PARAMILITAR REVELA PLANOS MILITARES E POLÍTICOS PARA DERRUBAR CHÁVEZ

21/05/2012

O ex-chefe das Autodefesas Unidas da Colômbia (paramilitares), Salvatore Mancuso, afirmou, no dia 11 de maio passado, que militares e políticos venezuelanos buscaram ajuda dos paramilitares colombianos para organizarem na Venezuela grupos armados, a fim de derrubarem Hugo Chávez, através de um golpe de estado. “Em algum momento, alguns generais e políticos dessa nação irmã entraram em contato com as Autodefesas, diretamente com o comandante Carlos Castaño”. Porém, não tinham intenção de matá-lo (…). O que queriam era que ele também participasse do golpe contra Chávez”, ressaltou.

Durante entrevista em prisão dos Estados Unidos, para onde foi extraditado pela justiça colombiana em 2008, Mancuso disse ainda que apoiou e financiou a reeleição do ex-presidente Álvaro Uribe, em 2006, por meio de um comandante paramilitar apelidado de “Andrés”. “Eu apoiei a reeleição do presidente Uribe, tanto com recursos que entreguei em comunidades, como com dinheiro.”, disse Mancuso a um meio de comunicação colombiano, em presídio norte-americano, após sua extradição para os EUA. Ressaltou que a reeleição de Uribe forneceu dinheiro para que o comandante “Andrés” alugasse ônibus, fizesse propaganda, desse alimentação e transporte a pessoas que votassem no ex-presidente da Colômbia. Informou que Uribe se vinculou a uma campanha para desmoralizar a Corte Suprema de Justiça, para eliminá-la e criar outras instituições públicas que atuassem segundo seus interesses, “para isso, pediu nossa ajuda para obter provas que relacionassem magistrados de tal órgão com narcotraficantes”. Afirmou que, durante sua administração, Álvaro Uribe prometeu não extraditá-lo. Contudo, depois de não ter cumprido a promessa e enviá-lo aos Estados Unidos, buscou condená-lo, porque a verdade o incomoda, não quer que seja revelada. “Não deseja nossa verdade, por isso, pede aos Estados Unidos que sejamos condenados a penas superiores às que devemos ter na Colômbia”, destacou.

O ex-chefe paramilitar, que já reconheceu sua participação em pelo menos 300 assassinatos, ressaltou que, apesar de sua confissão, não pode entregar provas a uma autoridade judicial, “porquanto não existem garantias nem segurança jurídica” para seus familiares e pessoas que trabalham em sua defesa.

Ademais, disse que muitas empresas colombianas e multinacionais contribuíram para o crescimento e expansão das Autodefesas Unidas da Colômbia. Neste sentido, detalhou que empresas como a Chiquita Brands pagavam três centavos de dólar para cada caixa de bananas exportadas, enquanto que a Postobón, uma empresa de bebidas, pagava uma espécie de imposto para manter os paramilitares.

Autoridades da nação sul-americana disseram que Mancuso dirigiu os grupos paramilitares da região da selva e petroleira de Catatumbo, a noroeste da Colômbia, onde mais de 3 mil pessoas foram assassinadas, entre 1999 e 2004, segundo dados de uma organização não-governamental.

DISCURSO FRENTE AO TÚMULO DE MARX (1883)

28/03/2012

Discurso pronunciado em inglês por Friedrich Engels no cemitério de Highgate em Londres, a 17 de março de 1883:

Em 14 de março, às 14:45 horas, deixou de pensar o maior pensador dos nossos dias. Apenas o deixamos dois minutos sozinho e, quando voltamos, o encontramos dormindo em sua poltrona, para sempre.

É, de fato, impossível calcular o que o proletariado militante da Europa e América e a ciência histórica perderam com a morte deste homem. Muito cedo será sentido o vazio que a morte desta figura gigantesca criou.

Assim como Darwin descobriu a lei do desenvolvimento da natureza orgânica, Marx descobriu a lei do desenvolvimento da história humana: o fato muito simples, porém oculto sob um emaranhado ideológico, de que o homem necessita, antes de tudo, comer, beber, ter moradia e vestir-se, antes de poder fazer política, ciência, arte, religião etc.; que, portanto, a produção dos meios de vida imediatos, materiais e, por conseguinte, a correspondente fase econômica de desenvolvimento de um povo ou de uma época é a base, a partir da qual se desenvolveram as instituições políticas, as concepções jurídicas, as idéias artísticas e, inclusive, as idéias religiosas das pessoas, através da qual devem ser explicadas, e não ao contrário, como até então se vinha fazendo. Mas, não é apenas isto. Marx descobriu também a lei específica que move o atual modo de produção capitalista e a sociedade burguesa criada por ele. O descobrimento da mais-valia deixou claro tais problemas, enquanto todas as análises anteriores, tanto as dos economistas burgueses como as dos críticos socialistas, vagaram nas trevas.

Dois descobrimentos como estes deviam bastar para uma vida. Quem tiver a sorte de fazer desta maneira apenas um descobrimento, já pode considerar-se feliz. Contudo, não houve um só campo que Marx não submetesse ao estudo científico – e foram muitos – e não se limitou a tratar nenhum deles de passagem (inclusive a matemática), em que não fizesse descobrimentos originais. Tal era o homem da ciência. Mas, isto não era de longe a metade do homem. Para Marx, a ciência era uma força histórica motriz, uma força revolucionária. Por mais prazeroso que fosse deparar-se com um novo descobrimento, feito em qualquer ciência teórica e cuja aplicação prática não pudesse ser prevista de maneira alguma, era maior ainda o prazer que experimentava quando se tratava de um descobrimento que exercesse imediatamente uma influência revolucionária na indústria e no desenvolvimento histórico em geral. Por isso, seguia em detalhe a marcha dos descobrimentos realizados no campo da eletricidade, até os de Marcel Deprez nos últimos tempos.

É que Marx era, antes de tudo, um revolucionário. Cooperar, deste ou de outro modo, com a derrota da sociedade capitalista e das instituições políticas criadas por ela, contribuir com a emancipação do proletariado moderno, a quem ele infundira pela primeira vez a consciência de sua própria situação e de suas necessidades, a consciência das condições de sua emancipação: tal era a verdadeira missão de sua vida. A luta era seu elemento central. E lutou com uma paixão, uma tenacidade e êxito como poucos. Primeira Gazeta Renana, 1842; Vorwärts de Paris, 1844; Gazeta Alemã de Bruxelas, 1847; Nova Gazeta Renana, 1848-1849; New York Tribune, 1852 a 1861, além de uma grande quantidade de folhetos de luta, e o trabalho nas organizações de Paris, Bruxelas e Londres; até que, por último, nasceu, como resultado de tudo isso, a grande Associação Internacional dos Trabalhadores, que era, na verdade, uma obra de que seu autor podia orgulhar-se, mesmo que não tivesse criado nenhuma outra coisa.

Por isso, Marx era o homem mais odiado e mais caluniado de sua época. Os governos, tanto os absolutistas como os republicanos, o expulsavam. Os burgueses, tanto os conservadores como os ultrademocratas, disputavam, na prática, quem mais o difamava. Marx deixava tudo isso de lado como se fossem teias de aranha, não dava trela a isso; só respondia quando a necessidade se impunha. E morreu venerado, querido, chorado por milhões de operários da causa revolucionária, como ele, disseminados por toda a Europa e América, das minas da Sibéria até a Califórnia. E posso atrever-me a dizer que, se teve muitos adversários, teve apenas um inimigo pessoal. Seu nome atravessará os séculos e, com ele, sua obra.

INSTALAR IMEDIATAMENTE A COMISSÃO DA VERDADE

12/03/2012

Punir os militares que afrontam a democracia.

Testemunhamos nos últimos dias, entre militares da reserva, o ressurgir de vozes lúgubres, de oposição à criação e ao funcionamento da Comissão Nacional da Verdade.

As manobras dos indivíduos que buscam calar o direito à Memória, à Verdade e à Justiça tentam, por um lado, golpear a democracia, atingir e desmoralizar o governo federal e suas autoridades; por outro lado, envolver as Forças Armadas dos dias de hoje na defesa dos crimes cometidos, há décadas, pela Ditadura Militar, e implicá-las na defesa de militares e civis que foram os executores desses crimes.

O chamado “Manifesto à Nação”, assinado por militares da reserva, entre os quais conhecidos torturadores, é uma enorme afronta ao governo federal legitimamente eleito e aos Poderes da República, e seus ataques à Comissão Nacional da Verdade são inadmissíveis.

Externamos nosso integral apoio à decisão da presidenta Dilma Rousseff e do ministro da Defesa, Celso Amorim, de punir esses autores de crimes de desacato, e reiteramos a necessidade da instalação imediata da Comissão Nacional da Verdade, único instrumento capaz de investigar, conhecer e divulgar a verdade sobre as graves violações de direitos humanos praticadas pelos órgãos de repressão da Ditadura Militar, e a sanção de seus autores, nos termos da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos e do Supremo Tribunal Federal quanto aos crimes permanentes.

Por fim, face ao crescimento das adesões de militares a esse manifesto de vocação golpista, a punição aos seus subscritores tornou-se uma questão não só imprescindível, como urgente, sob pena de fragilizarem-se a Democracia e os Poderes constitucionais da República.

São Paulo, 7 de março de 2012

Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça

Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos

O TESTAMENTO ESCRITO DE EVA PERÓN

01/02/2012

Minha mensagem. [...] Amo muito os descamisados, as mulheres, os trabalhadores do meu povo e, por extensão, amo bastante todos os povos do mundo, explorados e condenados à morte pelos imperialismos e privilegiados da Terra. Magoa-me muito o sofrimento dos pobres, dos humildes, a dor de tanta gente no mundo, sem sol e sem céu, sem tranquilidade. [...]

Quero rebelar os povos. Desejo incendiá-los com o fogo de meu coração. Quero dizer-lhes que uma humilde mulher do povo (a primeira mulher do povo que não se deixou levar, nem pelo poder, nem pela glória) aprendeu no mundo dos que mandam e governam os povos de toda a humanidade. [...] Porque todos os que vieram do povo para seguir meu caminho não regressaram nunca. Deixaram-se deslumbrar pelas fantasias maravilhosas das alturas e aí ficaram para gozarem da mentira. [...]

Não deixei que me tirassem da alma o que trouxe da rua, por isso não me deslumbrou jamais a grandeza do poder, e pude ver suas mazelas. Por isso, nunca me esqueci das misérias do meu povo e pude ver suas grandezas. [...]

Os fanáticos. Somente os fanáticos – que são idealistas e sectários – não se entregam. Os frios, os indiferentes, não servem ao povo. Não conseguem servi-lo, ainda que queiram. [...] Por isso sou fanática. Daria minha vida por Perón e pelo povo. [...]

