O Movimento Bolivariano-Marxista e as Esquerdas na América Latina

Bolívar tinha um sonho: uma América Latina unida. Uma única nação, justa, fraterna, solidária, em que todos os seres humanos vivessem felizes. Para ele, só em um mundo de igualdade é possível a felicidade.

Inspirava-se Bolívar nas idéias revolucionárias de sua época, principalmente nos postulados filosóficos de seu mestre, Simón Rodríguez. Sua primeira grande tentativa, para alcançar o seu grande objetivo de ver o nosso continente unificado, foi a realização do Congresso do Panamá, em 1826, tendo a presença de apenas alguns países recém-libertados do domínio espanhol. O Brasil também foi convidado para tal encontro, não participando dele.

O Libertador não teve o sucesso esperado. Contudo, em grande medida, aquele evento não deixou de ficar registrado na memória dos povos latino-americanos como um grande momento da história da América Latina.

Em 1930, morre Bolívar, mas retornaria em forma de milhões. Fidel Castro, há tempo, já vinha anunciando esse retorno, ao evocar, de forma constante, a figura do Libertador, dizendo ser dever de todo latino-americano lutar para tornar o sonho bolivariano uma realidade. Além dos enunciados de Fidel, lutadores, na Colômbia e em outras regiões, sempre se inspiraram nas idéias de Bolívar.

Em 1989, revoltada contra a política neoliberal de André Pérez, representante dos interesses do imperialismo e das oligarquias, a população de Caracas se rebela, vai às ruas em grandes manifestações. O governo reprime violentamente o movimento, cometendo verdadeiro massacre, causando o assassinato de mais de duas mil pessoas.

Esse bárbaro crime contra multidões indefesas acabaria por sensibilizar civis e militares, que logo agiriam contra o governo oligárquico. Em 1992, ocorre a ação cívico-militar, encabeçada por Hugo Chávez, inspirada nos postulados do Libertador, contra o governo de André Pérez. O movimento foi derrotado, Chávez e muitos de seus companheiros levados para a prisão.

As oligarquias venezuelanas festejaram sua vitória. Alegria que duraria pouco, pois o povo, cada vez mais, confiava no líder bolivariano, na sua seriedade de propósito. Chávez vai em frente, adota o caminho de debate com o povo, em todo o país, expondo sua propostas de mudança. Entende que, sem o protagonismo do povo no processo político venezuelano, nada de novo aconteceria. Tinha já como eixo dar início à construção do poder popular, embora de forma ainda muito incipiente. Compreendia que cabe ao próprio povo decidir sobre o seu destino político, inclusive que decisões como a aprovação de uma nova Constituição deveriam ser de exclusividade popular. E logo defende que o povo deve decidir se um governo deve ser mantido, ou não, até o fim de seu mandato, podendo ser destituído, através de referendo, na metade de sua gestão. Princípio adotado na Constituição de 1999, aprovada em referendo, logo após a primeira eleição de Chávez para a Presidência da República. Dispositivo constitucional posteriormente usado contra o próprio Hugo Chávez, em 2004, por iniciativa das forças oligárquicas, depois de estas terem realizado um golpe de estado em Abril de 2002, com o apoio do governo dos Estados Unidos. Ação fracassada, graças à reação do povo, exigindo nas ruas o retorno de Chávez ao Palácio Mira Flores.

Vitorioso em 2004, Chávez se manteve no governo com grande aprovação popular. Após mais essa derrota, as oligarquias inventam mais um tipo de conspiração golpista: o bloqueio petroleiro. Usam a PDVSA, estatal petrolífera, como principal instrumento para tentar derrotar o governo. Acham que, em sendo o petróleo a principal fonte de receita do país, recorrendo aos seus agentes em postos importantes desta empresa, suspendendo a produção petrolífera, o governo não teria como resistir. Não contando com a resistência do povo e uma certa solidariedade internacional, mais uma vez os golpistas são derrotados.

Passadas essas contendas, mais batalhas eleitorais ocorreriam na Venezuela, tornando-se este país campeão de eleições. Um desses momentos foi a realização de referendo, em 2007, para a votação de emendas à Constituição apresentadas por Chávez – sendo uma delas sobre a possibilidade de reeleição para a presidência da República – que, por pequena margem de voto, não foram aprovadas.

Enfim, o processo Venezuela, no momento, desperta atenção, não só do mundo latino-americano, mas também de povos de outros continentes, principalmente pelo crescente protagonismo popular presente nos momentos de grandes decisões políticas.

Tudo isso, num contexto em que Chávez aprofunda o debate sobre a sua proposta de Socialismo do Século XXI, dando passos, embora modestos, na direção de sua concretização, buscando alternativas de economia popular, de nacionalização de empresas estratégicas ou não, de criação de empresas sociais sob controle dos trabalhadores, de uma política de educação voltada para uma pedagogia de mudança, de realização de iniciativas sociais nas diversas áreas e, por último, de criação de um partido (o PSUV) como vanguarda do processo revolucionário do país.

Some-se a tudo isso a compreensão bolivariana de Chávez de que não só o sucesso da Venezuela como também de toda a América Latina, nas suas lutas antiimperialistas, rumo ao socialismo, depende da união dos povos latino-americanos. O líder venezuelano, de certa forma, não vê nada mais importante do que a unidade dos nossos povos. Para ele, essa é uma questão político-ideológica de fundo. Isso explica porque o líder venezuelano aparece como o principal – não o único, é evidente – alvo das preocupações das oligarquias e do imperialismo. Coerentemente, entendem as oligarquias que o seu ataque a Chávez não é uma simples ação contra uma pessoa, mas a um projeto, de cuja defesa o líder bolivariano é a mais destacada liderança. A classe dominante sabe o que quer!

E as forças de esquerda, como se posicionam frente a este embate?

Entretanto, se as forças de direita sabem o que querem, sabem identificar propostas ou lideranças políticas contrárias aos seus interesses, o mesmo não acontece com partes das forças de esquerda ou progressistas. É comum ouvirem-se críticas destes setores a Chávez e ao processo venezuelano, inclusive, com o uso de qualificativos, como populista, antidemocrático e outros de linha parecida. Com isso, ao invés do debate sobre propostas, como Socialismo do Século XXI, unidade latino-americana, a organização e reforço da ALBA, avanço do poder popular, sistematização da batalha das idéias – em grande equívoco –, de certa maneira, acabam fazendo coro contra avanços inegáveis das lutas, não só do povo venezuelano, mas também de outros povos do nosso continente, como ocorre na Bolívia, Equador e em outras regiões, em que se dão os primeiros passos para a derrota definitiva das oligarquias e do imperialismo, na marcha para a transformação da sociedade. Uns, por acharem que o socialismo se constrói magicamente, da noite para o dia; outros, porque vêem na democracia de mercado, na democracia capitalista – forma de ditadura dos grupos econômicos – algo mais avançado do que a democracia revolucionária, popular, ou socialista; alguns, porque acham que Bolívar não era marxista e, portanto, seu pensamento não deve ser fonte de inspiração para a luta pelo socialismo; outros, por ainda estarem presos a uma forma dogmática de enxergar o marxismo, vendo impossibilidade de encontro de Marx com as rebeldias latino-americanas de inspiração bolivariana. Colocam, na verdade, o marxismo em linha de choque com as particularidades históricas dos povos da América Latina, caindo num certo escolasticismo. Em resumo, na prática, ao invés de propostas de união de tanta gente explorada pelo imperialismo e pelas oligarquias ao longo de séculos, inconscientemente que seja, defendem tais agrupamentos a fragmentação política da população latino-americana.

Opinião do Comitê Bolivariano

Quanto à posição do Comitê Bolivariano sobre o processo político latino-americano, defendemos a realização de debates e mais debates sobre o que vem acontecendo em nosso continente, o pensamento social e político da América Latina, o Socialismo do Século XXI e, de forma específica, o encontro do bolivarianismo com o marxismo. Fato que já levou Chávez a entender que o sonho e a ética de mudança de Simón Bolívar – ansioso pela construção de um mundo justo, com o máximo de felicidade possível – e a concepção científico-filosófica de Marx não se repelem, pelo contrário, justapõem-se, e que as peculiaridades históricas do continente latino-americano, na medida em que são compreendidas, tiram o marxismo do controle de dogmáticos, que o afastam dos processos reais de lutas dos povos.

Estamos na América Latina. Temos peculiaridades, enquanto povos em luta, com as nossas diversidades, como as experiências de luta das comunidades indígenas, com nossas características culturais e históricas. E, se isso não for compreendido por quem deseja uma nova América Latina, sem dominação de impérios e de oligarquias, marchando para o socialismo, não vingará o sonho de Bolívar, de Mariátegui, de Guevara, de José Martí, de Julio Mella e de tantos outros que colocaram sua vida a serviço da luta por uma comunidade latino-americana de relações fraternas, de solidariedade e de igualdade.

Comitê Bolivariano de São Paulo

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