Democracia e Golpismo na América Latina

Em todos os países da América Latina, quando a massa de oprimidos e explorados começou a participar do processo político, não só por conquistas econômicas, mas também políticas, a burguesia, vendo nisso ameaça a seus interesses, por entender que o povo já dava os primeiros sinais de que não se contentaria com apenas o ato de votar em candidatos a serviço do poder econômico, buscando o aprofundamento do processo democrático, resolveu apelar para golpes militares. Via que a democracia tendia a se afastar dos limites que lhe interessavam, tornando-se popular, abrindo caminho para que o proletariado passasse a assumir o seu próprio destino político, econômico e social.

Jogou-se a democracia na lata do lixo. No seu lugar, sangrentas ditaduras, com tortura e morte de milhares de pessoas. Obra das alianças das oligarquias locais com o imperialismo, principalmente o ianque.

Contudo, como não faltasse resistência democrática aos golpistas, essas ditaduras começaram a cair, cada vez mais, em desgaste. Sua queda seria uma questão de tempo. Então, o imperialismo e seu séquito, diante do inevitável, apelaram para uma saída que lhes permitisse o mínimo de dano político. O caminho encontrado foi tirar de percurso lideranças progressistas ou revolucionárias, assassinando-as, atingindo, em consequência, suas organizações partidárias, forças que chegariam destruídas ou muito debilitadas ao momento da abertura democrática. O que, de fato, aconteceu. Assim, a burguesia, que tinha o controle da sociedade, inviabilizando eleições para cargos públicos durante o período ditatorial, conseguiu manter-se no governo depois dele, garantindo todos os seus privilégios de classe, chegando ao ponto de, contando com a queda da URSS, implementar uma política econômica de vale-tudo em toda a América Latina e no resto do mundo: o neoliberalismo.

Estabelecida a sua democracia, com os limites que lhe são peculiares, a burguesia buscou universalizá-la, colocando-a como um princípio sagrado para todos os seres humanos; e, ideologicamente, procurou confundir liberdades individuais com liberdades individualistas, princípio imprescindível para o pleno sucesso do deus mercado. Exacerbou-se a lógica de que para vencer é necessário derrotar o outro. Um salve-se-quem-puder. E o resultado não poderia ser outro: nessa guerra de destruição do outro para o sucesso na vida, vencedores foram apenas uns poucos, armazenando o máximo de sangue de vítimas enganadas nos seus sanguinolentos bancos de lucros.

Aos olhos de um mistificador, tendente a ver eternidades, a tal nova ordem estava acabada e definitiva, apenas restando às pessoas a sua adaptação a ela. A democracia do grande capital teria vindo para ficar, algo pétreo. Não haveria, portanto, pós-neoliberalismo. Entretanto, quem mistifica sempre não tem razão. A humanidade não aceita destruir-se: tardiamente ou não, reage. A reação dos que precisam reagir, caminhar. Veio a eleição de Chávez, claro rechaço às políticas neoliberais na Venezuela, avançando do nacionalismo ao Socialismo do Século XXI. Vem a vitória de Evo Morales, na Bolívia, a de Correa e outras mais em Nossa América. Triunfos eleitorais, em grande medida, decorrentes do avanço de discussões e da organização das massas. Na Venezuela, o povo quer democracia plena, com poder de decidir seu destino, estar à frente da administração de seus interesses econômicos e políticos; quer um novo estado, não mais instrumento de quem sempre o dominou e explorou. Outros povos latino-americanos começam a caminhar nessa direção. O primeiro resultado significativo é a exigência de novas constituições, pondo fim a constituições oligárquicas, de conteúdo neocolonial.

Neste novo contexto, a burguesia se desespera. Diz que a democracia está ameaçada na América Latina e que o principal culpado é o diabo Chávez. Vem, ainda, tentando convencer de que a sua democracia, democracia sem povo, é a única válida, que esse negócio de povo assumir a dianteira do processo político é ditadura. E, como vem tendo dificuldade de persuadir milhões de pessoas para a sua tese, como conseguia antes, não é mais a sua democracia – ente proibido de crescer – que deseja universalizar; o que pretende universalizar agora é o golpismo, tentando reviver tristes momentos da história da gente latino-americana ao longo de décadas.  O golpe de estado de abril de 2002, para derrubar o governo de Chávez, foi o principal momento dessa escalada, que não parou aí, pois conspirações golpistas não param de acontecer na Venezuela. Recentemente, ocorreu o golpe de Honduras, com o apoio esperado do imperialismo norte-americano. Tentativas outras não faltam em outros países.

Conclusão: como o processo democrático é contra os seus interesses, a burguesia se torna cada vez mais antidemocrática, tendendo a não mais aceitar sequer a sua democracia limitada, ao perceber que ela abre algum espaço para que a classe trabalhadora se organize e lute pela sua superação, por uma democracia sem limites, irrestrita, a que lhe interessa. Isso mostra que, do ponto de vista burguês, a consciência e organização políticas do proletariado são a negação da democracia; o operário consciente pensa exatamente o contrário. Por isso, a burguesia é campeã de golpismo, e a classe operária, campeã de lutas democráticas.

Não se quer dizer que o apelo que os grupos econômicos e sua mídia fazem, para que se aceite a sua concepção de democracia, deixe de ter eco, ou que rapidamente deixará de ter qualquer receptividade. Mesmo no meio de forças consideradas de esquerda, a democracia limitada ainda é acolhida, mormente entre os que primam pelo eleitoralismo, que confundem alternância de governo, de gerentes públicos de plantão, com alternância de poder, não vendo o sentido de classe das lutas políticas. Claro, o golpismo ainda tem fôlego. Honduras é expressão concreta desta realidade. Porém, deve ficar claro para as forças de mudança que não é se limitando na democracia restrita, sem protagonismo popular, que se consegue evitar que os golpistas voltem a impor tragédias aos nossos povos. Ou avançamos, ou retrocedemos.

Álvaro de Lima

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s


%d blogueiros gostam disto: