BRASIL – A REVOLTA DOS ALFAIATES

Num contexto de monopólio comercial de Portugal, destacava-se, na Capitania da Bahia do século XVIII, a exportação de fumo, algodão e açúcar, produtos estes com baixo custo de produção graças à mão-de-obra escrava. Situação que provoca insatisfação crescente nos nativos com pretensão de atuar no comércio.

Contudo, maior indignação aumentava, sem parar, no seio da população pobre, vítima da escassez de alimentos e de seus impostos e preços altíssimos. O que acabaria provocando revolta contra a Coroa, num quadro em que as influências das lutas do Haiti (liberto da França em 1791) e das idéias da França Revolucionária, além de se fazerem presentes entre intelectuais e a maçonaria, começavam a penetrar na mente de setores populares, como alfaiates, artesãos, soldados ex-escravos e outros. O povo, que sempre viveu descontente com a dominação portuguesa, mas que não possuía a principal arma de combate – o pensamento de mudança – em 1798 começa a achar fundamento para lutar pela sua libertação. O exemplo haitiano e a trilogia revolucionária francesa, Legalidade, Fraternidade e Igualdade, adentram na alma popular; às escondidas começam a aparecer em panfletos de chamamento para a ressurreição, com consignas bem claras e definidas: libertação da dominação de Portugal, libertação dos escravos, aumento de salário para os soldados, regime republicano, separação do Estado da Igreja e, principalmente, a construção de uma sociedade fundamentada em princípios de igualdade, algo aproximado da Conjuração dos Iguais, liderada por Graccus Babeuf, em 1796. Um projeto político social, inegavelmente mais avançado do que o que era defendido pelos revoltosos da Inconfidência Mineira que, por exemplo, não tinham o propósito de pôr fim à escravidão, não fazendo qualquer alusão à desigualdade.

Assim sendo, a Revolta dos Alfaiates foi a primeira rebeldia do Brasil em que se colocou a necessidade de construir uma ordem sócio-econômica e política, de acordo com interesses da grande massa de oprimidos e explorados, por isso, tendo como seus principais líderes gente do povo, como os soldados, Lucas Dantas de Amorim Torres e Luís Gonzaga das Virgens, e os alfaiates, Manuel Faustino dos Santos e João de Deus.

Traição e Morte

A ressurreição ficou marcada para o dia 12 de Agosto do mesmo 1798. O chamamento para a ação seria feito através de panfletos que deveriam chegar a toda a população. A luta ganharia as ruas. Contudo, nesses momentos de grandeza humana, de luta pela liberdade, traidores não faltam, em geral. Logo, as forças portuguesas descobrem a trama revolucionária, graças à Traição de 3 Joaquins: Joaquim de Santana, Joaquim José da Veiga e José Joaquim de Siqueira. A repressão se alastra em toda a capital baiana, com prisões e degredos, em que eram incluídas valentes mulheres: Luzia Francisca de Araújo, Domingas Maria do Nascimento, Ana Romana Lopes e Lucrécia Maria, todas encarceradas. Mesmo participantes do movimento da elite local, como o médico e intelectual, Cipriano Barata, e outros, não escaparam à prisão. Evidentemente, considerados “homens bons”, receberam tratamento diferenciado.

Quanto aos principais líderes da Revolta – Lucas Dantas de Amorim Torres, Luís Gonzaga das Virgens, Manuel Faustino dos Santos, e João de Deus –, todos coerentes com a sua condição social, de classe, compreendendo que a luta de libertação do jugo do colonizador deveria significar o fim da própria desigualdade, a construção de um mundo de igualdade, para que todos tivessem direito a uma vida digna, achando que ter liberdade é ser feliz, todos eles, os quatro, foram condenados à forca, sendo esquartejados, e partes de seus corpos expostas pelas ruas e praças de Salvador, como forma de aterrorizar o povo, para que não seguisse o exemplo desses seus heróis. Porém, como a derrota de qualquer grande luta pela liberdade, contra a injustiça, não consegue evitar que tal luta renasça sob outra forma, através de multidões, que a evocam como exemplos de motivação para ação pela mudança, a Revolta dos Alfaiates acabaria por influenciar a grande luta pela libertação da Bahia, no século seguinte, redundando na vitória de 2 de Julho de 1823, que mereceu um poema do Poeta da Liberdade, Castro Alves, chamado Ode ao Dous de Julho.

Conclusões

Existe uma opinião sobre os propósitos programáticos e metas político-sociais da Revolta dos Alfaiates (Conjuração Baiana), segundo a qual os insurretos desse movimento não objetivam ir além do intento de construir uma república, tentando seguir o exemplo da burguesia francesa, de apenas tratar consignas como liberdade, fraternidade e igualdade com simples idealização de uma sociedade, fundada em novas formas de exploração, diferente da velha exploração feudal. Esta análise parte da idéia de que os revoltosos baianos de 1798 jamais lidaram com a noção de igualdade econômico-social.

Ora, nas condições históricas, tal assertiva pode ter algum sentido de verdade, porque, é evidente, a discussão sobre o conceito de liberdade não podia ocorrer com a devida intensidade, assiduidade e profundidade, como acabaria ocorrendo no século 19 na Europa, principalmente. Contudo, não se deve esquecer de que o conteúdo de idéias ou conceitos, numa sociedade de desigualdade, de classes, não é o mesmo, em geral, porque cada classe tende a conceituar, segundo os seus próprios interesses; o que nos leva a afirmar que nenhum explorado, ao falar de igualdade, faça-o do mesmo jeito abstrato ou meramente formal da burguesia que, no máximo, de maneira idealizadora, busca convencer a todos os indivíduos que, entre outras coisas, eles têm igual direito de ficarem ricos. O explorado, o oprimido, que luta pela sua libertação, não se inspira nessa fantasia. Dessa forma, com certeza, pode-se afirmar que o líder, Lucas Dantas, se não chegava a ter a compreensão do conceito de igualdade de um revolucionário operário do século 19 – quando Marx entra em cena com o seu Manifesto Comunista –, seguramente, a sua coerência de liderança popular, na luta por uma sociedade mais justa, levou-o a ver, em grande medida, a questão da igualdade diferentemente do mais avançado dos representantes da burguesia da época. Dentro do próprio conjunto de ativistas da Revolução dos Alfaiates, o significado da palavra igualdade não era o mesmo. Por exemplo, com todo o seu reconhecido avanço, o médico, Cipriano Barata, via o sentido de tal conceito de acordo com o que expressava a sua organização política, a maçonaria, à qual nem Lucas Dantas nem qualquer líder popular do movimento pertenceu, e na qual jamais seriam aceitos, inclusive, porque sua linguagem apontava para propósitos com que os maçons não concordariam. Certamente, não foi a defesa da igualdade o que propiciava uma certa unidade entre os insurretos das camadas ou classes populares e os membros da chamada elite intelectual, de profissionais liberais etc., organizada basicamente na maçonaria, mas sim a defesa da liberdade de comércio e do fim do domínio colonial.

Comitê Bolivariano de São Paulo

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