Nem fieis nem rebeldes. [...] Em 17 de outubro, foi o reencontro do povo com Perón. Aquela inesquecível noite foi um marco no destino dos dois e, assim, teve início o imenso drama… Frente a um mundo de povos submetidos, Perón levantou a bandeira da nossa libertação. Ante um mundo de povos explorados, Perón ergueu a bandeira da justiça.

Juntei-lhe meu coração e entrelacei as duas bandeiras, da justiça e da liberdade, com um pouco de amor… Porém, tudo isto – a liberdade, a justiça e o amor, Perón e seu povo –, tudo isto significa muito para que se possa ficar indiferente ou com frieza. Tudo isto merece ódio ou amor.

Os frios, os indiferentes, os de mente curta, os peronistas vacilantes, me provocam asco. Causam-me repugnância porque não têm cheiro nem sabor. [...]

Doa a quem doer. [...] Existem no mundo nações exploradoras e nações exploradas. Eu não diria nada se se tratasse apenas de nações. O problema é que, por trás de cada nação dominada pelo imperialismo, há um povo escravizado, de homens e mulheres explorados. [...]

A única coisa compatível com a felicidade dos povos, com a felicidade de todos os seres humanos, seria a existência de nações justas, soberanas, livres, conforme a doutrina de Perón.

Isto se dará neste século. Embora isto pareça uma ladainha inerente ao meu fanatismo, acontecerá, “doa a quem doer, custe o que custar”. [...]

Os que se entregam. Entretanto, ainda mais abomináveis que os imperialistas são os homens das oligarquias nacionais que se entregam, vendendo e, às vezes, entregando, em troca de moedas ou sorrisos, a felicidade de seus povos. Conheci-os muito bem. Frente aos imperialismos não senti outra coisa, senão repugnância e ódio, porém, em relação aos traidores de seus povos, experimentei infinita indignação e desprezo.

Muitas vezes, ouvi-os desculparem-se ante minha agressividade irônica e mordaz: “não podemos fazer nada”, diziam. Ouvi-os, várias vezes, dizendo diversos tipos de mentiras. Mentira! Sim, mil vezes mentiras…!

Há apenas uma coisa imbatível na Terra: a vontade dos povos. Não existe nenhum povo no mundo que não possa ser justo, livre e soberano.

Eva Perón, Minha Mensagem

SOLIDARIEDADE ÀS VÍTIMAS DE PINHEIRINHO

25/01/2012

Fala-se que os meios de comunicação capitalistas têm conseguido anestesiar a mente do povo, fazendo-o aceitar como normais e justificáveis as ações da polícia contra os movimentos sociais, tratados como conglomerados de delinquentes. Claro, as mentiras e calúnias da grande mídia não deixam de provocar os seus danos ideológicos, intoxicando cérebros, impossibilitando que muita gente pense, não vendo seus reais inimigos.

Contudo, este poder de alienar tem contra si a realidade que, de tanto atingir cada ser humano, perde força de disfarce. Aparecem indignados por todos os lados. A indignação de incontável número de pessoas contra a ação policial criminosa contra os moradores do bairro Pinheirinho, em São José dos Campos, é exemplo disso. Começa a chegar a tal ponto, que só um indigno não se indigna contra tal barbárie.  E o mais importante: toma-se consciência de que lado está o governador Alckmin e seu séquito; de que lado está a maioria absoluta dos juízes; de que, na sociedade capitalista, o poder judiciário é um dos grandes instrumentos de defesa dos interesses da burguesia que, por isso, entende ser seu dever estar contra a população explorada, com toga ou com ordem do uso de fuzis.

O Comitê Bolivariano de São Paulo se solidariza com a população de Pinheirinho, com a sua luta, na certeza de que crescerá o número de vozes contra quem reprime e mata para defender privilégios e fortunas de uma minoria.

Comitê Bolivariano de São Paulo

NOAM CHOMSKY – O IMPERIALISMO SELVAGEM DOS ESTADOS UNIDOS

15/12/2011

É tentador voltar ao início. O início remonta a uma data muito distante, porém é importante refletir sobre alguns aspectos da história dos Estados Unidos, que incidem diretamente sobre a atual política norte-americana no Oriente Médio. Nos diversos sentidos, os EUA são um país bastante incomum. Talvez, seja o único país do mundo que foi fundado como império. Era um império-criança, como o chamou George Washington, que via grandes aspirações em seus fundadores. O mais liberal deles, Thomas Jefferson, pensava que esse império-menino devia expandir-se e tornar-se aquilo que ele chamou o “ninho”, de onde se colonizaria todo o continente. “Os vermelhos” – isto é – os índios, seriam varridos; seriam expulsos ou exterminados. Os negros seriam devolvidos à África, quando já não fossem necessários, e os latinos seriam eliminados por uma raça superior.

A CONQUISTA DO TERRITÓRIO NACIONAL

Ao longo de sua história, os Estados Unidos têm sido um país muito racista, não apenas em relação ao negro, ressalte-se. Essa era a visão de Jefferson, e os demais iam, mais ou menos, na mesma linha. Dessa forma, trata-se de uma sociedade colonialista de população imigrante. Esse colonialismo é, de longe, o pior tipo de imperialismo, o mais selvagem, porque exige a eliminação da população autóctone. Acho que isso traz certa relação com o apoio decidido que os Estados Unidos dão a Israel, que é também uma sociedade colonialista, fundada por povoadores. Suas políticas são como um eco do sentido da história estadunidense. É como voltar a vivê-la. E ainda mais, porquanto os primeiros colonos dos atuais Estados Unidos eram religiosos fundamentalistas, considerando-se filhos de Israel, e obedeciam ao mandamento divino de habitar a Terra Prometida e matar os amalecitas etc., etc. Foram os primeiros colonos de Massachusetts.

Tudo foi feito com o maior altruísmo. Assim que, por exemplo, Massachusetts (o Mayflower e todo esse assunto) recebeu seus estatutos de fundação das mãos do Rei da Inglaterra, em 1629. Esses estatutos atribuíam aos colonos a tarefa de salvarem a população autóctone do infortúnio do paganismo. De fato, o emblema da colônia da Baía de Massachusetts mostra um índio com uma flecha que aponta para baixo, um símbolo de paz. De sua boca sai uma frase que diz: “Vinde e nos ajudai”. Esse é um dos primeiros exemplos do que hoje se denomina intervenção humanitária. É típico de outros casos até o presente. Os índios suplicavam aos colonos que os ajudassem, e os colonos obedeciam altruisticamente ao mandamento de Deus de ajudá-los. O resultado é que os ajudaram, exterminando-os; o que foi considerado bastante transtornador. Aproximadamente aos anos vinte do século XIX, um juiz do Tribunal Supremo falou sobre esta questão. Dizia ser um tanto estranho que, apesar de todo o nosso altruísmo e amor pelos índios, estes se dispersaram como “as folhas de outono”. Como era possível? Ressaltava que a divina vontade da Providência “transcende a compreensão humana”. É a vontade de Deus. Não podemos querer entendê-la. Essa concepção, chamada providencialismo – que consiste em pensar que obedecemos invariavelmente à vontade de Deus – chegou aos dias de hoje. Façamos o que fizermos, obedeceremos à vontade de Deus.

Os Estados Unidos são um país muito religioso; um país em que as crenças religiosas desempenham um papel incomum. Uma grande porcentagem da população – não me lembro do número exato, mas é muito alta – crê literalmente no que diz a Bíblia; e parte dessa crença consiste em apoiar tudo que Israel faz, já que Deus prometeu a Israel a Terra Prometida. Temos de apoiá-lo. Essas mesmas pessoas – um núcleo substancial que dá sólido apoio a qualquer coisa que Israel faça – são, ao mesmo tempo, os antissemitas mais extremados do mundo. Fazem com que Hitler pareça bastante moderado. Acreditam no aniquilamento quase total dos judeus depois do Armagedão. Existe toda uma longa história sobre esse assunto, aceita inclusive por gente considerada muito importante; provavelmente por gente, como Reagan, George W. Bush e outros. Vincula-se à história colonialista do sionismo cristão, que precedeu amplamente o sionismo judeu, e é muito mais forte. Proporciona uma sólida base de decidido respaldo a qualquer coisa que Israel possa fazer.

A conquista do território nacional foi um acontecimento bastante feio. Isso foi reconhecido por alguns de seus protagonistas mais honestos, como John Quincy Adams, o grande estrategista do expansionismo, teórico do conhecido Destino Manifesto etc. Em seus últimos anos, bem depois de seus próprios crimes horrendos terem ficado no passado, lamentou o que chamou a sorte “dessa infeliz raça de nativos americanos que estamos exterminando com tanta falta de misericórdia e pérfida crueldade”. Disse que este era um dos pecados pelos quais nos castigaria o Senhor. Ainda estamos esperando.

Suas doutrinas têm sido levadas em conta ao longo do tempo e continuam no presente. Existe um importante e bem documentado livro de John Lewis Gaddis, grande historiador norte-americano, sobre as raízes da doutrina Bush. Gaddis descreve correta e convincentemente a doutrina Bush como descendente direta da grande estratégia de John Quincy Adams. Diz que é uma concepção que percorre toda a história dos Estados Unidos. Crê que é a concepção correta: que devemos proteger nossa segurança, que a expansão é a via para garantir a segurança, que é impossível ter segurança satisfatória enquanto não se controle tudo. Assim sendo, devemos nos expandir, não só no hemisfério, mas também em todo o Planeta. Essa era a doutrina Bush.

Durante a Segunda Guerra Mundial, embora os Estados unidos já fossem, com sobra, o país mais rico do mundo, desempenhavam um papel secundário nos assuntos mundiais. O ator principal naquele contexto mundial era a Inglaterra; inclusive a França tinha um alcance mais global que os Estados Unidos. A Segunda Guerra Mundial mudou por completo o panorama. Os encarregados de realizar planos nos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial, os incumbidos de fazer planos para Roosevelt, compreenderam muito bem, desde o início da guerra, que esta chegaria ao seu fim com os Estados Unidos numa condição de poder esmagador. À medida que avançava a contenda e os soviéticos derrotavam os alemães e quase ganham a guerra na Europa, entenderam que os Estados Unidos ficariam numa situação inclusive de predomínio. E elaboraram cuidadosamente planos para o pós-guerra. Os Estados Unidos exerceriam um controle total sobre uma região que incluía o Hemisfério Ocidental, o Extremo Oriente, o antigo império britânico e a porção maior possível da Eurásia, atingindo – isso era crucial – seu coração comercial e industrial: a Europa Ocidental. Essa era a meta mínima. A máxima atingiria todo o Planeta, necessária para a nossa segurança. Nessa região, os Estados Unidos teriam controle inquestionável da situação e limitariam todo o intento de outros de exercerem sua soberania.

