Equador – Eloy Alfaro (1842-1912)

Viva Alfaro, caralho!

«A hora mais escura é a mais próxima da aurora» (Eloy Alfaro)

O Equador gemia então sob o chicote do regime conservador herdado da Colônia, aperfeiçoado e piorado por Gabriel García Moreno, o Santo do Patíbulo. Se você não fosse católico, apostólico e romano, como a Constituição da República condicionava, você não era cidadão e necessitava, portanto, de todo direito. Se você pensasse, os guardiões do sistema pesquisavam seus pensamentos; se você falasse contra o sistema estabelecido, era espancado impiedosamente ou condenado ao confinamento na selva amazônica. Ou o fuzilavam em praça pública, obrigando os escolares a presenciarem a execução. Juan Montalvo descreveu essa época de horror ao dizer que os equatorianos tinham sido divididos em três grupos: um, destinado à prisão; outro, ao desterro; e o último, ao enterro.

As conseqüências mais duras do regime conservador eram sofridas pelos índios da Serra e pelos montubios dos latifúndios da Costa escravizados pelo sistema de concertaje (acordo forçado). Os índios eram massacrados, em cada ato de protesto que eles ousassem realizar contra o sistema do huasipungo (*); na defesa de suas terras comunais arrebatadas pelos proprietários de terras; ou no repúdio ao trabalho obrigatório nas vias públicas, que era o prolongamento das mitas coloniais.

Naquela época, teria de nascer o melhor equatoriano de todos os tempos: o General Eloy Alfaro. O histórico acontecimento se deu a 25 de Junho de 1842, um dia como hoje, no pequeno povoado manabita de Montecristi. Fruto do lar formado por um guerrilheiro republicano espanhol, Manuel Alfaro, e pela abnegada equatoriana, Natividad Delgado, tanto Eloy quanto seus irmãos se incorporaram cedo na luta pela regeneração do país e pela implantação da democracia. Juntos, percorreram o país em cem combates. Juntos, perambularam pelos caminhos da América, proclamando o ideal libertário. Juntos, foram perseguidos ou assassinados.

A primeira ação do jovem Eloy deu-se em 1864, quando estava com 22 anos. Anteriormente, ele tinha organizado um grupo guerrilheiro com 28 homens, a maioria camponeses, que foi o primeiro grupo alfarista da história. Pela força das armas, aprisionou o governador de Manabí, representante da tirania, mas acabou subjugado e encarcerado. Era também a primeira de cem derrotas, porém os muros do despotismo se fragmentaram e, dos campos humilhados e ofendidos, foi surgindo esse grito de guerra «VIVA ALFARO, CARALHO!», que não se apagou nunca, em século e meio de história nacional, e que não se apagará jamais, enquanto o povo equatoriano não for o dono real de sua pátria e de seu destino.

Isto é tão real que, estes dias, no concurso da TV, ‘quem é o melhor equatoriano’, brilha em primeiro lugar o nome de Eloy Alfaro, o que deve conclamar todos a uma reflexão profunda, pois o fato é mais significativo nos tempos atuais, em que a educação, em geral, e o estudo da história nacional, particularmente, andam no chão; e os que votam pelo melhor não são os índios nem os montubios, mas sim telespectadores das cidades. É entre aqueles que o grito de guerra permanece guardado para sempre.

Por que razão retorna Alfaro à memória coletiva?

Será que os ideais da Revolução Liberal, que ele preconizou e conduziu, não pereceram com seus ossos e sua carne na fogueira bárbara de El Ejido?

Tem algum sentido ressuscitar o histórico Caudilho numa época em que o povo está cansado de caudilhos e caciques?

Como explicar que Alfaro tenha algum significado em tempos de modernidade e modernizações das quais tanto se fala, se sua maior obra foi uma estrada-de-ferro que não existe mais?

Alfaro volta hoje à memória coletiva porque o povo equatoriano, em seu conjunto, repudia os políticos atuais, que assaltam o poder inescrupulosamente, graças ao poder econômico e ao domínio dos tribunais, ao passo que ele soube lutar de frente por seus ideais, entregando seu tempo, a paz de seu lar, toda sua fortuna e, por último, sua vida.

Alfaro volta, porque as mulheres e os homens do Equador atual estão fartos dos políticos e governantes que se enriquecem graças ao Fisco, ao negócio da dívida externa e à mancomunação com as empresas estrangeiras que saqueiam nosso petróleo, a geração de energia e até a água potável, que em Guayaquil, por exemplo, afoga os habitantes em planilhas abusivas e coliformes fecais.

Alfaro volta, porque a gente digna deste país repudia a demagogia barata dos que juram morrer tentando e fogem antes do primeiro disparo, ao passo que Alfaro soube morrer com valor e dignidade tentando construir uma Pátria independente, soberana e livre. Hoje, quando sua própria terra, Manabí, esta pisada pela bota norte-americana graças ao entreguismo de governos traidores e à vileza de uma corte parlamentar de anões mentais, o Velho Lutador retorna para nos fazer lembrar de sua mensagem dirigida à Assembléia Nacional em Agosto de 1901, quando os Estados Unidos pretendiam – como pretendem também agora – apoderar-se do Arquipélago de Galápagos:

Referindo-se à proposta norte-americana de que o Equador arrendasse as ilhas ao governo dos Estados Unidos por 99 anos, em troca de quinze milhões de dólares, o Presidente Alfaro sentenciou:

«Buscar uma solução no desmembramento de nosso território seria um crime atroz; NENHUMA POLEGADA DO SOLO DA PÁTRIA PODE SER CEDIDA A NINGUÉM SEM SE TORNAR RÉU DE PATRICÍDIO.

NADA DE VENDER O TERRITÓRIO, NADA DE DIMINUIR A SAGRADA HERANÇA QUE OS LIBERTADORES NOS LEGARAM.

O SOLO DA REPÚBLICA NÃO PERTENCE A NINGUÉM, A NÃO SER A ELA MESMA, E A REPÚBLICA NÃO PODE SER DESPOJADA DE SEUS DIREITOS SEM ABDICAR DE SUA SOBERANIA E SE AVILTAR.

DESGRAÇADO DE QUEM ESCARNECER DELA DESSA MANEIRA: SEU NOME PASSARÁ À POSTERIDADE COM MARCA DE ETERNA INFÂMIA.»

Está claro, portanto, por que hoje a figura do Velho Lutador retorna, e por que aquele grito de guerra volta a brotar do peito da nação esgotada e traída:

Viva Alfaro, caralho!

Jaime Galarza

Nota da Tradução:  (*) Huasipungo = sistema em que uma área de terra é arrebatada do índio e parcialmente cedida a ele para plantar para seu próprio sustento.

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