Assalto a um Santuário

Século XVI. Chegavam os espanhóis ao mundo inca. Logo, procuravam apoderar-se da região. Buscavam ouro e prata. Queriam enriquecer-se ou ficar mais ricos. Mas, isso não se faz apenas com armas. Além da morte física imposta aos indígenas que resistiam à ofensiva dos invasores, era usada também a ideologia como instrumento de dominação, praticando-se o genocídio cultural. Os espanhóis impunham, sem trégua, a religião cristã, a fé e os cânones de seu papa protetor e aliado, e passaram a declarar como demoníacos os deuses e mitos da sociedade indígena, como Inti, Tumi, Puma, Pacha Mama e outros, destruindo, assim, seus símbolos, seus templos e santuários, entendendo que, com isso, seu domínio sobre o mundo andino seria irreversível. Todas as huacas, todos os locais de rituais dos nativos, que já viviam em grande parte de um continente que passou a ser chamado América, efetivamente, foram excomungados por tais “civilizadores”, descobridores do que já tinha sido descoberto há milhares de anos por tribos que se adentraram nesta região através do Estreito de Bering.

O genocídio ideológico obedecia a uma lógica: desprovido de seus mitos, de suas crenças, de seus cultos, o habitante andino perderia sua capacidade de resistência ao dominador; acabaria por aceitar o que Deus teria determinado como dádiva a uma “gente superior”, cheia de razão divina; acabaria por se converter ao cristianismo, saindo de seu “diabolismo”, salvo por uma “divindade superior” às suas; acabaria por ser obediente a uma “civilização superior” à sua. E a consequência dessa guerra pela morte de almas não poderia ser outra: de um lado, o índio ou grupo de índios que se cristianizava e tendia a aceitar pacificamente a imposição dos enviados da Coroa da Espanha, dos espanhóis que, de uma forma ou de outra, o exploravam até à exaustão; de outro, o índio ou grupo de índios que resistia culturalmente, não abrindo mão de seus deuses, seus ritos, em geral, e lutava contra os que o escravizavam.

Passaram-se os anos e com eles o aumento da tristeza de incas e de todas as nações que integravam o espaço em que uma magistral arquitetura e o trabalho de milhões de seres humanos tornaram realidade templos e santuários que despertariam posteriormente o interesse de muita gente – principalmente de pesquisadores – em conhecer a capacidade criadora de uma civilização que o invasor europeu sequer considerava como parte da humanidade. Uma gente triste, porque se via, não somente sob a ameaça da morte corporal, mas também da morte espiritual. Era a tristeza de quem sentia na própria pele a lógica de quem domina e explora, que parte do princípio de que ver no dominado e explorado um igual, de sangue e almas idênticos aos seus, é um atentado ao próprio sentido da subordinação.

Vão-se os tempos. O colonizador é derrotado. Surge uma oligarquia nativa, crioula. Como seus ancestrais – do indígena, dos descendentes de Manco Cápac, Manco Inka, Atahualpa, dos collas, dos aimarás e outros – só lhe interessa o sangue, sangue vertido em moeda, em capital. Com o passar dos tempos, os novos exploradores mudariam de idéia em relação aos explorados? Reconheceriam que o povo, que heroicamente lutou pela independência de seu país, deseja ser livre, vivendo num mundo mais justo e humano? Não, muito pelo contrário, continuaram mantendo sua coerência de classe de sempre, discriminando o explorado, negro ou indígena, camponês ou operário, mulher e criança, vilipendiando-os física e culturalmente, considerando-se os novos “superiores”, achando-se herdeiros dos “civilizadores”. E o sangue que era derramado ontem contra o dominador espanhol, hoje é derramado em lutas contra seus herdeiros.

Os tempos mudam. Cresce o interesse pelo conhecimento do “maldito” de ontem. Agora, com a ajuda da ciência, com bons propósitos ou não, muitos pesquisadores avançam com seus estudos arqueológicos em várias partes do mundo. No caso do nosso continente, mormente do mundo andino, há tempo, não se cansam de sair à busca de criações de santuários e templos, antes “demonizados” pela chamada “civilização cristã’, regida pelo capitalismo mercantil da Europa espanhola. E as maravilhas da considerada “gente inferior” vem à tona. E agora, o que fazer com esses verdadeiros tesouros, produtos das possibilidades humanas de uma civilização (e civilizações) vista pelos enriquecidos de ontem apenas como imitação de humanos, sem alma de gente? Ora, existe nos Dez Mandamentos uma recomendação de Moisés considerada santa, a mais cristã das recomendações: “Não roubarás!”

Assim sendo, apoderar-se dos colossos da era inca, do produto da criação e trabalho de comunidades indígenas não seria um desrespeito ao “não roubarás!”?

