PARAGUAI E VIZINHOS – A REPÚBLICA DOS GUARANIS

Boa parte do atual território do Paraguai, Argentina (ao norte), Bolívia, Uruguai e Brasil foi habitada por grandes populações guaranis. Gente guerreira, apegada a seus mitos, vivendo sob um tipo de organização social que pode ser classificada de comunismo primitivo.

Em 1609, chega à região do Paraguai uma missão jesuítica, com o apoio da Coroa espanhola. Veio para cristianizar as tribos guaranis. Inicia, nessa localidade, a criação de reduções ou missões.

Em 1626, os jesuítas cruzam o Rio Uruguai e, já em áreas que seriam brasileiras depois, estabelecem sete missões, na região que, posteriormente, passaria a ser parte do Rio Grande do Sul.

Deparando-se com uma sociedade de comunismo primitivo, de igualdade, os jesuítas, inicialmente, tentaram convencer os indígenas sobre a adoção da propriedade individual. Sugestão não acolhida, prevalecendo a propriedade coletiva, a terra para todos. Frente a tal realidade, os jesuítas se nortearam, de maneira praticamente absoluta, pela meta de levar adiante o propósito de tornar os guaranis uma grande comunidade cristã, deixando de lado a preocupação em imiscuir-se na forma de organização social existente. Os guaranis, embora jamais se afastando de seus mitos, à sua maneira, tornaram-se cristãos, vendo, inclusive, a sua própria relação com a terra como uma decisão divina, fundamento, em certa medida, para a sua relação econômico-cultural ante a natureza.

E, em convivência tranqüila com os jesuítas, desenvolvem atividades econômicas e artístico-culturais de nível significativo para as condições da época; desenvolvem a agricultura e a criação de gado; fazem avançar a produção de seus antigos produtos alimentícios, como a batata, o milho, a mandioca etc.; desenvolvem a metalurgia, a tecelagem, a produção de couro, de erva-mate, mel e frutas; implantam a impressão, a produção própria de instrumentos musicais, como a harpa, o violão, o violino e outros; desenvolvem o teatro; criam orquestras de destaque, as quais chegam a se apresentar em centros importantes, como Buenos Aires; desenvolvem a pintura, a escultura, a arquitetura, mormente a de igrejas; avançam em certo nível de comércio, inclusive com a Europa, para onde vendem couro, mel, frutas e esculturas, em troca de produtos de sua necessidade, como instrumentos cirúrgicos, metais e sal; constroem hospitais, biblioteca, escolas, igrejas e realizam a impressão de obras no idioma guarani; estudam três idiomas na escola: o guarani, o latim e o espanhol; desenvolvem o trabalho artesanal e introduzem na comunidade a arte barroca, com características próprias, em que aparecem imagens com feição de índio. Tudo, é evidente, em entrelaçamento com os padres jesuítas, capazes de compreenderem o talento criativo indígena, contribuindo para o seu desenvolvimento nos diversos aspectos da vida das missões. Tudo isso, sem quebrar o igualitarismo inerente ao mundo guarani; o que levou o escritor Clovis Lugon a dizer que se tratava da “República Comunista Cristã dos Guaranis”.

A tal ponto se consolidava esse mundo de reduções jesuíticas, que o governo da Espanha começou a enxergá-lo como uma ameaça à Coroa, vendo a possibilidade de seu desligamento efetivo de toda a região sob o controle espanhol; vendo ainda o interesse dos jesuítas na realização de uma sociedade independente, desgarrada do Império; na verdade, já achava que começava a desenvolver-se uma certa autonomia no mundo guarani, fugindo aos poucos de seus propósitos iniciais de força “civilizadora” e de dominação, quando apoiou as iniciativas cristianizadoras dos jesuítas, no início do século XVII.

Portugal, que sempre desejou ampliar o seu domínio para além dos limites do Tratado de Tordesilhas – contando, para isso, com as investidas assassinas e escravizadoras dos bandeirantes – também tinha interesse em tirar poder dos jesuítas, opositores claros à escravização dos indígenas. O Marquês de Pombal chegou a acusar os jesuítas de desejarem criar um “império temporal cristão”.

De fato, estavam criadas as condições para que a Espanha e Portugal buscassem um acordo entre si para a delimitação de áreas de controle de ambos os impérios. Foi aí que surgiu o Tratado de Madri, em 1750, decidindo que os Sete Povos das Missões, na época sob domínio da Espanha, passassem para o controle de Portugal, ao passo que a Colônia do Sacramento, próxima a Buenos Aires, passaria para a Espanha. Acordo que também contou com o apoio dos jesuítas, que não queriam ser vistos como desobedientes ao governo espanhol.

