PERU – TÚPAC AMARU (1743-1781)

 “Erva de liberdade”. Túpac Amaru

A sublevação do mestiço José Gabriel Condorcanqui, que protestava contra as injustiças dos corregedores e reclamava para si o título de Inca, herdado de uma filha de Felipe Túpac Amaru, deu origem a um dos episódios mais horrendos – talvez o mais horrendo – entre todos os crimes perpetrados na América. Os espíritos tolerantes do século XVIII se estremeceram ante o derrame de sangue e crueldade no qual «ilustrados» funcionários espanhóis se comportaram pior que o mais sanguinário dos selvagens.

Já no século XVI, o vice-rei Toledo havia pretendido, sem êxito, apagar a lembrança e a imagem do Inca, alegando que ela “virá criar erva de liberdade”. Isto era tão certo que, dois séculos depois, o cientista e perspicaz viajante que foi Alexander von Humboldt observava que “onde quer que a língua peruana penetrou, a esperança da restauração dos incas deixou marcas na memória dos indígenas que guardam lembrança de sua história nacional”. Esta evidência também preocupava os funcionários. Depois de uma conspiração que houve em Lima em 1750, o vice-rei, conde de Superunda, opinava que não devia ser permitido aos índios fazer, nas festas, suas mascaradas e bailes como era costume, porque as reduziam “a uma representação de seus antigos reis, a seus trajes, estilo e comitiva, cuja memória os entristece e alguns não depõem sem lágrimas as vestimentas e insígnias de seus primeiros monarcas”. Este sentimento, renovado nas obras de teatro que representavam com freqüência, unido à exploração de que eram objeto por parte dos corregedores do século XVIII, explica a rapidez com que povoados inteiros se alistaram atrás da figura do carismático mestiço depois de séculos de opressão e passividade.

José Gabriel Túpac Amaru, como escolheu chamar-se este “porta-voz dos índios perante os brancos”, era quinto neto do último Inca e, como tal, reclamou para si, aos 22 anos, o título de cacique dos povoados de Surimana, Pampamarca e Tangasuca. Tinha feito seus estudos no colégio jesuíta para filhos de caciques do Cuzco, onde aprendeu, entre outras coisas, a história sagrada, como o provam suas freqüentes alusões à Bíblia. Não é aventurado pensar que a história de Moisés salvando seu povo israelita da escravidão na qual os egípcios o tinham, tenha-o animado a realizar idêntica missão entre os seus, apoiando-se também, talvez, nas teorias do jesuíta Francisco Suárez sobre a soberania do povo. Três ou quatro vezes, nas suas declarações, identifica a tirania dos corregedores com a do faraó egípcio, mas é em sua resposta ao sádico juiz Mata Linares onde melhor se percebe esta possível identificação: «sendo descendente dos incas, como tal, vendo que seus compatriotas estavam aflitos, maltratados, perseguidos, ele se criou na obrigação de defendê-los, para ver se os tirava da opressão em que estavam». Palavras estas que recordam quase textualmente os pensamentos de Moisés quando decide salvar seu povo do despotismo egípcio e também quando recorda que :

“Um humilde jovem, com o pau e a atiradeira, e um pastor rústico libertaram o infeliz povo de Israel do Poder de Golias e do faraó : foi a razão porque as lágrimas destes pobres cativos deram tais vozes de compaixão, pedindo justiça ao céu, que em poucos anos saíram de seu martírio e tormento para a terra da promissão. Mas, no final, conseguiram seu desejo, embora com tanto pranto e lágrimas.

Mas nós, infelizes índios, com mais suspiros e lágrimas que eles, não pudemos em tantos séculos conseguir nenhum alívio; e embora a grandeza real e soberania de nosso monarca tenha-se dignado a nos libertar com seu despacho real, este alívio e fadiga nos trouxeram de volta o maior desassossego, ruína temporal e espiritual. Será a razão porque o faraó que nos persegue, maltrata e hostiliza não é um só, senão muitos, tão iníquos e de coração tão depravado como são todos os corregedores, seus tenentes, cobradores de demais colchetes : homens por certo tão diabólicos e perversos […] que dar princípio a seus atos infernais seria santificar… os Nerones e Átilas a cujas iniqüidades a história se refere …

Nestes, há desculpas porque, no final, foram infiéis; mas os corregedores, sendo batizados, desdizem o cristianismo com suas obras e mais parecem ateus, calvinistas, luteranos, porque são inimigos de Deus e dos homens, idólatras do ouro e da prata. Não acho mais razão para tão iníquo proceder que o fato de a maior parte deles serem pobres e de berços muito baixos”.

Em 1760, havia-se casado com Micaela Bastidas, valente e decidida mulher que, além de lhe dar três filhos, animou-o e o ajudou numa empresa que desde o primeiro momento considerou também como sua. Não foi a única : várias mulheres, indígenas e mestiças, participaram nesta luta contra a opressão de um sistema tirânico e humilhante.

Boleslao Lewin, em sua já clássica obra sobre Túpac Amaru, afirma que seu programa social foi claro e explícito a partir de um princípio. Não o político, que foi variando à medida que se desenvolviam os acontecimentos. Quando se aproxima pela primeira vez das autoridades espanholas, em 1777, fá-lo com um programa coerente de reivindicações; em primeiro lugar : conseguir a eliminação da MITA, sobretudo a mineira, que sempre havia sido dura, com a diminuição dos indígenas era impossível de sobrelevar.

“Então, os índios morriam e desertavam – afirma no memorial de dezembro de 1777 – mas os povoados eram numerosos e isso se fazia menos sensível; hoje, na extrema decadência em que se acham, chega a ser impossível o cumprimento da MITA porque não há índios que sirvam para ela e devem voltar os mesmos que já a fizeram …”.

Denuncia os esforços desumanos aos quais estão obrigados, os longos e perigosos caminhos por onde devem andar para chegar até ali “mais de duzentas jornadas de ida e outras tantas de volta” e propõe que, no lugar dos índios, trabalhem nas minas “o copioso número de trabalhadores estabelecidos na dita colina de Potisí”. Pedia também a extinção das tecelagens, verdadeiros cárceres onde se obrigavam os adultos, velhos e até crianças a tecerem e a fazerem, sem descanso, outras tarefas desumanas.

As maiores acusações, não obstante, estavam dirigidas aos corregedores que, para poderem conservar suas vidas luxuosas e incrementar ainda mais os dividendos, obrigavam os índios a comprarem toda classe de objetos inúteis, ficando eles com parte do lucro obtido.

A sábia legislação indiana havia proibido os corregedores de índios de comerciarem com eles, mas, desde meados do século XVIII, esta proibição passou a ser letra morta.

Assim é que, como dizia Túpac Amaru, “nos botam alfinetes, agulhas de Cambray, pós-de-arroz azuis, baralhos, óculos, santinhos e outras coisas ridículas como estas. Naqueles que são algo acomodados, botam veludos, meias de seda, rendas, fivelas, poncho e cambraias, como se nós, índios, usássemos estas modas espanholas.

E a preços exorbitantes que, quando levamos para vender, não voltamos a juntar nem a vigésima parte do que temos que pagar…”. Quer dizer, seguiam recorrendo aos chocalhos e contas coloridas do começo da Conquista.

Alguns funcionários reais viam e denunciavam este estado de coisas, mas não se tomava nenhuma medida séria, talvez porque, de outro modo, a Coroa não pudesse pagar aos corregedores que deviam cobrar seu soldo do que sacavam dos índios.

Vendo que suas petições não tinham eco, Túpac Amaru começou a preparar a insurreição, estocando armas de fogo, vedadas aos indígenas. Ao mesmo tempo, tratava de atrair, com resultado desigual, descendentes de espanhóis e mestiços para a sua causa.

