Bolivia (Marina Ari) – Tupac Katári (1750-1781)

Era 1750. No dia em que nasceu Julián Apaza, os comunitários Aimarás viram admirados que dois belos e enormes mallkus baixaram em Sullkawi, em Sica Sica, e pousaram nas montanhas próximas, um dos condores representava a Nação Aimará e o outro, a Nação Quíchua.

Sua mãe, Marcela Nina, saiu com a wawa para mostrar à Pachamama e seu pai, Nicolás Apaza, mostrou uma enorme serpente que levantava a cabeça. Admirados, mas sem medo, viram que a serpente saudava o menino, então souberam que Julián seria importante para os povos Aimará e Quíchua.

Dois anos depois, nasceu sua irmãzinha, Gregoria. Lamentavelmente, nem Marcela nem Nicolás puderam ver como seus filhos cresciam porque morreram quando Julián tinha 7 anos.

Um sacerdote espanhol acolheu Julián Apaza para fazê-lo seu criado.

Julián cresceu como um menino muito inteligente que se dava conta dos maltratos e espantosos abusos que o povo Aimará e o Quíchua sofriam.

Os injustos espanhóis obrigavam nossos antepassados a trabalharem como escravos em suas propriedades ou minas, sem pagamento e sem horário. Muitos morreram longe de suas famílias, sem alimento, nem roupa, nem esperança. Também as mulheres e as crianças estavam obrigadas à mita(1) e os desumanos espanhóis e padres os tratavam horrivelmente.

Além disso, estavam obrigados a entregar a maioria de seus produtos como um tributo aos espanhóis e à Igreja Católica. Em 1697, os espanhóis decidiram que, além da mita(1) e do tributo em produtos, iam cobrar dinheiro dos nossos avós. Como estes não tinham dinheiro, viram-se obrigados a deixar suas famílias para irem às minas e fazendas, mas os patrões lhes pagavam muito pouco e não dava para pagarem o tributo. Então, eram aprisionados e maltratados. Eles e suas famílias eram convertidos em escravos e lhes tiravam suas terras.

Com espanto, o menino Julián se deu conta de que a vida de um Indígena não valia nada para os espanhóis assassinos e comparou a cultura européia espanhola, de ódio e crime, com sua cultura Indígena Aimará, que era solidária e harmônica.

Julián Apaza cresceu e se dedicou ao comércio de pano e de coca. Viajou por diferentes comunidades e fazendas, vendo como seus irmãos de raça eram maltratados e assassinados pelos espanhóis, pelos padres católicos e pelos mestiços.

Numa de suas viagens a seu povoado, Sica Sica, viu um belo aguayo feito com a habilidade dos antigos e, quando perguntou quem o tinha feito, mostraram-lhe Bartolina Sisa, uma jovem muito bela que ele amaria por toda a sua vida e com a qual se casou.

Em 1780, Julián ouve falar do Jach’a Katari, o líder Tomás Katari, que iniciou uma luta com os Ayllus, guerreiros Q’aqachacas de Macha, diante dos abusos dos espanhóis. Julián tomou contato com Tomás Katari e ambos compartilharam suas idéias. Em sua honra, adotou o nome de Katari, que quer dizer valentia e periculosidade da serpente. Tupak é águia e ele usou esse nome como símbolo de fraternidade com Tupak Amaru, o herói Quíchua.

Um ano depois, 1781; o Aimará Tomás Achu se dirigiu à Feira de Ayo Ayo. Sua família estava morrendo de fome. Tinham trabalhado tanto e, mesmo assim, não conseguiam pagar os impostos. Se os tirassem da terra de seus antepassados, para onde iriam? Estava disposto a suplicar, talvez os espanhóis se compadecessem… Quando chegou à Feira, viu Joaquín Alos, o corregedor que o explorava e, junto com sua esposa e filhos, correu para lhe suplicar :

“Tata, não nos tire a terra…”,

Alos sacou sua arma e o matou com um tiro na testa…

Esse foi o momento em que as comunidades, no limite de sua indignação, rebelaram-se diante de tanto abuso, ao lado de seu líder, TUPAK KATARI, a serpente Aimará.

O encontro entre os dois Mallkus foi emocionante. O bravo e culto Amaru, junto ao aguerrido e valente Katari, deram-se as mãos e decidiram que era hora de acabar com a maldade dos invasores espanhóis.

A Guerra da Confederação Quíchua-Aimará tinha começado. Não era um simples levante. Foi uma longa preparação entre líderes Aimarás e Quíchuas. A luta do Tawantinsuyu foi dirigida por Tupak Amaru e a do Qullasuyu, por Tupak Katari. No Tawantinsuyu, Amaru convocou vários setores, inclusive os mistis. O caso do bispo cuzquense, Moscoso y Peralta. Nunca devia tê-lo feito, eles o trairiam.

Além da distribuição justa da terra, Amaru pedia a abolição do tributo, da mita(1) e da divisão. Lutou também por reivindicações dos mestiços pobres e contra a escravidão dos afro-descendentes. Katari pedia a reconstrução da sociedade de ayllus e a restauração de nossa cultura originária.

Ambos os líderes selaram um pacto, da mais bela irmandade, entre nacionalistas Quíchuas e nacionalistas Aimarás. Ambos seriam, depois, horrivelmente mortos, mas seu nobre sacrifício fica em nossa memória e em nosso coração.

Em sua comunidade, Bartolina Sisa ouviu falar do valente líder que lutava com pedras contra as armas dos injustos espanhóis e soube que era seu esposo. Então, foi lutar a seu lado. O casal Katari-Sisa dirigiu a insurreição com muita habilidade. Tiveram várias vitórias, como contra o injusto José Pinedo, que foi ajudar seus irmãos sitiados em Puno, mas antes foi à sua fazenda em Moho onde foi emboscado e derrotado.

Apesar de nossos avós só terem q’urawas e fundas, derrotaram várias vezes, como em Laja, centenas de espanhóis bem armados. O assassino Segurola escreveu, admirado, que os Aimarás tinham um espírito e pertinácia tão horrível que poderiam servir de exemplo à nação mais valente, pois lutavam desesperadamente apesar de estarem  atravessados por balaços.

Arrasaram Sorata e em Achachicala fizeram uma bela obra de engenharia, inundando a cidade de La Paz, onde viviam espanhóis e mistis.

Depois, sitiaram a cidade com 10.000 homens e mulheres. Os jairas espanhóis sentiram a fome em seus corpos e estavam muito próximos da rendição e do abandono da cidade.

Assustados, os espanhóis compraram os mestiços para acabar com a Guerra de Independência Quíchua-Aimará.

Usaram a traição de alguns covardes, para que entregassem Bartolina Sisa, a general que tinha dirigido o exército Aimará, vencedora da batalha de Chuquiago, na qual, com um pequeno exército, derrota 400 espanhóis.

A 2 de julho de 1781, em Laja, a guerreira Sisa é traída e entregue aos vilões espanhóis que a assassinam depois de fazê-la sofrer. No entanto, Bartolina permanece valente e orgulhosa até seu fim. Morre aos 26 anos.

Isto significou uma grande pena para Katari. Entrementes, os espanhóis, para lutar contra os libertários, compraram 7.000 cochabambenses e argentinos que, bêbados e ansiosos por roubarem tudo o que vissem pelo caminho, foram recebidos jubilosamente pelos espanhóis e mestiços em La Paz.

Os próprios espanhóis relatam que eram uma vergonha, por serem ladrões, covardes, bêbados e indisciplinados.

Em Peñas, deu-se a batalha final. Katari é surpreendido e traído pelo desprezível Tomás Inkalipe. É capturado em 15 de novembro de 1781 e morto de forma horrível. Antes de morrer, deixa-nos sua previsão que, hoje, vai-se cumprindo:

“Nayjaj sapjarukiw jiwyapxittaxa nayxarusti, waranqa, waranqanakaw kutt’anipxani…”

“A mim só estão matando, mas VOLTAREI E SEREI MILHÕES…”

(1)       mita :               Recrutamento forçado para os trabalhos públicos que os povos pré-colombianos faziam. (Nota da Tradução)

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