Os Estados Unidos terminam a guerra em uma posição de predomínio e segurança sem paralelo na história. Dispunham da metade das riquezas mundiais, controlavam todo o hemisfério e as margens opostas dos oceanos. Não tinham tudo. Aí estavam os soviéticos, algumas coisas ainda não estavam sob seu controle; contudo, se expandiam de maneira muito clara.

Exatamente no meio de tudo isso, estava o Oriente Médio. Um dos assessores de Roosevelt, que trabalhou ao seu lado durante muito tempo, Adolf A. Berle, um liberal, afirmou que o petróleo do Oriente Médio proporcionaria um substancial controle sobre o Planeta; essa doutrina se mantém atualmente. Uma doutrina que continua neste instante, e que se mantém como um tema central da política.

Depois da Segunda Guerra Mundial

Durante boa parte da guerra Fria, as políticas norte-americanas procuravam justificar-se a todo momento, alegando ameaça dos soviéticos. Tratava-se, no fundamental, de uma ameaça inventada. Os soviéticos dirigiam seu próprio império, menor, usando pretexto idêntico: a ameaça dos norte-americanos. Essas nuvens escuras se desfizeram após a queda da União Soviética. Para os que querem compreender a política exterior estadunidense, um tema claro a ser investigado é o acontecido depois do desaparecimento da União Soviética. Esse é o tema natural a ser investigado, que quase ninguém investiga. Analisa-se muito pouco na literatura especializada, ainda que seja obviamente o tema a ser estudado, para que se saiba o que foi a Guerra Fria. De fato, se ocorrer tal estudo, serão obtidas respostas muito claras.

O presidente nessa época era George Bush pai. Imediatamente depois da queda do Muro de Berlim, criou-se uma nova Estratégia de Segurança Nacional, com um Orçamento de Defesa etc. Constitui uma leitura muito interessante. Sua mensagem básica é a seguinte: nada vai mudar, exceto os pretextos. O que disseram é que necessitamos, ainda, de uma imensa força militar, não para nos defendermos de tropas soviéticas, porque já não existem, mas sim do que denominam “sofisticação tecnológica” das potências do “Terceiro Mundo”. Não seria de estranhar que uma pessoa bem educada, que tivesse estudado em Harvard e tudo mais, risse ao ouvir isso. Todavia, ninguém riu. Deveras, creio que ninguém escreveu sobre isso na imprensa. Com tal argumento, afirmam que temos de nos proteger das sofisticadas tecnologias das potências do Terceiro Mundo e que devemos manter o que se chama “base industrial de defesa”, um eufemismo para se referirem à indústria de alta tecnologia, provedora quase toda do setor estatal (computadores, Internet etc.), com o pretexto da segurança. Em relação ao Oriente Médio, dizem que devemos manter nossas forças de intervenção; cuja maioria está designada para esta região. Aí, aparece uma frase interessante: temos de manter as forças de intervenção destinadas ao Oriente Médio, onde as ameaças fundamentais a nossos interesses “não podiam ser atribuídas ao Kremlin”. Em outras palavras – desculpem-nos meninos – temos mentido a vocês durante cinquenta anos, mas, agora que já não há mais esse pretexto, lhes falaremos a verdade.

O problema no Oriente Médio foi e é chamado de nacionalismo radical. Radical, na verdade, que dizer independente. É um termo que significa “não obedece às ordens”. O nacionalismo radical pode ser de muitos tipos. O Irã é um bom exemplo.

A ameaça do nacionalismo radical

Em 1953, a ameaça iraniana era o nacionalismo secular. Depois de 1978, o nacionalismo religioso. E, em 1953, resolveu-se o problema, derrotando o regime parlamentar e instalando no poder um ditador muito elogiado. Não era um segredo. O New York Times, por exemplo, publicou um editorial em que era comemorada a derrota do governo, chamando-a de “lição” para os países pequenos que “perdem o juízo” com o nacionalismo radical e buscam assumir o controle de seus recursos naturais. Esta seria uma lição para eles: não tentem nenhuma loucura desse tipo, sobretudo numa zona que nos é necessária para controlarmos o Planeta. Isso se deu em 1953.

Desde 1979, data em que foi derrotado o tirano imposto pelos Estados Unidos, o Irã vem sofrendo constante perseguição norte-americana, sem trégua. Primeiro, Carter buscou reverter, de maneira imediata, a derrota do Xá, instigando um golpe de estado militar. Não funcionou. Os israelenses – na realidade, seu embaixador, porque durante o governo do Xá, Israel e Irã mantiveram relações estreitas, embora teoricamente não formais – disseram que, se conseguíssemos encontrar alguns oficiais dispostos a atirar contra dez mil pessoas nas ruas, poderíamos devolver o poder ao Xá. Zbigniew Brzezinski, o assessor de segurança de Carter, era da mesma opinião. Não conseguiu o objetivo. Logo, os Estados Unidos se aproximaram de Saddam Hussein, a fim de apoiá-lo na sua invasão ao Irã, que não foi coisa pequena. Milhares de iranianos foram mortos. Os atuais dirigentes do país são veteranos daquela guerra e, em sua consciência, está gravada a idéia de que todos estão contra eles: os soviéticos, os norte-americanos, todos apoiaram Saddam Hussein em sua tentativa de derrotar o novo estado islâmico. Não foi pouca coisa. O apoio dos Estados Unidos a Saddam Hussein foi enorme. Os crimes de Saddam, como o genocídio de Anfal – o massacre dos curdos – foram simplesmente negados. O governo de Reagan os negou ou os atribuiu ao Irã. Foi concedido ao Iraque privilégio muito singular. Único país do mundo, com exceção de Israel, ao qual foi dado o privilégio de atacar um navio norte-americano e gozar, depois, de completa impunidade. No caso de Israel, foi o Liberty, em 1967. No do Iraque, o USS Stark, em 1987. Era um navio que fazia parte da frota norte-americana destinada a proteger os embarques procedentes do Irã durante a guerra. O Iraque atacou o navio com mísseis franceses, matou algumas dezenas de marinheiros e recebeu uma tímida repreensão, nada mais que isso. O apoio dos Estados Unidos era tão grande que, na prática, ganhou a guerra em nome do Iraque. Terminada a contenda, o apoio dos Estados Unidos continuou. Em 1989, George Bush pai convidou vários engenheiros iraquianos para uma viagem aos Estados Unidos, para adquirirem conhecimentos avançados sobre o desenvolvimento de armas nucleares. É uma dessas pequenas coisas que são escondidas debaixo do tapete, já que, após alguns meses, Saddam se converteu em um mau rapaz. Desobedeceu às ordens. Depois, vieram as duras sanções e tantas coisas mais, até os dias de hoje.

A ameaça iraniana

Voltando à atualidade, nos textos da política exterior, e aos comentários gerais, a afirmação que mais constantemente se encontra é que o problema político fundamental dos Estados Unidos tem sido e continua sendo a ameaça iraniana. Em que consiste exatamente a ameaça do Irã? Na realidade, contamos com uma resposta autorizada a esta pergunta. Apareceu, faz meses, em informes enviados ao Congresso pelo Departamento de Defesa e órgãos de inteligência estadunidenses. Essas instâncias, todos os anos, informam ao Congresso a situação da segurança global. As últimas informações, enviadas em abril, contêm uma seção sobre o Irã, que aparece como a ameaça maior. Vale a pena lê-las. O que afirmam é que, seja qual for a ameaça iraniana, ela não tem caráter militar. Ressaltam que o gasto militar do Irã é muito pequeno, mesmo para os padrões regionais e que, comparado com o dos Estados Unidos, é invisível. Provavelmente, não chegue a 2% do gasto estadunidense na área militar. Ademais, destacam que a doutrina militar do Irã se orienta no sentido da defesa do território nacional, projetada para impedir uma invasão, apenas suficiente para que a diplomacia possa começar a funcionar. Essa é sua doutrina militar. Dizem que é possível que o Irã esteja pensando em armas nucleares. Não vão além disso, mas afirmam que se chegassem a desenvolver armas nucleares, seria como parte da estratégia de contenção iraniana, num esforço para prevenir um ataque, que não é uma possibilidade remota. A maior potência militar da história – nosso país – que lhe tem sido extremamente hostil, ocupa dois países fronteiriços e ameaça abertamente atacá-lo, como faz seu cliente, Israel. Essa é a dimensão militar da ameaça iraniana, tal como aparece descrita no Militar Balance. Não obstante, afirmam que o Irã significa uma grande ameaça porque tenta aumentar a sua influência sobre países vizinhos. A este objetivo chamam de desestabilização. O Irã estaria realizando uma operação de desestabilização em países vizinhos, ao buscar ampliar sua influência, e isso significa um problema para os Estados Unidos, que buscam promover a estabilidade.

Quando os Estados Unidos invadem um país é para promover a estabilidade, termo técnico da literatura de relações internacionais que quer dizer obedecer às ordens norte-americanas. Desta maneira, quando invadimos o Iraque e o Afeganistão, é para propiciar a estabilidade. Se os iranianos buscam ampliar sua influência, pelo menos em países vizinhos, estamos frente a uma tentativa de desestabilização. Esta idéia faz parte integral da doutrina acadêmica e de outras. Inclusive, torna possível dizer, sem medo de cair no ridículo, como fez o comentarista liberal e antigo editor do Foreign Affairs, James Chase, que os Estados Unidos tiveram de desestabilizar o Chile, no governo de Allende, para que houvesse estabilidade, ou seja, que se obedecesse às ordens norte-americanas.

O que é o terrorismo?

A segunda ameaça que o Irã apresenta é seu apoio ao terrorismo. O que é o terrorismo? Aparecem dois tipos de apoio do Irã ao terrorismo. Um é seu apoio ao Hezbolá, no Líbano; o outro é seu apoio ao Hamas, na Palestina.  Pense o que se pense do Hezbolá e do Hamas – que achemos que são os piores do mundo – o que se considera aquilo em que consiste seu terrorismo? Bem, o “terrorismo” do Hezbolá é celebrado no Líbano em todo 25 de maio de cada ano, dia da festa nacional que comemora a expulsão dos invasores israelenses do território libanês no ano de 2000. A resistência e a guerra de guerrilha do Hezbolá forçaram Israel a retirar-se do sul do Líbano, após os israelenses ocupá-lo durante vinte anos, violando as resoluções do Conselho de Segurança da ONU, quando generosamente praticou a violência, o terror e a tortura. Após a retirada de Israel, a data foi declarada Dia da Libertação do Líbano.

