Revolução x Contra-revolução

Quero saudar este valente e heróico povo bolivariano, povo venezuelano e, em particular, o nosso querido irmão, presidente Hugo Chávez, que nos dá a oportunidade de abordar estes temas que não podem ser exclusivamente abordados pelos países capitalistas ou pelos desenvolvidos. Não deve ser uma exclusividade dos países desenvolvidos o debate destes temas. É, também, um direito dos países em vias de desenvolvimento.

Estamos debatendo estes temas quando também realizamos batalhas eleitorais em nossos países, nesta região, neste Continente; batalhas eleitorais na Bolívia, no Equador, na Venezuela, na Nicarágua.  São batalhas eleitorais em que o que está em jogo não é simplesmente o Governo, para ver quem administra o sistema, quem administra o modelo, mas sim a mudança, a transformação. São batalhas entre a Revolução e a Contra-revolução.

Não são umas simples eleições que se efetuam em nossos países, são eleições onde – se bem que estamos utilizando o mecanismo criado pelo capitalismo a fim de manter eternamente seu domínio – utilizamos esse instrumento para implementar a luta por via pacífica, não por via das armas.

E quando, em um processo eleitoral com estas características, ganha a Contra-Revolução, então, ganharam os democratas, logo, a eleição é livre, é honesta, é pura; quando, em uma eleição como esta, já se prevê que pode ganhar a Revolução, então aparece a fraude e os que ganham não são democratas; é uma ditadura.

O mesmo esquema… se são eles os que se alternam no Governo, nesse jogo que o presidente Zelaya y Patrícia chamava de “jogo de cassino”, então, a democracia está funcionando, a democracia está estabelecida, porém, quando o jogo de cassino é colocado em risco, e é a revolução que prevalece com a força popular, ocorrem logo as campanhas sistemáticas contra esses processos.

Na Nicarágua não é casual que, chegando nós ao Governo, no passado, imediatamente começou a campanha… “a ditadura, instala-se a ditadura na Nicarágua”. Uma campanha sistemática, incentivada pelo imperialismo americano e pelo imperialismo europeu. São os mesmos! Europa e Estados Unidos. Mesmos interesses. Interesses capitalistas, defendidos pela tirania do capitalismo, pela ditadura do capitalismo em todo o mundo.

Uma campanha sistemática daqueles que Sandino chamava de bonecos dos ianques… Os ianques sempre andam à busca de fantoches na América Latina, a seu serviço. E esses lambe-botas do Império, o que fizeram para atender às determinações estadunidenses? “Todos contra Ortega”, na campanha municipal. Imaginem. E eu não era candidato a prefeito em nenhum município!

Eleições em 146 municípios, e a campanha “Todos Contra Ortega…” “Todos contra a Ditadura”. Viam que, graças à ALBA, desenvolvemos programas importantes para a nossa gente. Um processo de orientação claramente cristã. E o que diz Cristo? “Ama o próximo como a ti mesmo”, socialista, portanto. O Cristianismo é um princípio socialista: busca a Justiça, a Igualdade, a Solidariedade, a Complementaridade – que é o que se pratica dentro da ALBA; a quantidade de programas que temos implementado em nosso país nestas novas condições.

Nossos adversários viam claramente que sua derrota seria inevitável, por isso, começaram com a campanha: “Todos contra a Ditadura”, “Todos contra Ortega” e “vem a fraude”. E, por sua parte, a OEA, que continua como um instrumento do imperialismo ianque, através de seu Secretário-Geral, saiu, uma vez mais, fazendo o jogo do império norte-americano, buscando, inclusive, intervir em nosso processo eleitoral.

O departamento de Estado, da mesma maneira, também tentava alguma ingerência a mais em nosso país, no processo eleitoral, pretendendo agir como observadores… E os ianques ainda chamam Zelaya de ingerencista!

