CUBA – HAYDÉE SANTAMARÍA (1922-1980)

HAYDÉE SANTAMARÍA, UMA MULHER REVOLUCIONÁRIA : CARTAS A CHÊ GUEVARA E AOS PAIS DELA (Rebelión)

Haydée Santamaría Cuadrado [1922-1980] é uma das mulheres que participaram em 26/jul/1953 do assalto ao quartel Moncada liderado por Fidel Castro.

Depois desse assalto, muitos combatentes foram capturados pelo Exército do ditador Batista. Como já é um triste “costume” … – hoje empregado pelos militares norte-americanos no Iraque e em Guantânamo, como ontem no Vietnam e em inumeráveis lugares do mundo; pelo Exército francês na Argélia; pelos militares argentinos, chilenos, israelenses e sul-africanos; e por todos os aparatos de repressão que defendem o capitalismo – esses combatentes foram torturados.

Abel Santamaría Cuadrado [1927-1953], irmão de Haydée, foi um dos torturados. Assassinaram-no ali mesmo. Os sobreviventes foram encarcerados. Haydée escreve, então, esta carta a seus pais – que agora reproduzimos – após o assassinato de Abel na tortura. Nela, faz referência aos sonhos rebeldes de seu irmão e ao significado de Fidel Castro para o movimento revolucionário.

Haydée foi uma das encarregadas de tirar clandestinamente do cárcere e de recompor, por vias distintas, o célebre arrazoado de Fidel Castro no julgamento ante seus captores, conhecido popularmente como ‘A história me absolverá’.

Mais tarde, tendo sido uma das co-fundadoras do Movimento 26 de julho, Haydée participa como combatente guerrilheira na luta que provocará a queda de Batista e o triunfo da Revolução Cubana. Não é a única mulher que participa desta luta, mas é uma das mais destacadas, junto com Celia Sánchez [1920-1980], Melba Hernández e muitas outras. Por exemplo, em 04/set/1958, forma-se na Sierra Maestra o pelotão “Mariana Grajales” do Exército Rebelde, constituído exclusivamente por mulheres combatentes.

Com o triunfo da Revolução Cubana, Haydée – cujo apelido era Yeyé – funda em 1959 uma instituição cultural que será emblema entre os intelectuais críticos de todo o orbe: a Casa das Américas. Ali receberá os intelectuais mais importantes do mundo, que visitaram Cuba e descobriram o papel fundamental que a Revolução ofereceu à cultura. Muitos deles recordam-se de Haydée, entre outros, nosso querido Julio Cortázar.

Mais tarde, será uma das co-fundadoras e membro do comitê central do novo Partido Comunista Cubano (fundado em 1965, a partir da unidade de várias organizações lideradas pelo Movimento 26 de Julho) e integrará a presidência da Organização Latino-americana de Solidariedade (OLAS), reunida em Havana em 1967 para coordenar a luta de insurreição em todo o continente.

Nesse ano, ocorre o assassinato de Chê Guevara na Bolívia (outra vez, como sempre, realizado a sangue frio e por ordens da CIA e dos rangers norte-americanos que assessoravam o Exército boliviano). Depois que se soube em Cuba de seu assassinato, Haydée escreve a Chê a carta que agora reproduzimos.

Nesse mesmo ano, em 13/jul/1967, Haydée faz uma conferência aos estudantes da Escola de Ciências Políticas da Universidade de Havana, sobre o assalto ao Quartel Moncada. Nela, relata grande parte de sua experiência como mulher revolucionária e combatente guerrilheira.

Em uma das passagens, Haydée diz a um estudante : “Para mim, ser comunista não é militar num partido; para mim, ser comunista é ter uma atitude diante da vida.” Noutro trecho, resumindo o que sentem muitas mulheres revolucionárias do mundo que caíram sob a repressão, afirma:  “Ia presa, algemada, manietada e me sentia mais forte e mais livre do que aqueles que, com a toga da justiça, iam-me julgar.” Mais adiante, confessa a uma jovem estudante: “E assim, companheira, posso lhe dizer que até ver cair, até ver morrer um inimigo, impressionou-me. Impressionou-me tremendamente ver cair aquele que vínhamos combater […] Já sou inimiga não só de matar por gosto, sou inimiga até de ser violenta por gosto. Creio que é preciso um grande esforço para ser violenta, para ir à guerra, mas é necessário ser violenta e ir à guerra se for preciso.”