Isso é o que se considera o núcleo do terrorismo do Hezbolá. É assim que é descrito. Na verdade, em Israel se chega a descrever tal dia como uma agressão. Nestes dias se encontram na imprensa israelense as declarações de personagens muito importantes, dizendo que foi um grande erro a saída de Israel do Líbano, porquanto isso permite ao Irá manter a sua “agressão” a Israel, praticada pelos iranianos até o ano 2000, apoiando a resistência à ocupação israelense. Consideram que isso é uma agressão a Israel. Seguem princípios norte-americanos, já que nós afirmamos o mesmo. Quanto ao Hezbolá. existem outras ações suas que poderiam ser criticadas, porém, esse é o núcleo do terrorismo do Hezbolá. Outro crime do Hezbolá é que a coalizão que liderava ganhou, de forma ampla, as últimas eleições parlamentares, embora, devido ao sistema de designação de cadeiras segundo a filiação religiosa, não tenha conseguido a maioria. Isso levou Thomas Friedman a derramar lágrimas de alegria pelas maravilhas de eleições livres, em que o presidente Obama tinha derrotado o presidente iraniano Ahmadinejad, no Líbano. Houve outros que participaram dessa celebração. Até onde sei, a quantidade real de votos nunca foi informada.

E o Hamas? Hamas se tornou uma séria ameaça – uma perigosa organização terrorista – em janeiro de 2006, quando os palestinos cometeram um crime realmente grave. Essa foi a data das primeiras eleições livres realizadas num país do mundo árabe, e os palestinos votaram como não deveriam votar. Fato inaceitável para os Estados Unidos. Imediatamente, num abrir e fechar de olhos, os Estados Unidos e Israel se pronunciaram a favor de um castigo aos palestinos, por causa desse crime. Está em uma edição do New York Times, publicada logo depois, em duas colunas paralelas: numa delas se fala de nosso amor pela democracia e, na contígua, de nossos planos para castigar os palestinos, devido à maneira como votaram nas eleições de janeiro. Nenhuma ideia de que houvesse uma contradição. Antes das eleições, os palestinos já tinham recebido fortes castigos, que depois se intensificaram: Israel chegou ao ponto de controlar a distribuição de água na árida Faixa de Gaza. Em junho, Israel disparou cerca de 7700 foguetes contra Gaza. Tudo em nome da defesa contra o terrorismo. Mais tarde, os Estados Unidos e Israel, com a cooperação da Autoridade Nacional Palestina, tentaram efetuar um golpe de estado para derrotar o governo eleito. Foram derrotados, vitória do Hamas.

Depois disso, o Hamas se tornou uma das principais forças terroristas do mundo. Podem ser feitas muitas críticas ao Hamas, por exemplo, à maneira com que trata a sua população, porém o terrorismo do Hamas é um tanto difícil de ser caracterizado. A denúncia atual é que seu terrorismo consiste em disparar foguetes a partir de Gaza sobre as cidades fronteiriças de Israel; o que foi usado como justificativa para que se realizasse a Operação Chumbo Fundido (a invasão norte-americano-israelense de dezembro de 2008) e também para o ataque que Israel lançou contra uma pequena frota em junho, em águas internacionais, em que nove pessoas foram mortas. Apenas em país profundamente doutrinado se pode escutar este tipo de coisas sem rir. Deixando de lado a comparação, entre os foguetes Qassam e o terrorismo praticado constantemente pelos Estados Unidos e Israel, esse argumento padece de total credibilidade, pela simples razão: Israel e os Estados Unidos sabem muito bem como deter os foguetes… por meios pacíficos. Em junho de 2008, Israel aceitou concordar com um cessar-fogo com o Hamas. Israel não o cumpriu de fato – supunha-se que devia abrir as fronteiros, porém não o fez. O Hamas, sim, respeitou o acertado. Pode-se consultar o website oficial de Israel ou ouvir Mark Regev, seu porta-voz oficial. Ambos concordam com que, durante o cessar-fogo, o Hamas não disparou nenhum foguete. Israel desrespeitou o cessar-fogo em novembro de 2008, quando invadiu Gaza e assassinou 6 ativistas do Hamas. Depois, ocorreram alguns tiros de canhões por parte de Israel. Morreram algumas pessoas, todas palestinas. O Hamas propôs a retomada do cessar-fogo. O gabinete israelense não aceitou tal proposta, preferiu o caminho da violência. Dois dias depois, aconteceu o ataque norte-americano-israelense a Gaza. Nos Estados Unidos, e no Ocidente em geral, se dá como fato consumado, inclusive em grupos de direitos humanos e no informe Goldstone, que Israel tem o direito de usar a força e exercer sua autodefesa. Acontecem críticas sobre a desproporcionalidade do ataque, mas são uma questão secundária, porque o principal é que Israel não tinha nenhum direito de usar a força. Não existe justificação para o uso da força, a não ser que se tenham esgotado todos os meios pacíficos. Neste caso, os Estados Unidos e Israel não só não os tinham esgotado, mas também se negaram, inclusive, a tentar empregá-los, ainda que tivessem qualquer tipo de razão para acharem que teriam sucesso.

A concessão de que Israel tem direito a realizar seus ataques significa uma dádiva surpreendente. Segundo o Departamento de Defesa e a inteligência norte-americana, o desejo do Irã de aumentar sua influência, assim como apoiar o Hezbolá e o Hamas, são a essência da ameaça iraniana aos Estados Unidos.

(1) Livre tradução do original inglês, por Cláudio de Lima

CINCO SÉCULOS DE PROIBIÇÃO DO ARCO-ÍRIS NO CÉU AMERICANO

23/11/2011

Eduardo Galeano (13 de outubro de 2004)

Em 12 de outubro de 1492, a América descobriu o capitalismo. Cristóvão Colombo, financiado pelos reis da Espanha e pelos banqueiros de Gênova, trouxe a novidade às ilhas do Mar do Caribe.

Em seu Diário do Descobrimento, o almirante escreveu 136 vezes a palavra ouro; 50 vezes, a palavra Deus ou Nosso Senhor. Ele não conseguia cansar os olhos, vendo tanta beleza naquelas praias e, em 27 de novembro, profetizou: – Terá toda a cristandade negócios nelas.

E nisso não se enganou.

Colombo achou que o Haiti era o Japão e que Cuba era a China; achou que os habitantes da China e do Japão eram índios; porém, nisso não se equivocou.

Ao longo de cinco séculos de negócios da cristandade, foi destruída a terça parte das selvas americanas, está desabitada muita terra que era fértil, e mais da metade da população não se alimenta de forma continuada.

Os índios, vítimas da mais gigantesca espoliação da história universal, continuam sofrendo a usurpação das últimas sobras de suas terras e condenados à negação de sua identidade própria. Permanece a proibição de seus modos e lhes é negado, na realidade, o direito de ser.

A princípio, o saque e o otrocidio foram realizados em nome do Deus dos céus. Agora, são efetuados em nome do deus do progresso. Contudo, nessa identidade proibida  e vilipendiada,  ainda se expressam manifestações importantes de outra América possível. A América, cega pelo racismo não as vê

Em 12 de outubro de 1492, Cristóvão Colombo escreveu em seu diário que ele deseja levar alguns índios para a Espanha a fim de que aprendessem a falar [que deprendan fablar (1)]. Cinco séculos depois, em 12 de outubro de 1989, numa corte de justiça dos Estados Unidos, um índio mixteco foi considerado retardado mental (mentally retarded), porque não falava corretamente a língua espanhola. Ladislao Pastrana, mexicano de Oaxaca, lavrador não-legalizado em campos da Califórnia, estava para ser colocado em um asilo público. Como não se entendia com a intérprete espanhola, um psicólogo viu nele uma clara deficiência intelectual.

Finalmente, os antropólogos esclareceram a situação: Pastrana se expressava perfeitamente em sua língua, a língua mixteca, que é falada pelos índios herdeiros de uma importante cultura que tem mais de dois mil anos de existência.

O Paraguai fala guarani. Um caso único na história universal: a língua dos índios, língua dos vencidos é o idioma nacional unânime. Entretanto, a maioria dos paraguaios opina, segundo pesquisas, que aqueles que não entendem espanhol são como animais.

De cada dois peruanos, um é índio, e a Constituição do Peru afirma que o quéchua é um idioma oficial, tanto quanto o espanhol. A Constituição garante, mas, na prática, ocorre o contrário. O Peru trata os índios como a África do Sul trata os negros. O espanhol é o único idioma que é ensinado nas escolas, único entendido pelos juízes, os policiais e os funcionários (o espanhol não é o idioma da televisão, porque a televisão também fala inglês).

Faz cinco anos, funcionários do Registro Civil das Pessoas, em Buenos Aires, se negaram a registrar uma criança. Os pais, indígenas da província de Jujuy, queriam que seu filho se chamasse Qori Wamancha, um nome de sua língua. O Cartório argentino não aceitou, por ser nome estrangeiro.

Os índios das Américas vivem exilados em sua própria terra. A linguagem não é um sinal de identidade, mas sim, uma marca de maldição. Não os distingue, delata-os. Quando um índio renuncia à sua língua, começa a civilizar-se. Começa a civilizar-se ou começa a suicidar-se?

Quando eu era criança, nas escolas do Uruguai, nos ensinavam que o país tinha-se salvado do problema indígena, graças aos generais que, no século passado, haviam exterminado os últimos charruas.

O problema indígena: os primeiros americanos, os verdadeiros descobridores da América, são um problema. E, para que o problema deixe de ser um problema, é necessário que os índios deixem de ser índios. Tirá-los do mapa ou apagar a sua alma, aniquilá-los ou forçar-lhes a assimilação: o genocídio ou o otrocidio.

Em dezembro de 1976, o ministro do interior do Brasil, triunfal, anunciou que o problema indígena ficaria completamente resolvido no fim do século vinte. Disse: – Todos os índios estarão devidamente integrados à sociedade brasileira, já não serão índios. O ministro explicou que o organismo oficial, destinado à sua proteção (FUNAI, Fundação Nacional do Índio) se encarregará de civilizá-los, ou seja, se incumbirá de acabar com eles.

As balas, a dinamite, a oferta de comida envenenada, a contaminação dos rios, a devastação dos bosques e a difusão de vírus e bactérias desconhecidos dos índios têm acompanhado a invasão da Amazônia pelas empresas à procura de minerais, madeira e outros recursos naturais.

Todavia, a longa e feroz investida não bastou. A domesticação dos sobreviventes, que os resgata da barbárie, é também uma arma imprescindível para a retirada de obstáculos do caminho da conquista.

Matar o índio e salvar o homem, aconselhava o piedoso coronel norte-americano, Pratt. E muitos anos depois, o escritor peruano, Mario Vargas Llosa, explica que não há outro remédio senão o de modernizar os índios, ainda que se sacrifique a sua cultura, para salvá-los da fome e da miséria.

A salvação condena os índios a trabalharem, de sol a sol, em minas e plantações, em troca de salários que sequer dão para a compra de uma lata de comida para cachorro.

Salvar os índios também consiste em pôr fim a seus refúgios comunitários e jogá-los nas pedreiras, de mão-de-obra barata, na violenta intempérie das cidades, em que trocam de língua, nome, vestimenta e terminam tornando-se mendigos, bêbados e putas de bordel.

O salvar os índios se resume em colocar uniforme neles e, com fuzil no ombro, mandá-los matar  outros índios, ou morrerem defendendo o sistema que os nega.

Em suma, os índios são boa carne de canhão; dos 25 mil norte-americanos enviados à Segunda Guerra Mundial, morreram 10 mil.

Em 16 de dezembro de 1492, Colombo anunciara em seu diário: os índios servem para que os mandemos trabalhar, plantar, fazendo tudo o que for necessário, que construam vilas e aprendam a andar vestidos e se adaptem aos nossos costumes.

Sequestro dos braços, roubo da alma: para dar nome a esta operação, em toda a América, usa-se, desde os tempos coloniais, o verbo reduzir. O índio salvo é o índio reduzido. Reduz-se até desaparecer, esvaziado de si mesmo; é um não-índio, é ninguém.

O xamã dos índios chamacocos, do Paraguai, canta às estrelas, às plantas de seu entorno e à louca Totila, que perambula pelos bosques e chora.

Canta também o que conta o Martim pescador: – Não passe fome, não passe sede.

Canta o que conta a neblina: – Venho destruir a geada, para que teu povo não passe frio.

E canta o que lhe contam os cavalos do céu: – Selem-nos e vamos buscar a chuva.

Não obstante, os missionários de uma seita evangélica obrigaram o xamã a deixar suas plumas, suas soalhas e seus cânticos, por serem coisas do diabo: ele já não pode curar mordidas de cobras, nem trazer a chuva durante as secas, nem voar sobre a terra para cantar o que vê.

Em uma entrevista com Ticio Escobar, o xamã diz:

– Deixo de cantar e fico doente; meus sonhos não sabem aonde ir e me atormentam. Estou velho, estou ferido. Afinal, de que me adianta renegar a mim mesmo?

O xamã disse essas coisas em 1986. Em 1614, o arcebispo de Lima queimou todas as flautas e demais instrumentos de música dos índios, proibindo também suas danças, cantos e cerimônias, para que o demônio não pudesse continuar praticando suas enganações.

Em 1625, o ouvidor da Real Audiência da Guatemala proibiu as danças, cantos e cerimônia dos índios, sob pena de cem açoites, porque via nelas pacto com o diabo.

Para privar os índios de sua liberdade e de seus bens, retiram-se deles seus símbolos de identidade. São proibidos de cantar, dançar e sonhar com seus deuses, embora eles tenham sido por seus deuses cantados, dançados e sonhados no distante dia da Criação.

Desde os frades e funcionários do poder colonial, até os missionários das seitas norte-americanas que hoje se proliferam na América Latina, crucificam-se os índios em nome de Cristo. Para salvá-los do inferno, é preciso evangelizar os pagãos, idólatras.

Usa-se o Deus dos cristãos como meio para o saque.

O arcebispo Desmond Tutu se refere à África, porém, também vale para a América:

– Vieram.

Eles tinham a Bíblia e nós tínhamos a terra.

E nos disseram:

– Fechem os olhos e rezem. E quando abrimos os olhos, eles tinham a terra e nós tínhamos a Bíblia.

Os doutores do Estado moderno preferem a lógica da Ilustração para salvá-los das trevas; deve-se civilizar os bárbaros ignorantes. Antes e agora, o racismo  torna o saque colonial  um ato de justiça. O colonizado é um sub-homem, capaz de superstição, mas incapaz de religião; preparado para o folclore, porém incapaz de cultura; o sub-homem merece trato sub-humano, e seu escasso valor corresponde ao baixo preço dos frutos de seu trabalho.

O racismo legitima a rapina colonial e neocolonial, tudo ao longo dos séculos e dos diversos níveis de suas humilhações sucessivas. A América Latina trata os seus índios como as grandes potências tratam a América Latina.

Gabriel René-Moreno foi o mais prestigiado historiador boliviano do século passado. Uma das universidades da Bolívia leva o seu nome atualmente. Este prócer da cultura nacional achava que os índios são asnos, que geram mulos quando cruzam com brancas.

Ele pesou o cérebro de um índio e o de um mestiço, os quais, segundo sua balança, pesavam entre cinco, sete e dez onças menos que o cérebro da raça branca, considerando-os, portanto, incapazes de conceber a liberdade republicana.

O peruano, Ricardo Palma, contemporâneo e colega de Gabriel René-Moreno, escreveu que os índios são uma raça abjeta e degenerada. E o argentino, Domingo Faustino Sarmiento, elogiava, desta maneira, a longa luta dos índios araucanos pela sua liberdade: – São mais indomáveis, ou seja, animais mais rebeldes, menos aptos para a Civilização e a assimilação europeia.

O mais feroz racismo da história latino-americana se encontra nas palavras dos intelectuais mais célebres e celebrados do final do século, e nos atos dos políticos liberais que fundaram o Estado moderno.

Às vezes, eles eram índios de origem, como Porfírio Diaz, autor da modernização capitalista do México, que proibiu os índios de caminharem pelas ruas principais e sentarem-se nas praças públicas, caso não trocassem os calções de algodão pela calça européia e os huaraches por sapatos.

Eram os tempos da preparação para o mercado mundial, regido pelo Império Britânico; e o desprezo científico pelos índios outorgava impunidade ao roubo de suas terras e braços.

O mercado exigia café e o café exigia mais terras.

Vejamos, àquela época, como exemplo, um liberal da Guatemala, Justo Rufino Barrios, homem do progresso, que restabeleceu o trabalho forçado da época colonial e presenteava seus amigos com terras dos índios e peões indígenas em grande quantidade.

O racismo se expressa, com mais crueldade, em países como a Guatemala, onde os índios continuam sendo maioria porfiada, apesar das frequentes ondas de extermínio.

Em nossos dias, não existe mão-de-obra pior paga: os índios maias recebem 65 centavos de dólar, para lavrar uma quinta de café ou de algodão ou uma tonelada de cana. Os índios não podem plantar milho sem permissão militar e não podem movimentar-se sem permissão de trabalho. O exército organiza o recrutamento massivo de braços para o plantio e colheitas de exportação.

Nas plantações, usam-se pesticidas cinquenta vezes mais tóxicos que o máximo tolerável; o leite das mães é o mais contaminado do mundo ocidental. Felipe, irmão mais novo de Rigoleta Manchú, e a melhor amiga dela, morreram na infância, por causa de pesticidas lançados por pequenos aviões. Felipe morreu trabalhando no café; Maria, no algodão.

A facão e bala, o exército acabou depois com todo o restante da família de Rigoleta e com todos os demais membros da sua comunidade. Ela sobrou para contar a história.

Com alegre impunidade, reconhece-se oficialmente que foram eliminadas do mapa 440 aldeias indígenas, entre 1981 e 1983, durante uma longa campanha de aniquilação muito extensa, que assassinou, ou fez desaparecer, milhares de homens e mulheres.

A limpeza da serra, plano de terra arrasada, pôs fim à vida de uma incontável quantidade de crianças. Os militares guatemaltecos têm a certeza de que o vício da rebelião se transmite geneticamente.

Uma raça inferior, condenada ao vício e à vagabundagem, incapaz da ordem e do progresso, merece melhor sorte?

A violência institucional e o terrorismo de Estado incumbem-se de sanar as dúvidas. Os conquistadores já não usam couraça de ferro, vestem, sim, uniforme da Guerra do Vietnã. Não têm pele branca: são mestiços envergonhados de seu sangue ou índios arrastados à força e obrigados a cometer crimes que destroem a si mesmos.

A Guatemala menospreza os índios. A Guatemala se automenospreza. Esta raça inferior descobriu o número zero, mil anos antes de os matemáticos europeus saberem que existia.

Já havia conhecido a idade do universo, com enorme precisão, mil anos antes que os astrônomos do nosso tempo a conhecessem.

Os maias continuam sendo os viajantes do tempo. O que é um homem no caminho? Tempo.

Eles ignoravam que o tempo é dinheiro, como nos revelou Henry Ford. O tempo, fundador do espaço, lhes parece sagrado, como sagrados são sua filha, a terra e seu filho, o ser humano. Como a terra, como a gente, o tempo não pode ser comprado nem vendido. A Civilização continua fazendo o possível para tirá-los do erro.

A história muda segundo a voz que a conta. Na América, na Europa, ou em qualquer outra parte. O que para os romanos foi a invasão dos bárbaros, para os alemães foi emigração para o Sul.

Não é a voz dos índios que tem contado, até agora, a história da América. Nas vésperas da conquista espanhola, um profeta maia, que foi porta-voz dos deuses, anunciou: “Ao terminar a cobiça, a cara e as mãos ficarão desatadas. Os pés do mundo ficarão livres.” E quando se desata a boca, o que dirá? O que dirá a outra voz, a jamais ouvida? Do ponto de vista dos vencedores, que até o momento tem sido o único, os costumes dos índios sempre se caracterizam pelo seu caráter demoníaco ou por sua inferioridade biológica. Tem sido assim, desde os primeiros tempos da vida colonial.

Os índios das ilhas do Caribe se suicidavam por se negarem ao trabalho escravo? Para o colonizador, a razão é a sua vagabundagem.

Andam nus, com todo o corpo praticamente exposto? O motivo é que não têm vergonha.

Ignoram os índios o direito à propriedade e dividem tudo, e não têm desejo de riquezas? Porque são mais parentes de macacos do que do homem.

Banham-se com suspeita frequencia? Porque se parecem com hereges da seita de Mahoma, que ardem nos fogos da Inquisição.

Jamais batem nas crianças e as deixam andar livres? Porque são incapazes de castigo e doutrina.

Creem nos sonhos e obedecem a seus deuses? Por influência de Satanás ou por estupidez. Comem quando têm fome e não quando é hora de comer? Porque são incapazes de dominar os instintos.

Amam quando sentem desejos? Porque o demônio os induz a repetir o pecado original.

É livre a homossexualidade? A virgindade não tem importância alguma? Porque vivem na antessala do inferno.

Em 1523, o cacique Nicarágua perguntou aos conquistadores:

– E o rei dos senhores, quem o elegeu?

O cacique tinha sido eleito pelos anciões das comunidades.

Havia sido o rei de Castela eleito pelos anciões de suas comunidades?

A América pré-colombiana era vasta e diversa, e tinha formas de democracia que a Europa não conseguia ver, que o mundo ainda ignorava.

Reduzir a realidade americana ao despotismo dos imperadores incas, ou às práticas sanguinárias da dinastia asteca, equivale a reduzir a realidade da Europa renascentista à tirania dos monarcas ou às sinistras cerimônias da Santa Inquisição.

Na tradição guarani, por exemplo, os caciques são eleitos em assembleias de homens e mulheres – que os destituem caso não cumpram o mandato coletivo.

Na tradição iroquesa, homens e mulheres governam em pé de igualdade.

Os chefes são homens, porém são as mulheres que os põem e depõem, tendo elas o poder de decisão, através do Conselho de Matronas, sobre muitos assuntos fundamentais da confederação inteira.

Lá pelos anos 1600, quando os homens iroqueses se lançavam à guerra por sua conta, as mulheres fizeram greve de amores. Logo, os homens, ao se sentirem sozinhos, submeteram-se ao governo de compartilhamento.

Em 1919, o chefe militar do Panamá, nas Ilhas de San Blas, anunciou seu triunfo:

– As índias kunas já não vestirão molas, mas sim vestidos civilizados. Disse que as índias nunca mais pintariam o nariz, porém, as bochechas, como deve ser; que jamais colocariam argolas no nariz, mas, nas orelhas. Assim que deve ser.

Setenta anos depois daquele canto de galo, as índias kunas de nossos dias continuam brilhando suas argolas de ouro no nariz pintado, continuam vestindo suas molas, muitas delas feitas de cores e se expressam com enorme capacidade de imaginação e beleza; vestem suas molas na vida e com elas se submergem na terra, quando chega a morte.

Em 1989, nas vésperas da invasão norte-americana, o general Manuel Noriega afirmou que o Panamá era um país respeitador dos direitos humanos: – Não somos uma tribo, ressaltou.

As técnicas arcaicas, nas mãos das comunidades, tinham tornado férteis os desertos das Cordilheiras dos Andes. As tecnologias modernas, nas mãos do latifúndio privado, exportador, estão transformando em desertos as terras férteis dos Andes, em todas as regiões.

Seria absurdo retroceder cinco séculos nas técnicas de produção; porém, não menos absurdo é ignorar as catástrofes de um sistema que asfixia o homem, arrasa os bosques, viola a terra e envenena os rios para obter o máximo de lucro num mínimo de tempo. Não é absurdo sacrificar a natureza e a população nos altares do mercado internacional?

Nesse absurdo vivemos, e o aceitamos como se fosse nosso único destino possível.

As chamadas culturas primitivas se tornam ainda perigosas porque não perderam o sentido comum. Sentido comum é também, por extensão natural, sentido comunitário.  Se o ar pertence a todos, por que a terra tem de ter dono?

Se viemos da terra e para a terra voltaremos, por acaso não nos mata qualquer crime que se cometa contra a terra? A terra é berço e sepultura, mãe e companheira. São oferecidas a ela a primeira bebida e o primeiro bocado; dá-se descanso a ela, e se a protege da erosão.

O sistema menospreza o que ignora, porque ignora o que teme conhecer. O racismo é também uma máscara do medo.

O que sabemos das culturas indígenas? O que nos contaram os filmes de Faroeste.

E das culturas africanas, o que sabemos? O que nos contou o professor Tarzan, que nunca esteve na África.

Disse um poeta do interior da Bahia:

Primeiro, me roubaram da África. Depois, roubaram a África de mim. A memória da América foi mutilada pelo racismo. Permanecemos agindo como se fôssemos filhos da Europa, de ninguém mais.

No fim do século passado, um médico inglês, John Down, identificou a síndrome que hoje leva seu nome. Ele achava que a alteração dos cromossomas implicava um regresso às raças inferiores, que gerava mongóis idiotas, negroides idiotas e astecas idiotas.

Simultaneamente, um médico italiano, Cesare Lombrosos, atribuiu ao criminoso nato os traços físicos dos negros e dos índios. Procurou provar cientificamente que os índios e os negros são inclinados, por natureza, ao crime e à debilidade mental. Os índios e os negros, tradicionais instrumentos de trabalho, foram, desde então, também objetos da ciência. Na mesma época de Lombrosos e Down, um médico brasileiro, Raimundo Nina Rodrigues, decidiu estudar o problema do negro. Nina Rodrigues, que era mulato, chegou à conclusão de que a mistura de sangue perpetua características das raças inferiores e, por conseguinte, a raça negra no Brasil constituirá sempre um dos fatores da nossa inferioridade como povo. Este médico psiquiatra foi o primeiro pesquisador da cultura brasileira de origem africana. Estudou, como caso clínico: as religiões negras, como manifestações patológicas; os transes, como casos de histeria.

Pouco tempo depois, um médico argentino, o socialista, José Ingenieros, escreveu que os negros, vergonhosa escória da raça humana, estão mais próximos dos antropoides que dos brancos civilizados. Ao falar da suposta  inferioridade dos negros, Ingenieros dizia: – Os negros não têm ideias religiosas.

Na realidade, as ideias religiosas tinham atravessado o mar, ao lado dos escravos, nos navios negreiros. Uma prova de obstinação da dignidade humana; às costas americanas chegaram os deuses do amor e da guerra. Em compensação, os da fecundidade, que multiplicaram as colheitas e os escravos do amo, caíram na água.

Os deuses guerreiros e apaixonados que completavam a travessia tiveram de disfarçar-se de santos brancos, para sobreviverem e ajudar a sobreviverem milhões de homens e mulheres violentamente arrancados da África e vendidos como mercadorias.

Ogum, deus do ferro, se fez passar por São Jorge ou Santo Antônio ou São Miguel; Xangô, com seus trovões e seus fogos: no Brasil, por exemplo, ele se disfarça em São Jerônimo, São João e Arcanjo São Miguel. Obatala virou Jesus Cristo, e Oxum, a divindade das águas doces, tornou-se a Virgem da Candelária… (2)

Nas colônias espanholas e portuguesas, e em todas as demais, nas ilhas inglesas do Caribe, após a abolição da escravidão, continua a proibição de tocar tambores e do soar dos ventos ao modo africano; continuava, ainda, a punição com prisão para o simples fato de se ter uma imagem qualquer de algum deus africano.

Deuses proibidos, porque perigosamente exaltam as paixões humanas, e nelas encarnam.

Friedrich Nietzsche afirmou uma vez:

– Eu só acreditaria em um deus que soubesse dançar.

Como José Ingenieros, Nietzsche não conhecia os deuses africanos. Se os tivesse conhecido, talvez tivesse crido neles. Provavelmente, José Ingenieros tivesse mudado algumas de suas ideias, quem sabe.

A pele escura expõe incorrigíveis defeitos de fábrica. Assim, a tremenda desigualdade social, que também é racial, encontra sua explicação em defeitos hereditários. Isso tinha sido observado por Humboldt há duzentos anos e, até hoje, continua desta forma: a pirâmide das classes sociais é escura na base e clara na cúspide. No Brasil, por exemplo, a democracia racial consiste em que os brancos estão acima e os mais negros abaixo.

James Baldwin, sobre os negros nos Estados Unidos:

– Quando deixamos o Mississipi e viemos para o Norte, não encontramos a liberdade. Encontramos os piores lugares no mercado de trabalho; ainda estamos neles.

Um índio do norte argentino, Asunción Ontiiveros Yulquila, evoca hoje o trauma que marcou sua infância:

– As pessoas boas e bonitas eram as que se pareciam com Jesus e com a Virgem. Mas, meu pai e minha mãe não se pareciam em nada com as imagens de Jesus e da Virgem Maria que eu via na igreja de Abra Pampa. A cara própria é um erro da natureza. A cultura própria, uma prova de ignorância ou uma culpa sujeita à expiação. Civilizar é corrigir.

O fatalismo biológico, estigma das raças inferiores – congenitamente condenadas à indolência, à violência e à miséria – não nos impede de só ver as causas reais da nossa desventura histórica. Além disso, o racismo nos impede de conhecermos ou reconhecermos certos valores fundamentais que as culturas desdenhadas tenham conseguido milagrosamente perpetuar, e que elas encarnam ainda, mal ou bem, não obstante séculos de perseguição, humilhação e degradação.

Esses valores fundamentais não são objetos de museu. São fatores de história, imprescindíveis para nossa indispensável invenção de uma América sem mandões e mandados. Esses valores acusam o sistema que os nega.

Faz algum tempo, o sacerdote espanhol, Ignácio Ellacuría, me disse que acha absurdo esse tal de Descobrimento da América. O opressor é incapaz de descobrir, me disse.

– É o oprimido que descobre o opressor.

Ele achava que o opressor sequer pode descobrir-se a si mesmo. A verdadeira realidade do opressor só pode ser vista a partir do oprimido. Ignácio Ellacuría foi crivado de balas por acreditar nessa imperdoável capacidade de revelação e por compartilhar os riscos da fé em seu poder de profecia.

Assassinaram-no os militares de El Salvador, ou o assassinou um sistema que não pode tolerar um olhar que o delata?

(1) Expressão do idioma aragonês. (Observação do tradutor)

(2) Estes nomes de divindades do sincretismo religioso devem ter sido pegos de outras culturas afro-descendentes, uma vez que não coincidem exatamente com os do Candomblé baiano. (Observação do tradutor)

Livre tradução do original espanhol feita por Cláudio de Lima.

REFORMAS E REFORMISMO

02/11/2011

Lutar por reformas significa reformismo? Pode ser, pode não ser. Se a luta por reformas se dá como um fim em si mesmo, claro, trata-se de uma prática reformista, não contribuindo para o ataque às causas estruturais, ao sistema capitalista, que se caracteriza pela opressão e exploração do ser humano pelo ser humano. Agora, se a busca de reformas, por alguma melhora na vida política, cultural ou econômica das pessoas, ocorre como um meio, como um passo tático a ser dado, num processo em que não se abre mão do trabalho de conscientização para a luta pelo socialismo, fica evidente que não é o caso de reformismo. Reformismo, por exemplo, é o caso de um dirigente sindical defender junto aos seus liderados que a única luta que deve ser travada é a econômica, achando que a classe trabalhadora não tem outro caminho senão o da lógica de mercado, limitando-se apenas a vender a sua força de trabalho pelo salário possível. Alternativa que, no processo de luta de classes, leva a classe capitalista a ter uma reação diferente da que teria, caso notasse que os trabalhadores se dispõem, não só a reivindicar melhores salários, mas também se conscientizam de que devem agir pelas transformações políticas e sócio-econômicas que lhes convêm. O capitalista sabe muito bem que uma coisa é uma greve econômica, por melhora de salário, e que outra coisa é uma greve política. É nesta que ele se vê ameaçado como classe. Percebe, pela sua própria experiência de séculos, que toda classe, quando se politiza, age politicamente segundo os seus interesses, que, por conseguinte, a tendência da classe trabalhadora, ao tomar consciência das causas de sua situação econômico-social vigente, é lutar contra o sistema econômico e político que a oprime e explora.

Como não existe capitalista ingênuo, todo burguês compreende que as massas trabalhadoras, ao adquirirem consciência política, acabam por concluir que sua única opção válida, sem ilusão de classe, é a tomada do poder político, como fez a burguesia na sua luta contra o feudalismo. É isso que faz o capitalista ser um tanto tolerante com os reformistas – mesmo que tenha de fazer alguma concessão –, e total intolerância em relação a lideranças e movimentos sociais que percebem que é necessário derrotar o sistema atual.

EQUÍVOCOS DE CERTAS ESQUERDAS

Esta questão da diferença entre reformas e reformismo, há tempo, tem merecido a atenção de pensadores socialistas, revolucionários: Rosa Luxemburgo dá o devido trato ao tema, no momento em que ataca as idéias reformistas de Bernstein. O que mais importa é que não compreender a diferença entre reformas e reformismo acarreta consequências graves às lutas contra o capitalismo. E este tem sido o equívoco de certos setores de esquerda, de não lutarem por reformas, por conquistas imediatas, por acharem que essa prática é reformista, não percebendo que a marcha para a construção de uma nova sociedade é um processo, de passos. Fato que os leva a isolarem-se das massas que, no seu dia a dia, na luta pela vida, não abrem mão de reivindicações constantes. E o resultado inevitável é que o movimento social fica nas mãos das forças reformistas, nos sindicatos, nas associações de moradores etc.

Tais esquerdas, anti-reformas, em nome do anti-reformismo, defendem, na verdade, uma revolução sem sujeito, já que quem faz a revolução é o povo em estágio de consciência da necessidade de mudança, do qual elas se afastam.

Para esses setores que, na prática, não vêem a luta como processo, quem luta por reformas em quaisquer circunstâncias não é revolucionário. Não entendem que a luta por reformas e a luta pelo socialismo não se excluem necessariamente. Podem andar juntas ou separadas: se a luta por reformas acontece dentro de uma visão reformista, é claro que uma exclui a outra, opõem-se. Contudo, para quem luta por reformas e vê nestas apenas umas das batalhas da classe trabalhadora, não renunciando à luta pelo socialismo, percebendo que a ação por conquistas imediatas pode contribuir para isso, a citada dicotomia não se dá.

Toda luta decorre de um mínimo de consciência da necessidade, inclusive a que acontece por reformas, e pode mostrar aos seus participantes que, só unidos coletivamente, têm possibilidade de vitória; e, se isso vale, por exemplo, para a conquista de melhorias num bairro, tal lógica serve, por extensão, para lutas maiores, históricas, de libertação. O primeiro passo para que a população tome consciência da necessidade de um projeto de futuro, de transformação sócio-econômica ocorre, em geral, quando as pessoas se juntam na defesa de objetivos comuns, por mais simples que sejam.

REFORMA OU LUTA PELO SOCIALISMO NA VENEZUELA?

Não há dúvida. Não houve uma revolução na Venezuela. O país é capitalista. Seu Estado é capitalista. Então – conclui determinada esquerda – o que ocorre na Venezuela, sob a liderança de Chávez, são apenas reformas, portanto, reformismo puro, nada de luta pelo socialismo. É certo. O que acontece na Venezuela são reformas, mas isso não quer dizer reformismo. O caminho que o governo e o conjunto de bolivarianos revolucionários do país perseguem é o socialismo. Para isso, implementam um processo revolucionário, realizando as mudanças possíveis, de acordo com as circunstâncias dadas, numa situação em que as forças populares ainda não tomaram o poder político, apenas conquistaram o governo. Nesta luta, as reformas são feitas como meio, na dinâmica de acumular forças para próximos passos ou saltos. E isso não é reformismo. O que não evita ainda – é sabido – que, por dentro de tal processo, de tais forças, não circulem pessoas de posição reformista, principalmente entre setores da burocracia estatal.

Na verdade, o que está em jogo na Venezuela é se as reformas avançam ou não. Do seu desenvolvimento depende o fortalecimento das forças necessárias para que o processo revolucionário em andamento vingue, derrotando politicamente a burguesia, levando o povo ao poder.

Reformas estão acontecendo também em Cuba. Pode-se afirmar, com isso, que os revolucionários e o povo cubano, como um todo, abriram mão do socialismo, que optaram pelo reformismo rumo ao retorno ao capitalismo? Fosse reformismo o caminho político-ideológico adotado por Chávez e seus liderados na Venezuela, as forças oligárquicas venezuelanas não seriam tão hostis ao governo bolivariano e ao Partido Socialista Unificado da Venezuela (PSUV), como têm sido. Não obstante estar quase intacta a estrutura econômica da Venezuela, com o capital privado representando ainda em torno de 70% da economia, com apenas 2% das propriedades produtivas em poder de empresas sociais ou socialistas, os setores de direita não dão trégua, acionando seus meios de comunicação de massa noite e dia, recebendo apoio material e ideológico de potências estrangeiras, mormente do imperialismo norte-americano.

Fosse Chávez reformista, essas forças provavelmente agiriam contra ele – é verdade – mas não com a mesma ênfase e golpismo que desenvolvem nas suas ações constantes. Haja vista à forma como direitistas como elas agem, em oposição a governos de centro ou de centro-esquerda da América, como o de Lula, de Cristina e outros da mesma linha: atacam-nos, mas, com a certeza de que o “perigo” contra seus interesses é bem menor, ou não existe; não recorrem tanto à violência e ao golpismo como têm feito na Venezuela, assim como na Bolívia e Equador.

Não se pode ter ideias fixas sobre processos de luta, revolucionários. Numa situação de tomada de poder, reformas, como medidas constantes, tendem a desaparecer e as transformações, tanto econômicas como ideológicas, em regra, ocorrem com maior rapidez. O que não se dá numa conjuntura em que a tomada de poder político ainda não se deu. Os ritmos revolucionários variam de situação para situação, de país para país.

Não há uma fórmula única na marcha para a conquista do socialismo. Os caminhos se diversificam e os ritmos não se repetem. O que não diversifica é o objetivo final.

Cláudio de Lima

COLONIALISMO MATA KADDAFI E A SOBERANIA DA LÍBIA

24/10/2011

Kaddafi liderou uma revolução que derrubou um rei corrupto e a serviço de potências capitalistas, principalmente no que se refere à entrega de petróleo líbio a empresas estrangeiras. Lançando como plataforma política e doutrinária o seu chamado Livro Verde, Kaddafi defendia um socialismo autóctone, tribal, distante de qualquer outra experiência já ocorrida em outras regiões do mundo, a começar pela não-existência de um parlamento, de uma democracia representativa. Realizou reformas sociais importantes, dando prioridade para a Educação e uma razoável distribuição de riquezas. Nacionalizou o petróleo. Por isso, teve contra si todas as potências capitalistas, mormente os EUA, que chegaram a atacar o palácio do governo, matando uma filha sua.

Anos depois, Kaddafi muda de orientação política e de relacionamento com as potências imperialistas. Aproxima-se de governos destas potências e acaba por tomar medidas privatizantes, como a concessão de exploração de petróleo a petroleiras privadas. Rompe, desta forma, com o que ele mesmo defendia em sua campanha antiimperialista dos anos 60 e 70, principalmente. Com certeza, perdeu apoio popular devido a esta sua nova tomada de posição. No mínimo, o povo líbio ficou um tanto perplexo frente ao novo Kaddafi.

Contudo, esta aproximação de Kaddafi ao neoliberalismo e de apoio a Bush nas ações deste contra a AL-KAEDA não garantia que as potências capitalistas achassem que ele merecia sua plena confiança. Assim, agiriam contra ele no momento oportuno. O seu desgaste junto ao povo tornou-se este momento, em nome da necessidade de derrotar um ditador, que – diga-se de passagem – não era tratado como tal anteriormente pelos próprios governantes desses impérios. Chegava o instante de os colonialistas retomarem a Líbia, com seu petróleo, ouro e riquezas outras.

O objetivo primeiro para concluir este objetivo era a morte de Kaddafi. Mantê-lo vivo não seria nada seguro. Poderia ele sofrer uma “recaída”, voltando a ser o nacionalista e revolucionário da Líbia independente. Conseguiram os colonialistas mobilizar seus meios de comunicação em todo o mundo, obtendo apoio ou a indiferença da maior parte da opinião pública para a tese de que representavam o bem frente a um mal que deveria ser destruído, a qualquer custo, inclusive com desrespeito à própria resolução da ONU, que não incluía o assassinato de Kaddafi.

Kaddafi chegou a um ponto, que nem o povo nem o imperialismo confiavam nele. O povo, num quadro de inexistência de organização e lideranças revolucionárias, não teve condição de avançar na defesa de seu país, conseguindo vitórias políticas que lhe garantissem conquistas sócio-econômicas. Sem forças revolucionárias anti-Kaddafi, a insurgência para derrubá-lo vem pela direita, disposta a tudo para atingir seu intento, colocando-se a serviço das potências neocolonialistas, sabendo que, sem elas, jamais derrubariam o governo, não obstante o desgaste de Kadaffi junto à população.

Com o apoio das bombas da OTAN, matam não só Kaddafi, mas, também, a soberania da Líbia. De ex-colônia, a Líbia passa a ser neocolônia, até que seu povo, forjando na luta novos líderes sem vacilação juntos aos que desejam dominá-lo, conquiste sua liberdade e trace o seu próprio destino.

AS ESQUERDAS E A LÍBIA

Nesse espaço de transição entre a queda da União Soviética e o estabelecimento de um novo processo revolucionário em avanço no mundo, aparecem esquerdas de todos os tipos, inclusive as que se embriagam com agendas imperialistas, dando eco às suas teses de dominação, em nome da democracia de mercado e de falsos direitos humanos, como se impérios tivessem compromisso com liberdades individuais e com a felicidade humana. A indiferença, ou mesmo o apoio tácito da maioria absoluta de tais esquerdas em relação às ações imperialista na Líbia, é uma prova disso, tristemente obedientes às assertivas de governos da OTAN de que o que pretendiam com a derrota e morte de Kaddafi era livrar a Líbia de um tirano, um ditador.

