CAMPANHA ELEITORAL: IMITANDO OS EUA

É claro que havia diferença entre a candidatura de Dilma e a de Serra. Não há dúvida. Mas não se trata de uma diferença profunda. Uma, a de Serra, tinha como propósito levar as políticas neoliberais às últimas consequências e o consequente alinhamento à ALCA, por um Brasil neo-colônia de ponta; a de Dilma, de fazer avançar o “capitalismo brasileiro”, como força preponderante na UNASUR e com capacidade de concorrer como sub-império com outros sub-impérios e impérios. A de Serra, em função de relações político-sociais impostas, tendo a repressão como questão de princípio. A de Dilma, portadora de uma política de pacto social passivo, não negociado, diferente do que se deu na Europa entre a burguesia e setores operários aristocratizados de grandes empresas. Nenhuma das duas candidaturas se propunha enfrentar os interesses dos monopólios de qualquer natureza, financeiros ou não. Enfim, sem grandes diferenças de propostas, para defender a manutenção da mesma estrutura econômica e social.

É por isso que a campanha entre os dois concorrentes se deu em forma de imitação das campanhas eleitorais dos EUA, onde o Partido Republicano e o Democrata defendem, no fundamental, os mesmos interesses. Não havendo diferença de fundo entre as propostas dos candidatos, restou a lógica do gerencismo, a discussão sobre quem seria o melhor gerente do Brasil, tratado como se fosse uma empresa. Porém, como os candidatos a gerente tinham dúvida de qual currículo seria mais aceito pelo eleitorado, o caminho para o embate não poderia ser outro senão o de um buscar desqualificar o outro, através de supostos envolvimentos com escândalos, acrescido de um fato aparentemente novo entre nós, de caráter medieval: o de que um está mais com Deus de que o outro e que consequentemente um dos dois é mais endemoninhado. O Brasil, que não é de Deus nem do Diabo, quase entra em transe com este medievalismo praticado por ambos os gerencistas.

É claro, como era de se esperar, o tucanato e seu séquito, fundamentalistas de direita, tentando imitar o Partido Republicano estadunidense, foram os que mais levaram às últimas conseqüências o escandalismo, o deísmo e o demonismo; a candidata do PT fez a sua parte neste festival da democracia de mercado, permitindo-se algum espaço para uma abordagem que não chegou a nascer como um tema: a não privatização do pré-sal, que, para ela, é igual à semi-privatização, através de uma legislação nova que não anula nem nega leilões: o contrato de partilha.

Nesta festa brasileira da eleição de mercado só faltou um dos dois candidatos defenderem de forma direta que 5,5 milhões de mulheres que cometeram aborto deveriam ser colocadas atrás das grades, o que seria a Santa Inquisição sem fogueira. Mas, aí os dois candidatos a gerente se deparariam com um problema estrutural grave da empresa que querem administrar: falta de cadeias para tanta gente. A coisa ficou medonha. Serra, justiça se faça, parecia o mais fanático dos beatos: se um padre exigisse que ele comesse um quilo de hóstias ele as comeria. É a paixão pela gerência!

Marina tentou ser a novidade, colocou-se como a terceira via , imitando Tony Blair, preferiu imitar os ingleses. Mas alguém a acusou de eco-capitalista. Aí ela passou a ser vista por muita gente como representante da terceira via capitalista. Uma espécie de capitalismo esverdeado, imaginário, talvez com chaminés, asfalto, produtos plásticos, gasolina e escapamentos de automóveis, todos pintados de verde. Não teve lá grande sucesso. Não foi para o segundo turno.

Assim, adotando-se o jeito norte- americano de disputa eleitoral, a campanha se deu nos moldes de que as forças de direita tanto gostam: tudo menos o debate político-ideológico de que elas têm tanto medo.

Cláudio de Lima 

 

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