabalhadoras quase sempre enfrentam a contradição de serem lideradas, em momentos revolucionários, por pessoas ou setores que, pelo seu caráter de classe, não se dispõem a levar a revolução adiante. A não ser quando os egressos de algum setor médio da sociedade – como Lênin, Fidel Castro, Guevara e outros, representando exceções –, assumam política e ideologicamente os propósitos históricos do proletariado.

O golpe militar de 1964 se deu porque os dirigentes do MNR, à frente do governo, preferiram a política de conciliação, tendo recebido, inclusive, o apoio do próprio imperialismo ianque, em detrimento de milhões de explorados bolivianos, que acreditaram ter chegado, com a Revolução, o momento de sua libertação e da construção de uma nova sociedade.

Comitê Bolivariano de São Paulo

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