O GRITO DE HOJE

Nos primeiros parágrafos deste escrito, retomamos os eventos originários do Grito de Lares e expressamos de maneira simplificada as causas e razões que deram vida àquele movimento.

Em 1866-67, os liberais reformistas e independentistas, José Julián Acosta, Francisco Mariano Quiñones e Segundo Ruiz Belvis, respectivamente, denunciaram o despotismo colonial e formularam petições de consenso em relação à ordem econômica, social e política.

Sobre o econômico, exigiam liberdade de comércio e fomento agrícola industrial; no social, o fim da escravidão e do sistema de cadernetas de pagamento a diaristas; e no político, a descentralização administrativa e um governo próprio frente à Junta Informativa de Madrid.

Entre as causas que motivaram o Grito de Lares se encontram a indiferença do governo espanhol às demandas de reforma dos porto-riquenhos. Em lugar de mostrar-se conciliador, o governo colonial tentava resolver a situação com o máximo de repressão, desterros e prisão.

Os trabalhadores se achavam economicamente explorados e não desfrutavam de seus direitos políticos, sociais e trabalhistas. A demissão era uma instituição aceita pela administração colonial, pela qual os fazendeiros costumavam praticar dispensas arbitrárias de seus trabalhadores diaristas, ou de seus peões e agregados.

Face a tal situação, na noite de 23 de setembro de 1868, frente a um exército rebelde de aproximadamente 1.000 homens reunidos em sua fazenda, o general Manuel Rojas se dirigiu às tropas e lhes falou das contribuições exorbitantes, da corrupção dos funcionários governamentais e do dever de colocar fim ao regime tirânico. Os anseios libertários do Grito de Lares vinham acompanhados por profundos desejos de reivindicações econômicas e sociais.

Hoje, há 141 anos do Grito de Lares, o povo porto-riquenho – particularmente os trabalhadores e as comunidades pobres – enfrenta uma situação econômica, social e política que apresenta grande semelhança com aquela enfrentada pelos boricuas de 1868.

Igualmente ao que defendiam os independentistas em 1868, os de hoje têm de explicar ao país porque com a independência nacional se pode atender melhor os problemas econômicos, sociais e políticos que atormentam os porto-riquenhos atuais. Procurando não ser cansativo, considerando as limitações de espaço, passo a enumerar algumas considerações.

No econômico:

Para responder de forma efetiva ao colapso da economia colonial, necessitamos da independência para obtermos a liberdade de comércio com outros países, assim como para nos libertarmos das Leis de Cabotagem, que encarecem todas as importações e que, segundo economistas, causam aos consumidores uma quantia acima de 750 milhões de dólares anuais.

Sem as restrições das Leis de Cabotagem, e com liberdade de comércio, o Porto das Américas se converteria em uma extraordinária fonte de atividade econômica e trabalho. Conseguiríamos benefício máximo de nossa privilegiada condição geográfica, o primeiro porto entre a Europa e as Américas, e a meio caminho entre a América do Sul e a do Norte.

Para que tenhamos uma ideia, o valor agregado das mercadorias que as indústrias manufatureiras existentes em Porto Rico produzem a granel gera 250.000 empregos nos Estados Unidos, para onde são transportadas para a sua elaboração, empacotamento e distribuição. Esse valor poderia realizar-se na Ilha, com a utilização das vantagens de baldeação e localização do Porto das Américas, gerando ali os milhares de empregos que hoje são gerados nos EUA.

Outro impedimento colonial ao desenvolvimento econômico nacional são as chamadas Leis do Comércio Inter-Estatal, determinando que qualquer centro comercial pode ser colocado em qualquer lugar, provocando a quebra dos pequenos comerciante. Tomemos, por exemplo, a cadeia de Farmácias Wallgeens. Esta multinacional desafiou as leis do ELA, que requeriam um Certificado de Necessidade e Conveniência para estabelecer esse tipo de negócio em Porto rico. Essa proteção à viabilidade das farmácias de comunidade ficou desmantelada, ao prevalecer, no Tribunal dos Estados Unidos, que a lei de Certificados de Necessidade e Conveniência era uma interferência nas Leis de Comércio Inter-Estatal.

A agricultura jamais poderá sair da situação em que se encontra, a persistir a condição colonial atual. Em 1940, a atividade agrícola representava 40% do PNB; hoje, alcança apenas 3%. Destruíram sistematicamente esse benefício econômico para nos levarem a ser o terceiro país importador de alimentos, num mercado em plena dependência dos Estados Unidos. Só produzimos 15% dos alimentos de que necessitamos. Todos os países do mundo consideram a auto-suficiência alimentar como um assunto de segurança nacional, estabelecendo subsídios e políticas protecionistas para a atividade agrícola. Não podemos aplicar impostos, nem mesmo em cerveja importada, sob pena de sermos acusados de “interferência no Comércio Inter-Estatal”.