A ocasião se apresentou quando o bispo descendente de espanhóis, Moscoso, excomungou o corregedor de Tinta, Arriaga, indivíduo particularmente odiado pelos índios. Em 04/nov/1780, Túpac Amaru, com sua autoridade de cacique de três povos, mandou deter Antonio de Arriaga e o obrigou a assinar uma carta onde pedia às autoridades dinheiro e armas e conclamava todos os povos da província a se juntarem em Tungasuca, onde estava prisioneiro. Foram-lhe enviados 22.000 pesos, algumas barras de ouro, 75 mosquetes, mulas, etc.

Em 10 de novembro, executado Arriaga na forca, segundo Túpac Amaru “em nome do rei”, começa a maior sublevação da América, cujos ecos chegaram até os vice-reinados de Nova Granada e Rio da Prata, provocando novas insurreições nas quais mais de 100.000 pessoas perderam a vida.

“Desde o dia dez – diz um documento da época, citado por Pedro de Ángelis – começou a escrever cartas a diferentes caciques, mandando-lhes que prendessem seus corregedores, tenentes e demais dependentes, e dando ordens para que se embargassem seus bens”.

Estas cartas iam acompanhadas dos editais que ditos caciques tinham de publicar em suas respectivas províncias, promulgando que se extinguissem os impostos, aduanas e MITAS de Potosí, com o extermínio dos corregedores.

Seguido por um entusiasta exército de índios, começou a percorrer povoados e cidades, destruindo na sua passagem as tecelagens, símbolo de opressão, e emitindo proclamas que modificavam seu discurso, segundo fossem dirigidas aos índios e aos escravos, aos sacerdotes ou aos descendentes de espanhóis.

Aos primeiros, prometia que “ficarão livres da servidão e escravidão em que estavam”, insistindo em que sua missão consistia em abolir os abusos e acabar com os corregedores, que ele era o libertador do reino e o restaurador dos privilégios outorgados a seus antepassados pelos Reis Católicos.

Aos clérigos, assegurava que “só pretendo livrar o reino de tiranias e que se observe a santa e católica lei, vivendo em paz e quietude”, ressaltando em uma carta ao bispo Moscoso “V.Reverendíssima não se incomode com esta novidade nem perturbe seu fervor cristão.

Nem a paz dos monastérios, cujas sagradas virgens e imunidades não se profanarão de nenhum modo, nem seus sacerdotes serão invadidos com a menor ofensa dos que me seguirem…”

Em 23/dez/1780, dirige-se especialmente aos descendentes de espanhóis num proclama onde informa que “vendo o jugo forte que nos oprime com tantos impostos e a tirania dos que assumem este cargo, sem ter consideração por nossas desgraças e, exasperado delas e de sua impiedade, determinei sacudir o jugo insuportável e conter o mal governo que experimentamos dos chefes que compõem estes corpos, por cujo motivo morreu em cadafalso público o corregedor de Tinta, em cuja defesa vieram da cidade do Cuzco uma porção de espanhóis recém-chegados, arrastando meus amados descendentes de espanhóis, que pagaram sua audácia com suas vidas.

Só sinto pelos compatriotas descendentes de espanhóis, aos quais sempre procurei não prejudicar, para que vivêssemos como irmãos e congregados num corpo, destruindo os europeus”.

As respostas a estes proclamas foram imediatas e distintas. Nas ruas de Arequipa e do Cuzco, apareceram pasquins a favor e contra o rebelde.

Como a Espanha estava em guerra com a Grã-Bretanha, dizia-se, para desprestigiar o famoso mestiço, que ele havia feito contato com os ingleses. Entre a crítica e a admiração, um diário de Arequipa descrevia assim, em janeiro de 1781, a figura do insurreto e seus seguidores. A testemunha destaca os elementos incas de sua vestimenta e insinua a presença de dois ingleses entre seus homens.

