FUGITIVOS IDEOLÓGICOS OU INFILTRADOS?

Lá pelos anos 60 ingressei no Partido Comunista Brasileiro, em plena vigência da ditadura militar. Claro, fiz isso porque queria lutar contra o capitalismo, pelo socialismo. Ainda muito jovem, de cara, achava que a sociedade capitalista é injusta e, portanto, imoral. Compreendi que estudar o marxismo era dever de todo militante comunista, já que sem pensamento de mudança nada se muda. Percebi logo que a classe dominante tem as suas ideias e que o explorado consciente deve ter as suas. Fui em frente, crente de que todo membro do partido é dono de um nível de consciência que só os que lutam contra a exploração do homem pelo homem têm. Marxista neófito, deixei a dialética de lado e via o comunista como uma criatura praticamente perfeita. Passado certo tempo, percebi que companheiros do partido também eram falíveis, capazes de cometer erros. Não erros que agredissem em profundidade os princípios que nos norteavam, pois apesar de suas falhas, foram eles os mais elevados seres humanos com que lidei em minha vida, dispostos a sacrifícios pela libertação da classe trabalhadora.

Em situação difícil de clandestinidade, não pude, é bom que se diga, conhecer grande quantidade de ativistas do Partido; por isso, ao ouvir críticas a este ou aquele membro da organização, principalmente a alguns que tinham cargo de direção, pouco me preocupava. Prevalecia minha impressão de que tudo ia às mil maravilhas no nosso processo partidário. Veio a anistia política de 1979, uma conquista nas ruas do nosso povo, e exilados do partido também retornam ao país. Nesse momento, algo que chegou a me chocar me foi revelado: havia problemas político-ideológicos no Partido, dividindo-o basicamente em dois grupos. Um, que, na prática, abria mão da luta pelo socialismo; outro, liderado por Luís Carlos Prestes, que se opunha a isso e denunciava o fato para o conjunto de filiados de base. Passei a entender que partido comunista também tem crise, porém não cheguei a achar que alguém do PCB tivesse rompido com o ideário socialista, como propósito de lutar contra o capitalismo.

A União Soviética continuava. Nenhum dos dois grupos rompia com a URSS; defendiam-na um e outro praticamente com a mesma ênfase. Formalmente, o PCUS mantinha relações com o setor do qual Prestes se afastou, ao sair do Partido, mas o ex-secretário geral do Partido era bem recebido e respeitado no governo soviético, sempre defendendo a URSS, inclusive, defendendo, até a sua morte, em 1990, a tese de que as mudanças ocorridas naquele país não significavam qualquer sinal de retrocesso.

Veio a queda da URSS e de outros países socialistas. O maior trauma dos últimos séculos. Muita gente entrou em verdadeiro transe político-ideológico, pois ninguém, considerado em seu estado mental normal, esperava que isso acontecesse, depois de mais de 70 anos da Revolução Bolchevique. Aí, como se tivessem levado uma pancada no cérebro, um tanto estonteados, vítimas de sua ignorância teórica em relação aos processos históricos (um mal que tanto atingia à quase totalidade do Partido), muitos militantes sentiram-se como que abandonados por uma força que lhes fugia. Morre a URSS; o Partido, em decorrência, tende a morrer. Surgem, entre dirigentes dos diversos níveis, discursos de reconsiderações teóricas sobre o socialismo e, aos poucos, aderem a partidos da burguesia, inclusive aos mais de direita, tornando-se irreconhecíveis no que se refere ao que defendiam antes por muito tempo. Viraram inimigos de quaisquer idéias de mudança, de persistência na luta contra o poder capitalista. Tornaram-se fugitivos ideológicos.

INFILTRADOS

Esse quadro de crise político-ideológica, sem precedente no seio do movimento comunista brasileiro, provocaria, inevitavelmente, as diversas análises e conclusões sobre a debandada ideológica, inclusive de membros do Comitê Central do PCB. Surgem duas assertivas muito constantes sobre o fato: a dos que entendem que não se trata de fuga ideológica, mas sim da revelação da existência de gente a serviço do capitalismo, infiltrada no Partido, que muitos dos tais fugitivos de consciência na realidade nunca foram comunistas, protegiam-se nas próprias debilidades da Organização, agindo contra os propósitos históricos desta; e a dos que acham que em momentos de grandes dificuldades, de derrotas políticas e ideológicas do movimento revolucionário, a debandada ideológica sempre acontece, com maior ou menor intensidade, já que, em geral, muito ativistas não estão armados ideologicamente para suportar qualquer situação de retrocesso da luta por uma nova sociedade, por verem-se, em tais circunstâncias, muito distantes das possibilidades reais de seu sonho; não percebendo que é uma ilusão achar que todas as portas estão fechadas.

Entretanto, é compreensível, independentemente de qualquer análise, que haja forte indignação contra certos infiltrados ou reais fugitivos ideológicos; principalmente, quando se trata de indivíduos que foram altos dirigentes do Partido, que citavam Marx e Lênin a todo instante, e que, hoje, estão à frente de partidos de direita, como o PPS, em aliança com neoliberais e fascistas de todos os tipos. Partido, considerado por muita gente como o principal ninho de fugitivos e ideológicos, dirigido por Roberto Freire, ex-membro do Comitê Central do PCB.

Que nenhum lutador se iluda: não existe luta sem traição. Compreender isso é importante para não ser vítima de desencanto.

Cláudio de Lima

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Uma resposta to “FUGITIVOS IDEOLÓGICOS OU INFILTRADOS?”

  1. José Safrany Filho Says:

    O caso de Roberto Freire, entre outros, a meu ver, não é de traição e sim de trabalho diversionista deliberado, a serviço do imperialismo e seus agentes locais. Hoje sabe-se que o império sempre teve elementos preparados, até com os instrumentos ideológicos comunistas, para se infiltrar nos mais diversos movimentos e partidos comunistas em todo o planeta, a fim de denunciar os elementos mais combativos e consequentes, além dos propósitos de ações dos mesmos, a fim de melhor desmantelá-los e reprimir e/ou liquidar com os combatentes.
    Tanto é verdade que, no caso de R. Freire, este, ainda em fins da década dos 1970 e começos da de 80, desvirtuou completamente os objetivos e ações do partido, fazendo com que uma grande parte dos militantes, como no meu caso, a debandar do mesmo. Assim, mudando até o nome do partido, entregou, incontinenti, o acervo histórico do partido comandado por Prestes, a um dos maiores inimigos de classe e representante do império ianque por aqui, Roberto Marinho do sistema de comunicação Globo, cria imperial e impulsionada pela ditadura.
    Hoje, R. Freire, como Serra e quetais, são os mais radicais reacionários a mando das oligarquias tupiniquins e seus amos do norte.
    Reorganizar o movimento comunista nacional e internacional é obrigação dos comunistas sinceros, honestos e consequentes com as orientações ideológicas do marxismo-leninismo e seus ideólogos posteriores, aprendendo com as lições do passado para não repetir os erros e fragilidades que trouxeram tantos males à classe obrera e ao mundo!

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