A verdade é que estamos realizando esta luta e quero me congratular com este triunfo, estas vitórias na Venezuela, na Bolívia, no Equador; e na Nicarágua, pois temos a resposta. Qual foi a resposta ianque?  Bom, impor sanções: “que se tire da Nicarágua parte da Conta Desafio do Milênio”, já afirmaram, anunciaram. E os europeus também ameaçam, retirando alguns deles o que chamam de “ajuda ou colaboração” à Nicarágua, que não é nenhuma ajuda, na realidade.

Eu disse em outras ocasiões: os europeus e os ianques têm uma dívida histórica com os povos da América Latina e Caribe, têm uma dívida histórica com os povos africanos, e o que estão fazendo com isso que eles chamam de ajuda e cooperação é o pagamento de apenas uma pequena parte dessa dívida, que é realmente incalculável, porque não se pode avaliar a quantidade de seres humanos que foram assassinados pelos colonialistas europeus na África e na América Latina.

Aí está a luta eleitoral na Nicarágua com atitudes de ingerência, mas também aí está o povo fazendo a batalha, Revolução – Contra-revolução; é esse o novo cenário que se abriu na América Latina. Já não é apenas Cuba que realiza essa luta; já não é apenas a Nicarágua, no período de 1979 a 1990, que implementa essa batalha, depois, resistindo de 90 a 2007. Agora, existe mais gente nesta contenda na América Latina e no Caribe.

Falando do tema que nos convoca, que não está, logicamente, desvinculado do que mencionamos, em 1936, no segundo discurso inaugural, ou seja, faz 72 anos. Em 1936, Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, durante aquela depressão, disse o seguinte: “Sempre soubemos que, colocar os interesses próprios acima de todos sem considerar os perigos, era imoral, agora sabemos que é má economia”.

Setenta-e-dois anos depois, a história se repete… Roosevelt, Franklin Delano Roosevelt, em 1936, em plena crise, disse: sempre soubemos que colocar os interesses próprios acima dos de todos, sem considerar os perigos, era imoral, agora sabemos que é má economia.

Boas intenções de Franklin Delano não conseguiram comover as bases do Império. Por que?  Porque o Império esta aí e ele, no final das contas, era um instrumento do Império.

Que ocorrerá agora com o presidente Obama?  A mesma coisa, claro. Ele não está defendendo mudança do modelo dos Estados Unidos. E não pode agir assim! Simplesmente, não pode fazer isso. Dá sinais que se tornam chamativos, é verdade, devido à ferocidade, radicalismo e fundamentalismo da atual administração norte-americana.

Contudo, não nos devemos iludir com o fato de que a chegada de Obama à Presidência possa trazer mudanças. Pela simples razão de que, se Obama se metesse a fazer essas mudanças, seria assassinado. Não seria o primeiro presidente dos Estados Unidos a ser assassinado. Assassinaram Lincoln, Kennedy e também grandes líderes lutadores pelos direitos civis, como Martin Luther King… Temos de convidar Obama para a ALBA, convidemo-lo para a ALBA, como diz o presidente Chávez… Matam-no se ele aceitar entrar na ALBA, essa é a verdade!  Obama é um prisioneiro do Império, nada pode fazer contra seus interesses.

Não devemos esperar que do capitalismo venham as respostas para nossos povos. Jamais virão respostas do capitalismo para os nossos povos. Não devemos esperar isso! Quando ocorre a Segunda Guerra e se estabelecem as novas normas e os organismos internacionais financeiros e tudo mais, isso não é outra coisa a não ser o instrumento que o capitalismo estabelece para dar continuidade ao seu domínio e enfrentar a União soviética e o campo socialista como um todo.

Eram instrumentos projetados claramente com essa meta; não eram instrumentos arquitetados para salvar ou contribuir com o desenvolvimento dos povos latino-americanos, dos povos caribenhos, dos povos africanos, dos países em vias de desenvolvimento. Eram instrumentos apenas para desenvolver a hegemonia do capitalismo no mundo, a hegemonia do imperialismo, do capitalismo em seu conjunto, no mundo. Para isso são esses instrumentos. Não devemos ter ilusão de que, em reuniões de 20, de 40, vão ser realizadas mudanças.