Os colonialistas, por razões óbvias, não diziam o que pretendiam verdadeiramente com a sua invasão da Líbia, que valeria a pena praticarem matança para apoderar-se de petróleo e outros recursos naturais do país. As esquerdas, da crise ideológica que afeta a humanidade no momento, absorveram esta astúcia imperialista com uma tranquilidade assustadora. Não entenderam, por serem setores de crise ideológica em andamento, que a questão não se resumia no apoio, ou não, à figura de Kaddafi. É sabido – não se nega isso – que Kaddafi, com a sua recente aproximação a potências imperialistas, com suas privatizações e outras políticas nocivas ao povo líbio, acabaria por afastar a simpatia que as forças progressistas de praticamente todo o mundo tinham por ele e seu governo. Isso é compreensível. Porém, não era o apoio, ou não, a Kaddafi que estava em jogo, mas, sim, a agressão ao princípio de autodeterminação dos povos, que têm o direito de escolher soberanamente seu próprio caminho para a solução de seus problemas políticos, econômicos e sociais. Um absurdo que alguém que se diz de esquerda, democrata ou progressista, concorde, de uma forma ou de outra, que potências colonialistas decidam assassinar um chefe de governo de qualquer país do Planeta por ser este inconveniente aos seus objetivos, em nome de princípios que não são inerentes a quem tem, como fundamento de sua própria existência, a dominação e exploração de povos ao longo de séculos de colonialismo. Achar que colonialistas, criadores do fascismo, agem a bem da ordem democrática e do respeito a direitos humanos é ingenuidade ou má-fé .

Ao invés da indiferença ou apoio tácito ao assassinato de Kaddafi pela OTAN e seus fantoches na Líbia, todas as esquerdas deveriam sair em defesa da nação líbia, defendendo que o próprio povo deste país decidisse que caminho seguir, como superar as contradições que enfrentam.

Não quiseram entender tais esquerdas que os mesmos falsos argumentos usados pelos imperialistas para intervirem na Líbia, com bombas destruindo milhares de vidas humanas, poderão ser usados por eles para derrubarem governos de outros países no futuro, para satisfazerem seu interesses. Com a indiferença, ou o apoio implícito de certas esquerdas, está aberto mais um triste precedente. A esperança é que os povos se organizem e reajam a futuras escaladas intervencionistas do imperialismo.

Comitê Bolivariano de São Paulo

UMA MAFIOCRACIA DOMINA O PLANETA

14/10/2011

Em matéria passada eu explicava que MÁFIA é um termo mundialmente utilizado que se refere a um tipo especial de crime organizado. Originado na Itália meridional, atualmente o termo é também usado para identificar, tanto simples grupos de criminosos organizados, como associações de indivíduos que empregam métodos ilícitos ou ilegais em seus negócios ou postos de trabalho. A máfia pode ser, tanto um grupo social, ou um poder. Por mafiocracia, se entende, então, o sistema em que se sustentam, se organizam e se administram as práticas de certos grupos delituosos.

A mafiocracia possui sua racionalidade e um código de ética particular, que são sustentados pelas vertentes mais negativas da ideologia capitalista: uma, representada pelo setor de capitalistas, cuja motivação central de vida é a avareza; estes podem ser empreendedores ou conservadores, porém, todos são individualistas; têm um tipo de comportamento de orientação acumulativa; gostam de se apropriar de riquezas através do trabalho alheio e da usura. Alguns ligam esta motivação a idéias religiosas do protestantismo e do judaísmo.

A outra vertente é representada por indivíduos conduzidos por uma ambição desmedida de enriquecimento fácil e rápido; como todos os capitalistas, fundamentam sua conduta na chamada ética dos interesses materiais; sua orientação, por princípio, é improdutiva e de exploração; usam qualquer meio possível para conseguirem seu bem-estar particular. Neste setor, se encontram, misturados, yuppies impacientes das áreas financeiras e bancárias, comerciantes desonestos, lobistas e gestores corruptos, como também funcionários corrompidos dos setores públicos e privados, ao lado de outros costumeiros delinquentes.

A mafiocracia é um sistema de organizações criminosas que, qual uma hera daninha, aproveita-se das debilidades de todos os sistemas humanos, infiltrando-se neles de forma aberta ou sub-repticiamente. É, por conseguinte, um sistema parasitário. Como outros grupos com interesses particulares, as máfias acham, nos procedimentos informais, as vias e meios para penetrarem em empresas, ministérios etc., obtendo, assim, vantagens e benefícios. Estes meios informais são propícios para o tráfico de influência e para outras ações patológicas que afetam o funcionamento das organizações, especialmente do setor público; o que não significa que a área privada fique imune a tais males.

Contudo, as máfias, não só se valem de alguns meios informais para controlar e obter vantagens nas organizações em que conseguem penetrar, mas também construíram verdadeiras corporações para a realização de seus ignóbeis propósitos. De tal maneira, que tais associações criminosas alcançaram enorme poder e enorme difusão nos mais diversos campos da atividade humana, em todo o mundo: no sistema financeiro e bancário; em áreas de seguros; bolsas de valores; setor imobiliário e de movimento cambial, assim como no sistema econômico de empresas estatais e privadas; sindicatos; estrutura judicial, policial e penitenciária; sistema alfandegário e portuário; sistema de saúde e hospitalar, incluindo nisso tudo a produção e o tráfico de armas e drogas; o contrabando de bens e pessoas, sem falar de tantas outras áreas sob controle destas organizações delituosas.

Certa literatura tem pretendido atribuir as práticas de delitos nacionais e internacionais exclusivamente às máfias dos chamados “Estados falidos”, localizados, é claro, em regiões subdesenvolvidas do chamado Terceiro Mundo. Para esta literatura, se existe alguma conexão delituosa entre as regiões do Sul atrasado e o Norte desenvolvido (como, por exemplo, as que ocorrem entre os produtores de drogas colombianos, traficantes mexicanos e grandes distribuidores e consumidores estadunidenses, ou como a que há na extração e tráfico ilegal de pedras preciosas, ou de minerais de grande valor e madeiras nobres, entre máfias africanas e talhadores europeus e judeus), os países desenvolvidos são as vítimas desta relação. Os países atrasados ficam como réus.

É certo que existem máfias em todos os países, não apenas organizadas para atividades com drogas e minerais valiosos e escassos, mas que também praticam grandes fraudes financeiras e econômicas que tanto atingem os estados como os cidadãos. Vale lembrar, por exemplo, a máfia de políticos e funcionários corruptos que, na ex-URSS, se apoderou de bens e matérias-primas, colocando-as no “mercado negro”, sabotando a economia, quando se desmontava a burocracia soviética. Outra, que operou, não faz muito tempo, na Venezuela, em torno de fraudes bancárias, agindo no campo imobiliário e com tráfico de bônus e de dólares, que influenciou sobre o índice inflacionário do país. Há, ainda, máfias de funcionários públicos e operadores sindicais nas indústrias nacionais de ferro, alumínio e da construção.

Entretanto, indubitavelmente, as máfias mais poderosas se encontram nos países desenvolvidos. São elas, em verdade, as grandes financistas, as que ditam suas próprias pautas e controlam os grandes mercados.

Por acaso, não são verdadeiras máfias as associações financeiras e bancárias, e a militar-industrial norte-americana, que atualmente governam a economia global? Se alguém tem alguma dúvida a respeito disso, vale a pena ler, como uma simples amostra, o artigo de Matt Taibbi, na revista Rolling Stone, em que conta a história e revela o papel do banco de investimentos, Goldman Sachs, na crise econômica mundial e, praticamente, em todas as bolhas financeiras das últimas décadas. Taibbi culpa os Goldmanites de aurífagos, famélicos e ferozes alquimistas do dinheiro do povo; manipuladores, junto ao governo, das regulamentações financeiras e dos mercados de valores, em benefício próprio. Além de se favorecerem do resgate financeiro, que é orquestrado por seus ex-diretores, transformados em funcionários do governo.

A lista de ex-diretores do Goldman Sachs, nas altas posições do governo dos Estados Unidos, é escandalosa; é como se o Goldman Sachs fosse a ante-sala das secretarias de finanças do governo, afirma Taibbi. Por exemplo, o último secretário do Tesouro de George W.Bush, o ex-CEO do Goldman, Henry Paulson, foi o arquiteto do plano de resgate, um suspeito plano de auto-serviço para a canalização de bilhões de dólares para seus velhos amigos, em Wall Street. Robert Rubin, ex-secretário do Tesouro de Bill Clinton, passou 26 anos no Goldman, antes de se tornar presidente do Citigroup, que – por sua vez – tem um resgate de 300 bilhões de dólares dos contribuintes, outorgado por Paulson. Entre outros, há John Thain, o detestável chefe do Merril Lynch, que comprou para seu Escritório um tapete de US$ 87.000, enquanto sua empresa estava implodindo. Antigo banqueiro do Goldman, Thain aproveitou-se de uma mãozinha de muitos bilhões de dólares, dada por Paulson, que usou bilhões, dos fundos dos contribuintes, para ajudar o Bank of America a salvar a pobre empresa de Thain. Os diretores dos bancos nacionais do Canadá e da Itália são ex-alunos de Goldman, como também o são o chefe do Banco Mundial, o chefe da Bolsa de Nova Iorque e, também, os últimos chefes do Federal Reserve Bank of New York.

Todavia, a análise de Taibbi ainda pode ser considerada como um tanto incompleta, visto que, acima desses funcionários mafiosos, se encontram os “capi di tutti i capi”. César Aching Guzmán identifica estes “poderosos dos poderosos”, nas seguintes famílias mafiosas:

1-Família Rothschild (Londres, Berlim e Israel)

2-Família Rockefeller (EUA e Israel)

3-Família Morgan (Inglaterra)

4-Família Warburg (Alemanha)

5-Família Lazard (França)

6-Família Mosés Israel Seif (Itália e Israel)

7-Família Kuhn, Loeb (Alemanha e EUA)

8-Família Lehman Brothers (EUA)

9-Família Goldman Sachs (EUA)

Segundo Aching Guzmán, “estas mega-ricas famílias e seus descendentes são intocáveis pela lei, e isentas de impostos por toda a vida. Cada vez que fazem a tal “salvação econômica”, na realidade COMPRAM os bancos e as financeiras do mundo, apropriando-se pouco a pouco do país que “salvam”… Eles seriam os chefes das máfias que controlam o Planeta, donos de bancos criadores dos grandes cassinos de especulação e dos paraísos financeiros; são os donos das grandes corporações da indústria militar, das grandes mineradoras, petroleiras… São os que organizam ações terroristas, fomentam guerras e invasões, ou seja, são os responsáveis diretos pela miséria, desolação e morte em que vivem bilhões de seres humanos; são os que puseram o Planeta e nossa espécie à beira da extinção.

Augusto N. Lapp


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