MÉXICO – A REVOLUÇÃO MEXICANA

Já no início da presença espanhola em solo mexicano, a Coroa determina uma forma de propriedade da terra chamada encomienda, em que o seu proprietário recebe uma quantidade de índios para explorar, pagando ao indígena um “salário”, sempre em mercadorias ou espécie. Era um trabalho forçado, do qual o índio não podia afastar-se. Depois, surgiu a figura do hacendado (fazendeiro), desenvolvendo o trabalho de “pionagen” (trabalhadores de fazenda), em que o trabalhador, sempre endividado, jamais podia desgarrar-se do latifúndio.

Ao mesmo tempo, persistia a propriedade comunal dos indígenas, que cada vez mais se enfraquecia ante a ação expropriatória dos fazendeiros e encomenderos, apesar da existência de uma lei da Espanha voltada para um certo nível de proteção da propriedade indígena, a fim de evitar que a Coroa perdesse o monopólio da terra na colônia.

Essas circunstâncias contribuíram para que as lutas pela independência do México se dessem sobre a seguinte contradição: o indígena chegou a odiar mais o seu dominador local — que se enriquecia às custas do seu sangue — do que a própria potência colonizadora. Ou seja: prioritário para o indígena e para os demais escravizados, ou semi-escravizados, era agir contra os que os exploravam de forma direta, cotidianamente.

Veio a independência, como “resultado das necessidades políticas e militares de grupos dirigentes da colônia (Igreja, exército, oligarquias) para manterem e prolongarem o mesmo sistema feudal ou semifeudal de antes, na prática, em função dos interesses do capital inglês”. A Espanha sai de cena, entra a Inglaterra, em continuidade a uma estrutura sócio-econômica, advinda do período pré-independência, que resiste a mudanças de fundo. O caráter burguês capitalista que a Independência assumiria, inclusive, com a realização de uma reforma agrária, não se deu.

Assim, todo o discurso liberal, fundamentado nas idéias revolucionárias francesas, não vai além, em termos concretos, de uma subordinação à grande potência capitalista da época.

Frente a esse quadro, no fundamental nada inovador, ao longo do século XIX, comunidades indígenas, de forma constante, se rebelam contra latifundiários que cada vez mais as tornam miseráveis. Este processo chegaria à primeira década do século XX com índios e camponeses em geral, na verdade, em condição de semi-escravizados, presos a dívidas em quitandas de latifundiários e a uma situação de miserabilidade crescente.

As terras que os indígenas perderam durante a colônia, e depois da Independência, jamais seriam recuperadas por eles. Suas condições de vida pioravam sem parar. A proposta liberal de solução da questão da terra, na realidade, não significou outra coisa senão o surgimento de mais impostos, sobrecarregando as comunidades de índios e camponeses.

Contudo, os liberais, de pouco liberalismo, vêem-se diante de tamanha crise econômica, que uma guerra civil acaba-se tornando inevitável. Cresce a dívida externa, e os chamados conservadores, apesar de derrota momentânea, permanecem como uma ameaça. A crise é tão grande que o governo decide suspender o pagamento de dívidas a estrangeiros, o que provoca pretexto para a intervenção de potências da Europa, que logo se dá: a Inglaterra, França e Espanha intervêm no país.

Os interventores objetivavam a instalação, no México, de uma base de apoio aos sulistas dos EUA, em guerra contra o norte industrial daquele país. Especificamente, o que a Inglaterra desejava nesse conflito era evitar o sucesso de um grande rival comercial e industrial, que dava todo apoio aos liberais mexicanos para derrotar os concorrentes europeus, que, por sua vez, se dividiam na contenda.

Enfim, inegavelmente, ocorre, apesar de tudo, o avanço das forças liberais, inclusive, afetando um velho setor privilegiado de longos anos de colônia e de pós-colônia – a Igreja – que, em desespero, promete excomungar os compradores de suas terras. Contudo, tal avanço, em vez de significar alguma mudança na propriedade da terra, ainda que nos limites de uma concepção que apontasse para algum nível de relações capitalistas no país, trouxe, concretamente, o aumento do latifúndio, ao lado de pequenas propriedades debilitadas, sem condição de subsistir.

É evidente que, nesse contexto, já se pode falar da existência de algum capitalismo no México, porém, abertamente associado à grande propriedade fundiária, que continua predominante. É um momento de escalada liberal, é certo, mas sem o resultado esperado em termos de construção de uma ordem burguesa econômico-social.

A partir de 1883, já no governo do ditador Porfírio Diaz, não só os fazendeiros locais vêem aumentarem seus privilégios, como também financistas e empresários estrangeiros se apoderam de grandes áreas do país. Mais e mais áreas comunais são entregues a estrangeiros. E a conseqüência mais grave é o maior empobrecimento não só de índios como também de camponeses e peões de fazenda.

Devido a tal fato, ocorrem muitas revoltas indígenas e de outros setores de explorados do campo, logo reprimidas impiedosamente.

É este quadro sócio-econômico o fator determinante para que se iniciasse a Revolução, em 1910: uma das mais importantes revoluções sociais do continente latino-americano, por ser uma ação contra um tirano a serviço do latifúndio e do capital, principalmente o norte-americano. Uma revolução em que representantes da burguesia se juntam a revolucionários comprometidos com as massas populares, traindo-os em seguida, inclusive em conciliação com as forças derrotadas. Uma revolução – na luta por um México mais justo, com o máximo de igualdade – em que muitos revolucionários de hoje se inspiram, principalmente em Zapata, Pancho Villa e Ricardo Magón, todos a serviço das comunidades indígenas, camponeses e outros explorados do país.

Líderes da Revolução

Francisco I. Madero — Líder liberal, empresário agrícola. Opõe-se à reeleição do ditador Porfírio Diaz. Para isso, já em 1909, criou o Partido Nacional Anti-reeleicionista. Adotou, inicialmente como tática, o diálogo com os setores porfiristas, parte da burguesia, e não teve sucesso. Avançou, em conseqüência, para a adoção da luta armada.

Defendeu propostas avançadas, como a reforma agrária, conseguindo, por causa disso, o apoio de líderes populares de destaque, como Zapata, Pancho Villa e Ricardo Flores Magón. Vitoriosa a luta, tornou-se presidente do México, em 1911.

Logo, demonstrou desinteresse pelos compromissos assumidos em relação às mudanças sociais de fundo, a começar pela não-solução do problema agrário. Em conseqüência, Zapata, Pancho Villa e Ricardo Magón passam a lutar contra ele. Seu governo perde força. Acontece o golpe militar de 1913. O general Victoriano Huerta toma o poder e, de imediato, assassina Francisco Madero. Era instalada uma das mais sangrentas ditaduras da história do México.

Conclusões

Madero, de fato, teve papel importante no processo revolucionário mexicano, na medida em que foi o líder liberal de oposição ao ditador Porfírio Diaz já no primeiro momento da Revolução. É evidente que, com as vacilações típicas de um liberal burguês para preservar os interesses de sua classe, fez política de conciliação com setores porfiristas, ao mesmo tempo em que desrespeitava os compromissos assumidos com as forças populares. Chegou, por causa disso, a ser tratado por Zapata como um traidor da Revolução.

Venustiano Carranza — Nasceu em 1859. Constitucionalista, liberal por convicção, inspira-se nas idéias de Benito Juárez, num momento em que já sentia a necessidade de lutar contra a ditadura de Porfírio Diaz.

Em 1893, um grupo de fazendeiros organiza uma oposição à reeleição de Porfirio Diaz. Carranza apóia esse movimento. Um liberal em ação, claro.

Quando Francisco Madero cria um partido contrário à reeleição de Diaz, Carranza dá seu apoio a ele. Em 1911, torna-se governador de Coahuila. Começa seu governo com as seguintes medidas: Reforma do Judiciário; ataque aos monopólios comerciais; combate ao alcoolismo e à prostituição; investimento na educação, vendo nesta a chave do futuro.

Nesse momento, a relação de Carranza com Madero piora, dizendo ser este um governante fraco. Age contra Madero, buscando aliado para isso.

Contudo, em 1913, ocorre o inesperado para Carranza: o general Victoriano Huerta derrota Madero. Era um golpe militar. Carranza acha que a falta de firmeza de Madero foi decisiva para a vitória golpista de Huerta. Põe-se em rebelião contra Huerta.

Sobre o Plano de Madero, chamado Plan de San Luís Potosí, Carranza disse tratar-se de um equívoco a inclusão de compromisso com reformas sociais nele, criando, segundo ele, falsas esperanças na população, levando-a a desiludir-se com a Revolução, à medida que o prometido não fosse cumprido.

Para combater Huerta, contou com a participação dos líderes camponeses Emiliano Zapata e Pancho Villa, os quais alimentavam esperanças em relação à distribuição de terras e outras medidas sociais, ainda que Carranza apresentasse resistência à solução do problema agrário, só aceitando-a após longos contatos com Zapata, que o convenceu. O que o levou a admitir mudanças em várias áreas: Garantia da independência do Judiciário; reforma agrária; reforma trabalhista e outras. Compromissos que acabaria por desrespeitar, jogando contra o seu governo não apenas Zapata, mas também o líder popular Pancho Villa, chefe do Exército do Norte.

Em relação ao empresariado estrangeiro, Carranza inicialmente contou com o apoio dos EUA — passando a se conflitar com esse país, ao agir contra as mineradoras e empresas petrolíferas, acolhidas anteriormente pelo ditador Diaz. Dizia que tais riquezas deveriam pertencer ao povo mexicano.

Enfrentou dificuldades para tomar tal medida, porque várias regiões estavam sob o controle de generais que amparavam tais grupos econômicos.

Algumas das medidas que tomou contra empresas estrangeiras foram o aumento de impostos e o fim do direito diplomático aos recursos jurídicos, submetendo-os às regras das cortes mexicanas.

Em relação ao projeto de nova Constituição, em grande medida inspirada basicamente na de 1857, Carranza convoca uma Convenção Constitucional, em 1916. Entretanto, quando essa Convenção se reúne, 132 delegados, de linha radical, exigem que fique incorporada na nova Constituição a reforma agrária. Velha demanda dos camponeses, que, no processo revolucionário mexicano, tinham como lideranças Zapata e Pancho Villa. Também, era exigida a melhora das relações de trabalho, nas fábricas e em outras áreas, sendo ainda defendida a implantação da jornada de 8 horas, além do fim do trabalho infantil, a proteção do trabalho da mulher e de trabalhadores adolescentes. Exigiam também que fossem parte da Constituição: dias de descanso, salários dignos, indenização no caso de demissão e mudança na relação do Estado com a Igreja.

Tais reivindicações iam muito além do que defendia Carranza, é claro.

Proclamou-se a nova Constituição, em 1917; não como desejavam os revolucionários defensores de um programa de mudanças sociais de profundidade.

Nesse contexto, seria inevitável a oposição efetiva de Zapata e Pancho Villa a Carranza, que acabou não respeitando compromissos que ele próprio assumira com estes líderes revolucionários; na verdade, traindo o povo.

Zapata põe seu exército em ação contra Carranza. Sofre derrotas, mas não se desanima, mantém-se atuando nas montanhas de Morelos, enquanto Pancho Villa permanece ativo.

Vem a Primeira Guerra Mundial. Carranza procura manter o México neutro, embora se mantendo, por um tempo como aliado do Império Alemão, após o Secretário de Relações desta potência ter convidado o México para ficar do lado alemão nessa guerra. O que fazia mediante a promessa de que ajudaria o México a retomar territórios perdidos para os Estados Unidos na guerra mexicano-americana; priorizando, no prometido, a reconquista dos Estados do Texas, Novo México e Arizona.

Num primeiro momento, Carranza foi receptivo a tal promessa; depois, desistiu.

No governo de Carranza, era grande a prática de corrupção. Chegou-se a criar o verbo carrancear, sinônimo de roubar.

Não tendo mais condição de resistir às forças diversas que se opunham a seu governo, Carranza é derrotado e assassinado pelo general Rodolfo Herrera, enquanto dormia, em Tlaxcalantongo.

Conclusões

No processo revolucionário mexicano, havia dois tipos de revolucionários em destaque. Liberais, de origem burguesa, preocupados em fazer com que a Revolução não fosse além do seu projeto de classe, mas sabedores de que seus objetivos só seriam alcançados se contassem com a contundência revolucionária de forças populares. O que os leva a assumir compromissos avançados para a época, como a reforma agrária.

De outro, líderes populares, principalmente à frente de lutas pela distribuição de terras para os indígenas e camponeses. É o caso de Zapata e Pancho Villa, mais ainda de Ricardo Magón, sob influência de idéias anarquistas.

No primeiro exemplo, encontra-se Carranza que, como qualquer representante dos interesses da burguesia, ao atingir os seus objetivos, com o apoio do povo, sem o qual não seria vitorioso, trai este mesmo povo.

No segundo exemplo, em que se encontra Zapata, Pancho Villa e Ricardo Magón, o revolucionário cumpre o seu dever de rebelar-se contra o traidor.

Pancho Villa — Nasceu em Durango, tendo trabalhado no campo até os 16 anos. Estando no Exército, apoiou Francisco Madero na luta contra o ditador Porfírio Diaz, em 1910. Acaba-se exilando, um ano depois.

Acusado de insubordinação, é condenado à morte. Refugia-se, então, nos Estados Unidos.

Com a morte de Madero, Pancho Villa volta ao México para lutar ao lado de Carranza e Zapata contra o general golpista Victoriano Huerta. É um momento de guerra civil.

Nessa luta contra o novo ditador, Pancho comanda uma cavalaria composta de 40 mil homens, que foi decisiva para a derrota do regime de Huerta.

Contudo, como Carranza, tal como se deu com Madero, não respeita os compromissos com ele e com Zapata, em termos de aplicação de reformas sociais profundas na sociedade mexicana, principalmente no que se refere à estrutura agrária; rebela-se contra as forças carrancistas, ao lado de Zapata.

Suas tropas tiveram de travar lutas muitos difíceis, numa situação em que o apoio dos Estados Unidos a Carranza foi decisivo para algumas de suas derrotas.

Entretanto, não deixaria de dar a devida e possível resposta ao apoio estadunidense, desencadeando ações contra norte-americanos.

Para Pancho Villa, Carranza não passava de um instrumento dos interesses dos Estados Unidos, vendendo o México aos “gringos”; denúncia que jogou muita gente contra Carranza.

Outras ações contra os EUA aconteceram por iniciativa de Villa. Uma, de grande repercussão, foi a tomada do forte de cavalaria, em Camp Furlong, em 9 de maio de 1916. A imprensa estadunidense logo fez repercutir o fato, dizendo que Pancho Villa foi o único mexicano a invadir os Estados Unidos em sua história. O que levou o governo estadunidense a terrível ação punitiva, designando o general John Pershing para essa empreitada.

Buscando capturar Pancho Villa, os Estados Unidos recorreram à sua maior operação de guerra desde o fim da guerra contra a Espanha, em 1898. Usaram, nessa escalada, aviões, caminhões, veículos militares, além de quase 5 mil homens, avançando 480 quilômetros dentro do território de Chihuahua.

Pancho Villa escapou ileso dessa perseguição, ocultando-se nas montanhas. Enquanto isso, Carranza se via em maus lençóis, sendo visto como tolerante para com a intervenção dos Estados Unidos no país. Um transtorno para si e para o próprio governo norte–americano, já que, na prática, tal ação punitiva fracassara.

Deixando Carranza com a imagem de traidor para muitos mexicanos, desmoralizados, milhares de soldados dos Estados Unidos deixam o país. Nessa altura, mais de 10 mil.

Por seu lado, todos os inimigos de Villa, oligarcas em geral, gente a serviço de grupos econômicos e do latifúndio, todos eles buscavam atacar a sua imagem, dizendo tratar-se de um bandoleiro, basicamente aventureiro, assaltante de trens, bancos e fazendas; enquanto o povo, a gente do campo, via nas suas ações, condenadas pelos seus opressores, simples formas de luta contra os donos do poder, por um mundo mais justo.

Tendo de enfrentar forças externas e internas, os villistas acabam sendo derrotados. O que se dá, em 1920, quando Pancho Villa concorda em desarmar suas tropas.

Todavia, a perseguição a Pancho Villa não pára aí. Quando Álvaro Obregón se torna presidente, levado pelo medo de Pancho voltar à ação revolucionária, em armas, decide pôr fim à sua vida.

Assim, apesar de estar fora de combate, desarmado, acolhendo acordo feito com o governo, Pancho Villa é assassinado, em 1923, numa emboscada montada pela polícia secreta.

Mais um grande revolucionário do povo era vítima de um grande ato de traição.

Conclusões

Existem, na verdade, dois Pancho Villa. Um, falsificado, invertido, forjado pelos opressores e exploradores do povo mexicano e pelos Estados Unidos, apresentando-o como bandoleiro, aventureiro, assaltante, bandido, criminoso. E, como naquela época ainda não se usava o termo terrorista para atacar a imagem de revolucionários, Pancho escapou desse adjetivo.

O outro Pancho Villa é o verdadeiro, com cara e alma de povo, herói de uma gente sofrida, impiedosamente explorada e oprimida, que via e vê nele um líder e símbolo de sua luta contra a exploração, para que cada um pudesse ter a sua terra, alimento e moradia para os seus filhos, na construção de uma sociedade com o máximo de igualdade e justiça possíveis.

Todo libertador é odiado pelo opressor;

Todo libertador é amado pelo oprimido.

Ricardo Flores Magón — Nasceu em Oaxaca, em 16 de setembro de 1874. Sua concepção de mundo era o anarquismo, tendo sido influenciado por Bakunin, Proudhon, Peter Kropotkin e outros clássicos do anarquismo. Também procurou estudar textos de Marx.

É um dos maiores pensadores da Revolução mexicana e fundador do Partido Liberal Mexicano.

Sempre viu com entusiasmo o sistema de comunidade e de autonomia dos povos indígenas, colocando-se a favor deles.

Em 1893, participa de movimentos estudantis, em oposição à reeleição do ditador Porfírio Diaz.

Em 1900, cria o jornal ‘Regeneración’, órgão de combate à ditadura porfirista. E, ao fazer duras críticas ao ditador, acaba sendo preso. O que também acontece com os seus irmãos.

Ao sair da prisão, Ricardo dirige o jornal ‘El Hijo de El Ahuizote’ (o filho da calúnia), com críticas à ditadura.

Em 1904, sabendo que poderia ser assassinado a mando de Porfírio Diaz, exila-se nos Estados Unidos. Aí, também acaba sendo preso por mais de uma vez.

Nos Estados Unidos, voltou a publicar o ‘Regeneración’. Logo, sofre uma tentativa de assassinato, provocada por um enviado de Porfírio Diaz.

Ainda nos Estados unidos, durante o período em que ali esteve, sempre foi vítima de constantes tentativas de assassinato através de sicários do ditador mexicano.

Em 1905, em Missouri, Ricardo e seu irmão Henrique Magón participaram da criação da Junta Organizadora do Partido Liberal Mexicano; na realidade, uma organização libertária, que não participava de eleições. Seus postulados eram revolucionários. Algumas das coisas defendidas por essa organização eram o tema da reeleição e o fim da pena de morte para qualquer preso. Defendia, também, o ensino básico, a criação de salário mínimo, e a coletivização dos latifúndios e de terras não cultivadas.

Em 1906, o governo do México oferece uma recompensa de 25 mil dólares para quem capturasse ou matasse Ricardo Magón.

Em agosto de 1907, Ricardo foi preso em Los Angeles, sem qualquer acusação formal.