Para a concretização de tal acordo, decidiu-se que, com a demarcação da área das Sete Missões, os índios seriam deslocados para o lado ocidental do Rio Uruguai, deixando para trás todo um mundo construído por eles, perdendo tudo o que cultivaram e construíram; pior ainda, ficando sem a terra em que viveram por séculos, produzindo bens materiais e culturais. Era a perda de tudo; na prática, a sua própria morte como povo, sem espaço físico e cultural.

Os guaranis decidem reagir, não aceitando tal demarcação. Não aceitaram ficar sem nada, após terem tudo. Embora portadores de armas primitivas, foram à luta contra dois impérios cheios de armas modernas.

E os jesuítas, face a este quadro? Ficaram entre a cruz e a espada. Se ficassem com os índios, seriam acusados de traidores pelo governo espanhol; se ficassem com os espanhóis, seriam acusados de traição pelos indígenas. A maioria optou por respeitar o Tratado, mas alguns preferiram ficar ao lado dos guaranis. Foi o que se deu, por exemplo, com o padre Lourenço Balda.

A guerra guaranítica, como a chamam alguns historiadores, eclode, de fato, em 1754, tendo o índio Sepé Tiaraju como o principal líder indígena. Um guerreiro que fez de tudo que lhe foi possível no comando de seu povo, usando a guerra de guerrilha como forma de luta. Acabou sendo assassinado em 1756, numa batalha em que, em pequeno espaço de tempo, 1500 índios foram mortos pelas forças imperiais. Ocorreu a derrota dos indígenas, mas suas ações de resistência perduraram por vários anos.

Com essa matança, os dois impérios ibéricos cometiam mais um dos seus genocídios contra uma civilização que, depois de milhares de anos de existência em nosso continente, perdia o próprio direito de continuar existindo como parte da espécie humana, passando a sobreviver como uma comunidade quase extinta.

Apesar de brados do tipo “como poderá ser a vontade de Deus que vós tomeis e arruineis tudo o que nos pertence…?” “O que possuímos é fruto de nossa fadiga; o nosso rei nada nos deu”, as terras dos indígenas passam para novas mãos, viram latifúndios e suas estâncias se tornam grandes fazendas privadas. Viram propriedade de latifundiários, assaltantes de escrituras na mão, de roubo e crime de matança legalizados, ampliando-as através da grilagem e da ação de matadores contratados. Outros tipos de explorados surgem na região e, quando lutam, lembram-se de Sepé Tiaraju e, quando se lembram de Tiaraju, lutam.

Conclusões

A História mostra que nenhum povo deixa de lutar, principalmente quando se vê frente a uma opressão extremada, insuportável até mesmo para quem foi educado a fim de aceitar pacificamente, como destino, a dominação. A cristianização dos guaranis – que pela sua essência primava por pacificá-los, torná-los dóceis, apenas sendo guerreiros quando se tratasse da defesa do poder imperial espanhol, ante um acordo de destruição de um mundo – acaba por se tornar um valor moral e revolucionário, capaz de impulsionar Sepé e seus liderados para a defesa de uma terra que lhes pertence, “dada por Deus através de São Miguel”, com suas armas na mão, para que tivessem o direito à vida, a continuar existindo. Mesmo as idéias mágicas ou religiosas podem levar os seres humanos para lados diferentes, em última instância, de acordo com as circunstâncias.

Por outro lado, apesar de os jesuítas terem compromisso de fidelidade ao Rei, alguns deles encontraram fundamento ético na Bíblia e no cristianismo, que justificava seu apoio à luta dos guaranis, sacrificando-se por uma gente que apenas desejava a manutenção de um mundo justo, de igualdade. Tais religiosos trocavam a oração da passividade ante o opressor pela oração da luta por um mundo sem desigualdade. O que prova que, num quadro de circunstâncias excepcionais, culturas e deuses de origem distinta, considerados até mesmo opostos entre si, podem encontrar-se e fundir-se em forma de valores e mitos de ação libertadora.

Tupã e Cristo deram-se as mãos.

Comitê Bolivariano de São Paulo

Bibliografia:   Clovis Lugon – A República Comunista Cristã dos Guaranis

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Uma resposta to “PARAGUAI E VIZINHOS – A REPÚBLICA DOS GUARANIS”

  1. Felipe Luiz Gomes e Silva Says:

    Quando a fraternidade cristã indígena deixa de ser uma ideia e se concretiza o comunismo se realiza. Felipe Luiz Gomes e Silva- São Carlos – São Paulo. Brasil.

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