O que vão fazer aí é buscar recompor seu modelo de dominação; não estão pensando, apesar de o presidente norte-americano ter afirmado claramente, há 72 anos, “pôr os interesses próprios acima dos de todos”. Porque isso é o capitalismo, põe seus interesses acima de todos. O império, o capitalismo global, põe seus interesses acima da Humanidade. Essa é a realidade!

Sem considerar os perigos… Era imoral, diz, admite-o! Era imoral e continua sendo imoral durante 72 anos; continuou imoral e continua imoral cada vez que se reúnem. Por que?  Porque desejam simplesmente salvar o modelo, e dizem que não há recursos para financiar o desenvolvimento… Ah! Porém, existem recursos para a guerra, para isso há recursos, para a guerra no Iraque, para a guerra no Afeganistão, onde estão envolvidos europeus e norte-americanos. Não há recursos para o desenvolvimento, mas existem recursos para salvar os bancos. Para isso há recursos!

Assim sendo, tenho convicção de que temos de implementar lutas no campo mundial, temos de levá-las adiante nas Nações Unidas, temos de agir nesta Organização, para que, realmente, os 192 países tenham não só deveres, mas também mesmos direitos. Entretanto, enquanto isso, o que podemos fazer?  O que podemos fazer é nos fortalecer. Como? Unindo-nos e realizando ações a partir das bases que já estabelecemos na ALBA.

Na ALBA, estabelecemos bases que nos colocam em uma posição realmente vantajosa frente a esta crise. Não devemos esperar que eles nos salvem, não vão nos salvar! Estão preocupados com a salvação de seu modelo de exploração, de dominação.

Daí, porque esta reunião se torna imprescindível, diria eu, imprescindível para que consigamos, não apenas falar do tema, não apenas denunciar o que temos de denunciar, mas que consigamos também seguir agindo como temos agido no campo da ALBA. Seguir agindo, realizando ações, decisões, que nos permitam contar com fundos para o desenvolvimento, por exemplo.

Na ALBA, defendemos os fundos para o desenvolvimento, estão aí estabelecidos, e também programas que estão em função do desenvolvimento. Ou seja, o que seria de nossos países nestes momentos, sem a ALBA, frente a esta situação? A Nicarágua coloca, por exemplo, no mercado dos Estados Unidos 28% de seus produtos; colocamos 38% na América Central; ou seja, nosso primeiro mercado é a região centro-americana, o segundo é o norte-americano.

O que acontece agora com esta crise onde eles decidem debilitar nosso mercado em função de seus interesses? Temos de fortalecer este mercado, temos de ampliá-lo, dentro do que já é o modelo que estabelecemos, que, eu diria, é um modelo de orientação socialista. Por que?  Porque é um modelo que tem elementos que são fundamentais para a orientação socialista, como a Solidariedade, a Complementaridade, o Comércio Justo.

O que significa Comércio Justo? Que o produtor receba um preço justo pelo seu produto e que o consumidor receba este produto a um preço justo, no que toca aos produtos básicos. Não estamos falando de produtos de luxo, logicamente, mas sim de produtos básicos, os alimentos. Levar a saúde gratuita à população, isso é socialismo, isso é revolução; levar a educação gratuita, a ciência, a tecnologia aos povos. Isso é revolução!

Finalmente, quero dizer que, frente a estas sanções que alguns países europeus e os Estados Unidos já vêm realizando contra o povo da Nicarágua, na realidade, contra o povo nicaragüense, isso não nos assusta, não vai nos fazer retroceder; isso nos faz sentir, inclusive, mais livres.

Eu diria que nos sentimos… cada vez que nos tiram o que eles chamam de cooperação, que não é mais que um investimento que eles fazem, condicionando-a em nossos países… a verdade é que somos um pouco mais livres.

E quando temos instrumentos poderosos como este que se vem instalando, que se desenvolve, sentimos que esta luta não a estamos efetuando sozinhos, mas sim acompanhados dos povos latino-americanos e dos povos caribenhos.

Obrigado

Daniel Ortega

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