Na condição de República de Porto Rico, estaríamos desfrutando atualmente de preços preferenciais do petróleo venezuelano, sob o programa Petrocaribe, barateando substancialmente o custo da energia e de vida no país.

A liberdade de comércio que desfrutaríamos como país independente nos permitiria, ademais, estabelecer consórcios com nossos vizinhos, com os quais poderíamos desenvolver projetos conjuntos para, uns cultivarem suas amplas extensões de terra, outros mecanizarem o empacotamento, e outros distribuírem e comercializarem os alimentos. Também se poderiam desenvolver projetos de turismo compartilhado, oferecendo ao turista uma variedade de programas, com uns dias em Varadero, outros em Punta Cana, e visita ao Yunque ou ao Viejo San Juan. Há um mundo de possibilidades quando existe liberdade e independência.

O edifício em que estão as instalações do Tribunal dos Estados unidos, na Rua Churdón, por exemplo, poderia tornar-se um Centro de Comércio Internacional, a serviço da economia nacional. Os projetos de autogestão e o corporativismo têm de ter todo o apoio e proteção governamental sob a República de Porto Rico.

De outro lado, uma proposta independentista sem um profundo sentido de justiça social não terá um significado prático para nosso povo. Por isso, o projeto independentista de hoje, como o do Grito de Lares, tem de estar vinculado a um compromisso de mudança do regime de injustiça social imperante.

No social:

Porto Rico tem um grave problema de segurança pública, com um dos índices de assassinatos mais altos do mundo (22 para cada 100.000 habitantes). No mês de agosto passado, ocorreram 604 assassinatos, 47 a mais do que os ocorridos no mesmo mês de 2009. Segundo informações da própria polícia, 63% deles ficaram sem qualquer esclarecimento.

80% desses assassinatos têm relação com o narcotráfico e com a venda de drogas no país. Foi proposto o tratamento dos viciados em droga, como uma medida buscando atingir economicamente o narcotráfico e, em consequência, reduzir de forma substancial a criminalidade decorrente do mundo das drogas. Essa alternativa, apoiada por terapeutas e conhecedores do tema em geral, é inviável sob as condições coloniais, já que as “leis federais” nos proíbem de agir nessa direção.

Segundo o FBI, Porto Rico é a capital de delitos violentos dos Estados Unidos. Contudo, essas agências federais não mencionam em suas estatísticas que, em decorrência de nossa sujeição colonial, são de responsabilidade delas a vigilância de nossas costas, portos e aeroportos, por onde entram as drogas e armas sem controle, caindo em mãos do submundo. Os ianques não querem reconhecer o seu fracasso em relação a medidas para evitar o tráfego de armas e drogas.

No político:

A nova lua independentista, sem esperar que fique constituída a República de Porto Rico, tem de atender o problema da subestimação do trabalho e o esforço próprio como fontes de dignidade e progresso; estancar a deterioração acelerada da situação social das pessoas e da saúde mental, tanto individual como coletiva; enfrentar o apetite insaciável dos desenvolvimentistas, que se apoderaram dos melhores terrenos agrícolas e ecologicamente sensitivos, para a especulação e desenvolvimento de projetos de construção; neutralizar a criminalização e a repressão contra o movimento sindical, comunitário e ambientalista; combater a presença e terrível ingerência, na vida diária do país, de todas as agências reguladoras e repressivas dos Estados Unidos. Tudo isso temos de fazer em momentos de dispersão e falta de unidade do movimento patriótico.

A abolição da escravidão e a caderneta de diaristas que, para os patriotas do Grito de Lares, representou bandeira de luta pela independência, para os independentistas do século XXI é a dependência, a pobre auto-estima e o projeto privatizador e neoliberal dos tempos modernos.

Nossa tarefa política, frente à impossibilidade de uma insurreição armada como a de Lares, deve ser organizar o descontentamento popular e propiciar o desenvolvimento de uma revolução cidadã que ponha freio ao desmantelamento do Estado e ao desaparecimento dos programas de proteção social vigentes, como também às leis de proteção dos trabalhadores e trabalhadoras. Defender o patrimônio ambiental, cultural e nacional é uma tarefa da máxima importância. Tudo isso nos levará rumo à descolonização e independência, objetivo maior de nossa luta de libertação.

A independência nos devolverá – o que afinal de contas é o fundamental – o sentido de conseguir o controle do país que temos perdido, a unidade de propósitos tão necessária, a alegria de defender nossa dignidade de povo, o valor do trabalho e o rechaço à dependência . Será devolvida ao nosso povo a satisfação de depender de si mesmo, de fazer parte, em igualdade de condições, do concerto das nações livres, o que nos tornará um povo orgulhoso das vitórias concretizadas.

Hector L. Pesquera Sevillano

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: