Colômbia – Jorge Eliécer Gaitán (1898-1948)

Capitão e Mártir das Multidões

Sua mãe, Manuela Ayala, foi seu guia. Visitou a Venezuela, em 1946. A Praça El Silencio, em Caracas, estremeceu-se com sua mensagem. Sua “Oração pela paz” ainda ressoa nos ouvidos dos bogotanos. Em 9 de Abril, sua morte completou 55 anos. Eis aqui sua história.

O Natal de 1928 teve um sabor amargo para a Colômbia. Houve luto após a matança da bananeira. Muitas crianças foram massacradas e ninguém no país se atrevia a falar. “Jorge Gaitán o fez”, recorda em Bogotá o professor universitário, Eduardo Umaña. “A voz de Gaitán se levantou e o baixinho Gaitán foi crescendo e pisando os terrenos da oligarquia”.

Seus primeiros anos como advogado tornaram-se difíceis, porém, sua capacidade profissional lhe permitiu demonstrar seu brilhantismo jurídico. O jornalista Elmer Niño escreveu: “A primeira batalha penal foi realizada por ele contra as companhias transnacionais, conhecidas como United Fruit Company. Soldados colombianos cumpriram a ordem de desalojar os empregados e operários que ocuparam as terras. Como promotor do Ministério Público, ele assumiu a defesa das vítimas. Para evitar seu trabalho, bloquearam a investigação e tiraram recursos do orçamento. Usou, então, dinheiro de seu próprio bolso para gastos com viagens. Os pobres o viam como o advogado dos humildes. Veio o julgamento. Deu nomes e sobrenomes. O Exército foi considerado culpado pelo massacre”.

O advogado tinha-se internado nas zonas bananeiras do Magdalena. Mostrou os cadáveres das crianças da matança. Chegou a dizer: “O Exército colombiano está de joelhos ante o ianque e orgulhoso de disparar contra os filhos da Colômbia”.

Umaña analisa e diz convencido: “Quando Gaitán faz sua defesa dos operários das bananeiras, o país estremeceu e veio sua sentença… Todo homem inteligente, que se apresenta ao povo para a mudança política, a luta contra o policlassismo e contra a plurietnia, está condenado à morte”.

A morte surpreendeu Jorge Eliécer Gaitán Ayala em 9 de Abril de 1948, contudo, sua vida já corria perigo durante os últimos 20 anos de sua existência.

Três tiros – um na cabeça e dois nas costas – puseram fim à sua vida. Seu relógio e a calma bogotana foram detidos à 1:05 da tarde daquele dia. O corpo do jurista jazia a poucos metros do edifício Agustín Nieto, onde funcionava seu escritório.

De origem humilde

O primogênito de Eliécer Gaitán e Manuela Ayala nasceu em 23 de Janeiro de 1898. A família vivia em Las Cruces, um humilde bairro de Bogotá.

Sobre seu nascimento, existe controvérsia. Há os que dizem que ocorreu às 13 horas do dia 23 de Janeiro de 1903, em Cucunubá (a 90 quilômetros de Bogotá), com batismo em Bogotá. O camponês Neptalí Medina o descreve de maneira simples: “Era baixinho e moreninho como os índios de Cucunubá”. O advogado venezuelano William Briceño, em seu livro “Gaitán, depois de meio século”, transcreve seu registro de nascimento, no qual o pároco da Catedral de Bogotá dá fé de ter batizado em 12 de Março de 1898 “o menino Jorge Eliécer, nascido em 23 de janeiro último…”

O triunfo de Gaitán se deve à sua mãe, que era professora. Sobre seu pai, sabe-se que vendia livros e pertencia ao Partido Liberal. Fundou os jornais El Pregonero e El Demócrata. “Meu pai ficou muito em dúvida sobre ser advogado ou escultor, quando foi para a Europa. Formou-se em direito e obteve o mais importante prêmio já conseguido por um estrangeiro na Itália. Graduou-se com honras”, afirma Gloria, filha única de Gaitán. Sua infância transcorreu em profunda pobreza. Aos 15 anos, depois de estudos sobre contabilidade, realizados por sugestão de seu pai, entrou no Colégio Simón Araújo. Ali, iniciou suas primeiras teses, influenciado pela filosofia francesa de princípios do século. Interessou-se, além disso, pela pintura e leu os clássicos da literatura.

A luta política

Briceño ratifica que, no curso de sua vida, torna-se clara a influência de sua progenitora. “Dela, herdou o caráter, a disciplina, o amor pelo estudo; por ela tornou-se advogado”. Espírito inquieto, fazia caminhadas e trotes pelas montanhas, a fim de fortalecer o tórax para a oratória. Em 1920, entrou na Universidade Nacional. Com a tese “As idéias Socialistas na Colômbia”, conseguiu o título de Doutor em Direito e Ciências Políticas, em 26 de Outubro de 1924.

A ascensão política de Gaitán lhe permitiu lançar sua candidatura à Assembléia de Cundinamarca. Foi eleito deputado para o biênio 1924-1925. Em 1926, ingressou na Real Universidade de Roma e obteve o título de Doutor em Jurisprudência, da Escola de Especialização Jurídico-criminal. Com sua tese, ganhou o Prêmio Enrico Ferri. Com o reconhecimento, vinha uma soma em liras. Não a aceitou e solicitou que se criasse o prêmio República da Colômbia.

O tribuno do povo

A partir de 1929 – afirma William Briceño – Gaitán responsabiliza o Governo pela miséria do país. Começam a chamá-lo de O tribuno do povo. Fundou a União Nacional Esquerdista Revolucionária (UNIR). Para o historiador e ex-presidente venezuelano, Ramón J. Velásquez, “Gaitán com o unirismo pretendeu romper o binômio secular liberais-conservadores. Procurou agitar, dentro de um estilo classista, os camponeses e operários”.

Logo, encabeçou a lista eleitoral do Partido Liberal, por Cundinamarca. Em 8 de Junho de 1936, ganhou a prefeitura de Bogotá. Criou o café-da-manhã escolar para as crianças pobres e construiu os primeiros bairros operários da cidade. Ficou apenas sete meses nesse cargo, do qual saiu por pressões políticas. “Gaitán foi o político de sua geração, que viajava pelo país distribuindo sabão e creme dental. Fornecia uniformes aos taxistas. Quis eliminar o uso de alpargatas e da Ruanda (um tipo de poncho), considerando esta última uma vestimenta imunda que ocultava uma sujeira ainda maior”, diz o politólogo, Herbert Braun.

Manuela e Glória

Aos 39 anos, em 23 de Fevereiro de 1937, recebeu um duro golpe: o falecimento de Manuela, sua mãe.

Já tinha passado mais de um ano casado com Amparo Jaramillo, quando a vida o premiou com a chegada ao mundo de sua única filha, Gloria, em 27 de Setembro de 1937.

“Com Amparo, apareceram pequenos desentendimentos. Ela desejava um filho e, antes que nascesse a menina, comprou roupa, móveis e pintura para as paredes – de cor azul. E, em uma viagem que a senhora fez a Medellín, ele mandou pintar tudo de cor-de-rosa”, conta Briceño.

Gloria disse: “Ele comprou um carrinho-de-bebê e, antes que eu nascesse, andava com ele pelo corredor. Depois que eu nasci, atribuiu-se a tarefa de fazer de mim a mulher mais importante do país. Levantava-se todos os dias às 6:30, com chuva, trovoada, ou o que quer que fosse. Enquanto fazia a barba, banhava-me. Penteava-me e me vestia.

Depois, saíamos para o Parque Nacional e me ensinava a respirar. Ao terminar, tinha de tomar um copo de leite. Tomava Fitina e comia fígado. Tinha uma máquina para fazer exercícios de vibração no cérebro”.

Junto com Gloria, visitava, aos domingos, a tumba de dona Manuela. “Sempre levava açucenas para ela”.

Do pesadelo à realidade

Chegou a ser ministro da Educação do governo de Eduardo Santos. Estabeleceu o programa do sapato escolar e organizou o salão anual de artistas colombianos.

Visitou a Venezuela, em 18 de Outubro de 1946. Em seu discurso, disse: “Eu, capitão das multidões da Colômbia, venho dizer nesta tribuna a toda a Venezuela que, de agora em diante, apenas haverá uma voz que mande sobre esta terra sagrada: a voz do povo, pelo povo e para o povo!”

John C. Wiley, embaixador dos Estados Unidos em Bogotá, conheceu Gaitán. Em um informe datado de 16 de Maio de 1946, disse sobre ele: “Vemos seus triunfos políticos com considerável apreensão. Quem o conhece, sabe que ele não se afina com os Estados Unidos”.

O discurso de 7 de Fevereiro de 1948 tornou-se imortal, sob o nome de Oração pela Paz. Dizia: “Senhor presidente, Ospina Pérez (…) pedimos-lhe que exerça seu mandato, o mesmo que o povo lhe deu para devolver ao país a tranqüilidade (…). Queremos a defesa da vida humana. Não pense que nossa serenidade é covardia. Somos capazes de sacrificar nossas vidas para salvar a paz e a liberdade da Colômbia”.

Dois meses depois, mataram-no. Na Colômbia, realizava-se, naqueles dias, a IX Conferência Panamericana.

Em 9 de Abril de 1948, disse Gloria, ele saiu de seu escritório, pouco antes da uma da tarde, “depois de uma chamada que minha mãe lhe fizera, dizendo que havia sonhado, na madrugada desse dia, que papai tinha sido assassinado, seguramente impressionada pelos gritos de uma menina, de nome Maria C. Samper, que tinha me provocado com estas palavras:” Tomara que assassinem teu pai”.

Mamãe lhe contou o sonho e disse: “Deixa a Constituição e toma o poder. Pacificamente, não vão te deixar chegar”. Ao sair do escritório, Juan Roa Sierra, conservador, disparou contra ele.

Os locutores de rádio deram a notícia: O governo assassinou Gaitán (…), o povo se levanta, grandioso e de maneira incontrolável, para vingar seu chefe. Povo em ação, às armas…”

O homicida foi linchado e seu corpo arrastado por várias ruas. A violência exacerbada colocou Bogotá sob fogo, saques, vingança e loucura… O bonde e a sede do jornal El Siglo foram queimados. O Bogotaço pôs fim a milhares de vida.

Tudo era confusão. A viúva conseguiu, com a cumplicidade de um médico, tirar o cadáver da clínica, burlando o cerco militar. Amparo se fechou em sua casa com o corpo embalsamado. Não houve enterro no cemitério. A última morada foi seu lar.

Gloria Gaitán, baseada em investigações, afirmou que no crime houve a intervenção da CIA.

O Bogotaço marcou a Colômbia. As pessoas responderam com violência à sua morte, porque, segundo opinião de Jorge Orduz, estavam identificadas com Gaitán. “Ele falou a linguagem do povo e essa foi sua caixa de ressonância”.

Citações

“Nós não afirmamos que o homem deve ser escravo da economia, dizemos que a economia deve estar a serviço do homem; porque aqui (na Venezuela) e no Peru, e em todas as nossas nações, acontece o que afirmo que ocorre na Colômbia: O povo é superior a seus dirigentes”. (Gaitán, Caracas, 18-10-1946).

“Nós, colombianos, não devemos ser manipulados, desrespeitados; nossa dignidade está acima dos partidos; onde não existe dignidade de homens, tudo o mais está perdido”.

“Nenhuma mão do povo se levantará contra mim; a oligarquia não me mata porque sabe que o país se abala e as águas demorarão 50 anos para voltarem a seu nível normal”.

“O homem vale por sua tenacidade; pela maneira categórica e pelo amor com que defende suas idéias (…). Eu diria que mais vale uma bandeira solitária sobre um pico limpo do que 100 bandeiras estendidas sobre o lodo”.

“Eu não creio no destino messiânico ou providencial dos homens”.

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