ALAN GARCÍA, DE CAVALO LOUCO A CAMALEÃO

O Peru se permite estas coisas: um político que, durante 20 anos, após ser ardente defensor da social-democracia, tornou-se grande adepto do neoliberalismo, unindo-se às elites, reprimindo comunidades indígenas. A metamorfose da má política.

“O oportunismo, habitualmente, é inerente à APRA. Seus membros, ao manobrarem, se embananam , extraviam-se, embaraçam-se a si próprios. A doutrina não é nem quer o ‘chefe’ que seja clara. Tampouco, pode ser posta de maneira clara. Porém, que lhe oferece? Adjetivos, adjetivos. No fundo, constituem a reserva do imperialismo ianque e das forças reacionárias nacionais. Inevitavelmente, se lançarão contra nós, o proletariado e o campesinato.”

O lúcido texto de José Maria Arguedes, no pequeno romance “O Sexto” – que narra a difícil vida numa prisão de Lima, em pleno regime do general Manuel Odría, onde ladrões, assassinos e trapaceiros conviviam com presos políticos – caiu como uma luva para radiografar a figura de Alán García Pérez, presidente do Peru.

O ‘chefe’ a que se refere o texto do prestigioso autor andino é Víctor Raúl Haya de la Torre, fundador da Aliança Popular Revolucionária Americana (APRA), em 1924 – um militante político que, inicialmente, defendeu posições progressistas, passando, depois, a adotar posturas anti-esquerdistas e antiimperialistas. Algo assim como uma terceira via, porém ao estilo peruano.

Seu discípulo segue linha parecida. Integra o conjunto de figuras políticas latino-americanas que efetuaram uma das maiores transformações político-ideológicas de uma presidência a outra. Para ser mais claro: a maior traição aos ideais juvenis.

Nascido na cidade de Lima, em 1949, numa família de classe média, conheceu, aos cinco anos, seu pai Carlos García Ronceros, secretário da APRA, preso por Odría. Destacou-se, já em sua adolescência, por sua oratória e compromisso social, tornando-se o principal quadro político do Partido e discípulo de Haya de la Torre.

Da APRA, à qual se filiou García, não resta sequer o nome: foi substituído por PAP (Partido Aprista Peruano), possivelmente para que algum desprevenido não confunda a palavra Revolucionária, ou talvez para que os setores que votaram em Alan García, em 2006, não sintam manchados seus currículos reacionários e conservadores. O politicamente correto indica que ocorreu mudança de nome para captar novos setores sociais.

Quais foram os ideários que, em 1985, o jovem Alan García tentou levar adiante em sua primeira presidência? Para não cansar o leitor, apenas exporemos alguns, mas que expressam, de forma clara, a diferença entre o personagem – apelidado, de maneira desdenhosa, de “cavalo louco”, nos anos 80 e mesmo, nos 90 – e a nova versão século XXI, que de cavalo não tem sequer uma unha.

Com muitas boas intenções e péssimos resultados, a gestão daquele momento defendeu a intervenção estatal na economia peruana com o objetivo de estimular o consumo, apoiar com subsídios os setores deprimidos, como os do campo e da periferia das cidades, criar um mercado interno forte com grande investimento interno.

Não obstante, a ineficiência da gestão, somada ao enfrentamento com os “doze apóstolos” – o grupo financeiro mais poderoso do país – foi determinante para que se nacionalizassem os bancos (uma bandeira tradicional da esquerda latino-americana); fato que nunca lhe perdoaram o setor concentrador da economia peruana e os organismos internacionais de crédito. Os desacertos afundavam a gestão e precipitaram a débâcle econômica e a hiperinflação, ao mesmo tempo em que crescia a violência do grupo guerrilheiro, Sendero Luminoso.

Ao contrário, quando chegou ao poder, em 2006, Alan García escolheu outro caminho. Optou por uma vereda mais cômoda, sem quaisquer espinhos, em que não tivesse de enfrentar os tradicionais senhores de Lima. “Aprendeu a lição”, disseram habitantes de bairros ricos, como Miraflores e Barranco. Agora, transita pela estreita calçada das políticas ortodoxas, previsíveis e corretas do neoliberalismo, com um pouco de xenofobia e intolerância.

Seu velho anti-imperialismo ficou atrás; agora, existe linha direta com Washington; assina ou patrocina TLCs com este ou aquele país (EUA, Chile, Canadá, China, Cingapura, Japão, Tailândia), em nome do livre comércio, e ataca Hugo Chávez e Evo Morales, em momentos oportunos, para mostrar aos Estados Unidos de que lado está.

Mais de uma vez falou sobre os movimentos indígenas da Bolívia, com frases, tais como: “fundamentalismo andino produtor de coca”, que “move multidões étnicas”.

Com arrogância, tem repudiado os povos originários de seu país, por “impedirem o progresso do Peru” e serem “selvagens atrasados”, após protestos indígenas que se opunham à venda de terras para as petroleiras e mineradoras transnacionais (consequência do TLC) em terras nativas da Amazônia, reprimindo a manifestação, provocando dezenas de mortos – ação conhecida hoje como a Matança de Baguá.

Dessa maneira, o melhor quadro político da velha APRA tem curiosa qualidade de ter realizado políticas social-democratas, como a de seu primeiro governo, e as do receituário neoliberal como as de hoje, arrastando, em consequência, seu país para a condição de uma das sociedades mais desiguais do continente, favorecendo os privilégios dos grupos econômicos do país, conseguindo atrair ódio e desconfiança, tanto da esquerda quanto de setores da própria direita.

Como seu ‘chefe’, García possui uma capacidade pessoal: é um orador admirável. “É enfeitiçador de serpentes”, afirmam tanto seguidores seus como opositores. Graças à sua verborragia e sua retórica, sabe contentar aos que lhe estão próximos e a outros, mesmo quando estejam em lados opostos. O problema é que todos já não têm tanta ilusão, não crêem mais no que ele diz, como antes.

Mesmo assim, seu governo é totalmente funcional aos interesses e estratégias dos poderosos, aos que, antes, ele atacava com a sua retórica, com os quais se alia no momento por conveniência e convicção. Uma mudança política que o transforma, na linha evolutiva zoológica, em um autêntico animal político: o camaleão.

Comitê Bolivariano de São Paulo

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Uma resposta to “ALAN GARCÍA, DE CAVALO LOUCO A CAMALEÃO”

  1. José Safrany Filho Says:

    Bastante lúcido o artigo sobre o camaleão político.
    Recomenda-se, para melhor compreender a realidade peruana, a leitura dos documentos de José Carlos Mariátegui, sobretudo os “Sete Ensaios de interpretação da realidade peruana”, além de “Mariátegui, vida e obra” de Leila Escorsim (editora Expressão Popular) entre outros.

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