Não tenhamos dúvidas: apropriar-se do que foi produzido por outrem é roubo. Contudo, uma saída para evitar esse grande pecado foi apresentada: O que perdura da criação inca e de outros indígenas fica com o Estado. Persistiu um problema, todavia: sequer se pediu uma simples opinião aos autores de tais maravilhas, como se eles não existissem, não fossem gente, cujos milhões de antepassados construíram Ollantaytambo, Tihuanaco, Macchu Picchu e outras coisas extraordinárias, que têm merecido a admiração de pessoas de todo o Planeta. E o princípio da herança, que juristas, sacerdotes da propriedade privada capitalista, têm defendido com unhas e dentes nos dias de hoje? Não deveriam, portanto, as nacionalidades indígenas andinas herdar as obras de seus ancestrais, dando destino ao que historicamente lhes pertence? Entretanto, as coisas, na verdade, não ficaram dessa maneira, é claro. Pioram com o passar do tempo: se, nas primeiras décadas das descobertas arqueológicas, a própria visita de qualquer pessoa a tais templos ou santuários ocorria sem qualquer gasto, ao longo dos anos tudo mudou. O empresário explorador de turismo entrou em cena; não mais como os mercantis espanhóis, que misturavam Cristo com metais (ouro e prata), excomungando os deuses das comunidades originais. Sua conduta é outra, de acordo com o momento: enche o mundo de papéis para dizer que o seu deus, o capital, vê com bons olhos as maravilhas incas; claro, sempre ocultando os crimes que seus antepassados do dinheiro cometeram contra criadores e criações, em nome de uma superioridade eleita por Deus. É que a preocupação do capitalista, consciente ou não, é dar um caráter fantasioso, livre de conteúdo sócio-histórico, ao que as comunidades que persistem etnicamente construíram no passado; numa tentativa de evitar que as nacionalidades indígenas lutem pela apropriação do que deveria ser seu, exigindo, no mínimo, que todo o dinheiro arrecadado através de visitas às suas maravilhas fique sob seu controle, para melhorar sua vida.

Sem o domínio do que produziu ontem e do que produz hoje, o indígena vê crescer sua pobreza. Vem lutando, à sua maneira; reage, enfrentando forças impiedosas; defende a todo custo sua cultura, mas não consegue evitar o enriquecimento, cada vez maior, dos donos do capital, que vira neoliberalismo, política de impérios. Junto a outros setores explorados, enfrenta governos que, a serviço de oligarquias, tratam o mercado como algo sacrossanto, com o apoio da mídia capitalista, que o considera como lógica única. Enfrenta uma exacerbada política de privatização e expropriação sem limites, em nome do deus Mercado, da qual não escapariam as suas seculares criações. E o que parecia livre dessa sanha universal cai sob seu domínio. É isso que explica de que forma coisas como Saúde, Educação e, inclusive, obras culturais viram alvo do grande capital, sob o argumento de que ser moderno e optar pelo progresso é acatar os cânones do FMI e do Banco Mundial. Onde há um governo neoliberal, esta lógica se impõe, sob disfarce ou não.

Eu sabia que o Peru é governado por um presidente obediente ao neoliberalismo e às determinações de Washington, mas não imaginava a que nível tinham chegado suas ações de lesa-povo, de lesa-pátria. Pensava que, ao menos, uma maravilha como Macchu Picchu não seria tornada fonte de maior enriquecimento de algum capitalista. Pensando assim, em janeiro, decidi ir a Cuzco a fim de visitar lugares sagrados incas, principalmente Macchu Picchu. Estando eu na capital de todo o mundo inca, peço informações sobre o horário do trem que leva turistas a Macchu Picchu. Logo, a recepcionista do hotel em que me hospedei me deixou pasmado. Disse que a ida a Macchu Picchu estava custando 180 dólares, claro, incluindo um pequeno trecho feito através de ônibus e a entrada ao santuário. Indignei-me frente a esse dado. Lembrei-me de que, em 1984, paguei cerca de 5 dólares para fazer essa mesma visita, e, por conseguinte, o aumento ocorrido daquele momento até hoje está em torno de 40 mil por cento.

Inconformado com essa realidade, mas disposto a rever uma das novas sete maravilhas do mundo, perguntei a moradores de Cuzco o que teria acontecido de estranho para que a visita a Macchu Picchu se tornasse, talvez, a mais cara do mundo, em comparação com outros pontos turísticos, santuários ou não, que também atraem enorme quantidade de visitantes. As pessoas, umas mais, outras menos, davam diferentes respostas: “Os preços de tudo sobem…”, “É o governo…” A explicação mais convincente veio no dia seguinte: o centro de Cuzco era ocupado por uma grande passeata de professores e alunos universitários, trazendo faixas e cartazes claros e esclarecedores: “Abaixo a privatização da cultura!”, “Salvemos nossa cultura!”, “Abaixo Alan Garcia!” (presidente), “Abaixo o neoliberalismo!”. Dirijo-me a um dos líderes do movimento, que me dá detalhes. O governo neoliberal de Alan Garcia estava privatizando a cultura peruana; que Macchu Picchu é explorada desde o governo de Fujimori por uma empresa privada que ganha rios de dinheiro com a exploração desse patrimônio, orgulho do povo peruano; que, dessa forma, Garcia mantém o crime de lesa-pátria realizado anteriormente, aumentando mais ainda as regalias da referida empresa. Disse que a luta do povo poderá evitar a continuidade da privatização do patrimônio cultural do país, feita direta ou indiretamente.

Fiz-lhe uma pergunta: se um peruano quiser visitar Macchu Picchu, também tem de pagar? “Claro!”, disse ele, “Em dólar!”. Outras perguntas: Na sua opinião, a quem deveria pertencer Macchu Picchu? Deveria ou não pertencer a seus criadores, às comunidades indígenas? Para quem deveria ir o dinheiro arrecadado com a exploração turística de Macchu Picchu? Se não vai para seus verdadeiros criadores, não estariam eles sendo roubados?

Percebi que minhas perguntas de indignado de fato eram feitas a pessoa de grande sentimento patriótico, orgulhosa de seu país, de seu povo, de sua história. Não só apoiava minha indignação, mas também passou a me dar autêntica aula sobre as lutas históricas de sua gente, antes e depois do domínio espanhol. Por fim, embora não conhecesse com maior profundidade a realidade peruana, propus a ele uma palavra-de-ordem: MACCHU PICCHU PARA OS SEUS CRIADORES!

Alberto Souza

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