Ao ser convidado por Madero para participar do seu plano de governo, Ricardo aceita o convite, dizendo que Madero apenas liderava uma revolta burguesa, não vendo no seu projeto propostas de melhoria da vida da maioria da população.

Na verdade, Ricardo defendia, como verdadeira solução para os problemas da maioria do povo, a abolição do Estado e da propriedade privada.

Ricardo Magón e seu irmão Henrique entraram em contato com os revolucionários Pancho Villa e Emiliano Zapata. As idéias de Ricardo, em grande medida, exerceram influência sobre Zapata.

Também influenciou muito militantes sindicais nos Estados Unidos.

Em 1911, é organizada, a partir de Los Angeles, a Rebelião da Baixa Califórnia. Partindo da fronteira com os Estados Unidos, o movimento objetivava implantar um território autônomo, de linha anarquista, na península, que poderia servir de base para levar a revolta a todo o México. Ricardo conseguiu influenciar muitos militantes dessa iniciativa, inspirando-se principalmente na obra “A Conquista do Pão, de Peter Kropotkin, para ele uma espécie de ‘bíblia anarquista”. Teve Ricardo o sonho de criar o primeiro território libertário das Américas.

Preso, no Estado de Washington, Ricardo Magón, muito doente, quase cego, é transferido para a prisão de Leavenworth, em Kansas. Antes de sua morte, escreve uma carta, em que diz; “estou condenado à cegueira e à morte na prisão, mas prefiro isto a voltar as costas aos trabalhadores e ter as portas da prisão ao preço de minha vergonha”.

Em 21 de novembro de 1922, com 44 anos de idade, Ricardo Magón morre na prisão. Há mais de uma versão sobre a sua morte, mas, a mais certa é a de que, na realidade, foi assassinado por enforcamento ou por agressões a que não conseguiu resistir.

Morto, seu corpo foi levado para a Cidade do México, onde foi velado, no Sindicato dos Trabalhadores Ferroviários.

Conclusões

Talvez, como já se disse, Ricardo Magón seja o ativista do processo revolucionário mexicano, do século passado, com maior domínio sobre idéias revolucionárias, idéias que respeitou até os últimos instantes de sua vida.

É um líder revolucionário que, anarquistas ou não, ontem e hoje, com certeza, nunca esquecerão, vendo nele um exemplo de amor incontestável por uma causa.

Foi por isso que a classe dominante, tanto no México como nos Estados Unidos, sempre preferiam vê-lo na cadeia, ou até mesmo morto.

Todo opressor percebe quem são seus inimigos.

Emiliano Zapata — Nasceu no Estado de Morelos, sul do México. Camponês desde a infância, enfrenta muitas dificuldades inerentes à vida do campo. Teve escolaridade limitada. Cedo, teve de cuidar da família, porque seu pai morreu quando ele tinha 17 anos de idade.

Nas proximidades do século 20, o México era governado pelo ditador Porfírio Diaz, que chegou ao poder em 1876. Naquele tempo, o sistema sócio-econômico do país ainda era uma espécie de semifeudalismo, ou pré-capitalista, com grandes latifundiários controlando a quase totalidade das terras, apoderando-se de áreas de comunidades indígenas e de mestiços camponeses, que estavam submetidos aos grandes fazendeiros por endividamentos crescentes.

O governo de Porfírio Diaz era a própria garantia dos privilégios das oligarquias.

A família de Zapata, embora não fosse rica, conseguia manter sua independência. Como a maioria das famílias da região, os Zapata sempre estavam sob o risco de empobrecimento.

Em 1906, Zapata participou de uma reunião em Cuautla, em que se discutia como defender as terras do povo. Sua presença nesse evento já não foi bem vista pelos mandantes da localidade, que a viam como um ato de rebeldia. O que resultou em penalidade para Zapata.

Embora não pertencesse aos sem-terra de Morelos, Zapata era cada vez mais admirado pela gente de sua vila, Anenecuilca.