“O exército era muito considerável e, fora da infantaria, levava mais de mil homens de cavalaria, espanhóis e mestiços, com fuzis, e do lado esquerdo e direito de Túpac Amaru iam dois homens loiros e de bom aspecto, que pareciam ingleses.

Túpac Amaru ia num cavalo branco, com adereço bordado de realce, seu par de trabucos alaranjados, pistolas e espada, vestido de azul de veludo, galoneado de ouro; seu cabriolé na mesma forma, avermelhado, e um galão de ouro apertado na frente.

Seu chapéu de três lados e, por cima do vestido, sua camiseta, semelhante a um roquete [casula] de bispo, sem mangas, ricamente bordado, e no pescoço uma corrente de ouro e, nela pendente, um sol do mesmo metal, insígnias dos príncipes, seus antepassados”.

A revolta teve repercussão em toda a América espanhola : desde o Rio da Prata até a Colômbia, Venezuela e ainda Panamá e México, mas nem todos os movimentos tiveram as mesmas características.

Embora, depois de sua morte, os descendentes de espanhóis utilizaram a figura de Túpac Amaru como símbolo, seu movimento foi essencialmente indígena : uniram-se a ele até os chiriguanos e os mocovíes nômades do Chaco saltense.

Em fevereiro de 1781, levantaram-se Chuquisaca e Oruro; em março, Tupiza, Puno, La Paz e Jujuy, onde diziam “Já temos rei Inca.”. Uns 5.000 índios, em uma extensão de 1.500 quilômetros, de Salta ao Cuzco, dispuseram-se a seguir o rebelde. Em Oruro, onde houve muita participação de mestiços, fixou-se em abril de 81 este pasquim :

Já no Cuzco com empenho querem sacudir, e é lei, o jugo de rei alheio e coroar o que é dono. ¡ Americanos, levantem-se ! Tomem armas nas mãos e, com ousado furor, matem, matem sem temor os ministros tiranos.

E em março de 1781, fixaram na porta da Audiência de Charcas :

Viva o general inca, consideremo-lo já o nosso rei, porque isso é muito justo e legal; é tudo o que ele merece.

Todo indígena se prepare para defender seu direito, porque Carlos o aniquila e destrói e o rouba a torto e a direito.

Como facilmente se vê nestes versos, mestiços e descendentes de espanhóis protestavam sobretudo pela política de impostos de Carlos III.

Na cidade de Mendoza, quiseram queimar seu retrato “tencionando dar a um vizinho duzentos pesos … para queimá-lo a favor do rebelde Túpac Amaru inca, e os dependentes deste rebelde, dando por bem feitas as atrocidades que fizeram.”

Também o movimento dos comunheiros de Nova Granada, essencialmente antiimpostos, tomou elementos dos tupamaristas, mas com predomínio de descendentes de espanhóis.

“Em 16/mar/1781, dia de feira, apresentaram-se na praça do Socorro uns quantos homens … vociferando que não pagariam os impostos”; ante a intervenção do prefeito, que tratava de dissuadi-los, “uma mulher chamada Manuela Beltrán se aproximou da porta da casa onde estava fixado em uma tábua o edito do Visitador e, ao grito de ‘Viva o rei e morra o mal governo !’, arrancou o edito e lançou pedaços do quadro entre os vivas e aplausos da multidão.”

Sucessos semelhantes ocorreram em distintas cidades de Nova Granada, com a diferença de que, em alguns povoados, acrescentava-se ao repúdio pelos impostos algo muito mais grave : o reconhecimento de Túpac Amaru como novo rei.

“¡ Que viva o rei inca e morra o rei de Espanha e todo seu mal governo e quem sair em sua defesa ¡”, gritavam em Silos, enquanto nos rasos de Casanare e povoados limítrofes, um descendente de espanhóis, don Javier de Mendoza, punha-se à frente dos índios sublevados em maio do mesmo ano e fazia jurar Túpac Amaru como rei da América.

É possível, contudo, que os comunheiros de Nova Granada, em sua maioria descendentes de espanhóis, tivessem tomado o nome do Inca para atrair para sua causa os índios do lugar.

Se Túpac Amaru tivesse podido tomar a cidade do Cuzco, os acontecimentos teriam seguido outro rumo. Talvez tivesse podido negociar uma paz digna e obter um indulto.

Porém, o ilustre peruano não queria que corresse tanto sangue e o tempo que empregou em cartas ao bispo e ao cabido da cidade para que se rendessem foi aproveitado por seus inimigos para enviar reforços consideráveis que tornaram impossível uma vitória dos insurretos.

Com a chegada a Cuzco do visitador geral, José Antonio de Areche, e do inspetor-geral, José del Valle, encabeçando um exército composto de 17.116 homens armados, a situação se desequilibrou em prejuízo dos rebeldes.

O mais importante, contudo, foram as medidas políticas adotadas pelos chefes realistas : proibir-se-ia o reparto (comércio obrigatório) dos corregedores e se indultariam, com um perdão geral, todos os comprometidos na insurreição, excetuando os cabeças.

Estas medidas conseguiram que muitos desertassem ou passassem às filas reais. Túpac Amaru pretendeu ainda dar um golpe de mão, atacando primeiro, mas o exército real foi avisado por um prisioneiro fugido e o golpe fracassou.

Na noite de 5 a 6 de abril, travou-se a desigual batalha entre os dois exércitos. Segundo um parecer militar “foram passados a faca mais de mil e o resto, derrotado inteiramente.”

Ao se ver perdido, Túpac Amaru quis fugir : “vendo tudo perdido – segue contando o parecer militar de 8 de abril – enviou ordem à sua mulher e filhos para que fugissem como pudessem e ousou atravessar a nado um rio caudaloso, o que conseguiu.

Mas, na outra margem, o coronel de Langui, que o era por ordem dele neste povoado, para ver se indultava sua vida, fê-lo prisioneiro e o entregou aos nossos … o mesmo que a sua mulher, filhos e demais aliados …

Às seis da manhã deste mesmo dia, foi levado prisioneiro Francisco Túpac Amaru, tio de José Gabriel, e outro cacique chamado Torres, famosos capitães do rebelde.

O primeiro trajava vestimentas reais, do tipo usado pelos Incas, com as armas de Túpac Amaru bordadas de seda e ouro nos cantos.”

Túpac Amaru e os seus ficariam expostos às feras, que cobrariam com juros os momentos de humilhação e medo que passaram por sua causa.

“Na quarta-feira, 18/mai/1781, depois de haver cercado a praça com as milícias desta cidade do Cuzco … e cercado a forca com o corpo de mulatos e huamanguinos, todos com fuzis e baionetas caladas, saíram da Companhia nove sujeitos : José Verdejo, Andrés Castelo, um zambo, Antonio Oblitas (o carrasco que enforcou o general Arriaga), Antonio Bastidas, Francisco Túpac Amaru; Tomasa Condemaita, cacique de Arcos; Hipólito Túpac Amaru, filho do traidor; Micaela Bastidas, sua mulher, e o insurgente, José Gabriel.

Todos saíram ao mesmo tempo, um após o outro. Vinham com grilhões e algemas, metidos nuns surrões, destes em que se traz a erva do Paraguai, e arrastados na fila de um cavalo aparelhado.

Acompanhados dos sacerdotes que os auxiliavam, e custodiados pela guarda correspondente, chegaram ao pé da forca, e – por meio de dois carrascos – foram-lhes dadas as seguintes mortes :

“Verdejo, Castelo, o zambo e Bastidas foram enforcados simplesmente.  Francisco Túpac Amaru, tio do insurgente, e seu filho Hipólito tiveram a língua cortada antes de serem conduzidos à escada da forca.

