ONDE ESTÁ O GOLPISMO?

Durante o processo de organização do golpe militar de 64, nem sempre as forças progressistas e democráticas conseguiam identificar os espaços de atuação dos conspiradores, seja em termos físicos seja ideologicamente.

Muitos não percebiam, por exemplo, que órgãos de comunicação de massas participavam, direta ou indiretamente, da organização para derrubar o governo constitucional de Jango Goulart, comprometidos que eram com os grupos econômicos nacionais e internacionais obedientes à orientação norte-americana de que tudo deveria ser feito para que o processo democrático não avançasse no Brasil, por ver nisso uma ameaça aos seus interesses.

Na verdade se subestimou a capacidade de ação das forças de direita; o que explica por que pouco se fez para evitar o seu crescimento, não se denunciando de forma sistemática suas práticas. E, quando se identificavam golpistas, concluía-se tratar-se de grupo diminuto, nada ameaçador.

Sobre a propaganda político-ideológica de setores fascistas notórios, ou não, muito pouco foi realizado para combatê-la, não se percebendo que o sucesso de qualquer escalada de atentado à democracia depende de tal expediente.

Conclusão: aconteceu o golpe, com uma quantidade de golpistas jamais imaginada pela quase totalidade das forças democráticas: golpistas nos grandes jornais e redes de televisão; nos quartéis; na Igreja; em governos; nas escolas; em institutos financiados pelos EUA, aparentemente desativados, como ADEP, IBAD; e outros. Tudo isso, frente a uma nítida falta de unidade entre os setores antigolpistas, não só no sentido ideológico, mas também em termos políticos e orgânicos, com certeza, em decorrência de erros de análises sobre a realidade política vigente.

E, nos dias de hoje, quais seriam os piores erros, caso não se tirassem lições dos equívocos cometidos no período pré-64?

1) Seria imaginar que não existem mais processos golpistas, que os setores de direita resolveram abrir mão de atentados à democracia, preferindo defender seus interesses de forma democrática, abandonando velhos métodos de ação política e ideológica, como o de satanizar lideranças populares e movimentos sociais, pensamentos humanistas ou socialistas, para justificar um apelo de “salvação da ordem”;

2) Seria acreditar que tais setores decidiram abdicar de idéias fascistas, rompendo com a defesa da “limpeza social”, do geneticismo ou hereditarismo como formas de justificar a desigualdade social, do racismo e de outros preconceitos, como se isso não significasse a sua própria perda de identidade mental;

3) Seria crer que a direita – embora representante do capital monopolista do campo e da cidade – passou a convencer-se de que deve defender a concentração das riquezas nas mãos de um punhado de capitalistas nacionais e estrangeiros, deixando de lado seu caráter de organização violento por princípio;

4) Seria esquecer que é dever de qualquer pessoa que aposta no aprofundamento da democracia, com o protagonismo do povo organizado, travar lutas políticas e ideológicas, noite e dia, para evitar que forças retrógradas deem qualquer passo rumo ao triste passado, de que nosso povo foi tragicamente vítima.

Veio a campanha eleitoral recente. Ao contrário do que pode ter pensado gente ingênua, a direita não deixou nenhuma dúvida sobre seus métodos e propósitos e de que não pode deixar de ser o que é: tentou embriagar a sociedade com farsas de todos os tipos, como a chantagem emocional sobre o aborto; forjou uma tal de desordem moral; fez, por vezes, o discurso bushista de que certa candidatura era afeita ao terrorismo; desenvolveu preconceitos; praticou terror ideológico e psicológico de todo tipo, buscando anular a capacidade de raciocínio das pessoas; atacou governos progressistas da América Latina; fez exploração do sentimento religioso, buscando endemoninhar a força adversária; satanizou movimentos sociais.

Contudo, felizmente, ao invés de atingir os seus objetivos, primeiro momento para passos e mais passos atrás, foi derrotada, em 1.º de novembro, graças ao fato positivo de que, frente à ameaça evidente , democratas de todos os setores da sociedade não erraram, uniram-se nas urnas para eleger Dilma, uma candidata que, se não significa um avanço, inegavelmente serviu para evitar o retrocesso.

Fórum Permanente dos Ex-Presos e Perseguidos Políticos do Estado de São Paulo

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