Uma surpresa: a eleição de um negro nos EUA

Ocorre uma surpresa no mundo, algo não esperado há pouco: um negro é eleito presidente dos Estados Unidos. Que significa isso? Trata-se de um estágio de tomada de consciência política de um povo já numa perspectiva de transformação da sociedade estadunidense, da sua estrutura sócio-econômica? Claro, não se trata disso. Persiste na gente dos EUA a ilusão de que sua felicidade pode ser realizada dentro do próprio sistema capitalista. Nenhum setor que apoiou Obama defendeu a idéia de que dentro de tal sistema é impossível o fim da crescente concentração das riquezas nas mãos de uns poucos, causando, em conseqüência, o aumento constante do número de pobres, de pessoas sem assistência médica, sem moradia, sem direito a um ensino de qualidade, além de serem as principais vítimas de uma situação de violência assustadora decorrente deste mesmo quadro de desigualdade que se aprofunda.

Então, a opção por Obama ou por um seguidor de Bush significaria a mesma coisa, já que o líder do Partido Democrata também nada fará contra os grupos econômicos do país, não lhes apresentando qualquer ameaça? Bom, em termos de projeto sistêmico, de mudança de fundo, evidentemente não há diferenças. A meta é a salvação do imperialismo ianque, inclusive, no sentido de mantê-lo como o “civilizador” do mundo, realizando sem parar um trabalho ideológico visando a convencer os povos de que os EUA são o farol do mundo, capazes de levar liberdade a todo o Planeta. Contudo, não se pode deixar de ver que a eleição de Obama, de fato, reflete uma insatisfação crescente do povo estadunidense para com todas as desgraças que o governo Bush lhe vem impondo sobre todos os aspectos: econômicos e sociais, porque ao realizar gastos com guerras que já passam de um trilhão de dólares, retira recursos que seriam gastos com saúde, educação, moradia e investimentos em áreas da produção; morais e de dor, porque vê seus filhos perderem a vida e tirarem a vida de centenas de milhares de inocentes, inclusive crianças, praticando genocídios, em guerras que tem como causa apenas interesses do poder econômico de seu país e, finalmente, certo descontentamento de um setor da sociedade, pequeno, que não aceita que os Estados Unidos mantenham sua política de vale-tudo, de agressão como princípio, contra povo, para imporem os interesses de suas corporações, inclusive passando por cima de legislações e instituições internacionais, como a ONU, agindo como xerife do mundo.

Em geral a insatisfação da gente estadunidense se resume a estes fatos. E o “NECESSITAMOS DE MUDANÇA” de Obama apenas tenta dar uma resposta a isso.

Mas tal consigna já seria alguma coisa? Ora, no contexto da realidade americana, no estágio em que se encontra a luta de classes nesse país, opor-se à guerra do Iraque; defender uma política de conversa até mesmo com Chávez e Raúl Castro; recorrer ao multilateralismo regido pela ONU para a busca de certas situações internacionais; talvez, ao menos, reduzir apoio a um governo de banditismo como o de Uribes, na Colômbia; tentar fazer chegar a todo cidadão dos EUA o direito à assistência médica; não cobrar impostos da quase totalidade da população, cobrando mais de médias e grandes fortunas; apontar para a redução de gastos militares e, provavelmente, pôr fim a certas bases militares; tudo isso não deixa de ser um avanço, ainda que modesto.

Vejo também como muito importante, ainda que um tanto simbolicamente, a eleição de um descendente da África negra, uma forte pancada na cabeça de um dos maiores monstros ideológicos já criados pela sociedade de classes: o racismo, irracionalidade que sempre afasta o ser humano do ser humano, mais nocivo ainda, ao separar o explorado do explorado, obstruindo a consciência de mudança e de construção de uma sociedade fundamentada na igualdade e solidariedade. È sempre significativa a retirada de qualquer entulho ideológico para que as pessoas comecem a compreender as causas reais dos seus problemas.

Alberto Souza, Brasil

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