Aos 30 anos de idade, Zapata se torna líder da defesa do Comitê da Vila, sendo porta-voz de seus interesses. Isso se deu em 1909, um ano antes do início da Revolução. Tornou-se o grande líder de Anenecuilca, onde sua família vivia há muito tempo, envolvendo-se em lutas pelos direitos dos camponeses de Morelos.

Conseguiu concretizar a distribuição de terras em fazendas, de forma pacífica, mas enfrentando resistência em outras.

Zapata viu muitos conflitos entre camponeses de sua vila e latifundiários, onde ocorriam muitos roubos de terra de trabalhadores, e presenciou também fazendeiros tocando fogo em vilas inteiras, podendo perceber, nesses movimentos, de que lado ficavam os governantes.

Frente a tal quadro de injustiças e de desinteresse dos governantes para com a solução dos problemas da terra, Zapata recorre à ação armada, na luta pela terra.

Em 1910, Porfírio Diaz se vê ameaçado pela candidatura de Francisco Madero. Zapata fez grande discussão com Madero, em quem via uma chance para mudanças de fundo no país. E logo acaba tendo importante papel, na luta contra Diaz, tornando-se o general-de-exército de Morelos, o Exército Libertador do Sul.

Era a sua união a Madero, contra Porfírio Diaz, ao lado de Pancho Villa e camponeses em rebelião.

Em 1911, Diaz é derrotado, na batalha da Ciudad Juarez. Madero se compromete a realizar a reforma agrária e, mais tarde, realizar eleições. Porém, Zapata entra em desacordo com Madero sobre a questão agrária. Não via nele o desejo de levar adiante a distribuição de terras, apesar de ter tentado convencê-lo da importância de tal medida, de caráter social.

As relações entre os dois pioraram mais ainda, quando Madero indicou como presidente interino uma pessoa que apoiava os grandes fazendeiros, sem nenhuma vontade de conversar com Zapata sobre questões agrárias.

O compromisso entre os dois chega ao fim em novembro de 1911, logo após Madero se tornar presidente do país.

Zapata, então, vai para as montanhas e lá estabelece o mais radical plano de reformas do México, o Plano de Ayala.

Zapata recebe particular influência de Ricardo Flores Magón, de ideologia anarquista. Essa influência pode ser notada nesse Plano, contudo, mais ainda, no slogan zapatista “Terra e Liberdade”.

A influência anarquista em Zapata se deu através de um professor, Otílio Montano Sánchez, que foi executado em 1917. Professor, que apresentou a Zapata as obras de Peter Kropotkin e de Ricardo Mogán, no momento em que o líder de Morelos começava a participar de lutas camponesas pela terra.

Zapata passou a ver Madero como um traidor da revolução, recorrendo às armas contra ele, contando com o apoio de antigos maderistas.

Madero, um tanto apavorado, pede a Zapata que desmobilize e desarme os seus combatentes. Zapata responde que, se armados, os camponeses não conseguem que o governo os respeite, imagine-se o que seria deles, uma vez desarmados e sem apoio. Madero tenta um acordo, sem sucesso.

Em 1919, Zapata é vítima de uma traição: fingindo-se adepto do zapatismo, o general Jesús Guajardo o encontra, assassinando-o.

Conclusões

Morre Zapata, mas não morre para o seu povo. Está presente na memória e consciência da gente mexicana, por ser um símbolo de luta dos camponeses por terra e liberdade.

Zapata está tão presente, que em 1994, no Estado de Chiapas, surge um movimento revolucionário chamado de Exército Zapatista de Libertação Nacional (EZLN).

Além disso, milhares de ativistas político-sociais do México de hoje sempre fazem referência a ele em suas ações de ruas e praças. Frases como “se Zapata estivesse vivo, estaria conosco nesta luta”, “Zapata vive, a luta continua” e outras são muito comuns entre os lutadores da terra dos astecas.

Em algumas lendas do povo, Zapata é tido como alguém que não morreu, que poderá retornar, liderando uma nova revolução.

À parte as lendas, a História poderá provocar o retorno de Zapata, em forma de milhões de combatentes por um México sem opressão e exploração.

Comitê Bolivariano de São Paulo

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