A índia Condemaita foi garroteada com um torno de ferro num tabladinho … tendo o índio e sua mulher visto com seus olhos estes suplícios serem executados, até em seu filho Hipólito, que foi o último a subir á forca.

Depois, subiu a índia Micaela ao tablado onde, também na presença do marido, teve a língua cortada e foi garroteada, padecendo infinitamente, porque, tendo o pescoço muito fino, o torno não conseguia estrangulá-la, e foi necessário que os carrascos, colocando laços em seu pescoço, tirando de uma parte para a outra, e dando-lhe pontapés no estômago e no peito, acabassem de matá-la.

“A função encerrou-se com o rebelde José Gabriel, que foi levado ao meio da praça : ali o carrasco lhe cortou a língua, e despojado dos grilhões e algemas, foi posto no chão.

Ataram-lhe as mãos e os pés com quatro laços, e prenderam estes às cilhas de quatro cavalos; quatro carrascos os instigavam rumo a quatro distintas partes : espetáculo que jamais se viu nesta cidade.

Não sei se, pelo fato de os cavalos não serem muito fortes, ou porque o índio na realidade fosse de ferro, não conseguiram absolutamente dividi-lo depois de o estarem puxando para lá e para cá, por um longo momento, de modo que o mantinham no ar, num estado que parecia uma aranha.

Tanto, que o Visitador, para que aquele infeliz não padecesse mais, despachou uma ordem da Companhia, mandando que o carrasco lhe cortasse a cabeça – o que foi feito.

Depois, o corpo foi conduzido para debaixo da forca, onde se lhe tiraram os braços e pés. Isto também foi feito com as mulheres e, com os demais, tiraram as cabeças para enviá-las a diversos povoados.

Os corpos do índio e de sua mulher foram levados a Picchu, onde havia uma fogueira, na qual foram jogados e reduzidos a cinzas que foram lançadas ao ar e ao riacho que por corre ali.

Deste modo, acabaram com José Gabriel Túpac Amaru e Micaela Bastidas, os quais, com muito orgulho, chegaram a se considerar reis do Peru, Quito, Tucumã e outras partes . . .

“Neste dia, afluiu um grande número de pessoas, porém ninguém gritou nem levantou a voz. Muitos observaram – eu entre eles – que entre tantos presentes não se viam índios, ao menos com seus trajes típicos e, se algum havia, estaria disfarçado com capas e ponchos. […]

Tendo feito um tempo muito seco e dias muito serenos, aquele dia amanheceu nublado, não se vendo a cara do Sol, ameaçando chover por toda parte.

Já lá pelo meio-dia, quando os cavalos estavam estirando o índio, levantou-se uma forte rajada de vento e depois dela, um aguaceiro que fez com que todas as pessoas, inclusive os guardas, se retirassem apressadamente.

Isto foi a causa de os índios terem começado a dizer que o céu e os elementos sentiram a morte do Inca que os desumanos e ímpios espanhóis estavam matando com tanta crueldade.”

Esse dia, a natureza mostrou ser mais piedosa do que os homens.

Lucia Gálvez

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2 Respostas to “PERU – TÚPAC AMARU (1743-1781)”

  1. Lanna Says:

    Bom gostaria de comentar que esta muito boa esta historia, so que poderiam faze las resumidas para que os estudantes pudessem fixa as informaçoes mais rapidamente…
    Segue esta dica…

    • comitebolivarianosp Says:

      Ficamos satisfeitos ao saber de seu interesse em ler os artigos postados no blogue do Comitê Bolivariano de São Paulo.
      Alguns dos textos postados são, meramente, traduções, a partir de originais espanhois.
      No momento, não temos condições de resumir o que quer que seja, mas estamos guardando sua sugestão, para discuti-la numa próxima reunião.
      Saludos Fraternos, Bolivarianos y Socialistas del Siglo XXI

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