Essa extensa conversa foi editada posteriormente no livro ‘Haydée fala do Moncada’ [Havana, Casa das Américas, 1985]. No ano seguinte, em 1968, Haydée viaja ao Vietnam como parte de uma delegação da Revolução Cubana solidária com o indomável povo de Ho Chi Minh.

Hoje em dia, ela se converteu num símbolo da mulher revolucionária, além das fronteiras da Revolução Cubana. Por exemplo, na Austrália, Betsy Maclean acaba de publicar uma antologia – em inglês – que inclui, além da introdução, escritos e cartas de Haydée e sobre Haydée [Leiam: Haydée Santamaría, editado por Betsy Maclean. Austrália, Ocean Press, 2003. Coleção: “Rebel lives” (Vidas rebeldes)].

Como mulher revolucionária, como militante, como intelectual e como combatente pelo socialismo, Haydée Santamaría – junto com suas companheiras cubanas – faz parte de uma extensíssima e gloriosa tradição mundial que também integra as militantes francesas, Flora Célestine Thérèse Tristan  [1803-1844], Louise Michel, Madame Fautin y Hortense David; a inglesa, Elisabeth Dmitrieff; as russas, Vera Ivánovna Zasúlich [1851-1919] e Alexandra Kollontai [1872-1952]; a alemã, Clara Eissner Zetkin [1857-1933]; a judia polonesa, Rosa Luxemburgo [1871-1919]; a ucraniana-norte-americana, Raya Dunayevskaya [1910-1987]; a espanhola, Dolores Ibárruri Gómez [1895-1989]; a vietnamita, Nguyen Thi Binh; a argelina, Djamila Boupacha; a nicaragüense, Luisa Amanda Espinoza [1948-1970]; a alemã, Ulrike Marie Meinhof [1934-1976]; a argentina-alemã, Haydée Tamara Bunke Bider [1937- 1967]; a italiana, Margherita Cagol [?-1975]; e as argentinas, Alicia Eguren [1924- 1977] e Ana María Villareal de Santucho [1936-1972] – entre muitíssimas e muitíssimas outras. Uma tradição heróica de pensamento e ação – integrada por vertentes distintas e experiências diversas – onde a luta das mulheres jamais se separa da luta pela revolução e do combate pela causa mundial do socialismo.

A Cátedra de Formação Política, Ernesto Chê Guevara, reproduz estas cartas de Haydée por três razões: em primeiro lugar, porque constituem documentos históricos muito importantes sobre a Revolução Cubana. Em segundo lugar, porque ajudam a conhecer a personalidade de Haydée Santamaría e a compreender o papel central desempenhado por ela e por outras mulheres na luta revolucionária latino-americana. Em terceiro lugar, como uma pequeníssima homenagem a todas as mulheres do mundo que, no Iraque, na Palestina, na Colômbia, no país basco, no Brasil, em Chiapas, e em todos os rincões do mundo participam da luta revolucionária, resistindo à repressão, às torturas, às violações e a toda a barbárie com que o imperialismo pretende domesticar a rebelião dos nossos povos.

(Agradecemos à companheira Celia Hart, filha de Haydée Santamaría e Armando Hart, que nos permitiu reproduzir ambas as cartas.)

[Fim da nota introdutória de Néstor Kohan.]

Até a vitória sempre, Chê querido

[Carta de Haydée Santamaría a Chê Guevara, escrita depois do assassinato de Chê na Bolívia]

Chê : aonde te posso escrever? Dir-me-ás que a qualquer parte, a um mineiro boliviano, a uma mãe peruana, ao guerrilheiro que está ou não está, mas estará.

Tudo isto eu sei, Chê, tu mesmo mo ensinaste e, além disso, esta carta não seria para ti. Como dizer-te que nunca havia chorado tanto desde a noite em que mataram Frank e, desta vez, isso em que eu não acreditava.

Todos estavam seguros e eu dizia: não é possível, uma bala não pode terminar com o infinito. Fidel e você têm que viver. Se vocês não viverem, como viver.

Faz quatorze anos que vejo morrerem seres tão imensamente queridos, que hoje me sinto cansada de viver. Creio que já vivi demais, não vejo o sol tão belo, a palmeira, não sinto prazer em vê-la; às vezes, como agora, apesar de gostar tanto da vida e por essas duas coisas valer a pena abrir os olhos cada manhã, sinto desejo de tê-los fechados como esses seres, como tu.

Como pode ser certo? Este continente não merece isso; com teus olhos abertos, a América Latina tinha pronto seu caminho. Chê, a única coisa que pôde consolar-me é ter ido, mas não fui, estou junto a Fidel, fiz sempre o que ele deseja que eu faça. Lembras-te? Prometeste-me na Serra, disseste-me: não sentirás falta de café, teremos mate.

Não tinhas fronteiras, mas me prometeste que me chamarias quando tu fosses à tua Argentina, e como o esperava, sabia bem que o cumpririas. Já não pode ser, não pudeste, não pude. Fidel o disse, tem que ser verdade, que tristeza.

Não podia dizer “Chê”, tomava forças e dizia “Ernesto Guevara”, assim comunicava isso ao povo, ao teu povo. Que tristeza tão profunda, chorava pelo povo, por Fidel, por ti, porque já não posso. Depois, na celebração, este grande povo não sabia que graus Fidel colocaria em ti.

Coloquei-os em ti: artista. Eu pensava que todos os graus eram poucos, pequenos, e Fidel, como sempre, encontrou os verdadeiros : tudo o que criaste foi perfeito, mas fizeste uma criação única, fizeste-te a ti mesmo, demonstraste como é possível esse homem novo, todos veríamos assim que esse homem novo é a realidade, porque existe, és tu.

Que mais posso dizer-te, Chê? Se soubesse, como tu, dizer as coisas. De todas as maneiras, uma vez me escreveste: “Vejo que te converteste em uma literata com domínio da síntese, mas te confesso que gosto mais de ti é num dia de ano novo, com todos os fuzis disparados e dando tiros de canhão em volta. Essa imagem e a da Sierra (até nossas pelejas daqueles dias me são gratas na lembrança) são as que levarei de ti para uso próprio.” Por isso, não poderei escrever nunca nada de ti e terás sempre essa recordação.

Até a vitória sempre, Chê querido.

Haydée

Carta enviada da prisão por Haydée Santamaría a seus pais

[escrita em 1953, depois do assalto ao quartel Moncada, ao chegar ao cárcere de mulheres de Guanajay]

Já estou em Guanajay. Desde que cheguei, ia-lhes escrever, porém sei que sabiam de minha permanência aqui por Elena e Manoel e que sabiam que estava muito bem.

Creio que faz uns 15 dias que estou aqui e pensei que fosse melhor esperar uns dias para lhes escrever e lhes contar algo disto e como são as coisas para vir [visitar-me], e se podiam fazê-lo e se deixavam crianças entrarem, para que me trouxessem Carín [Sobrinha de Haydée, então um bebê]. Podem dizer-lhes que podem trazê-los, e as visitas são aos domingos das 2 da tarde às 6.

Quero que saibam que estou muito bem, [portanto] vocês não se preocupem em vir. Todos os domingos, muitas pessoas vêm e nos trazem de tudo, além disso, a comida é boa, assim que não devem ter preocupações.

Creio que no domingo em que vierem, que não deve ser mais de uma vez ao mês, comuniquem-mo antes, para que nesse domingo não venham mais visitas, para eu assim poder estar com vocês e não ter que atender a mais pessoas que vêm todos os domingos por serem daqui mesmo. Por isso, devem-me avisar antes de vir. Repito-lhes, estou no melhor de mim. Não fosse pela preocupação de vocês por mim, e por eu saber da dor que têm ao pensar que não terão mais Abel [Abel Santamaría, irmão de Haydée, assaltante do quartel Moncada junto com Fidel, capturado, torturado e assassinado pelos torturadores de Batista] com vocês, eu poderia dizer-lhes que sou quase feliz. Se vocês pensassem em Abel da forma com que eu penso, poderiam ser também, se não felizes, ao menos não tão machucados como sei que estão.

Mamá, Nino [apelido carinhoso empregado por Haydée em relação ao pai, Benigno Santamaría], sei bem que nada que lhes disser lhes tirará esta terrível aflição. Talvez, quando os anos se passarem, me entenderão.  Quando tiverem de verdade a segurança de que vocês são pais privilegiados, que terão sempre esse filho, e o terão tal como era – bom, jovem, bonito – jamais esse filho será como os outros, os outros ficarão velhos, feios, ácidos.

Abel foi, é e será esse filho que não envelhece, continuará sempre com seu rosto tão lindo, continuará sempre para vocês, para todos nós, com sua força, com sua infinita ternura. Será o que nos faz ser bons de verdade, será sempre o guia, e para vocês, será o filho mais próximo. Pensem bem que já vocês sofreram mudanças, mudanças tão grandes e belas, e mesmo que fosse só por isso, me conformo, sou quase feliz. Abel os tornou cubanos, Abel conseguiu fazer com que vocês amem esta terra, amem a bonita terra onde nasceu, e creio que é a única coisa que ele amava mais do que a vocês.

Como vocês podem pensar, não terão mais Abel, porém ele, de Santa Ifigênia, lhes disse: amem Cuba, amem Fidel, e vocês, embora ele tenha pedido isso antes, hoje entenderam essa verdade e eu, se não os visse mais, sentiria a felicidade de sempre ter pais, porque souberam ser pais de Abel.

Mamá, Nino, e tu, sobretudo, Mamá, me disseste tantas vezes que eu nada mais queria para Abel, que era o único que me importava na família, e hoje vivo, não estou machucada. Por que tu não vais viver, não ficar machucada ?

Vão viver mais do que nunca para ele, vais amar o que tanto amou; podes dedicar-te a defender o que era a razão de sua vida: os trabalhadores de Constância [Central Açucareira Constância. A Revolução Cubana o batizou, após o triunfo, de Abel Santamaría Quadrado], não os Luzarragas [sobrenome dos latifundiários exploradores da zona onde vivia a família Santamaría Cuadrado].

Mamá, aí tens Abel, não te dás conta, Mamá? Abel não nos faltará jamais. Mamá, pensa que Cuba existe e Fidel está vivo para construir a Cuba que Abel queria. Mamá, pensa que Fidel também te ama e que, para Abel, Cuba e Fidel eram a mesma coisa, e Fidel necessita muito de ti. Não permitas a nenhuma mãe que te fale mal de Fidel, pensa que isso, sim, Abel não te perdoaria.

Haydée

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Uma resposta to “CUBA – HAYDÉE SANTAMARÍA (1922-1980)”

  1. Rogério Medeiros Says:

    Lamentavelmente, na relação das grandes figuras femininas que lutaram pelas causas socialistas, há uma grave omissão. Refiro-me a Olga Benário Prestes (Munique, 12 de fevereiro de 1908 — Bernburg, 23 de abril de 1942) a jovem militante comunista alemã, de origem judaica. Ela veio para o Brasil na década de 1930, por determinação da Internacional Comunista, para apoiar o Partido Comunista Brasileiro. Destacada como guarda-costa de Luís Carlos Prestes, tornou-se sua companheira, tendo com ele uma filha, Anita Leocádia Prestes D.eportada para a Alemanha durante a ditadura do Estado Novo, foi executada pelo regime nazista em campo de extermínio.

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